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UNIVERSIDADE FEDERAL RURAL DO RIO DE JANEIRO INSTITUTO DE CIÊNCIAS EXATAS DEPARTAMENTO DE QUÍMICA MONIQUE CARNEIRO RODRIGUES; PAÔLA ALONSO DA COSTA. OBTENÇÃO E CARACTERIZAÇÃO DOS COMPLEXOS TRIOXALATOCROMATO(III) DE POTÁSSIO TRIHIDRATADO E DIOXALATOCUPRATO(II) DE POTÁSSIO DIHIDRATADO RELATÓRIO FINAL DE SÍNTESE INORGÂNICA EXPERIMENTAL Seropédica, julho/2018 2 1. INTRODUÇÃO O oxalato (C2O4)2- tem a propriedade de formar sais insolúveis com diversos cátions que possuam carga (2+), e apresenta também uma certa facilidade em formar complexos. Geralmente aparece formando 2 ligações com o mesmo cátion, como por exemplo no K3[Cr(C2O4)3] – trioxalatocromato(III) de potássio. (VOGEL, A. I) O ânion oxalato, além de apresentar-se na forma bidentada, pode também se apresentar como ligante monodentado e possui ainda a possibilidade de atuar como ponte de ligação. (A. E. Martell and M. Calvin) No caso do trioxalatocromato, o Cr3+ possui uma configuração d3, e por estar ligado ao oxalato, que é um ligante de campo fraco. Sendo assim a um octaedro sem deformação e paramagnético com µs = 3,9µB. (LEE, J. D.) Vários íons metálicos trivalentes formam complexos, com o ligante bidentado oxalato. Esses complexos são similares em várias propriedades. Eles são bastante solúveis em água, ionizam para dar álcalis complexos e íons oxalato, e apresentam formas cristalinas similares. (VOGEL, A. I) As propriedades térmicas de complexos de oxalato vêm sendo extensivamente estudadas. Tem-se descoberto que a natureza do íon metálico central influencia não apenas na desidratação, mas também na decomposição dos complexos anidros. Além do mais, a estabilidade dos complexos anidros depende também do cátion central: a estabilidade térmica diminui assim que a afinidade eletrônica do íon metálico central aumenta. (K. Ito, H. J. Bernstein.) Complexos metálicos com o ligante oxalato têm chamado bastante atenção hoje em dia devido aos vários tipos de grupos moleculares que apresentam magnetização espontânea. Essas substâncias ferro magnética apresentam ligações bi- ou tri- dimensional, as quais são agrupadas com íons de metais de transição ligados via ligante bidentado oxalato. (K. Ito, H. J. Bernstein.) Esquema reacional da síntese do trioxalatocromato(III) de potássio triidratado: K2Cr2O7(s) + 7 H2C2O4(s) + 2 K2C2O4(s) → 2 K3[Cr(C2O4)3].3H2O(aq) + 6 CO2(g) + H2O(l) (ROCHOW, E. G.) A maioria dos complexos e compostos de Cu2+ apresentam uma estrutura octaédrica distorcida, e são azuis ou verdes. (VOGEL, A. I) O íon cúprico, Cu2+, tem configuração eletrônica d9 e, portanto, tem um elétron desemparelhado. Seus compostos são geralmente coloridos (azuis em sua maioria), devido às transições d-d, e paramagnéticos. (LEE, J. D.) (JONES, C .J.) Seropédica, julho/2018 3 A preparação do complexo de Cu(II) como ânion oxalato, o composto oxalato de potássio monohidratado (K2C2O4.H2O) pode ser feita por um processo simples e rápido. O produto obtido na forma de cristais azuis é solúvel em água quente, mas decompõe-se lentamente formando oxalato de cobre(II), o qual precipita rapidamente após a dissolução do complexo. O composto é pouco solúvel na maioria dos solventes orgânicos comuns, como, acetona, clorofórmio, etanol e metanol. O sólido perde moléculas de água rapidamente acima de 150 ºC e o composto