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Tidiane N'Diaye - O genocídio ocultado - investigação histórica sobre o tráfico negreiro árabo-muçulmano

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portanto, difícil defender que as sociedades do conti­
nente negro não conheciam a servidão ou o trabalho forçado. 
Desde tempos imemoriais, grassava em África um sistema de ser­
vidão. Mas ele nada tinha em comum, fosse em objectivos ou em 
proporções, com o sistema dos «visitantes» árabo-muçulmanos. 
Nas sociedades africanas de linhagem, a servidão era diferente 
da antiga escravatura, uma vez que o cativo se encontrava inte­
grado na família. Tinha o estatuto de adaptado, se não mesmo 
de «parente» . Não era comparável a um «autómato», no sentido 
grego, nem a um « bem» , no sentido romano, nem a uma «coisa 
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mobiliária», n o sentido português. Gozava d e direitos cívicos e de 
direitos de propriedade. Os direitos inerentes à sua condição eram 
definidos de forma clara. Geralmente, devia ao senhor cinco dias 
de trabalho por semana e podia trabalhar livremente, por conta 
própria, no tempo restante. 
Na verdade, esta instituição assemelhava-se ao que se passava 
em certos países europeus nos quais a servidão era tradicional. 
Excepto em períodos de crise económica, os servos não viviam 
obrigatoriamente em condições miseráveis ou humilhantes. Man­
tinham até relações afectivas e de respeito com os senhores. Os 
laços de sangue eram respeitados. 
A estrutura das sociedades africanas, antes da chegada dos 
árabes, poderia comparar-se com a de uma sociedade feudal, com 
as suas tribos suseranas e outras mais ou menos vassalas. Para a 
maioria dos monarcas ou líderes africanos, os cativos não eram 
menos seus irmãos: podiam servi-los como criados, guerreiros ou 
outros trabalhadores forçados, mas nenhum deles tinha o direito 
de lhes tirar a dignidade, de os separar violentamente das famílias, 
de os vender em leilão ou de os violentar. A servidão interna afri­
cana existia apenas como instituição quase patriarcal, sem cruéis 
caças ao homem nem vendas públicas. Neste sistema, os quim­
bandas, guardiães da memória, não relatam casos de tortura ou 
outras crueldades. Guerreiro ou criado, o cativo não era objecto 
de nenhum acto de sadismo gratuito, como as chicotadas constan­
tes ou a ablação dos órgãos genitais, práticas correntes no mundo 
árabo-muçulmano. Certamente, o cativo tinha um estatuto social 
inferior, mas, fosse trabalhador, guerreiro ou criado doméstico, 
tinha direito ao respeito devido a qualquer ser humano e muitas 
vezes acabava por se integrar numa família de acolhimento. 
Duas categorias de cativos eram submetidas à servidão: os cati­
vos de casa e os cativos dos campos. O trabalho destes últimos era 
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rude, e a sua sorte muito menos invejável do que a dos primeiros. 
O indivíduo tornava-se cativo de casa pela vontade soberana do 
senhor ou por via do casamento. O servo podia casar-se com 
uma cativa e ter filhos, que adquiriam o estatuto de cativos por 
nascimento. Na idade adulta, estes exoneravam os pais do tra­
balho que realizavam. Logo aos 10 anos, iam para os campos e 
tratavam dos rebanhos. Se nalguns locais, em caso de herança, o 
senhor ficava com tudo, nos reinos da África Ocidental não era 
isso o que se passava. Os filhos legítimos herdavam a totalidade 
do que os pais possuíam. Os filhos de sexo masculino herdavam 
dois terços, e as filhas herdavam o restante. O senhor só intervinha 
nas questões de partilha para facilitar a sua resolução. 
Quanto às mulheres - no regime polígamo mas tradicional­
mente matriarca! da África Negra -, o seu estatuto não diferia 
em nada do estatuto dos cativos de sexo masculino. As mulhe­
res viam-se submetidas às mesmas leis e aos mesmos trabalhos, 
enquanto fossem simples cativas. Tratavam do cultivo dos géneros 
alimentícios e da vigilância dos animais, e também se dirigiam 
às pastagens. Podiam também ser cedidas, independentemente de 
terem filhos ou uma família. Apenas integravam as transferências 
de cativos as crianças de peito, que as mulheres levavam consigo. 
