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ANLISE_DO_COMPORTAMENTO_E_EVOLUO_CULTURAL_RELAES_ENTRE_AS_PROPOSTAS_CONCEITUAIS_DE_B F _SKINNER_E_S S_GLENN

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como unidade a prática cultural, considerando-a equivalente ao conceito de 
contingência entrelaçada ou como um conjunto de contingências entrelaçadas. 
Posteriormente, a autora diferencia prática cultural e contingência entrelaçada e 
considera a última como unidade de evolução cultural. 
A discussão das unidades de seleção passará por quatro etapas. Primeiramente, 
discutiremos a utilização de um mesmo termo em referência a relatos de eventos que 
podem ser distintos em Skinner e Glenn: o conceito de prática cultural. Em segundo 
lugar, identificaremos relatos de eventos com características semelhantes descritos sob 
níveis de análise distintos: cooperação operante em Skinner e metacontingência em 
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Glenn. Em seguida, estabeleceremos relações entre as unidades de seleção cultural 
propostas por cada autor. Por fim, indicaremos similaridades e distinções entre os 
conceitos de prática cultural em Skinner e as linhagens culturo-comportamentais e 
culturais em Glenn. 
3.1.1 Prática cultural em Skinner e Glenn. 
Para Skinner a unidade da seleção cultural é a prática cultural. Nos textos do 
autor, este conceito refere-se a operantes transmitidos que passam a integrar as 
contingências de reforçamento social dispostas por um grupo de indivíduos (linhas: 268, 
410). As práticas culturais são descritas por Skinner como as variações (linha: 458) ou 
mutações (linha: 354) sobre as quais a seleção cultural atua. 
Embora em seus textos iniciais Glenn identifique a prática cultural com as 
contingências entrelaçadas e, portanto, com a unidade da seleção cultural, 
posteriormente elas são diferenciadas. Nos textos de Glenn foram identificados três 
tipos de relatos de eventos nos quais o conceito de prática cultural é empregado, a saber: 
os que envolvem operantes transmitidos, operantes similares ou operantes que formam 
um produto agregado. 
Ainda que operantes similares e que formam um produto agregado com 
freqüência envolvam transmissão cultural, isto nem sempre ocorre. É possível 
identificar operantes similares sem que haja transmissão cultural daquele operante 
particular devido a similaridades do ambiente não-social. Da mesma forma, é possível 
que operantes que formam um produto agregado não sejam produto da transmissão 
cultural. Um exemplo hipotético de prática cultural sem transmissão apresentado por 
Glenn (linhas: 219, 220, 221, 222), discutido no capítulo anterior, é o de vários 
cabeleireiros que emitem operantes similares, cortam o cabelo da mesma forma e, como 
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produto, diversos indivíduos que são clientes destes cabeleireiros tem estilos de corte de 
cabelo parecidos: ―In this case, the similar behavior of many individual constitutes a 
cultural practice, but there is no evidence of cultural transmission‖ (linha: 221). 
É possível chegar a duas conclusões até aqui. A primeira, e mais óbvia, é de 
que as unidades de seleção cultural em Skinner e Glenn recebem terminologias distintas 
a partir da publicação de 2001a - respectivamente: prática cultural e contingência 
entrelaçada. A segunda conclusão é de que a aplicação do conceito de prática cultural 
nas publicações de Glenn estende-se a fenômenos que não necessariamente incluem 
transmissão operante e, logo, podem diferenciar-se do que é considerado como prática 
cultural por Skinner. Considerando-se que termo não é necessariamente utilizado pelos 
autores para abordar os mesmos fenômenos, torna-se indispensável indicar em trabalhos 
que utilizam o conceito de prática cultural se ele está sendo empregado em 
conformidade com o tratamento dado por Skinner ou Glenn. 
3.1.2 Contingência entrelaçada em Glenn e comportamento cooperativo 
em Skinner. 