resultante decompõe -se na temperatura de 260°C. (K. Muraleedharan, S. Kripa.) A reação de um solução de sulfato de cobre II com oxalato de potássio levou a formação de cristais de um complexo azul de K2[Cu(ox)2].2H2O. A reação de formação do complexo dioxalatocuprato(II) de potássio dihidratado pode ser descrita pela equação: CuSO4(s) + 2 K2C2O4(s) + 2 H2O(l) → K2[Cu(C2O4)2].2H2O(aq) + K2SO4(aq) (K. Muraleedharan, S. Kripa.) Os dois íons oxalato se coordenaram ao metal bidentadamente através de dois átomos de oxigênio e entrando mais duas moléculas de água, sendo que a geometria para o complexo será octaédrica. Diferentemente do ligante glicina, o íon oxalato não se coordena por diferentes átomos, de forma que o complexo não apresentará isomeria. (A. E. Martell and M. Calvin) O íon cobre tem configuração d9 e sobre influência de um campo ligante tetraédrico, octaédrico ou quadrado planar terá um elétron desemparelhado responsável pelo fato de todos os complexos serem paramagnéticos, apresentarem geometrias distorcidas (distorção de Jahn Teller) e serem coloridos uma única transição d-d permitida por spin. (LEE, J. D.) Figura 1: Estrutura dos complexos dioxalatocuprato(II) e trioxalatocromato(III). Seropédica, julho/2018 4 Figura 2: Estrutura tridimensional do complexo de cromo. 2. OBJETIVOS Obtenção e caracterização dos complexos Trioxalatocromato (III) de Potássio trihidratado e Dioxalatocuprato (II) de Potássio dihidratado. 3. PROCEDIMENTOS 1.1. Síntese do Complexo Trioxalatocromato (III) de Potássio trihidratado Primeiramente adicionou-se 5,750 g de Oxalato de Potássio (K2C2O4) e 13,753 g de Ácido Oxálico (H2C2O4) à 200 mL de água destilada e sem seguida, a solução foi aquecida com constante agitação até a completa solubilização da solução. Após solubilizar, adicionou-se cuidadosamente em pequenas porções o Dicromato de potássio (K2Cr2O7) (total de 4,756 g). Em seguida, a solução foi colocada em um rota evaporador para que ocorresse a evaporação de parte da água destilada. Após essa evaporação a solução foi colocada na geladeira para que houvesse a precipitação dos cristais do complexo desejado. Por fim, foi feita uma filtração à vácuo para separar o precipitado.(AYLA, JD. BELLIS, VM.) 1.2. Síntese do Dioxalatocuprato (II) de Potássio dihidratado Primeiramente dissolveu-se 1,250 g de Sulfato de Cobre (II) penta-hidratado (CuSO4.5H2O) em 2,5 mL de água destilada aquecida a cerca de 90°C. Em seguida, adicionou-se rapidamente sob agitação uma solução contendo 3,686 g de Oxalato de Seropédica, julho/2018 5 Potássio (K2C2O4) em 10,0 mL de água destilada à 90°C. Em seguida, resfriou-se a mistura em banho de gelo, filtrou-se e coletou-se o precipitado.(AYLA, JD. BELLIS, VM.) 3. RESULTADOS E DISCUSSÕES Os complexos foram sintetizados conforme os procedimentos descritos anteriormente, após secagem pesamos os produtos obtendo-se 14,399g do trioxalatocromato(III) de potássio trihidratado e 1,413g do dioxalatocuprato(II) de potássio dihidratado, K3[Cr(C2O4)3].3H2O e K2[Cu(C2O4)3].2H2O, respectivamente. Sendo assim, pôde-se calcular os rendimentos de ambas as sínteses, a partir das estequiometrias das reações a seguir: K2Cr2O7 + 7 H2C2O4 + 2 K2C2O4 → 2 K3[Cr(C2O4)3].3H2O + 6 CO2 + H2O CuSO4 + 2 K2C2O4 + 2 H2O → K2[Cu(C2O4)2].2H2O + K2SO4 MMK2Cr2O7 = 294,121 g/mol MMCuSO4 = 159,607 g/mol MMK3[Cr(C2O4)3] = 