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Tidiane N'Diaye - O genocídio ocultado - investigação histórica sobre o tráfico negreiro árabo-muçulmano

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uma criança de alguns meses. Estavam prestes a partir para a vio­
lência quando chegou um terceiro mouro, o qual, para restabelecer a 
paz, não encontrou nada melhor do que eliminar a causa do conflito: 
pegou a criança por um pé, girou-a por cima da cabeça e partiu-
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-lhe o crânio contra uma árvore. Na nossa última campanha contra 
estes mouros trarzas, em 1 855, tinham-nos levado um marinheiro 
que se afastara da coluna, junto a Gaé; foi atacado pelas mulheres 
com pilões e sucessivamente desarticulado nos pulsos, nos tornozelos, 
nos cotovelos, nos joelhos, nas coxas e nos ombros. É por meio de 
crueldades como esta que os mouros conseguem inspirar um tão 
profundo terror nos negros. 
Assim, como veremos, foi a chegada dos árabes muçulmanos 
e a islamização dos povos levados à jihad que marcaram uma 
viragem dramática nas práticas de servidão em África. Foram 
o ponto de partida de uma ignóbil empreitada de destruição 
durante 13 séculos de perseguições ininterruptas, de humilhações, 
de sofrimento, de desprezo, de razias e de emboscadas mortíferas. 
É verdade que é difícil estimar o número de africanos subjugados 
no exterior do continente negro desde a Antiguidade. Porém, a 
enorme sangria humana que os povos negros haveriam de sofrer, 
de forma tão lenta quanto espaçada no tempo (do século VII ao 
século xx1 ) , será qualificada pelos historiadores e pelos antropólo­
gos como o primeiro comércio de tráfico, com práticas desumanas 
e exportações a longas distâncias. Este empreendimento criminoso 
será tanto mais duro e brutal quanto, no imaginário comum dos 
povos árabo-muçulmanos, os negros pagãos ou fetichistas não 
eram mais do que sub-humanos. Relativamente aos convertidos, 
até aos nossos dias permanecerão aos seus olhos, quer o admitam 
quer não, como seres invariavelmente inferiores. 
2 
O negro no imaginário colectivo 
dos povos árabo-muçulmanos 
A escravatura não é fruto do racismo. O racismo 
é que foi a consequência da escravatura. 
ERIC WILLIAMS 
Se na Antiguidade mediterrânica o europeu assimilava o homem 
negro ao « resíduo excrementício, à morte e ao mundo infernal » , 
durante o período pré-islâmico negros e árabes conviviam, diz-se, 
sem preconceitos. 
As primeiras complicações ocorreram no início do século VI 
da nossa era. Os etíopes tinham tomado de assalto toda a costa 
da Arábia e o porto de Jidá em 702. Por duas vezes, as suas for­
ças tinham tentado em vão conquistar uma parte da Arábia. No 
âmbito de uma última ofensiva de grande envergadura, os etío­
pes foram derrotados pelos persas. Deixaram no local inúmeros 
prisioneiros, que serão de seguida reduzidos à escravidão. Como 
aliados dos bizantinos, estes etíopes tinham-se mostrado bastante 
activos na Arábia. A sua participação foi determinante na luta 
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pelo poder e n a influência que opunha o Império Romano cris­
tão à Pérsia. Portanto, árabes e persas conheciam sumariamente 
os povos negros através destas batalhas e dos textos antigos da 
Geografia de Ptolomeu e do Périplo do Mar Eritreu, obra anónima 
datada do século 1 . Segundo certas fontes, nos primeiros contactos, 
os árabes não manifestaram desprezo ou rejeição para com os 
africanos, bem pelo contrário. Estes últimos eram respeitados e 
muitos companheiros do guia e profeta muçulmano eram mestiços 
que tinham entre os antepassados uma avó etíope. 
O Guia do islão é universalmente conhecido sob diferentes 
nomes. Os árabes chamam-lhe Muhammad ou Mohammed, que 
significa «Aquele que é louvado» . Já «Mehmet» é o nome pelo 
qual os turcos designam o profeta. Esta denominação turca está 
na origem de «Maomé » , adaptado e adaptado para a fonética 
francesa pelos historiadores francófonos a partir de uma transcri­
ção que remonta ao século XVI I . Numerosos autores contempo­
râneos utilizam, no entanto, a versão inglesa, «Muhammad» ou 
«Mohammed » , «Mohamed » , «Mouhammad » ... ou então «Mama­
dou » , nome com que os muçulmanos da África Ocidental desig­
nam o profeta. Quanto a « islão » *, significa «submissão a Deus» . 
