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Tidiane N'Diaye - O genocídio ocultado - investigação histórica sobre o tráfico negreiro árabo-muçulmano

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os quais 
são crentes em potência; e esta divisão supera todas as diferenças 
físicas e raciais. Tal largura de perspectiva é ainda mais notável nos 
muçulmanos brancos de hoje do que nos cristãos ocidentais da Idade 
Média: os nossos antepassados medievais tinham poucos ou nenhuns 
contactos com povos de cor diferente, ao passo que os muçulmanos 
brancos se encontraram, desde sempre, relacionados com os negros 
de África e com os povos de pele escura da Índia, e não deixaram de 
fomentar tais relações; de modo que, hoje, brancos e negros se vêem 
misturados sob a égide do islão, ao longo da totalidade dos terri­
tórios indianos e africanos. Os muçulmanos brancos demonstraram, 
de acordo com este rigoroso critério, uma ausência de sentimentos 
racistas através da mais convincente das provas: deram as próprias 
filhas em casamento a muçulmanos negros. 
Na verdade, se apenas nos ativéssemos a este género de «indi­
cador», não existiriam provas reais nas fontes privadas árabes, 
O N E G R O NO I M A G I N Á R I O C O L E C T I VO . . . 4 1 
gregas o u romanas a atestar que o s negros foram menos bem 
considerados pelos árabes do que os brancos. 
Antigas crónicas oriundas da tradição oral e raras fontes escritas 
informam-nos, no entanto, que as sociedades árabes pré-islâmicas 
conheciam, na realidade, um aumento progressivo dos preconcei­
tos contra os negros. Nelas, poetas mestiços árabo-africanos eram 
qualificados como aghribat al-'Arab, o que significa «os corvos 
árabes» . Muitos destes homens eram alvo de injúrias e sofriam 
discriminações. A sua inferioridade social resultava, sem a menor 
dúvida, da cor da sua pele. O célebre poeta Suhayun, escravo 
liberto e falecido em 660, manifestava ressentimento num dos 
seus poemas: 
As mulheres amar-me-iam se a minha pele fosse rosada. 
Embora a minha pele seja negra, a minha reputação é alva. 
Ao fazer-se a síntese de todas estas fontes, torna-se claro que, 
nos árabes, a admiração, a mistura e o respeito em nome da 
solidariedade religiosa rapidamente deram lugar ao desprezo, 
à desconfiança e até mesmo à repugnância. A descoberta de 
outros povos africanos muito diferentes dos etíopes e reduzi­
dos à escravidão para realizar tarefas aviltantes talvez não seja 
estranha a esta degradação da imagem do homem negro aos 
olhos dos árabes. 
A importação de escravos negros a grande escala modificará 
a atitude dos árabes muçulmanos para com os homens de pele 
escura. A partir do momento em que a África Subsariana se tor­
nou a principal zona fornecedora de escravos do tráfico oriental, 
o homem negro transformou-se em sinónimo de servidão e, cor­
relativamente, a cor da sua pele passou a ser associada a uma 
negação do islão. Os árabes tomaram liberdades com o espírito do 
texto sagrado. Recorreram a argumentos simultaneamente racistas 
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e religiosos para justificar a escravização dos negros, mesmo que 
convertidos. A partir daí, o desenvolvimento do tráfico transariano 
e oriental tornou-se inseparável do crescimento do racismo. Negar 
a dignidade humana daqueles que se quer subjugar é, desde sem­
pre, um meio simples e vilmente eficaz. De facto, esta mudança 
radical coincide com o início das grandes conquistas árabes e 
com a escravização de povos vencidos ou islamizados. Entre os 
vencedores, os letrados e os eruditos vão dedicar-se a «denegrir» 
ainda mais a imagem dos escravos africanos, elaborando teorias 
cada vez mais fantasistas, ao passo que nenhum deles pôs os pés 
na África Negra até ao século XIV. A sua bagagem intelectual 
bastante insuficiente a este respeito só lhes permitia transmitir 
lendas e outros preconceitos sobre os africanos perpetuados pelos 
geógrafos da Antiguidade. 
O primeiro erudito árabe ou de cultura muçulmana a dirigir-se 
à África Subsariana é Ibn Battuta ( falecido em 1 377). Visitou Gao 
e Tombuctu, antes de publicar o seu principal trabalho: Dávida 
Àqueles Que Gostam de Reflectir sobre as Curiosidades das Cida­
des e as Maravilhas das Viagens. 
