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ESTADO LAICO volume 1

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como titular todo docente seja qual 
for o nível de ensino. Não obstante, nos centros de ensino religiosos, o 
professor deve adequar sua atividade didática ao ideal escolar “sempre que 
este não implique uma renúncia às exigências científicas ou uma violação 
da própria Constituição. Nem o docente pode se esquivar ao seu respeito, 
nem o centro pode exigir uma maior integração ideológica do professor 
com sua atividade.” (STC 47/1985, FJ n. 3). O dever de respeito ao ideal 
escolar, cuja exigência é maior nos níveis inferiores de ensino, é limitado 
à ausência de ataques ou contradições reiteradas à orientação ou caráter 
próprio do centro. Em razão disso, a simples dissidência ou contradições 
pontuais ao ideal não devem ser consideradas violações a este dever imposto 
constitucionalmente ao docente (STC 47/1985).
c) Dispensa
Para a dispensa por justa causa, a relevância do dado ideológico 
deve se condicionar à simultânea concorrência de três elementos: a) o 
caráter ideológico da empresa, apreciado em razão da finalidade difusora e 
transmissora de um sistema de valores da organização; b) o desempenho pelo 
trabalhador de uma tarefa de alto conteúdo ideológico ou representativo; 
c) ter ocorrido suficiente perturbação ocasionada pela discordância do 
trabalhador com o ideal da instituição. A simples desconformidade do 
empregado com dito ideal ou a perda de confiança por parte do empregador 
é insuficiente para justificar a dispensa.
No caso de a desconformidade da prestação adequada das obrigações 
for superveniente, a via de extinção da relação contratual será através da 
dispensa objetiva do art. 52 ET, pois não seria correto reconhecer nessa 
incompatibilidade um motivo disciplinar. “Certamente, identificando a 
aptidão profissional e a coincidência com os fins da organização – muito 
estreitamente aproximada à área de opiniões do trabalhador – mister 
comprovar o suficiente desvio do trabalhador com os objetivos perseguidos 
pelo centro de trabalho, o que supõe exigir a prova da inidoneidade 
profissional do trabalhador; devendo-se, pois, ter em mira a existência do 
descumprimento contratual; inidoneidade que, suficientemente provada, 
29Ministério Público - Em Defesa do Estado Laico
ocasionará a procedência da dispensa por inaptidão posterior.”37 Haverá 
falta grave e culpável - art. 54 ET - somente nos casos de concorrência 
ideológica desleal.
Calvo Gallego defende, como contrapartida ao trabalhador, a 
necessidade de uma especial proteção e tutela da capacidade do trabalhador 
para extinguir o contrato de trabalho, pois aqui se encontra uma forte 
ameaça para liberdade e consciência do individuo com a continuidade 
indesejada desse tipo de relação, sem necessidade de um dispositivo 
específico. Ele defende ainda a limitação, na medida do possível, pelo juiz, 
das indenizações devidas pelo empregado que abandone a organização sem 
pré-aviso, descumpra a duração do contrato ou mesmo transgrida o período 
de permanência licitamente estabelecido. 38
d) Extracontratuais
A jurisprudência europeia vincula a aptidão profissional aos 
comportamentos privados do trabalhador, inclusive por força do art. 18 da 
Constituição, para o trabalhador de tendência forte. Ele pode ser despedido 
por aspectos de sua vida privada, ainda assim, apenas nos casos em que 
sejam incompatíveis com a ideologia defendida pela empresa de tendência. 
Como afirma Rojas Rivero:
“O problema da relevância extralaboral do trabalhador somen-
te poderá ser levado em conta quando de novo se encontrem 
enfrentados dois direitos fundamentais: o direito do indivíduo 
à sua privacidade e o direito do ente a manter inalterado o con-
teúdo ideológico que defende, também sem sua projeção exte-
rior. Neste caso, a regra geral da irrelevância da vida privada do 
trabalhador para efeitos trabalhistas somente poderá ser que-
brada quando circunstancias de especial gravidade e notorieda-
de na conduta privada possam neutralizar os direitos que o ente 
poderia tutelar, desde o ponto de vista externo.”39
Portanto, para o professor de religião, podem ser considerados 
motivos suficientes para romper a relação de emprego antes do término do 
prazo se, concretamente, o trabalhador manifesta condutas incompatíveis 
com os princípios do centro de ensino. A doutrina espanhola defende ser 
37 ROJAS RIVERO, G. P. La libertad de expresión del trabajador, op. cit., p. 220. En el mismo 
sentido Blat Gimeno (BLAT GIMENO, F. R. Relaciones Laborales en Empresas Ideológicas, op. 
cit., p. 106).
