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KLEIN, NAOMI. SEM LOGO: A TIRANIA DAS MARCAS EM UM PLANETA VENDIDO. 3ª ed. RJ/SP: EDITORA RECORD, 2003 “O título sem logo não deve ser interpretado como um slogan literal (como em chega de logo), ou como um logo pós logo (já existe uma linha de roupas No logo ou assim me disseram). Em vez disso, é uma tentativa de apreender uma atitude anti-corporação que vejo surgir entre muitos jovens militantes. Este livro apoia-se em uma hipótese simples: quando as pessoas descobrirem os segredos das grifes da teia logo mundial, a revolta estimulará o próximo grande movimento político, uma grande onde da oposição dirigida contra corporações transnacionais, particularmente aquelas com marcas muito conhecidas.” (p. 18) A campanha anti-corporação tornou-se a linguagem universal do anti-sistema de uma nova ordem mundial. As corporações têm se tornado tão grandes que chegam a substituir governos. Os pioneiros de uma produção enxuta foram: Nike, Microsoft, Tommy Hilfiger, Intel, perceberam que poderiam terceirizar a produção sem fábricas e sem trabalhadores. Perceberam que eles não produziam coisas, mais imagens. Seu verdadeiro trabalho não estava na fabricação, mas no marketing. No século XIX a função das marcas era dar nomes próprios a produtos genéricos como açúcar, farinha de trigo, sabão e cereais, como a aveia Quaker e os picles HJ Heinz. No final do século XIX e início do século XX a fórmula do marketing era aproximar o consumidor da marca, não mencionar o concorrente e os títulos deveriam ser grandes. No final da década de 40 percebeu-se que a marca não era apenas uma imagem imprensa numa etiqueta, mas levava consigo uma filosofia de vida. “A busca do verdadeiro significado das marcas_ ou a essência das marcas, como é frequentemente chamada_ gradualmente distanciou as agências dos produtos e suas características e as aproximou de um exame psicológico/antropológico de o que significam as marcas para a cultura e a vida das pessoas. O que parece ser de importância fundamental, uma vez que as corporações podem fabricar produtos, mas o que os consumidores compram são marcas.” (p. 32) A virada do marketing se deu no brand equity dos anos 80 quando a Philip Morris comprou a marca Kraft por 12,6 bilhões, 6 vezes o que a empresa valia no papel. Publicidade deixou de ser estratégia de venda para ser investimento em capital puro. Segundo relatório de desenvolvimento humano das nações unidas de 1998 o crescimento dos gastos globais com publicidade superam em 1/3 o crescimento da economia global. Em 1998 os EUA gastou U$ 196,5 bilhões de dólares com publicidade do total global de U$ 435 bilhões de dólares. Quando a Marlboro ameaçou em 1993 reduzir em 20% seus produtos para concorrer com os cigarros sem marca houve uma queda na bolsa de valores de marcas consolidadas como Quaker, Heinz, Coca Cola, PepsiCo, Procter and Gamble. O legado da sexta-feira da Marlboro dos anos 90 foi dividir o marketing de bens essenciais monopolizados pelo mercado de departamentos como Carrefour e Wal-Mart. E os bens de estilo de vida que exprimem atitude e monopolizam o espaço cultural como Nike, Apple e Microsoft. “Parece meio insólito, mas é exatamente esta a questão. Na sexta-feira de Marlboro, foi uma linha traçada na área dividindo os defensores da redução de preços e os construtores de marcas de alto conceito. Os construtores de marcas venceram, e nasceu um novo consenso: os produtos que florescerão no futuro serão aqueles apresentados não como produtos, mas como conceitos: a marca como experiência, como estilo de vida.” (p. 53- 54) O que fez o CEO da Nike declarar que a empresa não vendia calçados, mas um modo de vida, um estilo de vida saudável, de pessoas que praticam esportes e se preocupam com o aspecto físico. Remete ao truque asiático Keiretsu (palavra japonesa para uma rede de corporações interligadas). A ideia não é construir uma marca em torno de um produto, mas uma reputação. CAP 2 A MARCA SE EXPANDE: COMO A LOGOMARCA OCUPA O PAPEL PRINCIPAL P. 60 Grande parte deste retrato de nossa inocência cultural perdida é ficção romântica. Embora sempre tenha existido artistas que lutaram ferozmente para proteger a integridade de seu trabalho, nem a arte, os esportes ou a mídia jamais foram, ainda que teoricamente, os estados soberanos protegidos que imagina McAllister. Os produtos culturais são e sempre foram joguete favorito dos poderosos, manipulados por homens de Estado ricos como Caio Cílnio Mecenas que lançou o poeta Horácio na profissão de escritor em 33 A.C., e de governantes como Francisco I e a família Médici, cujo amor pelas artes apoiou o status dos pintores da renascença. Embora varie o grau de ingerência na nossa cultura, ela foi construída com base entre noções de bem público e as ambições pessoais, políticas e financeiras de ricos e poderosos. No mundo on-line não há um muro entre editorial e publicidade. Na Web a linguagem de marketing alcançou seu nirvana da publicidade sem publicidade, não há como distinguir a barreira entre produto e propaganda. “Em vez de apenas financiar o conteúdo de alguém, em toda a net as corporações estão experimentando o papel cobiçadíssimo de ser <provedores de conteúdo>: o site da Gap oferece dicas de viagem, a Volkswagen oferece trechos gratuitos de músicas, a Pepsi incita os visitantes a baixar vídeo games e a Starbucks oferece uma versão on-line de sua revista, a Joe. Toda marca com um site na Web tem seu próprio distribuidor de mídia virtual_ uma cabeça de ponte a partir do qual se expandir em outra mídia não-virtual. O que está se tornando claro é que as corporações não estão apenas vendendo seus produtos on-line, estão vendendo um novo modelo para o relacionamento de mídia com patrocinadores corporativos e financiadores. ” P.83 A Nike foi pioneira como empresa que preza mais pela imagem do que pelo produto. E para isso, a primeira estratégia foi captar astros do esporte global para representar a marca. Depois que a marca estava consolidada, passou a atacar e ridicularizar a concorrência, oferecendo a marca como um estilo único de vida e