O_Conceito_de_dignidade_na_Filosofia_Mor(1)
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O_Conceito_de_dignidade_na_Filosofia_Mor(1)


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CITAR: IMPRIMATUR - Revista Virtual de Ciências Humanas - UFSC, Florianópolis, v.2, 1999.
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O CONCEITO DE DIGNIDADE NA FILOSOFIA MORAL DE KANT
INTRODUÇÃO
A obra Fundamentação da Metafísica dos Costum es de Immanuel Kant e xplicita a
sua proposta de fundamentação da moral. O objetivo deste trabalho é demonstrar que o
conceito de dignidade é um pressuposto fundamental do discurso moral kantiano. Propomos
que o conceito de dignidade possibilita o estabelecimento d a r elação entre a forma do
princípio prático subjetivo e a forma do princípio prático objetivo. Isto significa que a
dignidade estabelece a possibilidade das formulações básicas do imperativo categórico.
Nossa apresentação consistirá de três part es. Explicitaremos, de início, a primeira
definição de digni dade. Deste modo, most raremos como a ar gumentação kantiana possibilita
o reconhecimento do va lor absoluto deste conceito. De acordo com a d efinição kantiana a
dignidade é o valor abso luto da ra cionalidade hu mana. Esta d efinição explicita -se à partir da
diferença entre preço e digni dade, pois esta é a difer ença ente valor de mercado e valor
moral. Segundo Kant, as coisas tem preço e as pessoas tem dignidade. A diferença entre o
preço das coisas e a dignidade das pessoas está na natureza que as constitui. De um lado, as
coisas são s eres destituídos de razão, portanto não possuem vontade p rópri a. De outro lado, as
pessoas são seres racionais, portanto possuem vontade. Deste modo, o que atribui dignidade à
uma pessoa é a sua natureza racional, ou seja, o fato de possuir vontade.
O segundo passo consistirá em explicitar o estatuto fundament al do conceito de
dignidade na concepção do dever moral. Deste modo, apresentaremos o conceito kantiano d e
liberdade da vontade humana e a sua relação com o conceito de digni dade. Esta relação nos
permitirá encontrar uma outra formulação kantiana para o conceito de dignidade. A segunda
definição do con ceito de dignidade consiste no fim objetivo que possibil ita a autonomia da
vontade humana. O fim objetivo é o único fim que comporta valor absoluto, pois tal fim
consiste na dignidade da racionalidade humana. E ste valor absoluto é a condição para qu e um
princípio prático tenha validade objetiva.
O terceiro passo consistirá, primeiramente, em explicitar o pro cesso de
determinação da vontade. Deste modo, evidenciaremos a dist inção kantiana entre as formas
subjetivas e objetiva de determinação da vontade, ou seja, os princípios subjetivos e objetivo
da ação. A partir desta disti nção podermos reconhecer que a validade objetiva de um princípio
está no seu valor absoluto. Isto significa que a dignidade é a condição par a que um p rincípio
prático tenha validade objetiva.
O conceito de digni dade possi bilita, então, o estabelecimento da relação de
identidade entre a forma do princípio prático subjetivo e a forma do princípio prático
objetivo. O princípio prático objetivo é o princípio válido c ategoricamente para todos os se res
racionais. Deste modo, o princípio prático objetivo constitui-se no imperativo categórico,
pois supõe a dignidade da racionalidade humana, ou seja, o fim objetivo valido
incondicionalmente.
Segundo Kant, um imperativo categórico. E, tal imperativo possui três
formulações diferentes. O papel fundamental do conceito de dignidade está em estabelecer a
relação entre as formulações básicas do imperativo categórico, pois a digni dade, como um
fim em si mesmo, está pressuposta nas três formulações do imperativo categórico. A saber: a
dignidade está diretamente relacionada à fórmula dos meios e dos fins; a digni dade está
pressuposta na fórmula da vontade legisladora, pois esta fórmula pr essupõe a fórmula dos
meio e dos fins; a dignidade também está pressuposta na fórmula da universalização da
máximas, pois esta fórmula também pressupõe a fórmula dos meios e dos fins.
