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de competências para lidar
com as técnicas e os instrumentais do ensino
(tecnologia) e da ciência aplicada no campo do
ensino e da aprendizagem\u201d (idem, p. 156).
Já ARCE (2000, p. 55) critica a perspectiva
construtivista na qual se postula que o professor
deve ter \u201csubtraídos da sua formação os
conteúdos escolares em prol do
desenvolvimento de habilidades que o levem a
gerar autonomia do aluno\u201d. Nota-se aqui que,
também para o professor, vigora a tendência
de individualização, forçando-o a tornar-se
responsável pela própria formação/qualificação,
ao sabor das novas relações de trabalho. Com
isso, distancia-se de qualquer noção de projeto
global de formação, atendendo apenas aos
ditames da nova ordem econômica.
Não é de estranhar, portanto, que o atual
Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE)
reforce duas tendências que vêm promovendo
o esvaziamento: tornar a educação à distância
base dos cursos de formação de professores e, na
esteira da diversificação institucional do ensino
superior, retirá-la das universidades.
Em síntese, pode-se
afirmar que o esvaziamento
da escola (conseqüen-
temente, do currículo)
corresponde às necessidades
imanentes ao modo de
produção capitalista hoje. É
uma das formas pelas quais
se busca (des)educar os
indivíduos, naturalizando as
determinações materiais do
capital e as relações sociais por
ela constituídas como as
únicas possíveis: fazendo-as
senso comum.
Duas das tendências mais
expressivas disso são: a) o
esvaziamento em geral, como processo de
simplificação dos conteúdos que compõem os
currículos escolares. Ou seja, uma redução ao
mesmo tempo absoluta e relativa, esta última
referente ao pragmatismo e às propostas
novidadeiras que assolam a educação. As noções
de \u201cpedagogia das competências\u201d e \u201caprender a
aprender\u201d são alguns dos artifícios ideológicos
associados a esta tendência; b) o esvaziamento
no sentido da educação dominada pela lógica
da mercadoria. Direito social converte-se em
serviço, atendimento em oferta, qualidade em
eficiência, igualdade em equidade. Aos extratos
do capital que investem no ensino importa
\u201cservir aos poucos e sempre\u201d a educação, o que
converge plenamente com o aligeiramento da
formação e a redução dos conteúdos: a lógica é
oferecer um serviço simplificado, facilmente
produzido e pouco dispendioso, que pressupõe
profissionais pouco qualificados (professor
torna-se \u201ctutor\u201d, \u201cfacilitador\u201d), mas muito
rentável quando associado a um discurso
hegemônico que valoriza a educação10. Neste
caso, as noções mais emblemáticas são:
\u201caprender ao longo da vida\u201d, \u201ceducação
permanente\u201d, \u201cqualidade total\u201d e \u201cpedagogia
de resultados\u201d.
Nessa lógica, a qualidade da educação passa a
ser medida apenas pelos \u201cindicadores da educação\u201d,
donde se vê que a ênfase conferida a isso nas
propostas educacionais oficiais não é fortuita.
Algumas conclusões: que escola, que
currículo, que sociedade?
Como pensar numa outra forma de
organização da educação? Como escapar de uma
política que se autodenomina flexível, mas que,
em nome da \u2018autonomia\u2019 escolar, da
\u2018individualidade inata\u2019 do sujeito e da
\u2018liberdade democrática\u2019 de uma sociedade
extremamente mercantilizada, impõe condições
limitantes e castradoras para a educação?
Sabendo que a educação não se constitui
num problema em si mesmo, entendemos que
o esvaziamento do conteúdo escolar é altamente
prejudicial para a formação das futuras
gerações. É necessário, então, resgatar uma
concepção educacional e pedagógica que preze
pelo aprendizado dos conteúdos historicamente
produzidos e acumulados pela humanidade.
Mas não se trata apenas disso: o significado e a
importância de uma pedagogia de tal natureza
residem na possibilidade de reverter o sentido
de uma política educacional que vem
promovendo a destruição das formas
sistemáticas de transmissão dos saberes e
conhecimentos e, com ela, a possibilidade de
fazer com que cada um dos indivíduos seja
também um portador da humanidade
produzida ao longo da história.