por último centrando- se na imagem da marca e terceirizando a produção para os países com mão de obra abundante e barata. CAP 3 ALT.EVERYTHING- O PODER DOS NEWGROUPS O que é cool para os jovens tornou a obsessão do branding na década de 90. Esse novo executivo com roupa de skatista passa horas redigindo tratados revolucionários sobre a necessidade de zombar da burocracia dos antepassados e de adotar novas atitudes. “Nesse contexto complicado, para que as marcas sejam verdadeiramente cool, elas precisam apreender essa estética não-cool-igual-a-cool do espectador irônico, precisam zombar de si mesmas, ser ao mesmo tempo usados e novos. E depois que as marcas e seus cool hunters conseguiram atingir todas as culturas marginais disponíveis, parecia muito natural atulhar essa estreita faixa de espaço mental sem marca e ocupado pela ironia com um conhecimento afetado já planejado, o comentário casual de alguém e mesmo uma simulação rápida dos padrões de pensamento do espectador.” P. 130 Não é porque um ambiente é diferente ou, alternativo, ele está na margem ou não é dominante. O modernismo de Bauhaus teve suas raízes na utopia socialista livre de adornos extravagantes, apropriado pela arquitetura barata de arranha-céus de aço e vidro da América corporativa. “Pode parecer um triste consolo, mas agora que sabemos que a publicidade é um esporte radical e os CEOs são as novas estrelas do rock, vale a pena lembrar que os esportes radicais não são movimentos políticos, e o rock apesar de suas afirmações históricas em contrário, não é revolução. Na verdade,para determinar se um movimento desafia genuinamente as estruturas do poder político e econômico, precisamos somente medir a que ponto eles são afetados pelas extravagâncias da indústria da moda e da publicidade.” (p. 140) CAP 4 O BRANDING DA APRENDIZAGEM: PUBLICIDADE EM ESCOLAS E UNIVERSIDADES Radicais universitários sempre foram propensos a repudiar esses setores do marketing como comprometidos com os bastidores da direita, contanto que as áreas tradicionalmente progressistas (literatura, estudos culturais, ciência política, história e belas artes) fossem deixadas em paz. E contanto que estudantes e professores continuassem indiferentes a essa mudança radical na cultura e nas prioridades na universidade, eles eram livres para buscar outros interesses_ e estes eram muitos. Por exemplo, um punhado desses radicais com empregos vitalícios que supunham corromperem a cabeça dos jovens com ideias socialistas estavam mais preocupados com sua própria concepção pós-modernista de verdade. E uma vez que a verdade é relativa, quem pode dizer que os diálogos de Platão têm mais autoridade do que a princesa Anastácia da Fox. Ficou mais fácil considerar a união das universidades com empresas do que questionar sobre a existência de uma resistência as influências das corporações na construção do conhecimento. Até meados na década de 90 o interesse das empresas era principalmente pelos cursos de engenharia, escolas de administração e laboratórios científicos que eram centros reconhecidamente de domínio da direita conservadora. CAP 5 O PATRIARCADO SE APAVORA: O TRIUNFO DO MARKETING DE IDENTIDADE P. 172 As políticas de identidade de gênero, raça, orientação sexual transformaram tudo em questão de representação, uma política de espelhos e metáforas. “Para uma geração que cresce com a mídia, transformar o mundo através da cultura era sua segunda natureza. O problema era que essas fixações começam nos transformar no processo. Com o tempo, a política de identidades das universidades tornou-se tão consumida pela política pessoal que fez tudo, menos eclipsar o resto do mundo. O slogan <o pessoal é político> veio substituir a economia como política e, no fim, também. Política como política. Quanto mais atenção dávamos a questões de representação, mais central era o papel que elas pareciam assumir em nossas vidas. Talvez porque, na ausência de metas políticas mais tangíveis, qualquer movimento que trate da luta por melhores espelhos sociais está fadada a cair vítima de seu próprio narcisismo.” P. 174 Na luta por combater o discurso do politicamente correto levou George Bush a declarar de que era preciso substituir velhos preconceitos por novos. E fez a agência cool de notícias Sputinik a dizer que esta nova juventude tem como marca a diversidade, seja cultura, política ou sexual. E o marketing da diversidade seria a saída para penetrar numa economia global. “A troca dos fundamentos da economia radical dos movimentos de direitos civis e feministas pela combinação de causas que passaram a ser chamadas de politicamente corretas teve êxito em treinar uma geração de militantes na política da imagem, não da ação. E se as invasões do espaço marcharam em nossas escolas e em nossas comunidades sem resistência, foi pelo menos em parte porque os modelos políticos em voga na época da invasão deixavam muitos de nós despreparados para lidar com questões que eram mais relacionadas com a propriedade do que com a representação. Estávamos ocupados demais analisando as imagens projetadas no muro para notar que o próprio muro tinha sido vendido.” P. 194-195 CAP 6 O BOMBARDEIO DA MARCA: FRANQUIAS NA ERA DA SUPREMACIA “Mas hoje surge um padrão claro: à medida que mais e mais empresas buscam ser aquela que fabrica a marca que consumimos, a que produz arte e até constrói nossas casas, todo o conceito de espaço público está sendo redefinido. E nessas construções de marca, reais e virtuais, as opções para alternativas sem marca, para o debate aberto, a crítica e a arte livre da censura_ para a verdadeira escolha_ enfrentam novas e sinistras restrições. Se a erosão do espaço não-corporativo explorado na última seção está nutrindo uma espécie de globo-claustrofobia que anseia por libertação, então são essas restrições às opções_ impostas pelas mesmas empresas que prometeram uma nova era de liberdade e diversidade_ que estão lentamente focalizando esse desejo potencialmente explosivo nas marcas multinacionais, criando as condições para a militância anti-corporativa que será explorada mais adiante neste livro.” P. 202 