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ANÁLISE DO TRABALHO ESCRAVO NA LEGISLAÇÃO BRASILEIRA

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é amplo, o que dificulta a aplicação da lei. Juridicamente já existem dispositivos normativos que regulam e definem o trabalho escravo, porém com muitas opções que definem o termo, acaba que nenhum tem de fato gerado efeito (OIT BRASIL, 2006).
Diante de uma análise sobre os fatos que dão posicionamento penal e trabalhista no que tange ao trabalho escravo, nota-se que são sempre os mesmos, apesar de focos diferentes. Mas tudo se centraliza no mesmo fato, o que não seria motivos para posicionamento diverso. Enquanto um tem preocupação com o autor do delito, o outro se preocupa com a vítima (OIT BRASIL, 2006). 
O ideal seria que os entendimentos já consolidados nas normas brasileiras sobre o tema, unisse a Lei, se repetindo em inteiro teor, reservando a tratar da parte especial, disciplinando o que a CRFB/1988 prevê, com a alteração do artigo 243 (BRASIL, 2014).
Em contraponto ao combate incansável à escravidão contemporânea, em que o Brasil já foi até mesmo referência nessa luta, nos dias atuais a realidade é outra. Em outubro de 2017, é aprovada a Portaria nº 1.129/2017, assinado pelo atual Ministro do Trabalho, Ronaldo Nogueira de Oliveira (DOU, 2017). A portaria traz no artigo 1º, inciso IV a seguinte definição:
IV - condição análoga à de escravo: 
a) a submissão do trabalhador a trabalho exigido sob ameaça de punição, com uso de coação, realizado de maneira involuntária; 
b) o cerceamento do uso de qualquer meio de transporte por parte do trabalhador, com o fim de retê-lo no local de trabalho em razão de dívida contraída com o empregador ou preposto, caracterizando isolamento geográfico; 
c) a manutenção de segurança armada com o fim de reter o trabalhador no local de trabalho em razão de dívida contraída com o empregador ou preposto; 
d) a retenção de documentação pessoal do trabalhador, com o fim de reter o trabalhador no local de trabalho; (DOU, 2017).
A nova definição remete-se ao início da escravidão, esquecendo o referido Ministro, que o mundo se atualizou e os formatos de escravidão se atualizaram com ele, a portaria dificulta a punição daqueles que são flagrados cometendo essa prática desumana. Além de contraria o artigo 149 do Código Penal, que têm como elemento da definição de condição análoga à de escravo, submeter o trabalhador a trabalho forçado, jornada exaustiva, sujeitando a condição degradante e até mesmo restringir a locomoção por dívida (BRASIL, 1940).
Outra alteração de grande impacto ao combate ao trabalho escravo, é a chamada “Lista Suja” que reúne pessoas e empresas que se utilizam de trabalho escravo, antes eram feita pela área técnica do ministério, a partir de agora somente vai para a lista após determinação do Ministro do Trabalho (DOU, 2017).
A Organização Internacional do Trabalho – OIT se mostrou bem preocupada com a Portaria, divulgando nota sobre o assunto:
com a edição da Portaria n. 1129, de 13/10/2017 , o Brasil corre o risco de interromper essa trajetória de sucesso que o tornou um modelo de liderança no combate ao trabalho escravo para a região e para o mundo. Os eventuais desdobramentos desta Portaria poderão ser objeto de análise pelo Comitê de Peritos da Organização Internacional do Trabalho (OIT). A gravidade da situação está no possível enfraquecimento e limitação da efetiva atuação da fiscalização do trabalho, com o consequente aumento da desproteção e vulnerabilidade de uma parcela da população brasileira já muito fragilizada. Além disso, a OIT também lamenta o aumento do risco de que os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU não sejam alcançados no Brasil, no que se refere à erradicação do trabalho análogo ao de escravo (OIT BRASIL, 2017)
Ademais, observa-se que definição para trabalho escravo existe, em âmbitos jurídicos distintos, com foco distintos, concluindo que há a necessidade de uma definição definitiva e completa que possa abranger todas as formas de escravidão contemporânea que existem, para que com isso possa se punir aqueles que se valem dessa prática pra proveito próprio. Por fim, há de se admitir que alguns desses conceitos representam de forma memorável o avanço na erradicação do trabalho escravo, dando o devido valor ao trabalho e a dignidade humana, que a Constituição Federal não abrange. Mas há a necessidade de um único conceito como base, que possa englobar todas as ferramentas jurídicas internas e externas, para colocar fim às tentativas dos proprietários que se utilizam das lacunas que a lei deixa. (SCHERNOVSKI, 2013).
