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Tidiane N'Diaye - O genocídio ocultado - investigação histórica sobre o tráfico negreiro árabo-muçulmano

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ou nobres, comba­
tiam os safas (ou regimentos de cativos). Líderes como EI Hadji 
Omar, Lat Dior e Samory Touré não faziam distinção entre os 
dois grupos de guerreiros. No combate, costumavam basear a 
rivalidade na bravura, e não no «nascimento» . Alguns dos ofi­
ciais mais graduados eram cativos. Na sua Exploração do Alto 
Níger ( 1 883 ) , o coronel Gallieni referia aos superiores que o rei 
de Segu possuía regimentos inteiros de cativos bambaras, que 
gozavam de vários privilégios. No Senegal, estes cativos-soldados 
32 O G E N O C f D I O O C U LTA D O 
também contribuíram largamente para a s diferentes vitórias dos 
resistentes Lat Dior, rei de Cayor e Baol, e Alboury N'Diaye, rei 
de Djoloff. O chefe do Estado-Maior de Lat Dior, Demba War 
Sall, um herói ainda cantado pelos quimbandas, era ele próprio 
um antigo cativo tornado Fara Kaba, isto é, líder dos cativos da 
Coroa. Era igualmente possível que antigos cativos merecedores 
se tornassem diplomatas e fossem habilitados a firmar tratados 
que comprometiam os reinos. Um cativo podia substituir provi­
soriamente um chefe e administrar a cidade. Se algum audacioso 
aludia à sua situação anterior, ficava exposto a penas severas. 
Temos de sublinhar que, nos outros reinos africanos, o sistema 
de servidão obedecia aos mesmos princípios, embora houvesse -
como em todas as civilizações e em todos os continentes - algu­
mas excepções, por vezes extremamente cruéis, como é óbvio! São 
inúmeros os testemunhos assustadores que relatam a ferocidade 
de certos monarcas, sobretudo de alguns reinos da África Central. 
Por exemplo, na corte do rei Mtéza, Stanley relata que, para 
satisfazer um simples capricho, o monarca mandava cortar a 
cabeça de algumas centenas de cativos. Quanto às mulheres que 
compunham a sua gente de casa, não se passava um dia sem 
que uma ou duas destas infelizes não fossem conduzidas - com 
uma corda presa ao pulso, arrastadas ou puxadas pelos guardas 
- para o matadouro. O medo inspirado pelo soberano impedia 
que alguém se atrevesse a salvá-las do carrasco. 
Quando morria um rei do Daomé (actual Benim), era-lhe erigida 
uma espécie de cenotáfio rodeado de barras de ferro, dominado 
por uma urna de terra, cimentada pelo sangue de uma centena de 
cativos sacrificados, para servir de guardas ao soberano no outro 
mundo. Durante as festas sanguinárias chamadas «Grandes Costu­
mes» , eram degoladas centenas de cativos de cada vez, para que 
fossem levar ao rei defunto a notícia da coroação do seu sucessor. 
A S FO R M A S D E E S C R AV IDÃO EM A F R ICA . . 33 
Todavia, salvo estas excepções, a condição dos cativos afri­
canos, empregados no cultivo da terra, na lida da casa ou na 
guerra, não se assemelhava em nada à dos africanos em servi­
dão em terras árabo-muçulmanas ou no Novo Mundo. Quais­
quer que tenham sido as formas de servidão na maior parte das 
sociedades africanas negras, não podem ser comparadas com os 
horrores do tráfico árabo-muçulmano e transatlântico, isto é, 
com práticas que resultaram em deportações maciças e em tra­
tamentos de mutilação, traumatizantes ou homicidas. A servidão 
africana, aceite com resignação pelas populações, integrou-se no 
seu modo de vida . 
É certo que muitos historiadores ocidentais tentaram demons­
trar que existia um cruel e desumano tráfico negreiro interno em 
África, no sentido daquilo que foi praticado pelos árabes muçul­
manos e pelos europeus no Novo Mundo. Parecem esquecer que 
o verdadeiro tráfico é um comércio. Horrível, sem dúvida, mas 
um comércio com regras. Estas supõem batedores, fornecedores, 
compradores, intermediários, circuitos de aprovisionamento, capa­
zes de satisfazer uma importante procura de cativos e assegurar 
o seu transporte. Por outras palavras: uma verdadeira logística 
adaptada às leis da oferta e da procura. 