No início da década de 90, o Wal-mart tornou-se o maior comércio varejista do mundo. Em 1998, a rede de lojas em departamentos adotou um modelo de volume alto de estoque e preços baixos para destruir qualquer tipo de concorrência, principalmente de pequenos comerciantes. Surge daí uma tendência de juntar parte marketing, parte supermercado com sua própria marca e parte parque temático com um ambiente de lazer e vivência para as pessoas num mesmo lugar. CAP 7 FUSÕES E SINERGIA: A CRIAÇÃO DE UTOPIAS COMERCIAIS “Houve um momento na década de 1990, escreveu Michael J. Wolf, em que a atitude desses clientes da indústria da mídia passou por uma mudança filosófica. As empresas não estavam interessadas em meramente ser o maior estúdio ou rede de tv mais bem sucedida. Tinha de ser mais do que isso. Parques temáticos, redes de tv a cabo, rádio, produtos de consumo, livros e música tornaram-se perspectivas para seus impérios em potencial. A terra da mídia aferrou-se à mania de fusões. Se você não tivesse em toda parte ... não estaria em lugar nenhum.” P. 223 Na década de 90 a Disney comprou a rede de tv ABC que transmitia seus filmes e desenhos. A Time Warner adquiriu a Turner Broadcasting que promove suas revistas e filmes na CNN. A Time Warner abriu uma divisão dedicada a transformar seus filmes e desenhos em musicais da Broadway. A Viacom comprou o Blockbuster Video e a Paramount Pictures, lucrando na exibição de filmes em salas Paramount e distribuição de vídeos na Blockbuster Video. Walt Disney Company inventora do modelo branding de investimento criou o modelo superliga de grife com a primeira Disney Store em 1984. A Coca Cola seguiu a tendência, vendendo todo tipo de parafernália com a sua marca. Um dos maiores consultores de mídia do mundo, Michael J. Wolf lançou a ideia de condomínios como parques temáticos que reunisse no mesmo espaço casas com complexos de lazer e entretenimento. “Deixando de lado por um momento as associações Admirável Mundo Novo/As esposas de Stepford inevitavelmente evocadas por uma visão como essa, há algo de inevitavelmente sedutor nesses mundos de marca. Tem a ver, acho eu, com a genuína emoção da utopia, ou com a ilusão de uma utopia. Vale a pena lembrar que o processo de branding começa com um grupo de pessoas sentando-se em torno de uma mesa para tentar invocar uma imagem ideal; soltam palavras como livre, independente, resistente, confortável, inteligente, moderno. Depois elas tentam descobrir formas do mundo real que incorporem esses conceitos e características, primeiro através do marketing, depois de ambientes de varejo como superlojas, cadeias de lojas e cafeterias, e depois se forem realmente moderninhos por meio de experiências de estilos de vida total, como parques temáticos, hotéis, barcos de cruzeiros e cidades.” P. 237 Vivemos em uma época em que as expectativas de construir propriedades públicas compartilhadas, como escolas com digamos, bibliotecas e parques tendem a diminuir em escala ou até mesmo desaparecer. Essas marcas particulares estão trilhando um caminho diferente do trilhado no boom pós-guerra.Pela primeira vez, em décadas, grupos de pessoas estão construindo comunidades ideais e defendendo ideais de vida como o casamento do trabalho com a diversão. O poder emocional desses enclaves está em capturar uma ânsia nostálgica, aumentando depois sua intensidade. O frescor de viver eternamente num acampamento de verão ginasial, desfrutar de uma biblioteca nos moldes do velho mundo, frequentar uma cafeteria com móveis de grife e um museu que dispõe de recursos audiovisuais dignos de Hollywood. CAP 8 CENSURA CORPORATIVA: OBSTRUINDO A ALDEIA DE MARCA P. 247 Com a suspensão do monopólio do partido comunista para as empresas de mídia feita por Deng Xiaoping, a indústria cinematográfica tentou se adequar as regras chinesas. Contanto que não contrariem a lei ou a linha do partido, jornalistas e pessoal de cultura têm garantido a liberdade em relação à interferência de comissários e censores. E com uma estimativa de 100 milhões de assinantes de TV a cabo na China no ano 2000, vários construtores de impérios culturais já começaram a exercer sua liberdade de concordar com o governo chinês. “E assim, quando tentamos nos comunicar com os outros usando a linguagem das marcas e logotipos, corremos um risco verdadeiro de sermos processados. As leis de copyright é marca registrada dos EUA fortalecidos por Ronald Reagan na mesma legislação de 1983 que afrouxou a lei anti-truste_ estão sendo invocadas de maneiras que têm muito mais a ver com o controle de marca do que com a competição de mercado. É claro que muitos usos dessas leis são absolutamente essenciais se os artistas esperam ganhar a vida, particularmente com a facilidade cada vez maior de distribuição eletrônica e digital. Os artistas precisam ser protegidos de roubo completo de seu trabalho por concorrentes e do uso para o lucro comercial sem permissão. Conheço alguns radicais anti-copyright que andam por aí com camisetas “todo copyright é roubo” e “a informação quer ser livre”; embora me pareça que essas atitudes sejam mais provocativas do que práticas. Mas o que eles fazem serve para realçar, pelo menos retoricamente, o clima de privatização cultural e linguística promovido pelo abuso de copyright e marca registrada.” P. 263 CAP 9 A FÁBRICA DESCARTADA: A PRODUÇÃO DEGRADADA NA ERA DA SUPREMACIA Enquanto Europa e EUA produzem marketing, o setor produtivo foi terceirizado para Ásia, África e América Latina. Zonas livres de comércio na antiguidade eram áreas prósperas como cidades-estados romanas de Tiro, Cártago e Útica. Na época colonial cidades como Hong Kong, Cingapura, Gilbratar eram designadas como portos livres com tarifas baixas de importação para América e Europa. Atualmente as Zonas de Processamento de Exportação, não é uma área apenas de circulação de mercadorias, mas de fabricação de mercadorias, sem impostos de importação/exportação ou sobre rendas e propriedades. A ideia das ZPEs foi difundida em 1964 pelo conselho econômico das Nações Unidas como forma de impulsionar o comércio do terceiro mundo. A OIT estima