Urge definir uma política educacional
adequada a esse fim e não subordinada aos
ditames da acumulação de capital em escala
global, que desvia recursos públicos em
montantes crescentes para remunerar o capital
financeiro e que, do ponto de vista curricular,
impõe formatos pretensamente flexíveis, porém
uniformizantes tanto quanto alienantes. Uma
política que quebre o círculo vicioso da exigência
de eficiência, pela via punitiva da avaliação, e
que tenha nesta um mecanismo de efetiva
melhora da qualidade, não servindo apenas para
7
 Nada mais emblemático do que o \u201cCompromisso Todos pela Educação\u201d, acordo empresarial que serviu de base para muitas das proposições do atual Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE).
8
 Os imperativos de padronização, flexibilização e produtividade funcionais ao capital no campo educacional levaram GENTILI (1996) a comparar a educação com o funcionamento das lanchonetes de tipo
fast food, analogia à qual denominou de \u201cmcdonaldização\u201d da escola.
9
 Ver, neste sentido, a formulação de GALLO (2001, p. 34), que afirma suas diferenças para com a proposta dos PCNs, mas não deixa de aproximar-se dela em pelo menos dois aspectos: o caráter meramente
adaptativo da educação e o distanciamento para com a realidade histórica, proclamada na hipótese de que as \u201cgrandes questões políticas\u201d devem ser resolvidas \u201cno campo do fluxo de informações\u201d.
10
 A indicação de que os alunos que chegam ao nível superior apresentam lacunas essenciais de formação é emblemática. A Folha de S. Paulo apresenta dados que atestam a ampliação da prática de oferecer
\u201creforço\u201d \u2013 sobretudo em português e matemática \u2013 nas instituições de ensino superior particulares do país, o que inclui renomadas instituições e não apenas aquelas reconhecidas por seu pouco rigor na seleção
dos estudantes. Conhecimentos básicos que antes eram ensinados na escola básica passam a fazer parte dos currículos de cursos superiores (FACULDADES dão \u2018supletivo\u2019..., 2008).
24 - outubro de 2008 99999
atestar o dado, o consolidado, mas que seja ponto
de apoio para o avanço contínuo e progressivo.
Mas não se trata, aqui, de reinventar a roda.
Sem reordenar as prioridades desta sociedade,
não há como pensar numa outra política
educacional. É preciso construir uma saída
educacional que, de um lado, não repita o erro
de pensar a educação como algo acima das
relações sociais dadas e que a pense, por outro
lado, não apenas como reprodução destas
mesmas relações. Uma educação que,
assumindo seus elementos de contradição, seja
direcionada para produzir em cada um dos
indivíduos, o máximo desenvolvimento de seus
conhecimentos e capacidades, a saber, aquelas
historicamente produzidas e acumuladas pela
humanidade11. Numa sociedade que já vive os
sinais de uma crescente barbárie social, esta
tarefa é inadiável.
Referências Bibiográficas
ANTUNES, R. Os sentidos do trabalho.
CCCCC
Currículo e Histórias de Vida
Belmira Oliveira Bueno (*), Daiane Antunes Vieira Pincinato (**), Márcia Maria Brandão Santos (***)
A história de vida é outra maneira de considerar a educação. Já não se trata de aproximar a educação da vida, (...) mas de considerar a vida como o espaço de
formação. (...) A educação é assim feita de momentos que só adquirem o seu sentido na história de uma vida. (Pierre Dominicé)
urrículo e histórias de vida têm bem
mais em comum do que a primeira
vista se poderia pensar. Ambos dizem
respeito a percursos e experiências de
vida, a trajetos percorridos, àquilo que
documenta e testemunha o que alguém realizou,
seja na escola, na profissão ou ao longo de toda
uma existência.
Partir desse ponto parece-nos importante, já
que acostumados demais às palavras, acabamos
muitas vezes por perder seus significados. No
caso do currículo, essa perda desencadeou um
movimento que já dura algumas décadas, cujo
propósito foi o de analisar e recriar o seu sentido
na escola. Com as histórias de vida algo
semelhante também se deu. A história dessa
abordagem também teve seus percalços e os
modos de entender e usar essa abordagem é,
ainda hoje, assunto