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Tidiane N'Diaye - O genocídio ocultado - investigação histórica sobre o tráfico negreiro árabo-muçulmano

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nossa era, os árabes, tendo 
conquistado o Egipto, iam escravizar numerosos povos prove­
nientes da Núbia, da Somália, de Moçambique e de outros pon­
tos, no âmbito da primeira expansão islâmica. Os núbios tinham 
sido duramente abalados pelos poderosos ataques das forças ára­
bes. Defenderam-se corajosamente, mas, perante a superioridade 
numérica e a determinação dos soldados da jihad (a guerra santa 
contra os infiéis) , preferiram negociar a paz, ratificando em 652 
um tratado conhecido como bakht. Será o emir Abdallah ben Sa'id 
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quem s e encarregará das negociações com o rei núbio Khalidurat. 
O tratado compreendia o seguinte: 
Artigo 1: Tratado concedido pelo emir Abdallah ben Sald ao rei 
da Núbia e a todos os seus súbditos, que todos os núbios [ . . . ], a 
partir das fronteiras de Alwa, são obrigados a respeitar. 
Artigo 2: Abdallah ben Sald concede-lhes um acto de garantia e 
um armistício, que os tornam aliados de todos os muçulmanos, tanto 
dos do Sul quanto de outras regiões e dos povos deles tributários. 
Oh, povo da Núbia, estareis em segurança sob a protecção de Deus e 
do seu enviado Maomé. Comprometemo-nos a não vos atacar, a não 
provocar contra vós nenhuma guerra e a não saquear o vosso país, 
enquanto permanecerdes fiéis à observação das condições estipuladas 
entre nós e vós e cujos pormenores se apresentam de seguida. 
Artigo 3: [ . . . ] Se algum escravo pertencente a um muçulmano 
se refugiar j unto de vós, não o abrigareis e fá-lo-eis conduzir para 
território muçulmano. 
Artigo 5: Haveis de entregar, todos os anos, 360 escravos de 
ambos os sexos, que serão escolhidos entre os melhores do vosso 
país e enviados ao imã dos muçulmanos. Todos deverão estar isentos 
de problemas. Não devem ser apresentados velhos decrépitos, idosas 
ou crianças com idade inferior à puberdade. Devem ser entregues ao 
governador de Assuão. 
Foi assim que o tráfico negreiro foi inicialmente inventado e 
planificado pelos árabes quando o emir e general Abdallah ben 
Sa"id impôs aos núbios a entrega anual e forçada de centenas de 
escravos. A maioria dos homens que eram objecto deste contrato 
era retirada às populações do Darfur. Será preciso esperar que 
os árabes se cansem da Núbia, o seu primeiro «reservatório» 
de escravos, para se lançarem ao assalto do resto do continente 
africano. 
Porém, tudo começou ali, no Darfur, e aparentemente nunca 
mais teve fim. É o desprezo dos árabes pelos negros que continua 
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a manifestar-se cruelmente ali até hoje, através de uma prática de 
escravização mal dissimulada e por meio de uma verdadeira lim­
peza étnica. Na verdade, o bakht ratificado em 652 pelo emir e 
general Abdallah ben Sa"id foi o ponto de partida de uma enorme 
sangria humana que será efectuada não só em toda a faixa suda­
nesa mas também do oceano Atlântico ao mar Vermelho, passando 
pela África Oriental . Esta sangria, praticada quer localmente, quer 
muito além das regiões do mundo muçulmano, prolongar-se-á no 
Darfur do século VII ao século XXI, sob o nosso olhar, com a sua 
quota de massacres - para não falar de genocídio. 
Os árabes, muito antes dos europeus, iam assim operar uma 
interminável guerra santa com os seus ataques sangrentos e arra­
sar populações inteiras, para a glória dos haréns do Oriente. O 
tráfico fornecia crianças, mulheres e homens oriundos do interior 
do continente negro. A procura de escravos do mundo árabo­
-muçulmano provocou a constituição de duas correntes de tráfico. 
