Descrição de lesões
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Descrição de lesões


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ENCONTRO NACIONAL DE DIAGNÓSTICO VETERINÁRIO (ENDIVET)
28 de junho de 2008 – Campo Grande, MS.
Minicurso I – Primeira parte
DESCRIÇÃO E INTERPRETAÇÃO MACROSCÓPICA DAS LESÕES
Claudio Barros1, Daniel Rissi1,2 e Raquel Rech2
1Universidade Federal de Santa Maria, claudioslbarros@uo.com.br, danielricardorissi@yahoo.com.br,
2University of Georgia, Athens, GA, keka_rrr@yahoo.com.br
A descrição das lesões deve conter os seguintes aspectos: (1) distribuição, (2) cor, (3)
forma, (4) tamanho, (5) consistência e (6) certos aspectos especiais, como peso, som,
presença de líquido e odor. A interpretação da lesão é o que se conclui (diagnóstico) desses
sete aspectos avaliados. várias maneiras de se comunicar o diagnóstico de uma lesão:
(a) o diagnóstico morfológico é um resumo da lesão sem especificar a causa (exemplo:
enterite granulomatosa, difusa, acentuada). Nessa interpretação (diagnóstico morfológico)
está implícito que a lesão é inflamatória, ocorre no intestino, que atinge todo (ou quase
todo) o intestino e que é grave. O nome do órgão sempre deve constar do diagnóstico
morfológico. (b) O diagnóstico etiológico restringe-se a indicar apenas duas coisas – o local
e o agente causador da lesão (exemplo: enterite micobacteriana). (c) A etiologia indica
apenas a causa da doença. Não implica em colocar o nome do órgão, a distribuição da lesão
ou qualquer outro tipo de informação (exemplo: Mycobacterium paratuberculosis). (d)
Nome da doença/condição: nesse tipo de diagnóstico é necessário que se coloque o nome
de uso comum da doença (exemplo: doença de Johne).
1. DISTRIBUIÇÃO
Distribuição é o arranjo espacial das lesões. Quanto à distribuição, as lesões podem
ser focais, multifocais (e suas subdivisões), difusas, segmentares, simétricas ou aleatórias.
Cada um desses aspectos deve ser descrito objetivamente. A técnica para descrevê-los será
apresentada a seguir.
Focais
Lesões focais ou multifocais são bem definidas num fundo normal. Esse tipo de lesão
é subdividido em lesões focais, multifocais, multifocais a coalescentes, miliares e
disseminadas. Lesões focais (apenas uma lesão) são fáceis de distinguir, pois sobressaem
num fundo normal (Figura 6). Lesões multifocais são lesões múltiplas distribuídas pelo
órgão e separadas entre si por tecido não afetado (Figuras 7-11). Quando alguns focos de
lesões multifocais se juntam (coalescem) formando um foco maior, a lesão é denominada
multifocal a coalescente (Figura 9). Uma apresentação multifocal a coalescente indica que a
lesão é mais antiga que uma multifocal simples. Quando os focos são numerosos e
diminutos (Figura 10), as lesões multifocais são denominadas miliares (pela analogia com o
número e tamanho dos focos com as sementes de painço (millet em inglês, daí miliar).
Quando as lesões multifocais aparecem em todo um órgão ou sistema são denominadas
multifocais disseminadas (Figura 11).
Difusas
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Nas lesões difusas tudo (ou quase tudo) no campo de referência aparece afetado (Figura
12). São, em geral, mais difíceis de detectar porque não contraste com tecido normal,
como ocorre nas lesões focais.
Simétricas
A distribuição simétrica ocorre quando a lesão se distribui ao logo de uma subunidade
anatômica ou fisiológica. A lesão hepática centrolobular causada por uma planta de ação
hepatotóxica aguda ou as lesões inflamatórias em ductos biliares são lesões simétricas pois
seguem um padrão anatômico do centro do lóbulo ou da árvore biliar. Lesões simétricas
bilaterais no encéfalo podem indicar uma alteração tóxica como na intoxicaçção por
Aeschynomene indica em suínos, enterotoxemia pela toxina de Clostridium perfringens tipo
D (Figura 13) em ovinos e intoxicação por Centaurea spp. em eqüinos.
Segmentares
Lesões segmentares indicam que uma porção bem definida do órgão está anormal. Na
maioria das vezes, a parte afetada é definida por uma unidade vascular (Figura 14).
Aleatórias
Ao contrário das lesões simétricas, as lesões aleatórias não obedecem a qualquer
padrão anatômico e ocorrem sem referência a qualquer estrutura anatômica específica. Por
exemplo, pontos de necrose distribuídos aleatoriamente no parênquima hepático ou
abscessos em uma pneumonia embólica.
2. AS CORES DA PATOLOGIA
A cor normal de um tecido é constituída pela sua cor própria (geralmente branca),
acrescida da cor dos pigmentos especiais, por ex., córtex da adrenal em bovinos e eqüinos,
corpo amarelo e quantidade de sangue presente. Órgaõs que têm quociente sangue/tecido
alto, como baço, fígado e rim, são mais escuros. Tecidos que têm um quociente
sangue/tecido baixo, como o pulmão e encéfalo, são claros. Lesões podem assumir a cor
vermelha, amarela, preta, verde, serem translúcidas, brancas ou marrons.