No tópico anterior discutimos a aplicação de um mesmo conceito, o de prática 
cultural, a relatos de eventos distintos. Neste momento, analisaremos conceitos 
diferentes sendo aplicados a experimentos semelhantes envolvendo comportamento 
cooperativo. No experimento de Skinner intitulado Cooperating Pigeons (linhas: 206, 
207, 208) e no experimento de Vichy, Andery & Glenn (2009) observamos organismos 
comportando-se cooperativamente. Todavia, estes fenômenos semelhantes são 
analisados a partir de conceitos diferentes, quais sejam: o comportamento operante em 
Skinner e a metacontingência em Glenn. 
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Em Skinner, os pombos deveriam cooperar em duas atividades: (1) descobrir o 
par efetivo de botões e (2) bicá-los ao mesmo tempo. Já no experimento de Vichy, 
Andery & Glenn (2009), a cooperação envolvia (1) escolher em conjunto uma linha e 
apostar, (2) depositar alguns tokens do grupo em um vaso e (3) decidir como 
compartilhar entre os participantes os tokens restantes. A consequência comum aos 
participantes no experimento de Skinner era a disponibilidade do alimento e em Vichy, 
Andery & Glenn a quantidade de tokens que poderiam ser trocados por dinheiro ao final 
das sessões. 
Ainda que os experimentos em questão sejam semelhantes no sentido de que há 
comportamento cooperativo entre indivíduos, Skinner e Glenn utilizam conceitos 
diferentes para abordá-lo. Skinner limita-se ao conceito de comportamento operante 
enquanto Glenn adiciona o conceito de metacontingência à descrição do fenômeno. 
Observa-se que ainda que o evento pudesse ser satisfatoriamente analisado a 
partir do comportamento operante, o conceito de metacontingência coloca o leitor sob 
controle de outro nível de análise. Em Cooperating Pigeons, a variável dependente de 
Skinner é o comportamento de cada pombo individualmente. Por exemplo, ele observa 
que um dos pombos desenvolveu o padrão de explorar os botões enquanto o outro 
bicava o botão correspondente (linha: 208). O experimento de metacontingência 
apresentado, por sua vez, tem como variável dependente o comportamento cooperativo 
do grupo. Glenn não se atém ao repertório individual de algum membro em particular, 
mas à interação do grupo como um todo. Por exemplo, o experimento demonstra que a 
distribuição dos tokens (contingência entrelaçada) foi alterada quando a condição 
experimental mudava (A ou B) (linha: 330). 
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Assim, ainda que o experimento de Glenn também envolva processos 
operantes subjacentes, o conceito de metacontingência descreve o mesmo fenômeno a 
partir de outro nível de análise. Enquanto Skinner descreve a cooperação identificando o 
comportamento de cada pombo e as consequências contingentes ao operante de 
organismos individuais, Glenn o faz observando a interação entre indivíduos, ou 
contingência entrelaçada, e consequências contingentes ao entrelaçamento. 
3.1.3 Prática cultural versus contingência entrelaçada. 
Os termos prática cultural e contingência entrelaçada são conceitos entendidos 
como unidades de seleção no nível cultural. Tais unidades são utilizadas em referência 
ao que foi possível identificar como classes de relatos de eventos distintas. Como 
vimos, o conceito de contingência entrelaçada é mencionado por Glenn em textos que 
apresentam interação entre indivíduos. Outros termos semelhantes como ―interlocking 
system‖ (linhas: 22, 24, 25, 27) e ―interlocked behavior‖ (linhas: 24, 48) aparecem já na 
obra de Skinner ao tratar de comportamento social que envolve o comportamento de um 
organismo X como variável para o comportamento de um organismo Y e vice-versa 
(1.1.2). Nestes casos, a análise completa da interação requer investigar as variáveis 
necessárias para descrever o comportamento pelo menos dois organismos. 
O comportamento de interação formado por dois ou mais indivíduos pode ou 
não fazer parte de uma metacontingência. A princípio, não necessariamente existe uma 
consequência funcional contingente à contingência entrelaçada. É possível que a 
interação