Uma, terrestre, conduzia os cativos do subcontinente para norte, 
através do Sara (tráfico transariano). A outra, marítima, levava os 
cativos dos portos da costa leste de África até ao Oriente (tráfico 
oriental ) . Veremos mais à frente que os territórios que mais bene­
ficiavam desta infâmia eram, essencialmente, a Turquia, o Egipto, 
a Pérsia, a Arábia, a Tunísia e Marrocos. Assim, os árabes tinham 
inaugurado uma via marcada por humilhações, sangue e mortos, a 
qual eles serão os últimos a encerrar oficialmente, já no século xx, 
muito tempo depois dos ocidentais. 
Para o estudo das fontes desta tragédia, os investigadores foram 
desde sempre confrontados com uma espécie de pensamento único, 
se não mesmo uma «verdade revelada» segundo a qual «ape­
nas o acto escrito é a base primordial da fixação das realizações 
consideradas fundamentais » . Desta forma, na sua apreensão de 
África, numerosos autores só reconhecem a história do continente 
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negro a partir d o surgimento d a escrita. Antes disso, relegam os 
seus povos para tempos obscuros, para a não-historicidade. Tais 
eruditos pensam que, uma vez que os africanos não dominavam 
suficientemente a escrita, estes não podiam ter mais do que uma 
vaga ideia da sua história. Mas, paradoxalmente, estes mesmos 
autores - para pôr ao mesmo nível agentes e vítimas do tráfico 
negreiro - mostram-se bastante precisos e espantosamente infor­
mados quando se trata de inventar em África um cruel tráfico 
negreiro interno e semelhante aos outros. 
Os africanos, no entanto, não ignoram nada da sua história; 
apenas diferem os suportes utilizados para a transmitir - particu­
larmente a tradição oral. Na filosofia de muitos povos africanos, 
cronológica e logicamente, a tradição oral é anterior à escrita, 
porque no princípio era o Verbo. O que também é reconhecido, 
e j ustamente, por investigadores ocidentais como Alain Anselin, 
para quem «a língua é a caixa negra de qualquer civilização» . 
Assim, os quimbandas, historiadores orais e verdadeiras memó­
rias vivas das civilizações africanas negras, dizem-nos que, antes 
da chegada dos árabes, o sistema de submissão já existente na 
África Subsariana, erroneamente qualificado como «tráfico» ou 
«escravatura interna» , era, na verdade, servidão, fosse sob forma 
agrícola, doméstica ou militar. Este sistema era uma instituição 
de domesticidade tão diversificada quanto difundida e distinta da 
escravidão agrícola americana. 
Quando a descobriu no século x1x na África Ocidental, a admi­
nistração colonial francesa não deixou de ficar espantada com 
a sua extensão. Sobretudo, viu-se confrontada com um dilema: 
«Deveríamos nós » , interrogava-se o próprio general Faidherbe, 
então governador do Senegal, «enquanto anexávamos um terri­
tório, desde 1848, ter implementado nele o decreto da emancipa-
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ção? Em rigor, é o que espírito da lei teria exigido. » Na verdade, 
muitos administradores civis ou militares não o fizeram porque 
recusavam dar a este sistema o nome de escravidão. Insistiam no 
aspecto pessoal das relações entre senhor e cativo. Recorrendo 
às cheferias locais para recrutar mão-de-obra por seu intermédio, 
a administração colonial decidiu preservar durante muito tempo 
esta forma de servidão específica das tradições africanas. Portanto, 
foi com plena objectividade que substituíram os termos «escravos » 
e «escravidão» por «cativos » e « servidão» . 
Inúmeros viajantes desta época reconheceram tal originalidade 
em matéria de submissão. Monsenhor Cuvelier notava: «A institui­
ção da escravatura, tal como existia no Congo, parecia tolerável. » 
Com efeito, n o Congo, o senhor chamava a o cativo nvana, que 
significa «criança » ou « filho » . E o almirante Fleuriot acrescentava: 
«A escravidão é uma instituição doméstica das populações uolofes 
[etnia maioritária no Senegal]. Ali, os costumes são brandos e a 
condição do escravo pouco difere da condição do homem livre. 
Assim, apesar de algumas veleidades de reforma, a colonização 
francesa adaptar-se-á perfeitamente à ordem social preexistente. 
Desde a introdução do islão, há um grande número de libertos 
que continuam a viver sob a protecção de um senhor, a quem 
pertencem; nunca podem misturar-se com as famílias livres, que 
continuam a ser superiores em estatuto. O escravo possui