haver pelo menos 350 ZPEs espalhadas em 70 países e empregando 27 milhões de trabalhadores. A OMC estima entre U$ 200 a U$ 250 bilhões em fluxo de comércio nas ZPEs. “Na verdade, os trabalhadores das zonas de exportação de muitas partes da Ásia, do Caribe e da América Central têm mais em comum com trabalhadores temporários de escritório na América do Norte e na Europa do que com trabalhadores de fábrica nesses países do norte. O que está acontecendo nas ZPEs é uma alteração radical na própria natureza do trabalho na fábrica. Esta foi a conclusão de um estudo conduzido em 1996 pela Organização Internacional do Trabalho, que declarou que a realocação drástica de produção nos setores de vestuário e calçado “foi acompanhada de uma mudança paralela na produção do setor formal para o informal em muitos países, com consequências geralmente negativas para os níveis salariais e as condições de trabalho”. O emprego nesses setores, continua o estudo, foi alterado de “empregos de horários integral na fábrica para empregos temporários e de meio expediente e, especialmente no setor de vestuário e calçados, ao emprego cada vez maior de trabalho em casa e em pequenas oficinas.” P. 317 Para o economista liberal conservador de Harvard Jeffrey Sachs o problema não são fábricas demais que exploram a mão-de-obra, pois foi a existência delas que elevou o nível de vida das pessoas em Hong Kong, Cingapura. A ideia é reforçada pelo economista keynesiano Paul Krugman que defende que nos países em desenvolvimento não há escolha entre bons e maus empregos, mas entre trabalhos ruins e nenhum trabalho. Para a maioria esmagadora dos economistas a criação de qualquer tipo de emprego é uma boa notícia para o mundo dos negócios. A crise da Ásia em 1998 mostrou que os economistas não estavam tão certos quanto as ZPEs. Primeiro foi a crise no México em 1994, e o efeito tequila se espalhou para Tailândia, Coreia do Sul, Filipinas e Indonésia na crise asiática de fins dos anos 90. Neste período em que o capital se retraiu, houve uma queda abrupta do poder de compra nessas regiões de livre comércio com a contínua desvalorização da moeda. CAP 10 AMEAÇAS E TRABALHO TEMPORÁRIO: DO TRABALHO À TROCO DE NADA Á NAÇÃO DO AGENTE LIVRE O trabalho com segurança está fora de moda, o empregado é visto como um eterno estudante em busca de um trabalho temporário de verão. O setor de serviços representa 75% do total de empregos nos EUA, sendo o Wal-Mart o maior empregador do ano de 1997. Refundou-se a ideia de que ser freelancer é cool, onde independência e mobilidade está acima de lealdade e segurança. Assim como, as empresas só podem alcançar o nirvana do branding aprendendo a renunciar a produção e ao emprego. Os trabalhadores também são convidados a aderir a sua própria marca, sem dono ou contrato. “Os dois pólos extremos de transitoriedade do local de trabalho_ representados pelo contratador em Cavite temeroso da partida das fábricas, e o CEO temporário revelando planos de reestruturação em Nova York_ trabalham juntos como uma gangorra global. Uma vez que o CEO superstar conquista sua reputação em Wall Street através de missões camicase como leiloar toda a base de fabricação de sua empresa ou iniciar uma fusão grandiosa que economizará milhões de dólares em duplicação de empregos, quanto mais móvel é o CEO, mais instável será a posição da força de trabalho ampliada.” (p. 372) Os altos salários pagos pelos CEOs se justifica que eles estarão motivados o suficiente para tomar decisões difíceis que contrarie a opinião pública. Os CEOs das trinta maiores empresas dos EUA ao anunciarem fusões e demissões em massa foram gratificados com aumento de bonificações e salários. CAP 11 A CRIAÇÃO DA DESLEALDADE: TUDO QUE VAI, VOLTA As corporações transnacionais que controlam 33% dos ativos produtivos do mundo são responsáveis por 5% dos empregos diretos. E embora os ativos das 100 maiores empresas tenham aumentado 288% entre 1990 e 1997, o número de pessoas que essas corporações empregam cresceu menos de 9% neste mesmo período. O sentimento anti- corporativo é a luta pela ameaça de extinção de direitos humanos, trabalhistas e ambientais. “Mas é no exército de milhões de trabalhadores temporários que a verdadeira base de criação de uma reação anti-corporativa mais provavelmente será encontrada. Uma vez que a maioria dos temporários não permanece em um emprego por tempo suficiente para que alguém possa avaliar o valor de seu trabalho, o princípio do mérito _antes um dogma capitalista sagrado_ está se tornando discutível.”(p. 393) O trabalhador temporário não fica tempo suficiente na empresa para criar um sentimento de classe entre empregados e empregadores. O mesmo acontece com o CEO que é um superstar contratado para dar uma alavancada nos negócios, mas logo que os resultados não apareçam em curto prazo ele é substituído por outro. A nova geração está mais acostumada com o desemprego, o que fez abandonar o culto ao trabalho estável. E questionar a permanência no mesmo emprego faz parte do cotidiano das novas gerações, que mesmo localizado na base ou no topo dos empregos corporativos são instigados a questionar o seu status quo e sua “zona de conforto” a todo tempo. CAP 12 CULTURE JAMMING: A PUBLICIDADE SOB ATAQUE “Foi Guy Debord e os situacionistas, musas e teóricos da revolta estudantil de Paris, em maio de 1968, que primeiro articulou o poder de um simples detournement definido como uma imagem, mensagem ou artefato arrancado de seu contexto para criar um novo significado. Mas embora os culture jammers utilizem liberalmente os movimentos de vanguarda do passado_ do dada e do surrealismo ao conceitualismo e situacionismo_ o quadro que esses revolucionários da arte estavam atacando tendia a ser o mundo da arte e sua cultura passiva de espectadores, bem como o ethos antiprazer da sociedade capitalista dominante. Para muitos estudantes franceses do final dos anos 60, o inimigo era a rigidez e o conformismo do homem de empresa; a empresa se mostrava acentuadamente menos atraente. Assim, se o situacionista Asger Jorn atirou tinta em pinturas pastorais compradas em