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Tidiane N'Diaye - O genocídio ocultado - investigação histórica sobre o tráfico negreiro árabo-muçulmano

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Sudão Francês a parte da 
África Ocidental que compreende a actual República do Mali. Isto 
por oposição ao Sudão que é hoje uma república islâmica. 
SuNDIATA KEITA: Sundiata Keita, imperador do Mali, nasceu em 1 1 90 
em Niani (Reino Mandinga, actual Guiné) . Formou um exército 
e conseguiu vencer o exército de Sumanguru Cante em 1235, em 
Kirina. Então, Sundiata Keita reúne todos os reinos para constituir 
o império do Mali. É proclamado Mansa, o que significa « Rei dos 
Rei s» . Estabelece a capital em Niani, a sua cidade natal, hoje uma 
pequena aldeia da Guiné junto à fronteira maliana. Sundiata Keita 
morre em 1255, provavelmente afogado. 
ToMBUCTU: Na orla do Sara e a algumas centenas de metros do rio 
Níger, Tombuctu, ou Mali, foi durante muito tempo uma povoação 
fechada aos europeus. Encruzilhada comercial na época das carava­
nas, foi igualmente palco de uma intensa vida intelectual. Durante 
esta idade de ouro, milhares de livros foram escritos à mão e, depois, 
abandonados à poeira do deserto. Até começarem a ser exumados. 
Da noite do esquecimento emerge, assim, uma apaixonante história 
de África até hoje ignorada. Tombuctu, a «cidade santa» , a «miste­
riosa» , a « inacessível» que fascinou tantos exploradores - do escocês 
Mungo Park ao francês René Caillié, passando pelo alemão Heinrich 
Barth -, é uma fabulosa cidade de areia situada no nordeste do 
actual Mali, nos confins a sul do imenso deserto do Sara e retirada 
na margem esquerda do rio Níger. 
Fundada por volta do século XI pelos tuaregues, a cidade impõe-se 
a partir do século XIV como um centro de comércio capital entre o 
antigo Sudão e o Magrebe. Transitam por ela o sal de Taudeni, o 
ouro das minas de Buré e os escravos do Gana. Mercadores árabes e 
persas ali se cruzam com viajantes e filósofos muçulmanos animados 
pelo ardente desejo de converter as populações locais para a fé de 
Alá. É a época em que a África Saeliana se divide entre os impérios 
que se convertem ao islão e os outros. Se o Império Mossi (actual 
Burquina Faso) resiste a entregar-se à religião de Maomé, o Império 
Songai - que sucede ao Império do Mali no final do século XIV -
adere a ela. 
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TRÁFICO: Esta palavra abrange «qualquer acto d e captura, d e aquisição 
ou de cessão de um indivíduo com o objectivo de o reduzir à escra­
vidão; qualquer acto de aquisição de um escravo com o objectivo de 
o vender ou trocar; qualquer acto de cessão por venda ou troca de 
um escravo adquirido com o objectivo de ser vendido ou trocado; 
bem como, em geral, qualquer acto de comércio ou de transporte 
de escravos» . O tráfico de negros é, para usar os termos exactos da 
definição dada pelo Dictionnaire de /'Académie Française, «o comér­
cio de escravos negros» . A sua motivação teria sido, antes de mais, 
económica, com os escravos a servir principalmente de mão-de-obra 
de baixo custo. No entanto, a lógica económica não é desprovida de 
ideologia, visto que o racismo também serviu para justificar a escra­
vização e as condições de vida desumanas impostas aos negros após 
a sua captura. O tráfico dos negros é hoje considerado em França 
um crime contra a Humanidade. 
ZANZIBAR: Muito antes da era cristã, ricos mercadores gregos e fenícios 
dirigem-se à África Oriental para procurar marfim. Emigrantes ára­
bes e persas ali se implantam no século VII. De acordo com certos 
autores, estes mercadores deram à região o nome de « Zing el Bar» , 
que, etimologicamente, pode ser traduzido como «Terra dos Negros» . 
Com efeito, zing é uma palavra persa que significa «negro» e bar é 
uma palavra árabe que designa "ª terra» . A partir de 1 698, o sul­
tão de Omã comanda Zanzibar a partir do seu palácio de Mascare. 
Omã é uma rica potência comercial situada entre a Arábia, a África 
e a Índia. O sultão deseja dinamizar a economia com menos custos, 
daí a ideia da escravidão. Como o islão proíbe que um muçulmano 
faça de outro muçulmano um escravo, os árabes acabam por impor­
tar negros do continente africano. As caravanas árabes transportam 
para Bagamoyo e, depois, para Zanzibar tanto marfim (ouro branco) 
quanto escravos (ouro negro) . 
ZANJS: A origem desta palavra é árabe, mas também foi durante muito 
tempo empregue pelos escritores persas para designar os africanos das 
costas ou do interior. A região era povoada por numerosas etnias afri­
canas negras a que os árabes chamavam, indiferenciadamente, zanji. 
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Assim, os primeiros a ser objecto de tráfico em direcção dos países 
islâmicos foram os habitantes da costa oriental de África. A palavra 
«zanj » é de uso muito antigo, visto poder ser encontrada em Périplo 
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