Logo Passei Direto

A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
195 pág.
CAPELANIA MISSÃO INTEGRAL

Pré-visualização | Página 43 de 50

proposta de vida em abundância em Cristo é um entrave para se alcançar a 
plenitude humana. Seguir a Jesus pelo seu caminho de humanização resultará na 
vitória definitiva sobre o pecado e a morte242. 
O caráter testemunhal da evangelização reside no fato de que ela é um 
encontro humano entre homens e mulheres que compartilham e recebem o 
evangelho, a partir da sua situação concreta e vulnerável. Nesse encontro as 
pessoas levam a si mesmas, compartilhando as limitações humanas e a existência 
precária comum de participar do mesmo mundo de pecadores e de vítimas do 
pecado. Costas ressalta que em algum momento “alguém pode ser a vítima ou pode 
ser parte de um processo que vitimizou outros”243, seguindo a mesma ideia do 
apóstolo Paulo, para quem “todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus” 
(Romanos 3.23). Ainda assim, este é um tema difícil porque procura dar conta da 
precariedade da condição humana quando ela erra o alvo de uma vida autêntica 
vivida como criatura de Deus. Especialmente no contexto da capelania hospitalar, a 
 
240
 LEÓN, Jorge A. A caminho de uma evangelização restauradora. São Leopoldo: Sinodal; Quito: 
CLAI, 2010, p. 64. 
241
 LEÓN, 2010, p. 65. 
242
 LEÓN, 2010, p. 65. 
243
 COSTAS, 2014, p. 57. 
142 
 
experiência mostra como é necessário nesse aspecto lidar com cautela, 
sensibilidade e profundo respeito pela pessoa enferma. Pois ela se encontra num 
estado ou situação vivencial delicada que merece a máxima atenção, cuidado e 
amorosidade. Nesse sentido, a atitude de Jesus para com pessoas enfermas como 
testemunhada nos evangelhos é exemplar. 
Em relação à primeira proposição de Costas, ela nos parece relevante para 
a capelania hospitalar pautada por uma evangelização contextual. O momento da 
visita consistiria no encontro entre duas pessoas que trazem consigo suas vivências, 
valores, cosmovisão, limitações e, neste espaço limitado, mas intenso, compartilham 
o evangelho. O capelão ou capelã jamais olha para o paciente com uma postura de 
superioridade, como bem salientou a capelã MVCA1, porque sabe que da mesma 
forma que o paciente se encontra naquele momento com uma limitação física, o 
próprio capelão também tem as suas limitações em outras esferas da vida ou um dia 
já esteve ou poderá vivenciar uma situação semelhante a do paciente. 
No caso da capelã MVCA1, ela relatou que o fato de ter passado por uma 
experiência de hospitalização fez com que compreendesse melhor o drama de 
alguém que está hospitalizado, além de este fato ter contribuído para sua escolha 
em trabalhar como capelã hospitalar. Essa experiência corrobora com o pensamento 
de Hernández sobre a doença servindo como veículo de encarnação da escuta 
sensível ao outro. 
A consciência de pecado não se presta a uma atitude de julgamento entre 
capelão e paciente ou vice-versa, mas serve para o reconhecimento de que ambos 
são pessoas falhas e necessitam de Deus, de sua misericórdia e bênção. Sendo 
assim, o capelão ou capelã evangelizam o paciente de maneira solidária, 
comunicando o evangelho de Jesus Cristo que não ignora as nossas mazelas, mas 
as transcende, nos libertando e transformando para uma nova vida. 
Na segunda proposição, Costas defende que a evangelização “envolve 
pessoas às quais um Deus santo e amoroso se dirige com as novas libertadoras de 
Jesus Cristo no poder do Espírito Santo”. A iniciativa e o esforço de evangelização 
começam a partir do próprio Deus. Deus tinha uma clara intenção ao comunicar o 
evangelho por meio de uma palavra pessoa que foi incorporada em Jesus, que 
143 
 
nasceu dentro de uma realidade com elementos sociais, históricos e culturais 
peculiares244. 
Costas afirma que Deus escolheu comunicar o evangelho prioritariamente na 
língua e cultura de um judeu galileu do século primeiro e expõe o significado deste 
gesto: 
 