Antes da chegada dos árabes, não existia em África uma tal 
organização, tão mercantil quanto maquiavélica. O continente 
só produzia cativos para uso interno. Contrariamente ao que se 
passava no Mediterrâneo da Antiguidade, o continente negro não 
conhecia a escravatura como sistema de exploração económica e 
social. O seu comércio externo limitava-se essencialmente à troca 
de ouro contra jóias, tecidos, armas e sal. A venda de cativos 
de guerra - praticada particularmente pelo Gana e por alguns 
pequenos reinos locais - como produtos de exportação revelava­
-se muito reduzida. Na administração destas sociedades, a expor-
34 O GEN O C ( D I O O C U LTA D O 
tação d e cativos não constituía, d e modo nenhum, o principal 
recurso para os Estados. 
Ou seja: «visitantes» e africanos tinham abordagens radical­
mente diferentes quanto às práticas de servidão. Afirmar que os 
árabes muçulmanos - e, depois destes, os negreiros europeus -
não fizeram mais do que imitar práticas já instaladas antes da 
sua chegada, simplesmente armando os homens, é uma falsidade 
grosseira. O sistema de servidão preexistente na África Negra 
forneceu meramente presas que os negreiros árabes foram os pri­
meiros a explorar de forma desumana e brutal, por desprezo aos 
povos negros. 
Na África Ocidental, tudo começou com a chegada dos mouros. 
No seguimento da sua primeira viagem, o escocês Mungo Park 
( 1 771-1 805 ) deixou preciosas informações acerca das sociedades 
africanas pré-coloniais. Nota que, à margem do funcionamento 
tradicional do mundo africano negro, se desenvolviam os recém­
-chegados mouros. 
Mungo Park insiste no ódio dos negros pelos mouros (africanos 
brancos arabizantes) , que tinham sido os primeiros a importar 
para as terras da África Ocidental formas de servidão muito dife­
rentes das práticas em curso antes da sua chegada. Estes negreiros 
e comerciantes instalados na Mauritânia, que também levavam 
goma para o Senegal, são-nos descritos pelo general Faidherbe 
como nómadas da parte ocidental do Sara: 
Eram tão cruéis para com os naufragados, junto de quem criaram 
uma terrível reputação e que, nos seus relatos, traçaram deles um 
retrato medonho. Muitas pessoas julgavam que « mouros» é o ver­
dadeiro nome das populações brancas do Norte de África, nómadas 
no Senegal e comerciantes nas cidades da Argélia. Na verdade, esta 
palavra, que é de origem semítica e significa «ocidentais » , era per­
feitamente desconhecida de uns e de outros. A palavra pela qual os 
A S F O R M A S D E E S C R AV I DÃ O E M Á F R I C A . . . 35 
nómadas da margem direita do Senegal se designam a si mesmos e 
pela qual são designados no país é nar. A região em que habitam, 
até um limite indeterminado a norte, é designada pelos habitantes do 
Senegal pela palavra ganar, que talvez tenha a mesma origem que os 
nomes da geografia antiga: cabo Ganaria (a sul de Marrocos); ilhas 
Ganaria, como era inicialmente conhecida a maior ilha das Caná­
rias. Estes mouros são de uma grande imundície, o que se explica 
pela escassez de água no seu território, e as mouras são ainda mais 
imundas que os homens. 
Era notoriamente sabido que estes mouros tratavam os cati­
vos com uma severidade que raiava a crueldade, sem falar da 
sua exigência de labor, que se encontrava nos limites das forças 
humanas. Já os senhores uolofes, tuculores ou peúles (africanos 
negros) eram humanos com os cativos e adaptavam o trabalho às 
forças do individuo. O próprio Mungo Park não gostava destes 
mouros e censurava-lhes as «aldrabices» . Sublinhava a frequência 
das guerras, que eram de dois tipos: por um lado, guerras formais 
de prestígio, à europeia; por outro, e sobretudo desde a chegada 
dos árabes, razias, isto é, ataques que visavam principalmente a 
vingança e a obtenção de cativos. 
Todas estas indicações que nos chegaram graças a Mungo Park 
figuram nas traduções de Viagem ao Interior de África. Quanto à 
crueldade destes primeiros negreiros mouros arabizantes, o general 
Louis Faidherbe acrescenta: 
Por volta de 1 850, entre as paredes de Dagana, ao regressarem de 
uma expedição de razias, dois cavaleiros mouros trarzas disputavam