brechós, os culture jammers de hoje preferem alterar publicidade corporativas e outros lugares de discurso corporativo. E se as mensagens dos culture jammers são mais incisivamente políticas que as de seus predecessores, pode ser porque na verdade eram mensagens subversivas nos anos 60_ “Jamais trabalhe”, ”É proibido proibir”, “Transforme seus desejos em realidade”_ agora mais parece slogans da Sprite ou da Nike: “Just feel it”. (p. 411) A culture jamming com sua combinação de atitude hip hop, antiautoritarismo punk e uma fonte de truques visuais tem um grande potencial de vendas, é uma mistura de arte, mídia, paródia e atitude outsider. Jammers engloba vários marxistas e anarquistas que se recusam a dar entrevistas e a aderir a publicidade comercial, que se divertem em fazer paródia da cultura comercial insider e seu status quo. Os adbusters, ativistas anticonsumistas produzem anti-comerciais que acusam a indústria de cosméticos de maltratarem animais ou atacam o consumismo excessivo de automóveis e eletrônicos como responsáveis pela destruição do planeta. A ideia principal é que você é livre e que as grandes mídias corporativas não têm o poder de determinar o que você pensa, veste e come. “O que eles não dizem é que as ondas anteriores de resistência jovem eram dirigidas principalmente contra inimigos como o “establishment”, o governo, o patriarcado e o complexo industrial militar. O culture jamming é diferente_ sua raiva abarca o tipo de marketing em que os cool hunters e seus clientes estão envolvidos quando tentam imaginar como usar o rancor antimarketing para vender produtos. Os novos anúncios das grandes marcas devem incorporar um cinismo jovem não em relação aos produtos como símbolos de status, ou em relação a homogeneização da massa, mas em relação as próprias marcas multinacionais como incansáveis abutres da cultura.” P. 435 A Wieden + Kennedy é uma agência de publicidade americana independente sediada em Portland- Oregon EUA que fez uma campanha da Nike como um tênis feminista e uma campanha da Coca-Cola sobre a alienação pós industrial. Fundada por dois pretensos artistas beatniks Dan Wieden e David Kennedy levaram ícones da contracultura para a publicidade. “Na década de 1930, a própria ideia de uma sociedade de consumo satisfeita e estável retratada na publicidade provocou uma onda de ressentimentos por parte de milhares de americanos que se viam excluídos do sonho de prosperidade. Surgiu um movimento antipublicidade, que atacava a propaganda não por imagens falhas, mas como a face mais exposta de um sistema econômico profundamente falho. As pessoas não se enfureciam com as imagens nas propagandas, mas com a crueldade da promessa obviamente falsa que elas representavam_ a mentira do sonho americano de que o estilo de vida de consumo feliz era acessível a todos no final dos anos 20, e durante toda a década de 30, as promessas frívolas do mundo da publicidade feitas por justaposições estonteantes com os desastres do colapso econômico montaram o palco para uma onda sem paralelo de ativismo de consumidores.” P. 441 A Brand O da Diesel com campanhas agressivamente irônicas aumentaram suas vendas de 2 para 23 milhões em quatro anos. O slogan “imagem não é nada” da Sprite aumentaram suas vendas em 35% em três anos. Bancos, indústria da moda e de alimentos passaram a usar o rancor anticorporativo como arma publicitária. “Talvez o erro de cálculo mais sério por parte dos mercados e da mídia seja a insistência em ver o culture jamming apenas como uma sátira inofensiva, um jogo isolado de um genuíno movimento ou ideologia política. Certamente, para alguns jammers a paródia é percebida, de uma forma pomposa, como um poderoso fim em si mesmo. Mas para muitos outros, como veremos nos próximos capítulos, é simplesmente um novo instrumento para enfeitar a artilharia anticorporativa, mais eficaz para romper a barreira da mídia que a maior parte deles. E como veremos, os adbusters estão atualmente agindo em muitas frentes diferentes: as pessoas que escalam outdoors são com frequência as mesmas que organizam manifestações contra o Acordo Multilateral de Investimento, montando protestos nas ruas de Genebra contra a Organização Mundial do Comércio e ocupando bancos para protestar contra os lucros que estão obtendo com as dívidas dos estudantes. O adbusting não é um fim em si mesmo. É apenas uma ferramenta_ uma entre muitas_ que está sendo usada, emprestada e tomada em um movimento político muito maior contra a vida de marca.” (p. 447) CAP 13 RESGATE AS RUAS (P. 450) Para lutar contra a lei de justiça criminal, a cena club (antes preocupada em encontrar o próximo lugar onde dançar a noite toda) forjou novas alianças com subculturas mais politizadas que também estavam animadas com esses novos poderes de polícia. Um termo comum começou a surgir entre essas contraculturas: O direito ao espaço não colonizado_ para morar, se reunir, dançar ou reivindicar_. O que brotou dessas colisões entre Djs militantes anticorporações, artistas políticos e ecologistas radicais pode ser bem o movimento mais vibrante desde 68 em Paris “Reclaim The Streets” (RTS). O carnaval de RTS é formado por ciclistas, homens em perna de pau, ravers, tambores. Os membros do RTS estão dispostos a tirar o sossego das ruas, ocupar os espaços, implementando na prática uma forma de vida sem controle comercial. O Reclaim The Streets é a contrapartida urbana da subcultura punk “faça você mesmo” da Inglaterra. Colocados à margem da economia pelo governo conservador de Margaret Thatcher e com poucos motivos para aderir ao trabalhismo de centro-esquerda de Tony Blair, o movimento anárquico depositou seu entusiasmo em cooperativas de alimentos, mídia independente, festivais gratuitos de música e ocupações de propriedades. O RTS não acredita numa fuga para uma comunidade rural como os hippies. Eles pregam a ocupação da cena urbana “aqui e agora”. Os eventos visam resgatar as ruas dos carros, os prédios da indústria imobiliária, os campus universitários como espaços de protestos. O lema é ocupar os espaços e resgataras ruas. CAP 14 CRESCE O MAU-HUMOR: A NOVA