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ESTADO LAICO volume 1

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professorado de religión en España. Disponível em <http://www.interrogantes.net/
Rafael-Navarro-Valls-Los-contratos-del-profesorado-de-religion-en-Espana-PUP-180X001/menu-
-id-29.html>. Acesso em 12.06.2014).
42 Pode-se citar ainda, o art. 16, III, do ECA, o art. 10, § 1º, III, do Estatuto do Idoso, art. 140, § 3º, art. 
149, § 2º, II, e art. 208 do Código Penal.
31Ministério Público - Em Defesa do Estado Laico
observar que a Lei 7.716/1989 impõe a reclusão de dois a cinco anos 
apenas aos servidores ou prepostos dos entes da Administração Pública 
Direta e Indireta, bem como das concessionárias de serviço público, que 
discriminem os trabalhadores no acesso a cargos ou empregos, em razão 
da religião. Para o empregador privado em geral, esta conduta, ainda que 
ilícita, não configura crime. 
A explanação da prática jurisprudencial espanhola tem em mira 
enriquecer a experiência jurídica brasileira e alertar para o imperativo 
comedimento na transposição interna desse instituto de Direito comparado 
(empresa de tendência), uma vez que o seu reconhecimento importa 
necessariamente na restrição de direitos fundamentais do trabalhador 
que exerça funções diretamente vinculadas à ideologia difundida pelo 
empregador. No entanto, o reconhecimento de tarefas de tendência pode 
igualmente contribuir como manto protetor à defesa da liberdade religiosa 
do trabalhador, garantindo-lhe a coerência no exercício de sua prestação de 
serviços. É um campo novo a demandar reflexões e debates.
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33Ministério Público - Em Defesa do Estado Laico
A Defesa do Estado Laico pelo Ministério Público: 
uma perspectiva comparada a partir 
do direito estadunidense
Fernando Vogel Cintra43
1. Introdução
O presente trabalho coloca e busca responder duas questões. Além 
disso, também é defendida aqui uma tese.
A primeira questão colocada é esta: como a Suprema Corte do Estados 
Unidos da América (abreviada, no que se segue, por SCOTUS44) concretizou 
a ideia de separação entre estado e igreja ao longo de sua tradição de 
jurisdição constitucional?
A segunda questão colocada é esta: quais são as possibilidades 
jurídicas para a atuação do Ministério Público na defesa do estado laico 
em juízo, no quadro normativo positivado pela Constituição da República 
Federativa do Brasil de 1988 (CRFB)?
Ao lado dessas duas questões, é defendida uma tese, a saber: a 
resposta à primeira questão pode ser útil para uma nova perspectiva acerca 
das possibilidades jurídicas de atuação do Ministério Público na defesa do 
estado laico em juízo.
A fim de guiar a resposta à primeira questão, será sintetizada 
a jurisprudência da SCOTUS acerca da Primeira Emenda; mais 
especificamente, acerca da Cláusula do Estabelecimento.
Nessa conexão, convém discorrer brevemente sobre os limites de 
uma comparação de direito, como a que é aqui proposta. Os argumentos 
43 Bacharel em filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS. Mestre em filo-
sofia contemporânea pela UFRGS. Bacharel em direito pela UFRGS. Master of Laws (LL.M.) pela 
University of Southern California, Gould School of Law – USC. Doutorando em direito na UFRGS. 
Advogado inscrito na Ordem dos Advogados do Brasil, Conselho Seccional do Rio Grande do Sul – 
OAB/RS. 
44 Abreviação de Supreme Court of the United States.
34 Ministério Público - Em Defesa do Estado Laico
comparativos podem ser enquadrados no marco de uma teoria da 
argumentação jurídica, como a desenvolvida por Robert Alexy.
Alexy distingue entre dois aspectos da justificação ou fundamentação 
de proposições jurídicas, a justificação interna e a justificação externa. 
Na justificação interna, trata-se de determinar se a proposição se segue 
logicamente das premissas aduzidas para a justificação. O objeto da 
justificação externa é a correção dessas premissas (ALEXY, 1996).
