ADOLESCENCIA CALIGARIS
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ADOLESCENCIA CALIGARIS


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FOLHA EXPLICA
A ADOLESCÊNCIA CONTARDO
CALLIGARIS
1. ELEMENTOS DE DEFINIÇÃO
A ADOLESCÊNCIA COMO MORATÓRI A
Imagine que, por algum acidente, vo seja transportado, de uma hora para outra, a uma socied ade totalmente
diferente. Dig amos que o avião no qual você estava sobrevoando um canto recôndito da Amazônia teve uma
dificuldade técnica. O piloto conseguiu aterrissar, mas o aparelho está destruído . Não há como esperar socorro,
nem como sair d o fundo selvagem da f loresta. Por sorte, uma tribo de índios que nunca encontrar am homens
modernos, mas que são relativamente bem-humorados, adota você e seus amigos. Será necessário, im aginemos,
12 anos para que vocês se entrosem com os usos e costumes de sua nova trib o - desde a linguagem até o
entendimen to dos valores da sociedade em que aparentem ente vocês viverão o resto de seus dias.
Os 12 anos passaram. Você agora fala correntemen te a língua, conhece a s leis e regras de sua n ova tribo,
na verdade se sente um d eles. Entre as coisas que vo aprendeu, está o fato evidente de que, nessa sociedade, é
importante sobressair e adquirir destaque. E, para se destacar, há principalmen te do is cam pos, seja você hom em
ou mulher: a pesca com o arpão e as seren atas d e b erimbau. Em outras palavras, n essa socied ade é b om e
necessário ser um exce lente pescador com o arpão e to car mag istralmente o berimb au -de-boca. Qu em melhor
pesca e toca - todos percebem- é claramente mu ito mais feliz do que os outro s.
Você está muito sati sfeito com isso. Pois, d urante os 1 2 anos, você olhou, imitou e aprendeu. Você na
verdade se acha e talvez seja mesmo ótimo na pesca com o arpão - pelos anos na selva, seu corpo está treinado,
forte e r ápido - e está prestes a desaf iar qual quer um numa serenata de berimbau.
Nessa altura, os anciões da tribo lhe comunicam o seguinte: talvez você tenha tamanho e perícia
suficientes para encarar tanto um surubim de dois metros quanto um berimbau d os mais sofisticados, mas é
melhor esper ar mais dez an os antes de vir fazer propriamente parte da tribo e, portanto, competir d e igual par a
igual com os ou tros mem bros. Naturalm ente, os anciões acrescentarão que esse "pequeno" atraso é inteiramente
para seu b em. Eles amam você e por isso q uerem que ainda por um tempo você seja protegido dos
perigosíssimos suru bins que andam por ai. Isso sem falar dos berim baus ...
Portanto, você vai poder se preparar m elhor ainda para o d ia em que será enfim reconh ecido como
membro da tribo. Que tudo isso, acrescen tarão também os anciõ es, n ão constitua frustração nenhuma, pois na
verdade a tribo inteira considera que v ocê tirou a sorte gr ande e qu e os ditos d ez ano s serão os mais felizes d e
sua existência. Vo - acr escentam eles - não ter á as pesadas responsabilidad es dos membros da tribo. Ao
mesmo tempo, p oderá pescar e tocar berimbau à vontade - será ap enas como treino, de brincadeira, mas
justamente po r isso serão atividades desp reocupadas.
Agora, seriamente, como você acha qu e encararia o anúncio e a perspectiva desses dez anos de limbo?
Logo agora q ue você achava que seu berimbau ia sed uzir qualquer ou vido e sua d estreza transfixar peixes de
olhos quase f echados ...
É bem provável que você passasse por um leque variado de sentimentos: raiva, ojeriza, desprezo e enfim
rebeldia. Se h ouvesse uma tribo inimiga, seria o mom ento d e considerar u ma traição. No mínimo, v ocê voltaria
a se ag rupar co m os companheiros do avião, que talvez você tivess e perdido de vista e que agora estar iam
lidando com a imposição da mesma moratória. Juntos, vocês acab ariam co nstituindo uma espécie de tribo n a
tribo, o utorgando- se mu tuamente o reconhecimento que a sociedade parec e temporariamente negar a vo cês
todos.Vocês se afastariam de suas famílias (adotiv as, no caso) e viveriam no e pelo grupo, onde se sentem
tratados como homens e mulh eres de verd ade. Circulan do em grupo, imp ondo sua pr esença rebelde pelas r uas
da aldeia se po ssível nas horas m enos adequadas -, vocês seriam fo nte de preocupação e med o, ob jeto de re -
pressão e, qu em sabe, de inveja.
