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Tidiane N'Diaye - O genocídio ocultado - investigação histórica sobre o tráfico negreiro árabo-muçulmano

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um 
pecúlio que está compreendido na distribuição das terras, mas 
deve guardar as colheitas na propriedade do senhor, o qual pode 
apropriar-se dos produtos em caso de escassez. » Isolada do mundo 
mediterrânico durante milénios devido à desertificação do Sara, 
a África Negra ignorou até à era contemporânea a propriedade 
fundiária. A propriedade privada não existia em vários países, ou, 
se existia, era de forma muito limitada. Como o ambiente era de 
propriedade comum, muitas famílias optavam por disponibilizar 
as suas terras em regime cooperativo, para as explorar. O dinheiro 
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não existia, pelo menos n o sentido que lhe atribuímos hoje. Pro­
gressivamente, o enriquecimento e a elevação social acabarão por 
depender da possibilidade de cultivar o máximo de superfície. Daí 
a necessidade de dispor de uma mão-de-obra de peso. Na servidão 
africana, quanto mais um homem possuísse cativos para cultivar 
as suas terras e mulheres tivesse, mais rico era; e quanto mais rico 
era, mais apto estava a aumentar o seu «património» de mulheres 
e servos. Estava assim aberto o caminho para os conflitos, com o 
objectivo de obter uns e outros. O que suscita ao historiador Marc 
Ferro a seguinte declaração: «Como não existia a noção de posse 
de terras, os homens e as mulheres constituíam a única fonte de 
riqueza. A sua captura e o seu comércio, fosse pela guerra ou por 
outro meio, animavam os conflitos entre os reinos . » 
Portanto, desde tempos imemona1s até um período recente, 
as sociedades da África Subsariana conheceram não tanto escra­
vos, mas cativos, vítimas sobretudo destes conflitos de que fala 
Marc Ferro. De início, tais combates não eram verdadeiramente 
sanguinários, mesmo em sociedades temivelmente bélicas : eram 
pouco numerosos e relativamente pouco fatais. Na tradição dos 
n'gunis (variante zulu) , por exemplo, muitas vezes limitavam-se 
a uma luta singular entre os dois homens mais combativos de 
cada campo. Por vezes, os clãs opunham os respectivos exércitos. 
Porém, a batalha cessava assim que um dos lados reconhecia a 
derrota. As populações civis não eram envolvidas. As mulheres e 
as crianças não hesitavam em deslocar-se aos campos de batalha 
para encorajar os seus clãs. 
Estes confrontos iam, todavia, começar a intensificar-se em inú­
meras regiões africanas - devido à chegada dos árabes muçulma­
nos, a quem isto muito interessava. As guerras tribais tornaram­
-se mais violentas. Os líderes dos clãs vitoriosos, em vez de se 
contentarem com as terras conquistadas e com o reconhecimento, 
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obrigavam os vencidos a aceitar uma posição de subordinação. 
Antigos ressentimentos de família e rivalidades entre tribos provo­
cavam conflitos igualmente destruidores. Os vencidos tornavam­
-se cativos dos vencedores. Tais confrontos não tardaram a ser 
responsáveis por frequentes fomes, por vezes tão dramáticas que 
alguns homens livres não hesitavam em vender-se a si mesmos 
como cativos ou a vender os próprios filhos. Também podia acon­
tecer que alguém se vendesse a um senhor para pagar uma dívida 
impossível de ser honrada. Os culpados de certos crimes, como 
os feiticeiros, podiam ser reduzidos à escravidão e afastados da 
sua região de origem. 
Inversamente, outros indivíduos, que tinham perdido os fami­
liares, podiam ser socialmente reintegrados por meio da servidão. 
Abandonavam o seu patronímico para adaptar o do senhor. 
Outra constante nas sociedades negro-africanas é o sistema de 
castas que abusivamente forneceu inúmeros servos. Do português 
«casto» ( «puro » ) , esta palavra, símbolo de classes estritamente 
hierarquizadas em muitas civilizações, designa na maioria dos 
casos um sistema aplicado há mais de três mil anos na Índia. Ali, o 
termo abrange duas realidades. Por um lado, um grupo composto 
por varna, que identifica, em sânscrito, quatro classes hierarquiza­
das: os brâmanes situados no topo da pirâmide e constituídos por 
religiosos eruditos; os kshatriya, formados pelos nobres (marajás e 
senhores da guerra); os vaishya (a maioria da plebe); e os shudra, 
que são os servos. Por outro lado, à margem desta organização 
social hereditária, encontram-se os «supracastas» , que os outros 
não podiam tocar e por isso chamados « intocáveis» . 