MILITÂNCIA ANTICORPORAÇÃO A marca como estilo de vida difundido por marcas como Nike, Apple, Coca-Cola faz com que os consumidores se sintam cúmplices e sócios do empreendimento. Não é a lealdade do empregado vitalício ou do chefe corporativo, mas uma conexão afetiva entre fé e celebridade emocionalmente intensa. Os boicotes do passado contra o Apartheid na África do Sul eram nacionais, mas agora o ataque é contra o sistema econômico global. Estratégias utilizadas por grupos como Anistia Internacional, Human Rights Watch estão internacionalizando os protestos. No passado se defendia o investimento em países do terceiro mundo, mas o conceito foi questionado, pois governos corruptos lucravam com esses investimentos e as autoridades locais faziam vista grossa para abusos dos direitos humanos, trabalhistas e ambientais. Então as entidades de defesa dos direitos humanos passaram a distinguir negócios da defesa de direitos, pois percebiam que em nome do progresso econômico muitas violações aos direitos humanos aconteciam. Corporações são muito mais do que fornecedoras de produtos, são as forças políticas mais poderosas de nossa época. Entre as 100 maiores economias do mundo, 51 são multinacionais. Muitos movimentos sociais viram que eleger governos liberais, trabalhistas ou social-democratas não fazia diferença, pois a política econômica de favorecimento das grandes corporações era a mesma. É antiga a luta das corporações de barrar regulamentos transnacionais. Quando em 1986 o governo dos EUA tentou criar a Comissão sobre Corporações Transnacionais das Nações Unidas para examinar o impacto ambiental e as práticas ilícitas operadas por estas transações comerciais a iniciativa foi acusada de influência comunista no ambiente de negócios. Os desrespeitos as regulamentações da ONU e de seus órgãos como OIT e OMC deu origem a um grupo de ONGs e cidadãos organizados que eram mais efetivos em protestar contra práticas abusivas do que governos e suas instituições de polícia e justiça. Os anos de 1995-1996 ficaram conhecidos nos EUA como anos das fábricas exploradoras, que vieram à tona o uso do trabalho infantil e da exploração de trabalho escravo na indústria têxtil de marcas como Nike, Gap, Guess, Tommy Hilfiger e Ralph Lauren. Foram feitas denúncias de associação das grandes marcas com governos opressivos da Birmânia, Indonésia, Colômbia, Nigéria e Tibete. O ano de ataque às marcas se estendeu, e não há sinais de recuo. O branding assumiu uma relação direta entre vendedor e comprador ao transformar marcas em provedores de mídia. Mas essa conexão é volátil, é um relacionamento entre fã e celebridade, emocionalmente intensa. Essa relação superficial dos produtores e consumidores tem deixado de lado a alienação dos consumidores de atividades globais e o investimento econômico no sucesso do trabalhador-consumidor. CAP 15 O BUMERANGUE DA MARCA: AS TÁTICAS DE CAMPANHAS BASEADAS NA MARCA (P.498) Separar o mundo da produção do mundo da propaganda e da publicidade é uma receita antiga do marketing dos negócios. A criação de zonas de processamento de exportação foi criada na ilusão de que os produtores do sul não possuem contato com os consumidores do norte. Assim milhares de ONGs dos países desenvolvidos do ocidente se especializaram em conscientizar os trabalhadores das zonas de processamento das exportações dos preços exorbitantes a que são vendidas as roupas que elas produzem ao custo de míseros centavos. A ZPE de Cavite nas Filipinas escondiam de suas trabalhadoras que ali se produziam peças para Gap, Guess, Old Navy, entre outras. As feministas começaram a refletir sobre o significado das etiquetas em suas roupas “Made in China” ou “Made in Hong Kong”. Ao mesmo tempo que o mundo das marcas estão se valendo do uso transnacional do capital e do trabalho, os trabalhadores de todo mundo podem se apropriar da genuína infraestrutura de uma solidariedade global. A rede globalizada das marcas criada para maximizar a produção e minimizar os custos, pode ser utilizada por trabalhadores que como aranhas para se deslocar pela rede tecida pelo capital das corporações. CAP 16 A HISTÓRIA DE TRÊS LOGOS: A NIKE, A SHELL E O MCDONALDS O CEO da Nike Phil Knight é herói nas faculdades de administração com técnicas de marketing, compreensão de branding e uso pioneiro da terceirização. Em 18 de outubro de 1997 85 cidades em 30 países organizaram um evento anti Nike pela Campaign for Labor Rights. Também foi a Nike o primeiro alvo da campanha contra branding corporativo, alvo de mais de 1500 artigos publicados, o que levou a empresa a criar o setor de responsabilidade corporativa. O poder de branding da Nike entrelaça o público suburbano das periferias com a magia da cultura, patrocinando astros do esporte e da arte como Michael Jordan, Spike Lee, Tiger Woods e os rappers da cultura hip-hop. “Mas pode ser útil pensar que umas das principais razões para que a juventude negra urbana só consiga sair do gueto com o rap e os arremessos de basquete é que a Nike e outras multinacionais estão reforçando imagens estereotípicas da juventude negra e ao mesmo tempo acabando com os empregos. Como os deputados americanos Bernie Sanders e Marcy Kaptur declararam em uma carta à empresa, a Nike teve um papel essencial no êxodo industrial dos centros urbanos. <A Nike liderou o abandono dos trabalhadores na produção dos EUA e suas famílias. (...) Aparentemente, a Nike acredita que os trabalhadores nos EUA são bons o bastante para comprar seus produtos, mas não valem o suficiente para fabricá-los.” (p. 535) O movimento de rappers e ativistas nos EUA levaram 3 reivindicações a empresa Nike: 1. Quem trabalha na Nike em todos os países do mundo devem receber um salário decente; 2. Os tênis da marca devem ser vendidos a um preço justo; 3. A Nike deve investir mais em comunidades carentes porque são o principal alvo de sua publicidade O que obrigou o CEO da Nike Phil Knight em 1998 a reconhecer que seus calçados estavam se tornando sinônimos de trabalho escravo, horas extras forçadas e abusos trabalhistas arbitrários. Apresentando ao público propostas como proibição