Noam Chomsky-1
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Noam Chomsky-1


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NOAM CHOMSKY 
 
 
 
 
 
O LUCRO OU AS PESSOAS 
 
 
 
 
© 1999 
Seven Stories Press, NY 
 
 
TÍTULO ORIGINAL: 
Profit over People 
 
 
TRADUTOR: 
Pedro Jorgensen Jr. 
 
 
BERTRAND BRASIL 
© 2002 
 
 
 2 
ÍNDICE 
 
 
 
INTRODUÇÃO 3 
 
I NEOLIBERALISMO EM ORDEM GLOBAL 9 
II CONSENTIMENTO SEM CONSENTIMENTO 24 
III A PAIXÃO PELOS MERCADOS LIVRES 37 
IV DEMOCRACIA DE MERCADO NUMA ORDEM NEOLIBERAL 50 
V A INSURREIÇÃO ZAPATISTA 65 
VI \u201cA ARMA DEFINITIVA\u201d 70 
VII \u201cHORDAS DE VIGILANTES\u201d 84 
 
NOTAS 89 
 
 3 
INTRODUÇÃO 
 
Robert W. McChesney 
 
 
O neoliberalismo é o paradigma econômico e político que define o nosso tempo. Ele consiste 
em um conjunto de políticas e processos que permitem a um número relativamente pequeno de 
interesses particulares controlar a maior parte possível da vida social com o objetivo de maximizar 
seus benefícios individuais. Inicialmente associado a Reagan e Thatcher, o neoliberalismo é a 
principal tendência da política e da economia globais nas últimas duas décadas, seguida, além da 
direita, por partidos políticos de centro e por boa parte da esquerda tradicional. Esses partidos e 
suas políticas representam os interesses imediatos de investidores extremamente ricos e de menos 
de mil grandes empresas. 
À parte alguns acadêmicos e membros da comunidade de negócios, o termo neoliberalismo é 
pouquíssimo conhecido e utilizado pelo grande público, especialmente nos Estados Unidos. Nesse 
país, ao contrário, as iniciativas neoliberais são caracterizadas como políticas de livre mercado que 
incentivam o empreendimento privado e a escolha do consumidor, premiam a responsabilidade 
pessoal e a iniciativa empresarial e freiam a mão pesada do governo incompetente, burocrático e 
parasitário que não é capaz de fazer nada bem feito mesmo quando bem-intencionado, o que 
raramente é o caso. Uma geração inteira de esforços de relações públicas financiadas pelas 
empresas conferiu a essas palavras e idéias uma aura quase sagrada. Como resultado, os seus 
reclamos raramente necessitam de defesa e são invocados para justificar qualquer coisa, da 
redução de impostos para os ricos e sucateamento das regulamentações ambientais ao 
desmantelamento da educação pública e dos programas de seguridade social. Na verdade, qualquer 
atividade que se interponha ao domínio da sociedade pelas grandes empresas é imediatamente 
considerada suspeita, porque estaria se interpondo ao funcionamento do livre mercado, tido como o 
único alocador racional, justo\u2019e democrático de bens e serviços. No melhor de sua eloqüência, os 
defensores do neoliberalismo falam como se estivessem prestando aos pobres, ao meio ambiente e a 
tudo o mais um fantástico serviço quando aprovam políticas em benefício da minoria privilegiada. 
As conseqüências econômicas dessas políticas têm sido as mesmas em todos os lugares e são 
exatamente as que se poderia esperar: um enorme crescimento da desigualdade econômica e social, 
um aumento marcante da pobreza absoluta entre as nações e povos mais atrasados do mundo, um 
meio ambiente global catastrófico, uma economia global instável e uma bonança sem precedente 
para os ricos. Diante desses fatos, os defensores da ordem neoliberal nos garantem que a 
prosperidade chegará inevitavelmente até as camadas mais amplas da população \u2013 desde que 
ninguém se interponha à política neoliberal que exacerba todos esses problemas! 
No final, os neoliberais não têm como apresentar, como não apresentam de fato, a defesa 
empírica do mundo que estão construindo. Ao contrário, eles apresentam \u2013 ou melhor, exigem uma 
fé religiosa na infalibilidade do mercado desregulado, que remonta a teorias do século 19 que pouco 
têm a ver com o nosso mundo. O grande trunfo dos defensores do neoliberalismo, no entanto, é a 