487,329 g/mol MMK2[Cu(C2O4)2] = 317,778 g/mol mK3[Cr(C2O4)3] = 14,399g mK2[Cu(C2O4)2] = 1,413 g Rendimento do complexo de cromato: MMK2Cr2O7 ---------------------- 2 x MMK3[Cr(C2O4)3] 4,756g de K2Cr2O7 ---------- X X = 15,760 g de K3[Cr(C2O4)3] Rend = (mK3[Cr(C2O4)3] /15,760 g)x100 Rend = 91,36% Seropédica, julho/2018 6 Rendimento do complexo de cobre: MMCuSO4 ---------------------- MMK2[Cu(C2O4)2] 1,250g de CuSO4 ---------- Y Y = 2,489 g de K2[Cu(C2O4)2] Rend = (mK2[Cu(C2O4)2]/2,489 g)x100 Rend = 56,77% Onde MM é a massa molar e m é a massa adquirida após o procedimento. Uma das maiores dificuldades para a obtenção dos cristais foi a utilização da água como solvente. Ambos os complexos possuem certa solubilidade em água, o que dificulta a precipitação. Na síntese do Cr3+ foi adicionado etanol gelado na solução (água + complexo) já resfriada para facilitar a precipitação do mesmo. Dessa forma conseguimos melhorar o rendimento em quase 9x. A massa foi de 2g para 14g. Os rendimentos calculados foram, 91,36% para a formação do complexo K3[Cr(C2O4)3].3H2O e 56,77% para o K2[Cu(C2O4)2].2H2O. Os complexos foram caracterizados por espectroscopia de infravermelho e estão apresentadas nos anexo I e II. Análise do espectro FTIR do complexo dioxalatocuprato(II) de potássio: Número de onda (cm-1 ) Atribuição 3385,58 𝝂assim(C-H) + 𝝂assim(O-H) ou ligação de hidrogênio 1666,04 𝝂assim(O-C=O) 1633,88 Efeito quelato 1410,60 𝝂sim(C-O) + 𝝂sim(O-C=O) 900,71 Ésteres cíclicos 664,02 𝝂COO – Balanço fora do plano 480-485 𝝂Cu-O + 𝝂C-C Seropédica, julho/2018 7 Análise do espectro FTIR do complexo trioxalatocromato(III) de potássio: Número de onda (cm-1 ) Atribuição 3419,31 𝝂assim(O-H) ou ligação de hidrogênio 1639,96 𝝂assim(O-C=O) Efeito quelato 1382,00 𝝂sim(C-O) + 𝝂sim(O-C=O) 1254,28 𝝂sim(C-O) + 𝜹(O-C=O) 896,15 Ésteres cíclicos 800,24 𝝂sim(C-O) + 𝜹(O-C=O) 482,89 𝝂Cr-O + 𝝂C-C Ao comparar os valores dos números de onda do IV dos complexos com os encontrados na literatura, pode-se afirmar que os valores e atribuições estão muito semelhantes. Os valores foram comparados com as espectroscopia de infravermelho do complexo dioxalatocuprato(II) de potássio dihidratado e a do ligante oxalato na forma de oxalato de potássio, obtidos de outros artigos acadêmicos, a fim de confirmar a formação dos complexos. Espectro de Infravermelho do dioxalatocuprato(II) de potássio dihidratado: Fonte: K. Muraleedharan, S. Kripa / Journal of Analytical and Applied Pyrolysis 107 (2014) 298–305 Seropédica, julho/2018 8 Tabela 1 Fonte: K. Muraleedharan, S. Kripa / Journal of Analytical and Applied Pyrolysis 107 (2014) 298–305 Abaixo encontra-se a tabela de absorção em espectroscopia de infravermelho do íon oxalato. Fonte: CANADIAN JOURNAL OF CHEMISTRY. VOL. 34, 1956. Os valores de número de onda obtidos no espectro do ligante oxalato na forma livres, na parte inferior da tabela 2, descarta a possibilidade da presença de oxalato não complexado no produto, já que esses valores não aparecem nos espectros analisados. Por exemplo, o estiramento C-O no ligante livre é em torno de 1500. Ao se ligar no metal essa banda se desloca para uma frequência menor em ambos os complexos. Seropédica, julho/2018 9 Os complexos também foram caracterizados por espectroscopia eletrônica (UV-Vis). O espectro obtido para o complexo de cromo(III) está apresentado na figura 3. Este complexo exibe duas bandas de transição d-d, 4A2g → 4T1g(P) e 4A2g → 4T2g, que no gráfico está em torno 415nm e outra em 566nm. Esses valores de comprimento de onda estão de acordo com o esperado e coincidem com os descritos na literatura, 420 e 569 nm.