Vermelha
Quando uma lesão é vermelha (seja um vermelho vivo ou um vermelho escuro) é por
que maior quantidade de sangue no tecido. Condições onde ocorre avermelhamento do
tecido incluem hiperemia (Figura 17), congestão passiva (Figura 18) e hemorragia (Figura
19). Um vermelho vinhoso ocorre em tecidos em conseqüência da embebição por
hemoglobina, usualmente, mas nem sempre, uma alteração pós-morte; em conseqüência da
lise das hemácias a hemoglobina se difunde nos tecidos conferindo essa cor característica.
Embebição por hemoglobina pode ser uma lesão antemortem em casos de doenças com
hemólise acentuada, como babesiose (Figura 19) e hemoglobinúria bacilar em bovinos.
Doenças que cursam com hemoglobinúria (doenças hemolíticas), mioglobinúria (doenças
com degeneração muscular) e hematúria (por ex., em bovinos com lesões de bexiga na
hematúria enzótica ou lesões renais de glomerulonefrite) são associadas a urina vermelha
(Figura 21).
Amarela
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Lesões amarelas incluem inflamação, icterícia, acúmulo de gordura, queratina, fibrina
e edema. Artefatos como embebição biliar também são amarelos. O acúmulo de exsudato
inflamatório caseoso, como ocorre na linfadenite caseosa e na tuberculose, é amarelo ou
banco-amarelado (Figura 23). Exsudato purulento (abscessos) pode também ser amarelo.
Icterícia é a coloração amarela generalizada dos tecidos produzida pela deposição de
bilirrubina. Essa é uma alteração da cor vista principalmente em mucosas e tecidos brancos
com grande conteúdo de elastina, como a íntima das artérias (Figura 24), fáscia de
músculos, meninges e superfícies articulares. A icterícia ocorre por hiperbilirrubinemia
(aumento da concentração de bilirrubina no sangue). As principais causas de
hiperbilirrubinemia e, conseqüentemente, de icterícia incluem: (i) hemólise (icterícia pré-
hepática), com produção excessiva de bilirrubina não-conjugada; (ii) redução na tomada,
conjugação ou secreção da bilirrubina pelo hepatócito (icterícia hepática ou tóxica), como
conseqüência de lesão hepática difusa grave, aguda ou crônica; e (iii) retardamento no fluxo
da bile ou colestase (icterícia pós-hepática) por obstrução dos ductos biliares extra-
hepáticos (colestase extra-hepática) ou impedimento do fluxo dentro dos canalículos
(colestase intra-hepática). A icterícia precisa ser diferenciada do amarelo normal da gordura
de bovinos das raças Jersey e Guernsey e de cavalos. Assim, a deposição de gordura nos
hepatócitos do fígado de um bovino (lipidose hepática) pode dar uma coloração amarelada
ao fígado (Figura 25). Queratina, como aparece, por exemplo, sobre o quadrilátero
esofágico do estômago se suínos ou em carcinomas de células escamosas cornificados
(Figura 26) é amarela, assim como a fibrina quando abundantemente infiltrada por
neutrófilos (Figura 27). A fibrina será branca, se não possuir números abundantes de
neutrófilos mortos e degenerados, e será marrom se misturada a tecido necrótico e sangue.
Alguns tipos de edema conferem uma cor amarela aos tecidos. Isso é particularmente
evidente no edema do sistema nervoso central de eqüinos (Figura 28), porque esses animais
têm um índice ictérico elevado do soro. Uma coloração amarela ou amarelo-esverdeada,
devida à embebição biliar, ocorre nas porções do fígado e outros tecidos adjacentes à
vesícula biliar (Figura 29).
Preta
Lesões (ou estruturas que podem ser confunddas com lesões) pretas incluem
melanose, pseudomelanose, melanoma, sangue digerido e antracose. Manchas escuras nos
tecidos muitas vezes são depósitos normais de melanina, como ocorre na íntima de grandes
vasos, nas meninges (Figura 31), na mucosa do esôfago, nos pulmões e em outros tecidos
de animais muito pigmentados, com por exemplo, de ovinos de raças de cara negra. A
pseudomelanose (Figura 32) é uma alteração da cor dos tecidos em contato com os
intestinos. Essa alteração resulta da combinação do sulfeto de hidrogênio (produzido por
bactérias da putrefação no intestino) com o ferro liberado da hemólise pós-mortal de
eritrócitos. O sulfeto de ferro é um pigmento que mancha os tecidos de azul-acinzentado,
verde ou preto. Manchas pretas de significado patológico ocorrem associadas a tumores de
melanócitos (melanomas) que produzem grande quantidade de melanina, um pigmento
preto (Figura 33). Sangue digerido é preto (Figura 34) e linfondos do hilo pulmonar de cães
(Figura 35) podem ser pretos em conseqüência da inalação de carvão da queima de
combustíveis ou de alguma outra origem. Essa alteração não tem importância clínica e é
denominada antracose. Lesões causadas por infecções por fungos pigmentados podem dar
uma cor preta à lesão, o que fica ainda mais evidente se ocorre em tecidos claros como o
encéfalo (Figura 36).