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UNIVERSIDADE ABERTA
APONTAMENTOS DE HISTÓRIA DA 
IDADE CONTEMPORÂNEA
J. LEMOS PINTO
2011
TEMA 1. AS REVOLUÇÕES NA EUROPA E AMÉRICA 
Introdução
O período revolucionário, pelas repercussões no espaço e no tempo, não tem precedente 
na história dos homens. Mesmo que se considere que a revolução foi fechada em 1815, 
ao longo de todo o século, ela continua a determinar as clivagens.
A Revolução Francesa não é um facto puramente francês: inscreve-se num movimento 
mais vasto. Ela é enquadrada por numerosos movimentos antes, durante e depois. O 
movimento mais importante que precedeu a Revolução Francesa foi a revolução ameri-
cana. É uma guerra de libertação, mas também uma contestação dos fundamentos e das 
formas de governo e o seu carácter revolucionário foi-se acentuando no decurso dela. 
A revolução americana contribuiu, indirectamente, para a crise pré-revolucionária. Na 
verdade, a França recrutou tropas e forneceu subsídios, que obrigaram a um empréstimo 
que comprometeu o equilíbrio do orçamento e levou o rei a convocar os estados gerais 
para financiar o défice. De certo modo, é possível afirmar que a Revolução Francesa re-
sultou da guerra de independência dos Estados Unidos.
Outros movimentos ocorrem na Europa nos anos que precedem 1789. A Grã-Bretanha 
é, nos anos de 1780, palco de uma agitação social e política. A Irlanda também se agita 
contra o domínio britânico. Nas Províncias Unidas agitações opõem o povo miúdo, fiel 
à dinastia de Orange e que deseja a instauração de uma monarquia autoritária, aos parti-
dários do governo patrício. Os Países Baixos, que relevam da coroa austríaca, suble-
vam-se contra José II. Genebra conhece também uma certa agitação.
Paralelamente à própria revolução, desenvolver-se-ão outros movimentos revolucionári-
os por contágio, ou ainda devido à intervenção armada. É a razão das revoluções nos 
territórios renanos, em Itália, e da multiplicação das repúblicas-irmãs. Fora dos territóri-
os ocupados pelos exércitos revolucionários, por toda a Europa, estabelecem-se solidari-
edades, e encontram-se jacobinos em Inglaterra, na Hungria, na Áustria.
Finalmente, esta agitação prolonga-se após a revolução, fenómeno ao qual podemos li-
gar o movimento de independência das colónias espanholas e portuguesas da América, a 
vaga de conspirações militares que irrompe em 1820 e afecta a França, a Espanha, Ná-
poles, Turim, a agitação estudantil e universitária na Alemanha. E até a Rússia conhece 
um movimento deste tipo com o movimento dezembrista de 1825. Acrescentemos as re-
voluções de 1830, talvez mesmo as de 1848.
Tema 1. A Revolução (1795-1815) 1
Assim, durante cerca de setenta anos, o mundo é abalado, em intervalos curtos, por va-
gas de revoluções que permitem falar de uma era das revoluções. A sua quantidade inci-
ta alguns historiadores a falarem, não de uma revolução francesa, mas de uma revolução 
ocidental ou de uma revolução atlântica, cujos acontecimentos em França mais não seri-
am do que um aspecto local. 
No entanto, seria excessivo deduzir que a Revolução Francesa é um caso particular de 
um fenómeno mais geral. Na verdade foi ela que os desencadeou, numa reacção em ca-
deia que veremos reproduzir-se em 1830, em 1848 e, mais tarde, após a revolução bol-
chevique. A maior parte dos outros movimentos abortam e, isoladamente, não teriam 
bastado para derrubar o antigo regime. A revolução é claramente francesa, mesmo que 
se inscreva num quadro mais amplo e que os seus prolongamentos permitam falar de 
uma revolução atlântica, ocidental ou europeia.
Esta verificação suscita, por sua vez, uma interrogação. Se é assim, por que é em França 
que se produz a revolução, quando a ordem social era a mesma em toda a Europa? A 
questão da localização no espaço desdobra-se numa outra questão: por que acontece 
neste momento e não mais cedo ou mais tarde? 