É a terceira maior religião revelada d o mundo. Rigorosamente 
monoteísta, o islão afirma a unicidade absoluta de Alá (Deus) e 
a sua presença na vida quotidiana dos homens. 
Embora sempre se tenham mantido maioritariamente fiéis ao 
cristianismo ortodoxo, os etíopes eram, todavia, respeitados pelos 
árabes - mesmo após a primeira expansão islâmica -, os quais 
consideravam a sua civilização claramente mais evoluída do que 
a deles. E ainda durante a vida do profeta Maomé, no ano de 
6 1 5, vários dos seus discípulos de Meca que tentavam escapar à 
perseguição da dinastia koraichita foram cordialmente recebidos 
e protegidos pelos etíopes em Axum. O profeta tinha-lhes dito: 
O N E G R O N O I M A G I N Á R I O C O L E C T I VO . . . 39 
((Se fordes para África, encontrareis um rei sob o qual ninguém 
é perseguido. Trata-se de uma terra de j ustiça em que Deus subs­
tituirá as vossas atribulações por tranquilidade. » 
Noutra ocasião, teria acrescentado: ((Evitai querelas com os 
etíopes, pois a estes foram atribuídos nove décimos da coragem 
da Humanidade. » Assim, quando Bilal ibn Rabah, escravo de 
origem etíope e libertado por Abu Bakr (cunhado do profeta ), 
se converteu ao islão, Maomé fez dele o primeiro muezim da 
História, isto é, a pessoa responsável pela chamada à oração do 
alto do minarete da mesquita. O profeta Maomé teve como ter­
ceiro adepto do islão o seu outro escravo liberto e filho adoptivo 
Zeid, o único sectário que menciona o Alcorão. A palavra árabe 
El-Qor'ân, de onde veio ((Alcorão», significa ((a Leitura » ou ((a 
Recitação» . O artigo árabe a anteceder um substantivo comum 
confere-lhe, nalguns casos, o valor de um nome próprio. Porém, 
precisamente devido ao papel capital do livro santo, também é 
chamado El-Forqân, (<a Distinção» . O Alcorão é considerado a 
revelação eterna e directa de Deus, feita pelo arcanjo Gabriel (ou 
Djibril ) ao profeta Maomé. Este último também tinha libertado 
Maria, uma copta egípcia. De seguida casou-se com ela e tiveram 
um filho, que foi chamado Ibraim, mas morreu antes do pai. 
Os feitos de vários árabes negros, libertos ou com sangue afri­
cano, foram durante muito tempo cantados e glorificados por con­
tos e lendas. Entre eles encontrava-se Amara, um grande guerreiro 
e poeta, cujo pai pertencia à tribo árabe dos 'Abs. Zabiba, sua 
mãe, era uma escrava etíope, concubina de um notável abastado. 
Amara tornar-se-á mesmo um símbolo do heroísmo árabe num 
romance de cavalaria em que participava nas guerras contra a 
Pérsia, Bizâncio e os cruzados. Outros mestiços de sangue africano 
foram igualmente glorificados, como Amr Ibn AI' As, conquistador 
do Egipto, e o califa Omar, entre outros. Vários relatos históricos 
fizeram o elogio dos grandes feitos de inúmeros outros africanos. 
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Desta forma, a o longo d e muito tempo, o s árabes, diz-se, 
não manifestaram o menor desprezo pela cor negra. No seu 
Study of History, o historiador inglês Arnold Toynbee parece 
confirmá-lo: 
Os primeiros árabes que constituíam os dirigentes do califado 
omíada qualificavam-se como «povo moreno» , com uma conotação 
de superioridade racial, ao passo que os seus súbditos persas e tur­
cos eram chamados « povos avermelhados» , com uma conotação de 
inferioridade racial: isto é, faziam as mesmas distinções que nós entre 
loiras e morenas mas invertendo os valores que atribuímos a estes 
dois tipos de brancos. Diz-se que os homens preferem as loiras, mas o 
«povo eleito por Alá » dá prioridade às morenas. Além disso, os ára­
bes e todos os outros muçulmanos brancos, morenos ou loiros sempre 
foram desprovidos de preconceitos quanto a raças não brancas; e, 
até aos dias de hoje, os muçulmanos continuam a praticar a mesma 
dicotomia da espécie humana que os cristãos ocidentais da Idade 
Média. Dividem a Humanidade em crentes e não-crentes,