A nossa análise, portanto, tratará de demonstrar que o conceito de dignidade é
fundamental para a compreensão da autonomia da vontade humana. Deste modo,
CITAR: IMPRIMATUR - Revista Virtual de Ciências Humanas - UFSC, Florianópolis, v.2, 1999.
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explicitaremos a relação entre o conceito de dignidade e a coação que a ra cionalidade exerce
sobre a sensibilidade, ou seja, a relação do conceito de dignidade com as formulaçõ es do
Imperativo Categórico.
PARTE I.
Dignidade como valor absoluto da pessoa.
O conceito de dignidade é apresentado por Kant na seção da Fundamentação da
Metafísica dos C ostumes. Kant afirma nesta apresentação que a "dignidade é reconhecida
como o valor de uma maneira de pensar"
1
. Este valor, segundo o filósofo, coloca-se a cima
dos valores de mercado ou sentimento por constituir-se um valor absoluto.
O sentido de valor absoluto é atribuído, por um lado, à tudo aquilo que não admite
ser substit uído por qualquer coisa equivalente. Colocado, segundo Kant, infinitamente acima
do sentido de valor de mercadoria, o sentido de valor absoluto represent a "o que está acima
de todo preço e, por conseguinte, o que não admite equivalente, (isto é) o que tem uma
dignidade"
2
. Por outro lado, o sentido de valor absoluto é atribuído a tudo aquilo que não se
restrinja a uma apreciação estética e que não tenha preço de sentimento. Colocado, também,
acima do sentido de valor de sentimento, o valor absoluto representa "o que constitui a
condição capaz de fazer que alguma coisa seja um fim em si”
3
. P ara Kant, se alguma coisa
não é exclusivamente meio para obtenção de outra coisa, então esta coisa é também um fim
em si mesmo. Ora, diz Kant, o que tem “um fim em si mesmo não tem apenas valor relativo,
isto é preço, mas sim um valor intrínseco, (ou seja) uma dignidade"
4
.
Nesta apresentação kant iana, onde reconhecemos a supremacia do valor absoluto,
encontramos a seguinte distinção entre preço e dignidade. Preço é um valor relativo. O
sentido deste valor resulta da maneira de pensar na utili dade ou na agradabilidade que
determinadas coisas t em para nós. Dignidade é o valor intrínseco. O sentido deste v alor
resulta da maneira de pensarmos em determinadas "coisas" qu e possuem valor absoluto. Esta
distinção entre coisas que tem preço e "coisas" que tem dignidade nos lev a à seguinte questão:
o que, ao contrário das coisas que têm preços e possuem valores relativos, tem digni dade e
possui valor intrínseco? Ou seja, o que é que possui tal valor que só pode ser pensado
mediante sua dignidade?
Kant con cebe os seres de duas maneir as distintas. Em um grupo estão os seres
destituídos de razão e, em outro grupo, estão os seres racionais. Os se res destituídos de razão
chamam-se coisas, pois exist em exclusivamente segundo a o rdem da natureza. Estes seres
irracionais, s endo coisas, possuem um valor relativo, pois são avaliados como objetos das
inclinações. Todos os ob jetos das inclinaçõ es, diz Kant, tem valor condicional. Ist o significa
que “se as inclinações, e necessidades que delas derivam, não existissem, o objeto d elas (as
coisas) seria destituído de valor”
5
. P ortanto, o valor que as coisas possuem está constituído
na capacidade que as me smas têm de serem úteis. O valor d as coisas, diz Kant, é um valor de
meio, pois são sempre utilizadas como meio para obtenção de um determinado fim.
Os seres racionais, por serem chamados pessoas, p ossuem um valor intrínseco. Este
valor independe da utilidade que uma pessoa possa ter para outra. O valor intrínseco, ou
absoluto, da pessoa é o que a caracteriza como f im objetivo. Um fim objetivo é aquele qu e
não pode ser substituído por nenhum outro, pois está acima de qualquer preço. Portanto,
reconhecer os seres racionais como aquilo q ue está a cima d e qualquer preço é reconhecer seu
valor íntimo. Em outras palavras, reconhecer os seres racionais como aquilo que possui valor
1
KANT, Immanuel: Fundamentação da Metafísica dos Costumes, p. 99.