O seu papel, porém, era mais complexo quando se tornavam 
cativas de casa, o que costumava acontecer quando eram boni­
tas, graças à preferência dos senhores, como se passava com as 
africanas deportadas para o Novo Mundo. Todavia, em África, o 
senhor não exercia o direito da primeira noite. Para melhorar a 
sua condição, contudo, as mulheres prestavam-se a isso de livre 
vontade, pois, com este novo estatuto, já não podiam ser cedi­
das: permaneciam na aldeia, cuidando da casa, das crianças e da 
alimentação. 
Os filhos do senhor, quer tivessem sido concebidos com uma 
mulher livre ou com uma cativa, dispunham dos mesmos direitos 
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d e herança. N a maior parte das sociedades africanas pré-coloniais, 
quando da entrada na idade núbil, as adolescentes livres eram 
«casadas» pelo próprio pai com o seu futuro senhor e marido, 
em troca de um valor simbolicamente chamado dote. Com fre­
quência, porém, elas dedicavam o resto da vida a reembolsar tal 
investimento através do trabalho e de actividades sexuais. Esta 
cedência, na realidade, não passava de uma venda. Tais formas 
de «coacção» são tanto mais condenáveis quanto se perpetuam 
até aos dias de hoje. 
Relativamente à história da maioria dos grandes impérios afri­
canos - como o Gana -, a principal fonte de que dispomos 
emana dos relatos de AI Bakri, geógrafo árabe de Córdova. Este 
grande viajante fala da riqueza do monarca e dos seus súbditos, 
simbolizada, é certo, pelo ouro, mas também pela posse de nume­
rosos cativos. AI Bakri relata que certos notáveis tinham «mil e 
até mais » cativos, para tarefas domésticas, de cultura de terras 
e de extracção mineira. Porém, o cronista e viajante árabe não 
menciona nenhum tráfico nem suplícios cruéis. 
Após o desmembramento do Império do Gana, numa das suas 
antigas componentes, como o Senegal, uma parte importante 
das populações dos reinos de Djoloff, Cayor e Baol sempre foi 
constituída por cativos (diams) e seus descendentes. Tais diams, 
bem integrados nas sociedades locais, partilhavam a alimenta­
ção dos senhores e podiam possuir e explorar livremente as 
terras. O cativo era tratado de forma igualitária, com excepção 
do direito a ser herdeiro do senhor. Raramente era destinado à 
venda, a menos que revelasse « más intenções» . Ao fim de certo 
tempo de serviço, era autorizado a adquirir cativos para si. Os 
que se tornavam Diamou Bour (cativos da Coroa ) forneciam 
va lorosos guerreiros aos exércitos reais. Por isso, era bastante 
raro que almejassem a liberdade, tanto mais que este estatuto 
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lhes permitia ter uma família e uma existência isenta d e preo­
cupações materiais. 
Os cativos da Coroa gozavam de uma consideração e de pri­
vilégios que j ustificavam, por si sós, a ligação que tinham aos 
senhores e até à sua condição. Tal condição era hereditária e 
transmitida de dinastia em dinastia: independentemente da forma 
de governo, estes cativos nunca deixavam de ser propriedade do 
reino. Na maioria das sociedades africanas, estes súbditos consti­
tuíam uma força considerável; a sua autoridade no conselho pri­
vado e o seu papel preponderante na guerra tornavam-nos, por 
assim dizer, auxiliares preciosos, muito ouvidos pelos soberanos. 
No sistema de servidão africano, com efeito, muitos monarcas 
ou líderes utilizavam os súbditos nos diferentes combates que 
levavam a cabo, mesmo muito tempo depois da chegada dos 
colonos. 
O exército do conquistador El Hadji Omar e o do seu filho 
Ahmadou eram constituídos por estes cativos-soldados chamados 
talibés (ou estudantes de teologia) , prováveis antepassados espiri­
tuais dos talibãs, que, já mais próximos de nós, também trilham 
o caminho da guerra santa. Se a maioria estuda nas escolas corâ­
nicas do Paquistão, muitos deles combatem no Afeganistão, em 
nome da jihad, alternando Alcorão e kalashnikov. Ao lado dos 
talibés, que eram oriundos de castas livres