A ideia não era nova, visto que certos pensadores gregos já 
associavam os caracteres dos povos aos climas em que viviam. Em 
matéria de teorias raciais acerca dos povos africanos, os árabes 
foram, no entanto, os mais cínicos. Muito antes de os investiga­
dores europeus do ramo da antropologia física desenvolverem, no 
século XIX, as teorias raciais que conhecemos, o pensador árabo­
-berbere Ibn Khaldun, que vivia em Túnis no século XIV, foi um 
dos primeiros arquitectos destas abordagens fantasistas das carac­
terísticas humanas. 
Ibn Khaldun desenvolve na introdução do seu projecto de his­
tória universal, al-Muqaddima lOs Prolegómenos], a ideia de que 
o clima tem uma influência directa sobre o estado das civilizações 
e sobre o carácter dos povos. Os negros e os eslavos são descritos 
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indistintamente como pertencendo aos povos «de carácter anima­
lesco» . Porém, mostra particularmente o seu desprezo quanto aos 
negros. O pensador árabo-berbere declarava que os negros são 
geralmente caracterizados pela ligeireza, pela inconstância, pela 
emotividade, e que sentem vontade de dançar assim que ouvem 
música. É por esta razão que são qualificados como estúpidos. E 
Ibn Khaldun acrescenta que a alegria e o contentamento resultam 
da dilatação e da difusão do espírito animal. Inversamente, a tris­
teza deve-se à contracção deste último. Por meio de uma demons­
tração tortuosa e selectiva, este teórico muçulmano defende que 
os negros vivem em países em que o calor lhes domina o tempe­
ramento e a formação, o que explicaria a sua estupidez e o seu 
grau de inferioridade. 
De forma ainda mais precisa, Sai"d ben Ahmad Sai"d - pro­
vável inspiração de Ibn Khaldun -, autor de vários trabalhos 
sobre a «questão racial » entre 1 050 e 1 060, classificava os povos 
em sete grandes famílias correspondentes aos sete climas. Para 
este homem, que também nunca visitara o continente negro, cada 
clima era definido pelo ritmo das estações, pela duração dos 
dias e pelos efeitos do calor ou do frio sobre a natureza e sobre 
os comportamentos dos homens. Segundo ele, esta teoria dos 
climas explica as diferenças de cor de pele dos homens, os seus 
temperamentos, os seus costumes e as suas crenças. Contudo, 
tal como Ibn Khaldun, evitou incluir neste edifício de inépcias 
os seus correligionários e « irmãos étnicos» do Norte de África 
(tunisinos, marroquinos, argelinos, líbios, etc . ) e outras tribos 
de árabes muçulmanos que viviam nos limites dos desertos do 
Irão, do Iraque ou da Arábia, cujas temperaturas andam próximo 
dos 50 graus à sombra e são, portanto, muito mais elevadas do 
que as da África Subsariana. (Decididamente, quanta má fé ! ) 
No clima d o « território dos negros » , diz ele - mas não no 
dos beduínos, evidentemente -, «o ar é ardente e o clima exte-
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rior, subtil . Assim, o temperamento dos sudans [negros] torna-se 
ardente e os seus humores aquecem; também assim se explica 
porque são de cor negra e têm cabelo crespo. Por esta razão, 
é inviabilizado qualquer equilíbrio de julgamento e qualquer 
segurança nas apreciações. Neles, é a ligeireza, a estupidez e a 
ignorância que dominam» . 
A maioria destes eruditos árabes não hesitava em citar os 
médicos da Grécia Antiga. Lembravam que Galeno identificara 
nos negros dez traços que se encontravam ausentes nos brancos, 
a saber: cabelo crespo, sobrancelhas finas, narinas largas, lábios 
grossos, dentes salientes, mau odor de pele, baixa moralidade, pés 
rachados, pénis longos, bom humor. Já o Cânone da Medicina de 
Avicena (980- 1037) determina: 
O corpo dos negros transforma-se pelo calor 
E a sua pele é coberta de negrura. 
O eslavo, pelo contrário, recebeu a brancura 
E a sua pele é suavidade pura. 
Aos olhos dos árabes, os negros tornar-se-ão sub-humanos e 
praticantes de antropofagia. No seu imaginário colectivo, os afri­
canos