alegada inexistência de alternativas. As sociedades comunistas, socialdemocracias e mesmo estados 
de bem-estar modestos, como os EUA, falharam, proclamam os neoliberais, razão pela qual os seus 
 4 
cidadãos aceitaram o neoliberalismo como o único caminho viável. Pode ser imperfeito, mas é o 
único sistema econômico possível. 
No início do século 20, alguns críticos diziam que o fascismo era \u201co capitalismo sem luvas\u201d, 
querendo dizer que esse sistema era o capitalismo puro, sem organizações nem direitos 
democráticos. Mas sabemos que o fascismo é algo infinitamente mais complexo. O neoliberalismo, 
sim, é de fato o \u201ccapitalismo sem luvas\u201d, Ele representa uma época em que as forças empresariais 
são maiores, mais agressivas e se defrontam com uma oposição menos organizada do que nunca. 
Nesse ambiente político elas tratam de normatizar o seu poder político em todas as frentes 
possíveis, razão pela qual fica cada vez mais difícil contestá-las, tornando complicada \u2013 no limite da 
impossibilidade \u2013 a simples existência de forças extramercado, não-comerciais e democráticas. 
É justamente na opressão das forças extramercado que se vê como opera o neoliberalismo, 
como sistema não apenas econômico, mas também político e cultural. Fica clara então a sua 
notável diferença em relação ao fascismo, que se caracteriza não só pelo desprezo pela democracia 
formal, como também por uma forte mobilização social de cunho racista e nacionalista. O 
neoliberalismo funciona melhor num ambiente de democracia eleitoral formal, mas no qual a 
população é afastada da informação, do acesso e dos fóruns públicos indispensáveis a uma 
participação significativa na tomada das decisões. Como diz Milton Friedman, guru do 
neoliberalismo, em seu livro Capitalismo e Liberdade, dado que a busca do lucro é a essência da 
democracia, todo governo que seguir uma política antimercado estará sendo antidemocrático, 
independentemente de quanto apoio popular informado seja capaz de granjear. Portanto, o melhor a 
fazer é dar aos governos a tarefa de proteger a propriedade privada e executar contratos, além de 
limitar a discussão política a questões menores. Os problemas reais da produção e distribuição de 
recursos e da organização social devem ser resolvidos pelas forças do mercado. 
Equipados com essa perversa concepção de democracia, neoliberais como Milton Priedman 
não sentiram nenhum malestar com o golpe militar que derrubou, em 1973, o presidente chileno, 
democraticamente eleito, Salvador Allende, porque o governo estava tentando impor controles sobre 
os negócios da sociedade. Depois de quinze anos de uma ditadura brutal e selvagem \u2013 sempre em 
nome do livre mercado democrático \u2013 a democracia formal foi restaurada em 1989, com uma 
Constituição que tornava muito mais difícil, senão impossível, aos cidadãos contestar o domínio 
empresarial-militàr sobre a sociedade chilena. É a democracia liberal numa casca de noz: debates 
triviais sobre questões menores entre partidos que seguem basicamente as mesmas políticas pró-
grande empresa, independentemente de diferenças formais e de discussões de campanha. A 
democracia é admissível desde que o controle dos negócios esteja fora do alcance das decisões 
populares e das mudanças, isto é, desde que não seja democracia. 
O sistema neoliberal tem, por conseguinte, um subproduto importante e necessário \u2013 uma 
cidadania despolitizada, marcada pela apatia e pelo cinismo. Se a democracia eleitoral pouco afeta a 
vida social, é irracional dedicar-lhe demasiada atenção; nos Estados Unidos, o criatório da 
democracia neoliberal, a abstenção bateu todos os recordes nas eleições para o Congresso em 1998: 
apenas um terço dos cidadãos com direito a voto compareceu as umas. Embora cause uma certa 
preocupação entre os partidos que costumam atrair o voto dos despossuídos,