2
Ibidem, p. 98.
3
Ibidem, p. 98.
4
Ibidem, p. 98.
5
Ibidem, p. 94.
CITAR: IMPRIMATUR - Revista Virtual de Ciências Humanas - UFSC, Florianópolis, v.2, 1999.
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absoluto é, diz Kant, “reconhecer que o homem, e em geral todo ser racional, existe como um
fim em si”
6
. E isto si gnifica que todo ser racional pode ser concebido em sua dignidade,
pois possui um valor intrínseco.
A dignidade das pessoas, portanto, é o que constitui a única condição capaz de
fazer com que algo seja um fim em si mesmo
7
. Deste modo, a digni dade d as pessoas é o que
lhes atribui valor absoluto, pois as caracterizam como fim objetivo. Ora, se cada pessoa é um
fim objetivo, então, diz Kant, nenhuma pessoa p ode ser uti lizada unicamente como meio. Isto
significa que a dignidade dos seres ra cionais enquanto pessoas põe um limite, em certo
sentido, a todo livre arbítrio”
8
.
O limi te que a dignidade estabelece para todo o livre arbítrio é, segundo Kant, uma
restrição a toda vontade. Kant afirma que o homem, e em g eral todo ser racional, existe
como um fim em si, não apenas como meio, do qual esta ou aquela vontade possa dispor a
seu talento; mas, em tod os os seus atos, tanto no que se refere a ele própr io, como no que se
refere a outros seres raci onais, ele deve s empre ser considerado como fim”
9
. C abe perguntar,
portanto, em que condição a vontade de uma pe ssoa pode dispor de uma outra pessoa? Ou
seja, em que condições uma pessoa deverá ser sempre respeitada como um fim em si? Para
respondermos esta questão é preciso apresentarmos o conceito kantiano de vontade boa ou de
vontade livre, pois é na concepção de li berdade da vontade que encontramos o respeito à
dignidade dos seres racionais.
PARTE II.
O conceito de liberdade da vontade.
Para introduzir o conceit o de vontade, Kant p arte da constatação de que todos os
seres a gem de acordo com leis. No entanto, as lei s que determinam os seres racionais não são
as mesmas leis que d eterminam os seres irracionais. Estes últimos são determinados
exclusivamente pelas leis da natureza. Isto significa que a con stituição material, ou
fenomênica, dos seres ir racionais os submete à necessidade causal do mundo fenomênico.
Deste modo, todos os seres pert encentes ao mundo fenomênico são determinados
heteronomamente. A het eronomia no mundo fenomênico representa, portanto, a necessidade
de agir conforme uma determinação exterior ao sujeito agente.
Ao contrário dos seres irracionais que agem determinados por causas estranhas a
eles mesmos. Os seres r acionais possuem vontade e, diz Kant, “a vontade é uma espécie d e
causalidade dos seres viventes, enquanto dotados de razão”
10
. As leis q ue determinam a
vontade não são as mesmas lei da natureza, pois a vontade não é uma inclinação. As leis que
determinam a vontade são as leis da liberdade da razão. E, define Kant, “a liberdade seria a
propriedade que esta causalidade (dos seres raci onais) possuiria de poder agir independente
de causas estranhas que a determine”
11
. Temos, portanto, o conceito negativo de liberdade da
vontade. Isto significa que, embor a não saibamos o que determina as ações dos seres
racionais, podemos reconhecer que os seres racionais não são determinados por causas
exteriores a eles.
O sentido positivo do conceito de li berdade r esulta do sentido negativo deste
mesmo conceito. O conceito negativo d e liberdade da vontade consiste na li berdade
transcendental dos seres racionais. Isto significa que os seres racionais o estão submetidos
às leis do mundo sensível, pois participam do mundo inteligível. Em outras palavras, os seres
6
KANT, Immanuel: Fundamentação da Metafísica dos Costumes, p. 90.
7
Cf. KANT, Immanuel: Fundamentação da Metafísica dos Costumes, p. 91.
8
KANT, Immanuel: Fundamentação da Metafísica dos Costumes, p. 90.
9
Ibidem, p. 90.
10
Ibidem, p. 111.
11
Ibidem, p 111.