Pós-estruturalismo nas Relações Internacionais
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Pós-estruturalismo nas Relações Internacionais


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INTRODUÇÃO AO PÓS-ESTRUTURALISMO NA TEORIA DAS RELAÇÕES
INTERNACIONAIS
Fonte: MORROR, Aishling MC.
Poststructuralism
. In MCGLINCHEY et al., Int ernational
Relations Theory, 2017 (tradução livre). Obra disponibilizada gratuitamente em licença
Creative Commons, disponível em: https://www.e-ir .info/publication/international-relations-
theory/
INTRODUÇÃO
O pós-estruturalismo in centiva uma maneira de encarar o mundo que de safia o
que é aceito como 'verdade' e 'conhecimento' . As autoras e autores pós- estruturalistas
sempre questionam como certos "fatos" e "crenças" aceitos realmente funcionam para
reforçar o domínio e o poder de determinados atores nas relações internacionais. O
pós-estruturalismo duvida, assim, da pos sibilidade de alcançar lei s ou verdades
universais, pois não existe mundo que exista independentemente de nossas pró prias
interpretações.
Esse ponto de vista é sublinhado pela afirmação de Michel Foucault (1 984) de
que "não devemos i maginar que o mundo mostre uma fa ce legível qu e precisamos
decifrar". Por esse motiv o, o pós-estruturalismo incentiva pesquisadore s e pesquisadoras
a serem céticos em relação às narrativ as u niversais que tentam oferecer uma visão de
mundo objetiva, pois essas premissas são fort emente influenciadas por premissas pré -
existentes do que é verdadeiro - e geralmente sublinhadas pelas o piniões do s que estão
no poder. Isso to rna o pós-estruturalismo abertamente críti co de qualquer teoria que
afirme ser capaz de identificar fatos o bjetivos - que verdade e conhecimento são
entidades subjetivas que são produzidas e não descobertas. P ortanto, p or design, o pós-
estruturalismo entra em conflito com a mai or parte de outras t eorias da s R elações
Internacionais, uma vez que as considera incapazes (ou não dispostas) de explicar
completamente a verdadeira diversidade das relações internacionais.
1. O BÁSICO DO PÓS-ESTRUTURALISMO
Os s-estruturalistas argumentam que o 'conhecimento' passa
a ser aceito como tal devido ao poder e de staque de certos atores da
sociedade conhecidos como 'elites', que depo is o impõem a o utros . As
elites assumem uma variedade de formas e ocupam mu itos papéis
diferentes na sociedade contemporânea. Por exemplo, eles incluem
ministros do gov erno que decidem o foco e a dir eção das políticas de
um estado, líderes e mpresariais que utilizam v astos re cursos financeiros
para moldar a direção do mercado e meios de comunicação que de cidem como uma
pessoa é retratada ao relatar uma história. Além disso, as elites também são
frequentemente classificadas como "especialistas" na sociedade, dando -lhes autoridade
para reforçar ainda mais o s po ntos de vista que atendem seus melhores intere sses a
um amplo público . Jenny Edkins (2006) usa o exemplo d a fome para mostr ar que
quando os atores de elite se refere m à fome como um desastre natural, estão
removendo o evento do seu contexto político. Po rtanto, as maneiras pelas quais a fome
ocorre como resultado das elites adotarem formas particulares de ação po lítica, através
de p rocessos de exploração ou inação devido aos lucros com o aumento do s p reços
dos alimentos, perdem-se quando são apresentadas como desastres naturais inevitáveis.
Embora grande ênfase e foco sejam colocados sobre a autoridade dos atores de
elite para decidir o que consideramos como conhecimento e suposições válidos na
sociedade, o pós- estruturalismo afirma que a m aneira pela qual esse poder é alcançado
é através da manipulação do discurso . Os discursos facilitam o processo pelo qual
certas informações são aceitas como verd ade inquestionável. Di scursos que aumentam o
poder das elites são chamados de discursos dominantes ou oficiais pelos pós -
estruturalistas. A força do s dis cursos dominantes reside em sua capacidade d e excluir
outras opções ou opiniões, na medida em que o pensamento fora dos reinos
estabelecidos pelo discurso é visto como irracional.
Um exemplo disso pode ser encontrado no debate sobre segurança versus
liberdade. O desejo de aumentar os níveis de segu rança em toda a sociedade - em
resposta ao crime, à migração irregular e às ameaças terroristas - foi apresentado como
uma escala em que, se um estado deseja estar seguro, o público deve suportar uma
redução nas liberdades pessoais. A s liberdades pessoais - como a liberdade de
expressão e liberdade de reunião - foram colocadas como o limite contra o qual a
segurança existe. Nessa construção discursiva, então, as pessoas têm a escolha entre
um est ado que respeita as lib erdades ci vis, mas é deixado potencialmente inseguro ou
um estado que dev e restringir as liberdades pessoais p ara e star seguro e protegido. N a
prática, o dis curso dominante d e garantir o E stado geralmente trabalha para s ilenciar
quaisquer preocupações sobre o aumento do p oder estatal . Um p rograma de elite para
restringir as liberdades civis pode ser justificado para uma sociedade condicionada pela
repetição "especializada" deste discurso, apelando para a lógica objetiva que afirma e
descontando todas as outr as interpretações. Portanto, a m udança para alcançar níveis
crescentes de segurança sem a violação de liberdades pessoais ou civis é excluída do
argumento, pois o s dois estão constantemente sendo posicionados em oposição dir eta
um ao outro.
