LUIS-GRECO-Dolo-Sem-Vontade
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Dolo Sem Vontade
LUÍS GRECO*
I. Considerações introdutórias
1. Conceito cognitivo de dolo e o art. 14.° do Código Penal de Portugal
O Código Penal Português, diversamente do de outros países, como a Alemanha,
a Espanha e a Argentina, mas similar ao do Brasil, define de modo expresso o
conceito de dolo. A lei portuguesa chega ao ponto de determinar o conteúdo das
três reconhecidas formas de dolo: há dolo direto de primeiro grau, se o agente,
\u201crepresentando um facto que preenche um tipo de crime, actuar com intenção de
o realizar\u201d (Art. 14.° I); dolo direto de segundo grau, se o agente \u201crepresentar a
realização de um facto que preenche um tipo de crime como consequência neces-
sária da sua conduta\u201d (Art. 14.° II); e, por fim, dolo eventual, se \u201ca realização de
um facto que preenche um tipo de crime for representada como consequência
possível da conduta, \u2026 o agente actuar conformando-se com aquela realização\u201d
(Art. 14.° III). 
Noutras circunstâncias, a existência de semelhante dispositivo legal faria de um
artigo intitulado \u201cdolo sem vontade\u201d um empreendimento duvidoso. Se for ver-
dade que \u201conde o legislador fala, a filosofia cala\u201d,1 parece não haver mais qual-
quer lugar para filosofarmos sobre o conceito de dolo. Felizmente, o presente
estudo é dedicado ao Prof. José de Sousa e Brito, um estudioso cuja curiosidade
nunca se deixou tolher pelas últimas três palavras do legislador.2 Isso nos permite
supor sua concordância com a premissa de que partiremos, a saber, de que a 
dogmática do direito penal é ciência jurídica, e não mero saber legal \u2014 Rechts-
wissenschaft e não apenas Gesetzeskunde. De uma tal perspectiva, a decisão do
legislador não significa o fim, e sim o início da filosofia, cuja tarefa passa a ser
* Doutor em Direito pela Universidade Ludwig Maximilan, Munique; LL.M. pela mesma instituição; wis-
senschaftlicher Assistent junto à cátedra do Prof. Dr. h. c. mult. Bernd Schünemann; bacharel em Direito pela
Universidade Federal do Rio de Janeiro.
1 Feuerbach, Über Philosophie und Empirie in ihrem Verhältnis zur positiven Rechtswissenschaft, in:
Lüderssen (coord.), Theorie der Erfahrung in der Rechtswissenschaft des 19. Jahrhunderts, Frankfurt a. M.,
1968, (orig. 1804), p. 61 e ss. (p. 93). 
2 Vide seus estudos, dedicados a temas predominantemente filosóficos: Praktische Vernunft und Utilitaris-
mus, in: ARSP Beiheft 51 (1993), p. 87 e ss.; Die gerechte Begrenzung der Gerechtigkeit im Recht, in: Dem-
merling/Rentsch (coords.), Die Gegenwart der Gerechtigkeit, Berlin, 1995, p. 29 e ss.; A questão dos funda-
mentos da ética em Bentham e em Mill, in: \u2014 Revista Iberoamericana de Estudios Utilitaristas XII
(2003), p. 1 e ss.; Arthur Kaufmanns Gerechtigkeitslehre und die Grundlagen der Ethik, in: ARSP Beiheft 100
(2005), p. 25 e ss.; Der praktische Syllogismus im Recht und in der Ethik, in: Schünemann et alii (coords.),
Gerechtigkeitswissenschaft, Berlin, 2005, p. 77 e ss. 
descobrir se essa decisão está arrimada apenas na autoritas do poder de quem
decide, ou também na veritas das razões que a justificam. Ou seja, ainda que o
legislador português tenha decidido qual o conteúdo do dolo, aos olhos da ciên-
cia jurídica permanece em aberto a questão quanto a se essa decisão é ou não cor-
reta, se ela está ou não justificada. 
2. Vontade em sentido psicológico-descritivo, vontade em sentido 
atributivo-normativo
O legislador português não está sozinho em supor que o dolo apresenta compo-
nentes volitivas. Também a doutrina amplamente dominante entende o dolo
como conhecimento e vontade de realizar o tipo objetivo.3
Como já desenvolvi noutra sede,4 tal parece uma visão simplificada das coisas.