Pois b em: o que acontece com nossos adolescentes é parecido co m o destin o do s aeronáufr agos d essa
pequena história. Ao longo de mais ou menos 12 anos, as crianças, por assim dizer, se integram em no ssa
cultura e, entre outras coisas, elas ap rendem que dois campos nos qu ais imp orta se destacar p ara chegar à
felicidade e ao reconhecimento pela comunidade: as relaçõ es amorosas/sexuais e o poder (ou melhor, a
potência) no ca mpo produ tivo, f inanceiro e social. Em outras palav ras, elas ap rendem que duas qualidades
subjetivas que são cruciais para se fazer valer em nossa trib o: é necessário ser desejáv el e invejável.
Enfim, esse aprendizado mín imo está solidamente assimil ado. Seus corpos, que se tornaram desejantes e
desejáveis, poderiam lhes permitir amar, copular e gozar, assim como se reprodu zir. Suas forças poderiam
assumir qualquer tarefa de trabalho e começar a leva -las n a direção de invejáveis su cessos sociais. Ora, logo
nesse instante, lhes é co municado que n ão está bem na hora aind a.
Em primeira aproximação, eis então como co meçar a definir um adolescente. I nicialmente, é alguém
1. que teve o tempo de assimilar o s valores m ais banais e mais bem compartilhad os na comunidade ( por
exemplo, no no sso caso: destaque p elo sucesso financeiro /social e amoroso/sexu al);
2. cujo corpo chegou à matu ração necessária para que ele po ssa efetiv a e eficazmente se con sagrar às
tarefas que lh es são apontadas por esses valo res, compe tindo de ig ual para igual com todo mundo;
3. para quem , nesse exato momento, a comunidade impõe uma m oratória.
Em ou tras palavras, há um sujeito cap az, instruí do e treinado por m il caminhos - pela esco la, pelos pais,
pela míd ia - para adotar os ideais d a comunidade. Ele se torna um adolescente quando, apesar de seu corpo e
seu espírito estarem prontos para a competição, não é rec onhecido com o adulto. Aprende que, p or v olta de mais
dez anos, f icará sob a tutela dos adultos, pr eparando -se para o sexo, o am or e o trabalho, sem p roduzir, ganhar
ou amar; ou en tão produzindo, ganh ando e amando, só que margin almente.
Uma v ez transm itidos os valores sociais m ais básicos, um tem po de susp ensão en tre a cheg ada à
maturação dos corp os e a autorização de realizar os ditos v alores. Essa autorização é postergad a. E o tempo de
suspensão é a ad olescência.
Esse fenôm eno é n ovo, quase especificam ente co ntemporâneo. É com a modernidad e tardia (com o
século que m al acabou) que essa moratór ia se instaura, se prolonga e se torna enfim m ais uma idade da vida.
A ADOLESCÊNCIA COMO REAÇÃO E REBELDIA
A imposição dessa mor atória seria razão suficiente para que a adolescência assim criad a e man tida fosse uma
época da vida no mínimo inquieta.
Afinal, n ão seria estranho que moç as e rapazes nos reser vassem algu ma sur presa desag radável, u ma vez
impedidos d e se realizar como seus corpos permitir iam, não reconhecidos como pares e adu ltos pela
comunidade, logo quando passam a se julgar enfim competitivos.
Pensem de nov o em como vocês reagiriam na hipo tética tr ibo: mesmo supondo que evitassem decisões
drásticas (cair fora, entrar em g uerra aberta com os an ciões, trair a trib o etc.), é presumÍvel que passa riam por
um per íodo de contestaçã o aguda. Começa riam a pescar com dinamite e a tocar teclado eletrônico em vez de
berimbau. Inventariam e tentariam impor (ev entualmente à força) meios de obter r econhecimento totalmente
inéditos para a tribo. Essas são apenas su gestões benign as.