Para as autoras e a utores pós-estruturalistas, a lingu agem é u m dos el ementos
mais cruciais para a criação e perpetuação de um discurso dominante . Por meio da
linguagem, certos atores, conceito s e eventos são colocados em pares hierárquicos,
denominados oposições binárias, nas quais um elemento do co njunto é favo recido sobre
o outro, a fim de criar ou perpetuar significado . A relação de poder que está embutida
nesse relacionamento (por exemplo, bem versus mal ou desenvolvida v ersus não
desenvolvida) serve para reforçar o significado preferido dentro da construção discursiva.
As Relações Int ernacionais, como disciplina, estão cheias dessas oposições e são usadas
pelas elites para criar significado favorável a partir de certos eventos e permitir que esse
significado seja facil mente absorvido e aceito pelo público em geral . Uma das oposições
binárias mai s comuns é estabelecer dif erentes grupos ou países em termos de "eles"
versus "nós".
Se olharmos para o rescaldo dos eventos de 11 de setembro de 2001 podemos
ver essas categorias de d iferenciação e sua influência começar a se manifestar. O
presidente George W. Bush descreveu o Irã, o Iraque e a Coréia do Norte como um 'eixo
do mal' - tornando esses países os 'e les' posicionados retoricamente e politicamente
como p árias internacionais em contraste com o inocente 'nós' d os Estados Unidos e
seus países aliados. Portanto, essa op osição binária permitiu que Bus h afirmasse que os
Estados Unidos eram opostos a tudo o que esse trio representava e que seria
justificado em tomar várias ações dur ante uma campanha global contra estados que
foram julgados como patrocinadores ou portadores de terroristas.
Se olharmos para o trabalho de um dos principais estudiosos do pós -
estruturalismo, M ichel Foucault, o s conceitos de elites, discursos e o poder da linguagem
e das o posições binária s se unem para cri ar o que ele chama de "re gime da verdade" .
Esse modelo se aplica ao discurso dominante que opera inquestionável na soci edade,
mascarado como ve rdade ou fato. Um regime de verdade, então, é constituído pel o
discurso dominante, pelos atores de elite e p ela linguagem u sada para criar e sustentar
significado e verdade que servem ao interesse dos atores favorecidos.
A importância do pós-estruturalis mo é dest acar os r egimes de v erdade existentes
e mostrar que os modos convencionais de pensa mento e análise nas rela ções
internacionais são incapazes de apontar como certas o utras possibilidades são excluídas
por esses dis cursos desde o início . Judith Butler (2003) baseia-se nessa i déia de
discursos q ue exclu em outras possi bilidades ao propor que certas vidas, em certos
conflitos ou atrocidades terroristas, são consideradas mai s "d olorosas" do que outras.
Butler argumenta que milhares de pesso as estão perdidas em conflitos em p aíses como
a Palestina e o Afeganistão, muitas vez es nas mãos das po tências ocidentais, e ainda
assim essas pessoas não são lamentadas, nem memorizadas, nem mesmo ouvidas nos
relatórios ocidentais de guerra.
Essa hierarquia de luto também pode ser vista como manifestação de simpatia
pelas vítimas de ataques terroristas em Paris em novembro de 2015 e Nice em julho de
2016. No entanto, ataques semelhantes em Beirute e Nigéria em novembro de 2015 e
Bagdá em julho de 2016 (para citar apenas um poucos) passaram de spercebidos e
foram silenciados dentr o de reg imes da verd ade que lamentavam ou favoreciam a vítima
ocidental "inocente".
2. PÓS-ESTRUTURALISMO E REPRESENTAÇÕES D A MÍDIA SOBRE TERRORISTAS
A mídia é o melhor exemplo de um campo onde discursos dentro de regimes da
verdade são (re)pro duzidos e podem ser identificados. Como recebemos informa ções e a
maneira como os novos eventos são apresentados a uma soci edade molda como
conceituamos e reagimos a eventos políticos. Sendo assim, se queremos observar como
as pessoas chegaram a conceber e e nquadrar o terr orismo e os terroristas, o s-
estruturalista pode analisar as contas da mídia para analisar a construção discursiva
desses atores políticos e eventos terroristas associados.
Como o ataque terrorista global definidor do século XXI, os ataques de 11 de
setembro de 2001 aos Estados Unidos podem ser usados para transmitir como o s
discursos dominantes, instigados pelas elites governamen tais, foram perpetuados e
reforçados pela mídia.