Ainda que se reconheça nos termos \u201cintenção\u201d ou \u201cconformando-se com\u201d (art. 14
I e III, Código Penal Português), \u201cquis\u201d ou \u201cassumiu o risco\u201d (art. 18 I Código
Penal Brasileiro) uma conotação volitiva, há uma ambigüidade fundamental que
nos permite questionar as certezas da postura dominante. Esta ambigüidade diz
respeito à palavra vontade. Como demonstrou Puppe, a quem se filiou no Brasil
H. Souza Santos,5 na discussão sobre o dolo, o termo vontade é empregado em
dois sentidos um tanto diversos, que aqui serão caracterizados de forma bastante
grosseira, é verdade.6 Por vezes, designa-se por vontade um estado mental, algo
que ocorre literalmente na cabeça do autor, uma entidade empírica que pertence
ao universo psíquico de alguém. A proposição \u201ca vontade do autor estava dirigida
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3 Em Portugal Correia, Direito Criminal, Coimbra, 1963, p. 367, 368, 375; Figueiredo Dias, Direito Penal,
Parte Geral, Tomo I, 2ª ed., Coimbra, 2007, 13.° cap. § 4 (p. 349); Pizarro Beleza, Direito Penal, 2.° vol.,
Lisboa, 1983, p. 180; na Alemanha, Lackner/Kühl, Strafgesetzbuch, 26ª ed., Munique, 2007, § 15 nm. 3 
e ss.; Sternberg-Lieben, in: Schönke/Schröder, Strafgesetzbuch, 27ª ed., Munique, 2006, § 15 nm. 9 e ss.;
Stratenwerth/Kuhlen, Strafrecht, Allgemeiner Teil, 5ª ed., Köln/Berlin/München, 2004, § 8 nm. 61, 66; no
Brasil, Bitencourt, Código Penal Comentado, São Paulo, 2002, p. 55; Cirino dos Santos, Direito Penal, Parte
Geral, Curitiba, 2006, p. 132; Reale Jr., Instituições de Direito Penal, Parte Geral, vol. I, Rio de Janeiro,
2002, p. 219, 221; na Argentina Zaffaroni/Alagia/Slokar, Derecho Penal, Parte General, 2ª ed., Buenos Aires,
2002, p. 519. 
4 Greco, Algumas observações introdutórias à \u201cDistinção entre dolo e culpa\u201d, de I. Puppe, em: Puppe, A dis-
tinção entre dolo e culpa, trad. Greco, São Paulo, 2004, p. IX e ss. (p. XVI e ss.).
5 Puppe, A distinção\u2026, p. 31 e ss.; H. Souza Santos, Problemas estruturais do conceito volitivo de dolo, em:
Greco/Lobato (coords.), Temas de Direito Penal, Rio de Janeiro, 2008, p. 263 e ss. (268 e ss.).
6 A delimitação mais exata do sentido desses conceitos talvez seja a maior contribuição que a dogmática 
do dolo pode esperar da filosofia da linguagem e da mente. Para tentativas de recepção vide Kindhäuser, Der
Vorsatz als Zurechnungskriterium, in: ZStW 86 (1984), p. 1 e ss. (5 e ss.); recentemente Bung, Wissen und
Wollen im Strafrecht, Frankfurt a. M., 2009, p. 57 e ss., 133 e ss., que se apóia quase que exclusivamente em
Davidson; e principalmente Stuckenberg, Vorüberlegungen zu Vorsatz und Irrtum im Völkerstrafrecht, Berlin,
2007, p. 174 e ss.; no Brasil Busato, Dolo e significado, em: Modernas tendências sobre o dolo em direito penal,
Rio de Janeiro, 2008, p. 93 e ss. (p. 115 e ss.), com referências à doutrina espanhola. Isso não significa que 
se deva daí extrair mais do que um auxílio na precisão dos conceitos (assim também Stuckenberg, Vorüberle-
gungen\u2026, p. 168 nota 855) \u2014 cf. a crítica mais abaixo, item IV. 
a X\u201d teria, segundo esse primeiro sentido do termo vontade, conteúdo empírico,
seria uma questão de fato, referida a um estado de coisas que está no mundo.
Aqui \u201cvontade\u201d é entendida como conceito psicológico-descritivo.
É possível usar o termo vontade também num segundo sentido, não mais psi-
cológico-descritivo, e sim atributivo-normativo. Aqui, vontade não é mais uma
entidade interna à psique de alguém, mas uma atribuição, isto é, uma forma de
interpretar um comportamento, com ampla independência da situação psíquica
do autor. Dizer \u201ca vontade do autor estava dirigida a X\u201d significa, com base neste
segundo entendimento, não a existência, em algum momento, de algo dentro da
cabeça do autor suscetível de ser designado pelo termo vontade, mas sim que a
melhor maneira de compreender o comportamento do autor é aquela que, de
alguma forma, o aproxima daquilo que ele veio a realizar e o considera plena-
mente responsável por isso. 
As diferenças ficam mais claras se imaginamos o caso do estudante que não
estuda até a véspera da prova e, ao abrir livro, recebe um telefonema, sai, bebe,
não dorme e chega direto da discoteca para fazer a prova. Pode ser que ele
lamente com sinceridade a reprovação: \u201cMinha vontade não era isso\u201d,