Ora, o caso dos jovens modernos é bem pior do que o destino dos aeronáufragos na hospitaleira tribo da
selva amazônica. Pois, além de instruir os jovens no s v alores essenciais q ue eles dev eriam per seguir para
agradar à comu nidade, a mo dernidade também promove ati vamente u m ideal que ela situa acim a de qualquer
outro valor: o ideal de independência. Instigar os jovens a se tornarem indivíduos in dependentes é uma
peça-chav e da educação moderna. Em nossa cultura, um sujeito ser á reconheci do como adulto e responsáv el na
medida em qu e viver e se afirmar com o independente, autônom o como os adu ltos dizem que são.
Isso torna ainda mais p enoso o hiato que a adolescência in staura entre aparente m aturação dos co r pos e
ingresso na vida adulta. Apesar da m aturação dos corpos, a autonomia reverenciada, idealizada por todos co mo
valor supr emo, é reprimida, deixada par a mais tarde.
Desde vale mencionar qu e a desculpa normalmen te produzida para justificar a moratória da
adolescência é problemática. Pretende-se que, ap esar da maturação d o corpo, ao dito adolescen te f altaria
maturidade. Essa idéia é circular, pois a espera que lhe é imposta é justamente o q ue o man tém ou torna
inadaptado e im aturo.
Não é difícil verificar que, em ép ocas nas quais essa m oratória não er a imposta , jovens d e 15 anos
levavam ex ércitos à batalha, coman davam navios ou simp lesmente tocavam negócio s com competên cia.
O adolescente não pode evitar perce ber a contr adição entre o id eal de autonomia e a continuação d e sua
dependência, imposta pela morató ria.
A ADOLESCÊNCIA IDEALIZADA
Tal contradição torna-se aind a mais enigmática para o adolescente na m edida em que essa cu ltura parece
idealizar a ad olescência como se fosse um tempo p articularmente feliz. Com o é possível? Se o adolescente é
privado de a utonomia, se é afastado da rea lização p lena dos valores cruciais d e nos sa cultura, como pode essa
mesma cultura imaginar que ele seja feliz?
O ado lescente po deria facilmente concluir que essa idealização da época d a vida que ele está atrav essando
é uma zombaria que agrava sua insatisfação. Ele certamente tem direito de se irritar com isso: é difícil entender
por que os adultos (que em p rincípio deveriam conhec er a adolescência, por terem passado p or em algum
momento) achariam graça n essa ép oca da vida ou a lembrariam com nostalgia. Tentaremos ex plicar essa
idealização, sobre tudo no Capítulo 4. Mas, seja como for, o adolescente vive um paradoxo: ele é frustrado pela
moratória imp osta, e, ao mesmo tempo , a idealização social da ado lescência lhe orden a q ue seja feliz. Se a
adolescência é um ideal para todo s, ele pode ter a delicad eza de ser feliz o u, n o mínimo , fazer
barulhen tamente de conta.
Em nossa cultura, a p assagem p ara a vida adulta é um verdadeiro en igma. A ad olescência não é uma
moratória mal justificada, contradizend o valo res cr uciais como o idea l de autonomia. Para o ad olescente, ela
não é só uma sofrida privação de reconhecimen to e independência, misteriosamente idealizada pelos adultos. É
também um tempo de transição, cuja duraç ão é mister iosa.
DURAÇÃO DA ADOLESCÊNCIA
O começo d a adolescência é facilmente observável, por se tratar d a mudança fisiológica produzida pela
puberdade. Trata-se, em outras palav ras, de uma transformação substancial do corpo do jovem , que ad quire as
funções e os atribu tos do corpo adulto. Querendo circunscrever a adolescência no tempo, co mo id ade da vida,
chega-se fac ilmente a um consenso no qu e co ncerne ao seu começ o. Ele é decidido pela puberdad e, ou seja,
pelo am adurecimento dos ór gãos sexuais. Alguns dirão que a adolescên cia propriamen te dita co meça um ou
dois ano s depo is da puberdade, pois esse seria o tempo necessário para que, de alguma fo rma, o esto rvo
fisiológico se tran sformasse numa espécie d e identidade adolescente conso lidada. Outros dirão, ao contr ário,
que a adolescência começa antes da puberdade, pois esta é antecipada pela adoção precoce d e comportamentos