38 CALVO GALLEGO, Contrato de Trabajo y Libertad Ideológica: Derechos fundamentales y organi-
zaciones de tendencia. op. cit., p. 245.
39 ROJAS RIVERO, G. P. La libertad de expresión del trabajador, op. cit., p. 217.
30 Ministério Público - Em Defesa do Estado Laico
possível, por exemplo, a dispensa da professora de religião católica que 
contrair matrimonio civil, como já entendeu o Tribunal Constitucional 
italiano, na sentença de 21 de novembro de 1991. No mesmo sentido, a 
sentença de 16 de junho de 1994, daquela Corte Constitucional admitiu a 
dispensa por motivos ideológicos de um professor de religião, ainda que 
restringindo direitos constitucionalmente garantidos a todo trabalhador 
(como a liberdade de opinião, de religião ou de cátedra) na medida em que 
possa lesar outros direitos, também constitucionais, como são a liberdade 
de auto-organização das confissões religiosas, a liberdade religiosa e a 
liberdade de ensino, sempre que a adesão ideológica constitua requisito da 
prestação laboral. Como afirma Rafael Navarro Valls, o professor de religião 
em sua vida privada deve tentar viver também aqueles valores religiosos40.
6. Conclusões
A Constituição da República Federativa do Brasil garante a liberdade 
religiosa (art. 5º, VI e VII), determina a laicidade do Estado (art. 19, I) e 
permite o ensino religioso, como matéria facultativa, nos horários normais 
das escolas públicas de ensino fundamental (art. 210)41. O recrudescimento 
da intolerância religiosa tem levado à edição de normas infraconstitucionais 
em reforço da liberdade constitucional, como é o caso da Lei 7.716, de 5 de 
janeiro de 1989, que criminaliza a prática de discriminação ou preconceito 
contra religiões, e a Lei 11.635, de 27 de dezembro de 2007, que institui 
o “Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa”.42 É interessante 
40 “Y es obvio que los valores -como autorizadamente se ha dicho- reclaman actitudes y comporta-
mientos vitales por parte de los profesores. Lo cual significa -en el concreto aspecto de la enseñanza 
de la Religión- que el profesor en su vida privada debe intentar vivir también aquellos valores que 
revisten connotaciones religiosas.”(NAVARRO VALLS, Rafael. Los contratos del professorado de reli-
gión en España. Disponível em <http://www.interrogantes.net/Rafael-Navarro-Valls-Los-contratos-
-del-profesorado-de-religion-en-Espana-PUP-180X001/menu-id-29.html>. Acesso em 12.06.2014).
41 Esta previsão constitucional tem encontrado forte corrente opositora, ao argumento de que ine-
xistem professores habilitados e que a opção a esta matéria pode estimular o assédio aos alunos que 
não queiram aderir à mesma. De qualquer modo, o ensino religioso em escolas públicas deveria esti-
mular o conhecimento das mais diversas linhas religiosas, sem predominância de uma em particular 
em virtude da laicidade do Estado. (ver Iso Chaitz Scherkerkewitz. O direito de religião no Brasil. 
Disponível na página www.pge.sp.gov.br. “Y es obvio que los valores -como autorizadamente se ha 
dicho- reclaman actitudes y comportamientos vitales por parte de los profesores. Lo cual significa 
-en el concreto aspecto de la enseñanza de la Religión- que el profesor en su vida privada debe inten-
tar vivir también aquellos valores que revisten connotaciones religiosas.”(NAVARRO VALLS, Rafael. 
Los contratos del

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