1. As origens da revolução
A revolução rompe com o antigo regime e, no entanto, é dele que emana. Como é então 
possível romper com o antigo regime e simultaneamente dele proceder? A Revolução 
Francesa é o acontecimento que põe esse problema com maior acuidade, na medida em 
que é o primeiro acontecimento desse tipo e na medida em que surge com uma instanta-
neidade ímpar e introduz uma mudança radical. 
1.1. Os princípios de explicação e as séries de causas
Desde há um século e meio que os historiadores se debruçam sobre o acontecimento re-
volucionário para perscrutarem as suas causas. No início, os historiadores oscilam entre 
uma explicação política (a crise das instituições) e a que põe em relevo o movimento 
das ideias, o factor ideológico. Mais tarde, a observação histórica fez emergir outros fe-
nómenos, e a atenção deslocou-se do institucional para as estruturas da sociedade e para 
a economia. Mas a tentação de reduzir esta pluralidade de explicações a um princípio 
único continua tão viva como há um século. Para uns, esse Princípio seria a luta de clas-
ses, para outros, o movimento dos preços, sendo todos os outros factores reduzidos a 
causas secundárias, que se ligam ao tipo de explicação privilegiado. Contudo, esta ten-
dência apresenta mais riscos do que vantagens e, se após um século e meio se impõe 
Tema 1. A Revolução (1795-1815) 2
uma lição, é a da diversidade e da complexidade desta história, demasiado variada para 
uma causa única. O problema não está completamente resolvido e falta estabelecer uma 
hierarquia entre as diferentes causas, pois não têm todas a mesma importância e é neces-
sário conferir a cada princípio explicativo a importância que lhe cabe.
1.2. A revolução: simples acidente?
Um primeiro grupo de explicações vê na Revolução Francesa um mero acidente. Segun-
do esta versão, a revolução não foi desejada pelo povo, quase não o foi pelos revolucio-
nários, e só o concurso imprevisto de circunstâncias fortuitas a teria provocado. Neste 
caso, é inútil procurar razões profundas para acontecimentos que poderiam ter tomado 
uma direcção diferente. A explicação da revolução desagregar-se-á numa série de mal-
entendidos ou de escândalos, como o da gargantilha da rainha, o défice orçamental, as 
veleidades de Luís XVI, que teriam sido, em conjunto, responsáveis pela revolução. 
Esta tese explica alguns aspectos da realidade e sublinha o carácter imprevisto, imprevi-
sível, da deflagração revolucionária e põe em evidência o papel das individualidades.
Mas não resulta daqui que o encadeamento dos factos não tenha obedecido a uma lógi-
ca. Fica por explicar como circunstâncias totalmente fortuitas puderam engendrar con-
sequências de tal amplitude. Noutra situação, as mesmas ocasiões não teriam produzido 
os mesmos efeitos. Se quisermos ir mais além na apreciação do alcance do aconteci-
mento é indispensável fazer intervir outros factores.
1.3. A influência oculta das minorias
Este tipo de explicação não é válido só para a Revolução Francesa: aplica-se a todos os 
fenómenos históricos, que serão reduzidos à acção de alguns cabecilhas. É, no século 
XIX, a tese de todos os governos conservadores, os quais pensam estar apenas perante 
reduzidas minorias de universitários ou de militares. O princípio da influência oculta de 
pequenos grupos encontra a sua aplicação numa diversidade de casos, sejam eles as in-
trigas do duque de Orleães, o papel das sociedades secretas, da maçonaria, ou ainda o 
ouro que a diplomacia inglesa teria largamente despendido em França.
Esta explicação tem o mérito de realçar o papel das minorias. Mas a sua influência seria 
muito restritas se não encontrassem nas massas simpatias afirmadas ou implícitas. A ex-
plicação pelas minorias deve ser retida pela sua contribuição positiva, mas com a condi-
ção de ser inserida numa perspectiva de conjunto que tenha as ligações entre as van-
guardas e o resto da sociedade, uma vez que é esta aliança das minorias e das massas 
que está na origem de todos