O Deus da encarnação é o Deus que em liberdade soberana escolheu não 
apenas se contextualizar na história e na realidade sociocultural de um 
judeu galileu do primeiro século, mas também escolheu se tornar disponível, 
por intermédio da transmissão do evangelho no poder do Espírito a todas 
as pessoas e comunidades em sua realidade concreta.
245
 
 
 
 O fato de Jesus, o filho de Deus, ter nascido em uma manjedoura e crescido 
em um contexto social e cultural de pobreza e opressão, significa que, em Jesus 
Cristo, Deus “se tornou parte da história, identificando-se com suas mais humildes 
expressões e sofrendo a sua dor mais profunda”246 que é a morte. 
O conhecido texto da carta de Paulo aos Filipenses (2.5-8) remete ao Deus 
que se contextualiza para comunicar o seu evangelho: 
 
De sorte que haja em vós o mesmo sentimento que houve também em 
Cristo Jesus, que, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser 
igual a Deus, mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, 
fazendo-se semelhante aos homens; e, achado na forma de homem, 
humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz. 
 
 
Para receber o evangelho contextual do Deus que se encarna na fraqueza 
humana é necessária uma ação do Espírito Santo, pois é ele quem capacita o ser 
humano a ouvir a voz de Deus, seja na esfera pessoal ou coletiva, e a responder a 
esse chamado na sua história e consciência. O Espírito Santo faz com que ouvidos 
sejam abertos para ouvir a mensagem de salvação, transmitindo o dom da fé e 
iluminando mentes e corações para aceitarem e confiarem naquilo que Deus 
realizou por meio do seu Filho, a saber, “uma passagem da morte para a vida, uma 
entrada no reino de Deus e uma incorporação na nova criação”247. 
Aqueles que recebem o evangelho têm como promessa a esperança de 
libertação completa do pecado e da morte, de um novo céu e uma nova terra onde 
 
244
 COSTAS, 2014, p. 59. 
245
 COSTAS, 2014, p. 60. 
246
 COSTAS, 2014, p. 63. 
247
 COSTAS, 2014, p. 64. 
144 
 
habita a justiça (Apocalipse 21.1; 2 Pedro 3.13). Essa esperança deve mover as 
pessoas a lutarem para vencerem as dificuldades cotidianas. Nesse sentido, quem 
recebe e comunica o evangelho também se compromete a participar na 
transformação libertadora do mundo. O conteúdo do evangelho é esperança para 
esta vida, para sua renovação, e um convite à ação transformadora248. 
Como se pode perceber, esta segunda proposição de Costas para uma 
evangelização contextual parte do principio de que a iniciativa primeira em 
evangelizar é do próprio Deus. Os capelães e capelãs, que se dispõem a comunicar 
o evangelho com sua tarefa de acompanhamento a pessoas enfermas e que sofrem 
no corpo as limitações da vida, como vimos nos depoimentos, o fazem inspirados 
pelo Espírito Santo, tendo recebido primeiramente a esperança do evangelho, para 
então transmitir essa esperança ao paciente. 
Na terceira proposição, Costas relaciona evangelização e práxis, afirmando 
que a evangelização “envolve pessoas e comunidades trabalhando pelas 
transformações de suas respectivas situações de vida”. Em um primeiro momento, 
só é possível participar na transformação de um contexto quando já se experimentou 
na própria vida os sinais concretos da graça, do perdão e da libertação de Deus249. 
Todavia, apenas a experiência pessoal não é suficiente para dar 
autenticidade à tarefa evangelizadora. Uma vez que o evangelho destina-se a 
pessoas localizadas em um contexto social e histórico, se faz necessário um 
comprometimento e engajamento com processos de mudanças positivas em 
situações de vida, além de um conhecimento desse contexto que exige estudo e 
capacidade de leitura ou interpretação dos fatos. O evangelho não
Página1...394041424344454647...50