do trabalho infantil em suas fábricas e investimento na melhoria da qualidade do ar. Desde 1995 a Nike vinha num crescimento médio anual de 34% em suas vendas e em 1999 a empresa viu seus ganhos despencarem em 70%, levando-a cortar contratos e empregos. Fábricas foram fechadas nos EUA em Portland e Maine e transferidas para o México e Brasil. “A Nike queria ser uma empresa de esportes, disse-nos Knight, queria estar envolvida com o conceito de esporte, depois a ideia de transcendência através dos esportes; em seguida quis se relacionar com a determinação pessoal, os direitos das mulheres, a igualdade racial. Queria que suas lojas fossem templos, sua publicidade uma religião, seus trabalhadores uma tribo. Depois de, nos falar essa baboseira de marca, voltar atrás e dizer <Não olhe para nós, nós só fazemos calçados>, parece risivelmente cínico.” (p.545) Em 1995 os militantes do Greenpeace foram contra o plano da Shell de se desfazer de uma plataforma de petróleo em alto mar, afundando-a no oceano atlântico a 240 km da costa da Escócia, já que o afundamento custaria 16 milhões e uma retirada por terra era estimada em 70 milhões. O escândalo levou a uma onda de comoção na Europa com protestos em postos de gasolina, registrado a queda de 20% a 50% das vendas da Shell na Alemanha. A Shell Nigéria desde a década de 50 já extraiu 30 bilhões das terras do povo Ogoni, no delta do rio Níger. A receita do petróleo significa 80% das receitas daeconomia nigeriana e mais da metade da exploração é realizada pela Shell. Sob a liderança do escritor nigeriano Ken Saro-Wiwa o movimento pela sobrevivência do povo Ogoni (MOSOP) lutou por compensações pela exploração de suas terras. Em resposta, o general presidente da Nigéria (1993 a 1998) Sani Abacha sufocou protestos pacíficos com mortes e torturas. Os escândalos vieram à tona na imprensa internacional, levando a Shell a se retirar das terras Ogoni em 1993. Em 10/05/1994 o escritor Ken Saro-Wiwa foi preso a mando do general Sani Abacha e condenado à morte por um tribunal militar com mais oito ativistas. O Greenpeace também foi responsável por acusar o Mcdonalds de desmatamento de florestas tropicais para criação de gado, obrigando pequenos camponeses a venderem suas terras para a produção ostensiva de gado. A Ong ambientalista acusou a rede multinacional de crueldade no trato dos animais, falta de cuidado no descarte do lixo, produção de alimentos prejudiciais à saúde e propaganda perniciosa voltada às crianças. Os ativistas ambientais britânicos, membros do Greenpeace, a jardineira comunitária Helen Steel e o carteiro David Morris organizaram uma campanha contra o Mcdonalds na Grã Bretanha pelos prejuízos causados ao meio ambiente e a saúde humana. Após 313 dias de julgamento, o juiz Rodger Bell considerou que o panfleto criado pelos ativistas que dizia que o Mcdonalds era responsável pela fome no terceiro mundo, destruição de florestas tropicais e por produzir alimentação não-saudável era caluniosa, condenando-os a pagar uma multa de 60 mil libras (U$ 98 mil dólares) à empresa. Mesmo após a condenação judicial, os ativistas diziam não estar arrependidos, pois o processo foi uma forma de colocar luz ao problema, mobilizando a opinião pública mundial a refletir sobre a cadeia de produção de alimentos. O que importava era o julgamento público e a comoção internacional com o problema. “Pode ser isso mesmo, mas a net é mais do que uma ferramenta de organização_ ela se tornou um modelo de organização, um projeto para a tomada de decisão descentralizada, porém cooperativa. Ela facilita o processo de compartilhamento de informação a tal grau que muitos grupos podem trabalhar em harmonia com outros sem a necessidade de obter consenso monolítico (o que é frequentemente impossível, de qualquer forma, dada a natureza das organizações de militância). E porque são tão descentralizados, esses movimentos estão prestes a forjar ligações com suas várias ramificações em todo o mundo, surpreendendo-se continuamente com o fato de suas pequenas vitórias pouco noticiadas viajarem tão longe, com a minúcia com que fragmentos de pesquisas são reciclados e absorvidos. Esses movimentos estão apenas começando a perceber seu próprio alcance e, como mostrarão os estudantes e comunidades locais descritos no próximo capítulo, estão percebendo seu próprio poder.” (569) CAP 17 POLÍTICA EXTERNA LOCAL: ESTUDANTES E COMUNIDADES ENTRAM NA BRIGA Alguns estados dos EUA como Maryland, Califórnia e Massachussets tentaram aprovar leis próprias de bloqueio econômico contra fornecedores que abusam dos direitos humanos, trabalhistas e ambientais no processo de produção. Mas as leis locais são vetadas pelo governo federal. Durante o apartheid na África do Sul, 5 estados, 9 cidades e 59 universidades dos EUA aprovaram resoluções que proibiam estabelecer negócios com o país africano. Mas os países que sofrem sanções recorrem a órgãos multilaterais como ONU e OMC alegando discriminação por questões de ideologia política. Na Nigéria, após os escândalos de exploração das terras do povo Ogoni, a petrolífera europeia Shell foi substituída pela americana Chevron, e o substituto foi acusado das mesmas denúncias de desrespeito aos direitos dos povos locais. O que faz se pensar que a questão é mais ampla do que a atuação de uma marca, mas envolve toda a cadeia produtiva de exploração do petróleo. CAP 18 ALÉM DA MARCA: OS LIMITES DA POLÍTICA BASEADA NA MARCA Para Campaign for Labor Rights, organização em defesa dos direitos humanos, ao debater sobre a produção da Nike, McDonald´s ou Shell, estamos debatendo a nova economia global. Mas o alcance se vê limitado quando se reduz a uma substituição de marcas, da Nike pela Adidas, ou da Shell para Chevron. E que alguns ativistas se viram acuados, quando a exploração da força de trabalho na produção têxtil permaneceu, mesmo com a saída da Nike do país. O mesmo aconteceu com a Nigéria, com a substituição da Shell pela Chevron na exploração do petróleo. Quando o objetivo da organização se limita a combater uma marca o alcance é limitado, não se visa uma causa coletiva, apenas o ataque