Comício judicial estadao
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Comício judicial 
 
O respeito à Constituição invocado por magistrados da Justiça do Trabalho para tentar 
impedir a entrada em vigor da reforma trabalhista não passa de mero pretexto para justificar 
a pretensão de governar o País e ditar normas à sociedade 
O Estado de S.Paulo 
15 de outubro de 2017 | 06h00 
Encontro patrocinado pela Associação Nacional dos Magistrados da Justiça do Trabalho 
(Anamatra) em Brasília, com o objetivo de \u201cdiscutir os horizontes hermenêuticos da reforma 
trabalhista\u201d, acabou sendo convertido em novo comício contra uma das mais importantes 
reformas estruturais promovidas pelo governo do presidente Michel Temer. Introduzida pela 
Lei n.º 13.467/17, a reforma trabalhista entrará em vigor no dia 11 de novembro. 
 
Além de juízes, desembargadores e ministros da Justiça do Trabalho, participaram do 
evento contra essa lei integrantes da Associação Nacional dos Procuradores do Trabalho, 
do Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais do Trabalho e da Associação Brasileira de 
Advogados Trabalhistas. Com raras exceções, os oradores fizeram duras críticas às 
inovações na legislação trabalhista, como as novas regras do trabalho terceirizado, a 
equiparação da dispensa coletiva a demissões isoladas e a vinculação do cálculo da 
indenização por danos morais ao salário. Também reafirmaram que, ao interpretar as novas 
regras, arguirão sua inconstitucionalidade e adotarão medidas protelatórias para evitar que 
esses questionamentos cheguem às instâncias superiores, tentando assim inviabilizar a 
aplicação da nova legislação trabalhista. Disseram, ainda, que vários dispositivos da Lei n.° 
13.467/17 desrespeitam convenções das quais o Brasil é signatário. 
 
\u201cNão houve Constituinte no País e não houve processo revolucionário que tenha suplantado 
a Constituição Federal. A Constituição é a grande matriz que vai iluminar o processo 
interpretativo da reforma trabalhista\u201d, disse o ministro Mauricio Godinho Delgado, do 
Tribunal Superior do Trabalho. \u201cA norma não é o texto. A norma é o que se extrai do texto. 
Na livre convicção motivada de cada juiz do Trabalho, a partir de 11 de novembro, reside a 
indelével garantia do cidadão. A garantia de que seu litígio será concretamente apreciado 
por um juiz natural, imparcial e tecnicamente apto para, à luz das balizas constitucionais, 
convencionais e legais, dizer a vontade concreta da lei. Negar ao juiz sua independência 
técnica é fazer claudicar o sistema constitucional de freios e contrapesos. É ferir de morte a 
democracia e, no limite, negar um dos fundamentos da República\u201d, afirmou o presidente da 
Anamatra, Guilherme Feliciano. 
 
Essa manifestação de apreço à Constituição revela uma contradição lógica e 
desconhecimento histórico. Quando criticam a Lei n.º 13.467/17, na prática esses 
magistrados não querem alterar a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) \u2013 um conjunto 
de leis de origem fascista imposto por decreto pela ditadura de Getúlio Vargas durante o 
Estado Novo, quando havia uma Constituição outorgada no curso de um golpe de Estado. 
Já a reforma que os magistrados trabalhistas criticam foi proposta pelo Executivo e votada 
por um Congresso democraticamente eleito, e ambos os Poderes seguiram rigorosamente 
os trâmites da Constituição em vigor. 
 
Além disso, a CLT desrespeitou um dos pilares da democracia e do Estado de Direito, a 
separação entre os Três Poderes, quando conferiu à Justiça do Trabalho a prerrogativa não 
só de aplicar a lei, mas, também, de editar normas \u2013 o chamado poder normativo. Ao limitar 
esse poder, em nome da segurança do direito nas relações entre patrões e empregados, a 
Lei n.º 13.467/17 reduziu parte da discricionariedade da magistratura trabalhista, 
restabelecendo desse modo o equilíbrio entre os Poderes. E foi isso, justamente, que 
provocou a reação de magistrados trabalhistas, com apoio de procuradores e auditores 
trabalhistas. 
 
O respeito à Constituição por eles invocado para tentar impedir a entrada em vigor da 
reforma trabalhista, por meio de artimanhas hermenêuticas, não passa de mero pretexto 
para justificar a pretensão de governar o País e ditar normas à sociedade. É preciso lembrar 
que as pessoas que querem sabotar uma reforma aprovada democraticamente são apenas 
bacharéis aprovados em concurso público. Não têm mandato eleitoral, único instrumento 
legítimo para legislar. O que fazem portanto, é afrontar o Estado de Direito.