A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
304 pág.
ESTADO LAICO volume 1

Pré-visualização | Página 50 de 50

pelo Supremo Tribunal Federal em 29/4/2010, sob a relatoria do Ministro Eros 
Grau, decidiu-se que: “1. Texto normativo e norma jurídica, dimensão textual e dimensão normativa 
do fenômeno jurídico. O intérprete produz a norma a partir dos textos e da realidade. A interpretação 
do direito tem caráter constitutivo e consiste na produção, pelo intérprete, a partir de textos norma-
tivos e da realidade, de normas jurídicas a serem aplicadas à solução de determinado caso, solução 
operada mediante a definição de uma norma de decisão. A interpretação/aplicação do direito opera a 
sua inserção na realidade; realiza a mediação entre o caráter geral do texto normativo e sua aplicação 
particular; em outros termos, ainda: opera a sua inserção no mundo da vida” (BRASIL, 2010).
166 Ministério Público - Em Defesa do Estado Laico
e jurídicas, sejam estas de direito público, sejam de direito privado.
Ressalte-se que a utilização de princípios enquanto norma não pode 
sugerir uma usurpação da função legislativa em emitir regras, as quais, por 
serem específicas, prevalecem sobre situações também específicas. O que 
se defende é que tanto as regras quanto os princípios sejam interpretados 
de forma sistemática, a fim de se descobrir a cada momento sua aplicação.
Nas palavras de Ayres Britto,
Seja uma norma-princípio, seja uma norma-preceito ou sim-
plesmente ‘regra’, ambas as categorias a ter o seu conteúdo sig-
nificante e grau de eficácia desvelados a cada momento de sua 
particularizada aplicação. Donde o caráter de descoberta-cons-
trução, assim geminadamente, da norma afinal aplicada. Com 
o que o próprio conteúdo do justo deixa de ser uma formulação 
tão prévia quanto definitiva para se tornar uma constante ga-
rimpagem nos veios do processo cultural da vida (2007, p. 64).
Levantados os aspectos normativos dos princípios, verifica-se que o 
respeito aos mesmos é tão necessário à manutenção do Estado quanto o 
respeito às regras, ainda mais na concepção de que “o Direito e o Estado se 
consolidam juntos” (ARAÚJO, 2005, p. 57), o que significaria que o Estado 
- numa concepção moderna – deve se sustentar no Direito.
Por tal razão, a Constituição da República de 1988 adotou em seu 
art. 1º o princípio basilar72 e ao mesmo tempo o paradigma hermeneuta: o 
Estado Democrático de Direito.
Para José Afonso da Silva, trata-se – “O Estado Democrático de 
Direito” – de um dos princípios político-constitucionais da Constituição 
da República, citando, para melhor explicar seu entendimento, J. J. Gomes 
Canotilho: “Manifestam-se como princípios constitucionais fundamentais, 
positivados em normas-princípios que ‘traduzem as opções políticas 
fundamentais conformadoras da Constituição [...]’” (SILVA, 1998, p. 97).
Assim, que num Estado Democrático de Direito o que se busca é o 
respeito à essência da Constituição (BOCKMANN, 2002), por meio da 
busca e do cumprimento do verdadeiro dever-ser constitucional73.
72 Art. 1º: “A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municí-
pios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito [...]” (BRASIL, 2012).
73 Para Giambatista Vico, cix – los hombres de ideas cortas juzgan que es derecho cuanto se ha expli-
cado com palabras”; em contraposição: cxii – los hombres inteligentes juzgan que es derecho todo lo 
que dicta la utilidad general de las causas (VICO, 1964, p. 195).
167Ministério Público - Em Defesa do Estado Laico
3. O princípio da laicidade do Estado e a manutenção 
de símbolos religiosos em espaços públicos
3.1 A necessidade imperiosa do princípio da laicidade estatal 
no direito moderno
Ao se analisar a história da Humanidade – tanto no Ocidente, quanto 
no Oriente – pode-se verificar que conflitos surgiram e continuam surgindo 
por fatores eminentemente ligados à religião.
Apesar de que se possa lançar mão do argumento de que conflitos são 