No contexto da justificação externa, Alexy distingue entre seis 
grupos de regras e formas da justificação externa: (1) as regras e formas 
da interpretação, (2) a argumentação “dogmática” (ou “doutrinária”), 
(3) o emprego de precedentes, (4) a argumentação prática geral e (5) a 
argumentação empírica, bem como (6) as formas de argumento jurídicas 
especiais (ALEXY, 1996).
Pois bem. No âmbito de (1) acima, Alexy situa os cânones da 
interpretação, os quais, por sua vez, podem ser resumidos em seis grupos: 
na interpretação (i) semântica, (ii) genética, (iii) histórica, (iv) comparativa, 
(v) sistemática e (vi) teleológica (ALEXY, 1996).
Portanto, os argumentos comparativos, entendidos como aqueles que 
examinam soluções dadas em outras sociedades para o mesmo problema que 
ora se discute, têm seu lugar no âmbito das regras e formas da interpretação, 
as quais estão situadas no âmbito da justificação externa de proposições 
jurídicas. Com isso está assegurada também a racionalidade dos argumentos 
comparativos. No entanto, a demonstração de tal proposição, que aqui é 
simplesmente afirmada, não é possível nem conveniente empreender no 
presente trabalho, tendo de ser, por isso, pressuposta.
Convém ainda traçar uma distinção conceitual entre o direito 
fundamental ao livre exercício da religião e a laicidade (ou secularidade) 
do estado. Para os propósitos deste trabalho, a atenção será dirigida a esta, 
e não àquele – sem, com isso, pretender negar as inter-relações que se 
estabelecem no plano dos fatos. A laicidade do estado pode ser entendida, 
assim, como um mandamento que contém quatro espécies de vedação 
(ou proibição), com base no art. 19, I da CRFB: (i) estabelecimento, (ii) 
subvencionamento, (iii) embaraçamento, e (iv) manutenção de relações 
de dependência ou aliança, ressalvada, na forma da lei, a colaboração de 
interesse público.
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2. Jurisprudência da SCOTUS sobre a Cláusula de 
Estabelecimento
No tocante à separação entre estado e igreja, o principal45 parâmetro 
de controle normativo é a chamada Primeira Emenda à Constituição dos 
Estados Unidos, cujo teor pode ser assim traduzido:
O Congresso não fará nenhuma lei a respeito do estabelecimen-
to de religião, ou proibindo o livre exercício dela; ou restringin-
do a liberdade de fala, ou da imprensa; ou o direito do povo de 
associar-se pacificamente, e de peticionar ao Governo para o 
remédio de reclamações.
Vê-se, pois, que, nos Estados Unidos da América (EUA), a defesa da 
laicidade do estado está ligada, por um lado, à proibição do estabelecimento 
de qualquer religião e, por outro lado, ao livre exercício de qualquer 
religião. Essas duas cláusulas deram origem a dois ramos de jurisprudência 
distintos. Isso não deve obscurecer o fato de que as duas cláusulas estão 
inter-relacionadas; elas protegem valores que se sobrepõem, mas, muitas 
vezes, exercem pressões conflitantes (SULLIVAN; GUNTHER, 2010).
Conforme já dito na introdução do presente trabalho, e tendo em conta 
os limites do tema aqui abordado, não será possível examinar a volumosa 
jurisprudência acerca do livre exercício da religião. No que se segue, será 
examinada apenas a jurisprudência acerca da proibição de estabelecimento 
(a “Cláusula de Estabelecimento”) – proibição que, para os propósitos do 
presente trabalho, deixa-se equiparar a um mandamento de laicismo, ou 
secularização, para o estado, na medida em que as modalidades deônticas 
são de modo geral interdefiníveis umas pelas outras (ALEXY, 1994).
Um dos principais precedentes nessa seara, e que deve, pela sua 
importância, guiar a presente discussão, foi o caso Lemon v. Kurtzman, 
403 US 602 (1971). Nesse precedente, a SCOTUS decidiu dois recursos nos 
quais se questionavam leis do estado da Pensilvânia e do estado de Rhode 
Island que forneciam auxílio estatal a escolas elementares e secundárias 
relacionadas com igrejas. A Pensilvânia havia adotado

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