Anencefalia e a Dignidade da Mãe 11-2015

Anencefalia e a Dignidade da Mãe 11-2015


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Anencefalia e a Dignidade da Mãe
Tomando como ponto de partida, o estudo de argumentos sólidos, embasados na jurisprudência do STF e no estudo de profissionais da área médica e doutrinadores do direito, concretiza que a anencefalia é a má formação do tubo neural de feto, com a ausência total ou parcial do encéfalo. Não há caso de sobrevivência, geralmente após o nascimento os bebês vivem por 48 horas ou alguns dias, mas nada além disso. Chegando-se a conclusão de que o aborto de feto anencéfalo está de acordo com o princípio da legalidade do ordenamento jurídico brasileiro, não contrariando norma penal, e que, pelos estudos, sequer deve-se falar em aborto, pois não existe vida no feto, segundo o Dr. Aristodemo Pinotti (diretor executivo do Instituto da Mulher) o feto já está em óbito, ou seja, não é possível a sobrevivência do feto, é um indivíduo morto com órgão vivos.
Sabe-se então que o feto está em óbito, mas é a vida da mãe como fica no meio dessa história? De acordo com os autores Fábio Zonta Pereira e Sérgio Castrequini Fante em sua obra \u201cAnencefalia e o Princípio da Dignidade\u201d em uma análise sobre a dignidade da mãe feita na página 13 e 14 destaca-se que: 
\u201cA mãe desse feto não terá uma vida digna, pois seu corpo se transforma inutilmente para gerar um feto inviável.
 A gravidez de anencéfalo resulta em muitos problemas para a mãe de acordo com a FEBRASGO- Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia, dentre esses problemas: eclampsia, embolia pulmonar, aumento do volume do líquido amniótico, até a morte materna, necessidade de bloquear a lactação.
Valendo-se do direito à saúde e a à luz dos princípios constitucionais de liberdade e dignidade da pessoa humana, reafirma-se que é preciso garantir às mulheres o direito à interrupção de uma gestação em caso de anencefalia. O Estado não pode penalizar as mulheres obrigando-as a levar adiante uma gravidez cujo feto não tem condições de viver.\u201d
Com base no conceito retirado da obra supracitada, entende-se que o princípio da dignidade da pessoa humana garante a mulher, a gestante, a preservação da sua integridade física e psíquica, dando a ela a possibilidade de antecipar ou não o parto, com um procedimento médico chamado Antecipação Terapêutica do Parto (ATP), procedimento médico que antecipa o parto em casos de anencefalia de feto. Consequentemente, em rumo a essa colocação devemos pensar que, se não há feto com vida, não há ação de aborto, portanto não é crime. Mas esse procedimento no ordenamento jurídico não prevê a antecipação terapêutica do parto de feto anencéfalo. A legislação somente prevê a descriminalização do mesmo, considerando que não há meios de preservação da vida da gestante, e isso quer dizer que no ordenamento jurídico o que se coloca como \u201cdignidade da pessoa humana\u201d não serve para gestante de feto anencéfalo. A descriminalização do aborto do feto anencefálico é de grande relevância moral, religiosa, psicológica, jurídica e biológica.
Aprofundando sobre a risco que a mãe (gestante) sofre, bem como a violação a vários direitos fundamentais, tomando como partida o voto do Ministro Relator Marco Aurélio na Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental 54, verificamos que renomados Doutores da área Obstetrícia comprovam que manter ou impor a manutenção da gravidez implicaria em consequências psicológicas severas a gestante, e não somente, mas geraria riscos durante a gestação, no parto, e pós-parto.