Um dia, u m verdadeiro trabalho d e investigação antropológica 
e histórica deveria tentar compreender como uma idêntica organi­
zação se encontra aplicada em inúmeras sociedades do continente 
negro há vários séculos. Esta hierarquização social traduz-se (no 
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Senegal, por exemplo) numa divisão que compreende, n o topo, 
o equivalente dos brâmanes. Trata-se de nobres de sangue real, 
chamados Bours, Guélawars, Faama, Mwené, Dame/, Almamy, 
Linguers, etc. Ao longo de séculos, as sociedades africanas assen­
taram neste feudalismo frequentemente de espada, que gerou uma 
classe de senhores; estes últimos dominaram e muitas vezes subme­
teram à servidão homens que pertenciam às outras classes sociais. 
A maior parte da população era composta por fora-das-castas, 
chamados Guers, e por membros de castas inferiores, desgina­
dos como Nyénios (Rabb, Mabbo, Woudé, Teug, Laobé, Guéwel, 
etc . ) . Na realidade, estas categorias sociais costumavam agrupar 
corporações artesanais há muito desprezadas, como os sapateiros, 
os ferreiros ou os tecelões. 
Para compreender este fenómeno, é preciso referir que os ferrei­
ros, por exemplo, que esculpiam ídolos e máscaras, sempre foram 
assimilados à categoria social tida como « intocável» pelos nobres. 
Estes técnicos notáveis permitiram o desenvolvimento da agri­
cultura graças às ferramentas feitas de ferro. Ao mesmo tempo, as 
armas do mesmo metal serviam para defender mais eficazmente 
os celeiros. Várias sociedades africanas veneraram os reis-ferreiros, 
mas desde a «grande dispersão dos bantos» , que levaram consigo 
as técnicas da metalurgia e do ferro, em certos impérios guerreiros 
e expansionistas atribuía-se à casta dos ferreiros poderes sobre­
naturais e potencialmente perigosos, devido à sua habilidade em 
conceber, dominar e reparar armas de fogo. Estes artesãos, desde 
sempre indispensáveis, eram temidos pelos seus conhecimentos 
técnicos. Até um período recente, os africanos ainda assimilavam 
o seu conhecimento a tais práticas mágicas, pois, no imaginário 
colectivo, permitia transformar a matéria pela manipulação de 
elementos fundamentais extremamente carregados de símbolos, 
como o fogo, a água e a terra. Assim, estes técnicos obtinham 
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um grande proveito material do seu trabalho, reconhecido como 
útil e apreciado pelas populações. Mas, paradoxalmente, pagavam 
por isso um elevadíssimo preço social. 
Com efeito, os seus poderes tornavam-nos religiosa e social­
mente suspeitos aos olhos das populações. Tal como a casta dos 
intocáveis na Índia, os ferreiros africanos só podiam casar-se no 
seio da própria comunidade. Uma espécie de «endogamia de casta » 
impunha que as suas esposas pertencessem ao mesmo grupo que 
os pais. Tal particularidade, ou « marca de casta» , expunha-os 
em primeiro lugar, em caso de conflito, a serem presos e, depois, 
escravizados. Assim se compreende que feiticeiros e criminosos 
estivessem lado a lado, nos locais de cativeiro, com membros de 
castas, prisioneiros de guerra, pessoas comuns e crianças vendidas 
pelos pais em troca de víveres. Estes cativos reduzidos à servi­
dão pertenciam a quase todas as etnias africanas. As sociedades 
africanas pré-coloniais eram, é certo, muito inigualitárias, como 
descreve o Dr. Livingstone. De acordo com os relatos - confir­
mados pelos quimbandas - dos primeiros ocidentais a percorrer 
a África Negra, estima-se que um quarto dos homens tinha o 
estatuto de cativo ou de trabalhador forçado, e que 1 4 milhões 
de indivíduos se encontravam nesta categoria. 
Seria,