(JURIC, M. PLANINIC, P.) Figura 3: Espectro UV-Vis do trioxalatocromato(III) de potássio trihidratado. Para o complexo de cobre(II), o espectro apresentou uma única banda de transição d-d em aproximadamente 710nm, como mostrado na figura 4, o que é totalmente coerente visto que o Cu2+ possui configuração d9. Sendo assim, é esperado apenas 1 banda de transição. Comparando o dioxalatocuprato(II) com um complexo de cobre(II) com o ligante 2,4-di-terc-butil-6-((metil-1,4-diazepan-6-ilimino)metil)fenol - Cu(dtbaaz)(OAc), o comprimento de onda para esse complexo é 617nm. (PASSOS, F.) O oxalato, por seu um ligante doador σ e 𝜋, causa um menor desdobramento no campo ligante, diminuindo a energia para essa transição e consequentemente aumentando o comprimento de onda de 617nm para 710nm. Esse deslocamento na energia de transição d-d do íon cobre(II) é comum em outros complexos citados na literatura e está associado a variação do campo ligante nos complexos. Seropédica, julho/2018 10 Figura 4: Espectro UV-Vis do dioxalatocuprato(II) de potássio dihidratado. 3. CONCLUSÃO Visto que o rendimento esperado para ambas as sínteses era em torno de 90%, a quantidade de complexo sintetizado foi ideal para o complexo trioxalatocromato(III) e satisfatório para o complexo dioxalatocuprato(II). Quanto aos procedimentos, todas foram realizados de forma simples e rápida, não havendo dificuldades em quaisquer etapas. Analisando cada espectro de acordo com as características de cada um dos complexos, cruzando os dados obtidos experimentalmente com os valores determinados na literatura, verificamos que os produtos sintetizados são os complexos dioxalatocuprato(II) de potássio dihidratado e o trioxalatocromato(III) de potássio trihidratado. Seropédica, julho/2018 11 4. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ● A. E. Martell and M. Calvin: "Chemistry of the Metal Chelate Compounds," p. 66, Prentice-Hall, Inc., Englewood Cliffs, N.J., 1952. ● AYLA, JD. BELLIS, VM. Química Inorgânica Experimental. Universidade Federal de Minas Gerais. pg 29-31. 2003. ● JONES, C .J. A química dos elementos dos blocos d e f. Tradução: Maria D. Vargas, Bookman, Campinas, 2002. ● JURIC, M. PLANINIC, P. ZILIC, D. RAKVIN, B. PRUGOVECKI, B. MATKOVIC, D. A new heterometallic (Ni2+ and Cr3+) complex – Crystal structure and spectroscopic characterization. Journal of Molecular Structure. 924–926. PG 73-80. 2009. ● K. Ito, H. J. Bernstein. The vibrational spectra of the formate, acetate and oxalate ions. Canadian Journal of Chemistry. vol 34. 1956. ● K. Muraleedharan, S. Kripa. Journal of Analytical and Applied Pyrolysis. 107 (2014) 298–305. ● LEE, J. D . Química Inorgânica não tão concisa. 5ª Ed, Edgard Blücher, São Paulo - SP, p. 415–424, 1999. ● ROCHOW, E. G. (ed.). Inorganic Syntheses. vol. VI, New York, McGraw Hill. pg. 37(1960) ● PASSOS, F. Síntese e caracterização de novos complexos de cobre(II) e zinco(II) de relevância bioinorgânica. Universidade Federal de Santa Catarina. Florianópolis. 2008. ● VOGEL, A. I. Química analítica qualitativa. Editora Mestre Jou. São Paulo. Seropédica, julho/2018