A respeito do aspecto psíquico, é incontroverso que a imposição da continuidade da gravidez de feto anencéfalo é devastador, conforme se extrai da narrativa de Gabriela Oliveira Cordeiro, no HC 84025/RJ:
\u201c(...)Um dia eu não aguentei. Eu chorava muito, não conseguia parar de chorar. O meu marido me pedia para parar, mas eu não conseguia. Eu saí na rua correndo, chorando, e ele atrás de mim. Estava chovendo, era meia-noite. Eu estava pensando no bebê. Foi na semana anterior ao parto. Eu comecei a sonhar. O meu marido também. Eu sonhava com ela [referindo-se à filha que gerava] no caixão. Eu acordava gritando, soluçando. O meu marido tinha outro sonho. Ele sonhava que o bebê ia nascer com cabeça de monstro. Ele havia lido sobre anencefalia na internet. Se você vai buscar informações é aterrorizante. Ele sonhava que ela [novamente, referindo-se à filha] tinha cabeça de dinossauro. Quando chegou perto do nascimento, os sonhos pioraram. Eu queria ter tirado uma foto dela [da filha] ao nascer, mas os médicos não deixaram. Eu não quis velório. Deixei o bebê na funerária a noite inteira e no outro dia enterramos. Como não fizeram o teste do pezinho na maternidade, foi difícil conseguir o atestado de óbito para enterrar.
Lendo o relato acima exposto, fica claro o gravíssimo quadro de depressão, transtornos, estresse pós-traumático e até risco de suicídio que a gestação desse fato acarreta para a gestante, gerando sentimentos mórbidos, angustiantes, tristes e de luto, fato esse que precisa ser seriamente levado em consideração ao se tratar desse assunto.
Dentro dessa situação, o direito à saúde da mãe é severamente violado, tendo em vista que de maneira alguma a gestante se encontra em um estado de bem-estar físico e mental, fato esse necessário segundo a Organização Mundial da Saúde de assegurar o pleno exercício desse direito fundamental.
Conforme se aduz, não é proporcional que se proteja apenas um ser da relação, aja vista que a gestante se encontra completamente desrespeitada em seus direitos e garantias adquiridas com a Constituição de 1988, ora bem, o feto sequer possui expectativa de vida, e caso existisse, sequer seria uma vida digna, completamente incompatível com qualquer parcela de dignidade.
Em contrapartida, a continuidade da imposição da gestação desse feto contaria diversos princípios basilares de qualquer Estado Democrático de Direito, quais sejam, a dignidade da pessoa humana, a liberdade, a integridade física e mental, todos esses direitos violados, simplesmente pela proibição de aborto do feto anencéfalo.
Lendo a narrativa da gestante, e tomando outras narrativas que não se fazem necessárias nesse momento expô-las, resta evidenciado que a mãe caso continue com esse feto em sua barriga, sofrerá abalos muitas vezes insuperáveis, e nem estamos aduzindo ao risco a sua saúde física, que também sofre sérios perigos, mas tão somente enfatizando na saúde mental, que, muito provavelmente, abalaria de tal maneira, que levaria a gestante a querer a morte sua, do que continuar a viver desse modo.
Ainda no que diz respeito á saúde da mãe Débora Diniz e Fabiana Paranhos (2004, p. 27) apresentam:
\u201cUma gestação de feto com anencefalia acarreta riscos de morte à mulher grávida. Sem dúvida, e sobre isso há alguns dados levantados que são muito interessantes. Em primeiro lugar, há pelo menos 50% de possibilidade de polidrâmnio, ou seja, excesso de líquido amniótico que causa maior distensão do útero, possibilidade de atonia no pós-parto, hemorragia e, no esvaziamento do excesso de líquido, a possibilidade de descolamento prematuro da placenta, que é um acidente obstétrico de relativa gravidade. Além disso, os fetos anencéfalos, por não terem o pólo cefálico, podem indicar a expulsão antes da dilatação completa do colo do útero e ter o que nós chamamos de distócia do ombro, porque nesses fetos, com freqüência, o ombro é grande ou maior que a média e pode haver um acidente obstetrício na expulsão no parto do ombro, o que pode acarretar dificuldades muito grande no ponto de vista obstétrico. Assim sendo, há inúmeras complicações em uma gestação cujo resultado é um feto sem nenhuma perspectiva de sobrevida. A distorcia do ombro acontece em 5% dos casos, o excesso de líquido em 50% dos casos e a átona do útero em 10% a 15% dos casos.\u201d 
É evidente que deve prevalecer o cuidado com a saúde da mãe, onde a mesma, em hipótese alguma colocar em risco a sua vida por um feto que se tem a certeza de que não possuirá vida.
O aborto, é um tema polêmico, pois envolve questões e princípios morais, religiosos