provocados por política e não pela religião, parece haver quase sempre um 
fundo religioso em diversas perseguições a grupos tidos como “minoria”, 
podendo, aí sim, se falar em utilização da política ou do Estado por influência 
religiosa.
A religião – tomando-a de uma forma generalizada – nunca deveria se 
associar ao Poder Estatal, pois no ocidente quando esteve no poder “o que 
foi e o que fez” está registrado na História74.
A laicidade do Estado pressupõe o afastamento de influências advindas 
de líderes, crenças e tradições religiosas da atividade estatal75.
3.2 Delimitação de conceitos
Para prosseguirmos na análise da laicidade no Brasil, faz-se necessário 
delimitar conceitos que muitas vezes são confundidos. O primeiro se refere 
ao que significa ser laico. Ser laico não é ser ateu, não se confunde laicidade 
com ateísmo, pois são conceitos de natureza distinta. Ser laico não significa 
negar a existência de Deus, ou de um mundo tido como transcendente, mas 
significa a não adoção de um sistema religioso de vida.
Tanto os que adotam religiões como forma de vida, quanto os que 
negam a existência de Deus (ateus), quanto os que defendem ser impossível 
comprovar a existência de Deus (agnósticos), e os que defendem a existência 
de Deus em todas as coisas (panteístas), encontram na laicidade um refúgio 
74 Por exemplo, na Inquisição Espanhola, a perseguição aos luteranos; aos judeus e árabes na Penín-
sula Ibérica; os massacres de homens, mulheres e crianças durante a Inquisição Espanhola; a destrui-
ção de templos budistas; a morte de incontáveis “feiticeiras”, que à época, detinham mais conhecimen-
to empírico de medicina do que os chamados “médicos” (MANN, 1994, p. 193-341).
75 Da mesma forma, o Princípio da Impessoalidade da Administração Pública encontra-se ferido 
quando o Estado deixa de ser laico. Quanto a este aspecto, deixa-se para outra oportunidade a sua 
análise.
168 Ministério Público - Em Defesa do Estado Laico
– próprio de Estados ocidentais avançados – que impede o conflito entre 
diversas maneiras de se ver o mundo.
Em um mundo que não admite mais uma só visão pré-determinada 
das coisas, este princípio se mostra essencial para a manutenção de um 
Estado conceituado contemporaneamente quanto outros princípios, como 
o da Supremacia do Interesse Público e a Indisponibilidade do Interesse 
Público.
3.3 Os símbolos religiosos
A Estrela de Davi, símbolo do Judaísmo; a Lua Crescente, do Islamismo; 
OM, do Hinduísmo; a Cruz, do Cristianismo; a Suástica, do Jainismo; e o 
Dhamacakra, do Budismo, são apenas alguns exemplos de símbolos que 
fazem com que uma religião76 seja reconhecida em qualquer parte do mundo 
(GAARDER; HELLERN; NOTAKER, 2000). Com efeito, cada um desses 
símbolos, além dos inúmeros outros que não foram mencionados, possui 
um significado complexo e específico, mas, como foi visto, não é objetivo do 
presente artigo estudá-los, pese embora a importância da temática77.
Porém, necessário registrar que símbolo é uma espécie de “signo que 
funciona como um simulacro livre, construído pelo conhecimento, com a 
intenção de dominar o mundo da experiência sensível e captá-lo como um 
mundo organizado de acordo com determinadas leis” (STERNICK, 2007, p. 13).
No que diz respeito aos símbolos religiosos, com base nos estudos de 
Ferrentini (2007, p. 8), pode-se afirmar que a atitude religiosa se estabelece 
fundamentalmente na humanidade por meio da realidade simbólica, é 
dizer, o símbolo seria “o elemento constituinte nuclear de qualquer processo 
religioso, já que aponta para a concreção desta comunhão ou união de duas 
partes”. Depreende-se, pois, que a literatura especializada não diverge quanto 
à importância do símbolo para qualquer religião e/ou processo religioso.
Voltando a atenção para os fins deste artigo, tem-se que o crucifixo 
representa a imagem de Jesus Cristo pregado na cruz, salientando-se a sua 
relação com a doutrina católica.
76 De acordo

Crie agora seu perfil grátis para visualizar sem restrições.