direto e pessoal a uma marca privada. “O mesmo não pode ser dito da maioria das multinacionais no setor de recursos naturais. Todas as multinacionais de mineração, gás natural, sementes e extração de madeira comercializam mercadorias praticamente sem marca que elas vendem a governos e clientes corporativos, que depois as transformam em bens de consumo. Uma vez que as empresas de extração de recursos naturais não vendem diretamente ao público, elas mal se preocupam com a sua imagem pública_ um fator que traz à baila o que é talvez a limitação mais significativa das campanhas baseadas na marca: elas podem ficar impotentes diante de corporações que escolhem não fazer parte do jogo de branding.” P. 608 Há o risco de acreditar que se pode salvar o mundo através de compras éticas e um estilo de vida politicamente correto através apenas do uso do rótulo “sem exploração” como criado pelo governo do democrata Bill Clinton nos EUA (1993 a 2001). Porém os militantes dos países subdesenvolvidos do terceiro mundo não podem boicotar aquilo que não consomem. Os códigos de conduta das empresas são repletos de boas intenções com o alto padrão da ética e do respeito aos direitos humanos. Porém eles se restringem aos países-sede e são escritos na língua de origem das marcas, sem tradução para as filiais da Ásia, África e América Latina. CONCLUSÃO: CONSUMISMO E CIDADANIA Os trabalhadores negam a eficácia dos códigos de conduta, considerados ineficientes e uma solução vinda de cima para baixo que tira o poder da base de organização da classe trabalhadora. “A sensação claustrofóbica de desespero que com tanta frequência acompanha a colonização do espaço público e a perda do emprego seguro começa a se dissipar quando alguém começa a pensar nas possibilidades de uma sociedade verdadeiramente de inclinações globais, uma sociedade que incluiria não só economia e capital, mas também cidadãos globais e responsabilidades globais. Vai levar algum tempo até que nós encontremos nossa posição nessa nova arena internacional, mas graças em grande parte à marcha para o desastre proporcionado pelas marcas, estamos mais perto do que nunca.” P. 634 “Quando essa resistência começou a tomar forma em meados dos anos 90, parecia ser um conjunto de protecionistas que se reuniram sem procedimentos específicos para lutar contra tudo que fosse global. Mas à medida que as conexões foram se formando ao longo das linhas nacionais, surgiu um programa diferente que envolvia à globalização mas buscava tomá-la das garras das multinacionais. Acionistas éticos, culture jammers, participantes do Reclaim The Streets, organizadores de McSindicatos, ativistas hackers de direitos humanos, combatentes universitários de logos e vigilantes corporativos da internet começaram a exigir alternativas centradas no cidadão ao domínio internacional das marcas. Essa demanda, às vezes sussurrada em algumas áreas do mundo por medo de que desse azar, estão formando uma resistência_ tanto dealto tecnologia quanto popular, tanto focalizada quanto fragmentada_ que é tão global, e tão capaz de ação coordenada, quanto as corporações multinacionais que tentam subveter.” (p.638) Os protestos de Seattle em 1999 acusados de inócuos e sem propósitos culminaram com a organização do Fórum Social Mundial em 2001 em Porto Alegre, Brasil, se espalhando por todas as partes do mundo. A organização do FSM localiza-se nos moldes dos novos movimentos sociais sem liderança definida, sem hierarquia e sem pautas fixas, que não tem uma receita única para realidades díspares. “Se o neoliberalismo é o alvo comum, há também um consenso crescente de que é na democracia participativa no nível local_ seja através de sindicatos, associações de bairros, fazendas, aldeias, grupos anarquistas ou autogoverno aborígene_ que começa a construção de alternativas. O tema comum é um compromisso abrangente de autodeterminação e diversidade: diversidade cultural, biodiversidade e, sim, diversidade política. Os zapatistas chamam a esse movimento de um “não” e muitos “sins”, uma descrição que se opõe à caracterização de que este é um só movimento, e desafia o pressuposto de que deve ser assim.” (p.645) O que está surgindo é um modelo de militância política que espelha as vias orgânicas, descentralizadas e interligadas da internet, como uma rede de eixos de raios e não uma teia. São centenas de raios autônomos que assumem a forma de grupos de afinidade, sem liderança ou centro entre o caos e a poesia. As instituições que organizavam os cidadãos como sindicatos, partidos e religiões estão em declínio. As redes criadas pela internet são eficazes em volume e intensidade, mas são fracas em poder de síntese e organização. Por isso corre-se o risco de organizar protestos com pautas vazias que culminam em episódios de vandalismo e violência gratuita, pois toda atitude é permitida e não há filtro entre os participantes. O que diferencia o modelo zapatista de guerrilha é que a meta não é assumir o controle, mas ocupar espaços autônomos, onde a democracia, a liberdade e a justiça possam prosperar. Esses espaços livres que reclamam por terra, produção agrícola comunal e de resistência à privatização um dia criará um contra poder de Estado. Experiências que já podem ser observadas nos centros sociais anarquistas da Itália, no movimento dos trabalhadores sem-terra do Brasil e nos estudantes zapatistas da Universidade Autônoma do México. “É mérito desse movimento jovem que ele tenha rechaçado todos esses programas e rejeitado o manifesto generosamente doado de todos, insistindo em um processo democrático e representativo aceitável para levar sua resistência ao nível seguinte. Será um plano de dez pontos? Uma nova doutrina política? Talvez não. Talvez, fora dessa rede caótica de eixos e raios, algo mais vai surgir: não um projeto de algum novo mundo utópico, mas um plano para proteger a possibilidade de muitos mundos_ <um mundo>, como dizem os zapatistas, contendo <muitos mundos>. Talvez, em vez de provocar o choque frontal desses dois proponentes do neoliberalismo, esse movimento dos movimentos os cerque por todos os lados.” (p. 660)