3. Conclusão
A presente pesquisa demonstrou que a escravidão contemporânea, que se faz tão presente nos dias atuais, restringe direitos fundamentais aos trabalhadores e muitos obstáculos ainda são impostos para erradicação do trabalho escravo no Brasil. E que apesar das normas jurídicas existentes no ordenamento, não são suficientes para coíbe o trabalho análogo ao de escravo no Brasil.
Assim, tornando necessário uma maior efetivação das leis que buscam combater essa pratica e o aprimoramento e unificação dos termos jurídicos já existentes para uma única definição de trabalho escravo, porem que remeta ao atual cenário de escravidão que os trabalhadores são submetidos. 
REFERÊNCIAS
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DIÁRIO OFICIAL DA UNIÃO. Disponível em: < http://pesquisa.in.gov.br/imprensa/jsp /visualiza/index.jsp?jornal=1&pagina=82&data=16/10/2017> Acesso em: 19 out 2017.
DIREITOS BRASIL. Trabalho Escravo: o que diz a lei? Disponível em: <http://direitosbrasil.com/trabalho-escravo/> Acesso em: 13 out 2017. 
FELICIANO, Guilherme Guimarães. Do crime de redução a condição análoga à de escravo, na redação da Lei n. 10.803/03. Revista do Tribunal Regional do Trabalho da 15ª Região, Campinas, SP, n. 25, jul./dez. 2004.
NÉRI, Felipe. Congresso Nacional promulga a PEC do Trabalho escravo. 2014. Disponível em: < http://g1.globo.com/politica/noticia/2014/06/congresso-nacional-promulga-pec-do-trabalho-escravo.html> Acesso em: 12 out 2017.
NOLETO, Eliézer de Queiroz. Trabalho escravo X Trabalho decente. 2009. Disponível em: < http://www2.camara.leg.br/a-camara/documentos-e-pesquisa/estudos-e-notas-tecnicas/areas-da-conle/tema8/2004-7324.pdf> Acesso em: 12 out 2017. 
OIT BRASIL. Trabalho Escravo no Brasil do Século XXI. 2006. Disponível em: < http://www.oitbrasil.org.br/sites/default/files/topic/forced_labour/pub/ trabalho_ escravo_no_brasil_do_seculo_xxi_315.pdf> Acesso em: 12 out 2017.
_______. Nota do Escritório da OIT no Brasil sobre as mudanças no combate ao trabalho análogo ao de escravo. Disponível em: < http://www.ilo.org/brasilia/noticias/ WCMS_584323/lang--pt/index.htm> Acesso em: 19 out 2017.
ONU BRASIL. ONU manifesta preocupação com projeto de lei que altera conceito de trabalho escravo no Brasil. 2016. Disponível em: < https://nacoesunidas.org/onu-manifesta-preocupacao-com-projeto-de-lei-que-altera-conceito-de-trabalho-escravo-no-brasil/> Acesso em: 13 out 2017. 
SCHERNOVSKI, Valdeci. Trabalho escravo contemporâneo. 2013. Disponível em: < https://advaldeci.jusbrasil.com.br/artigos/111749665/trabalho-escravo-contemporaneo> Acesso em: 12 out 2017. 
SENADO. Combate ao trabalho escravo. Revista de audiência pública do Senado Federal. Ano 2 – Nº 7 – maio de 2011. Disponível em: < https://www.senado.gov.br/ noticias /Jornal/emdiscussao/trabalho-escravo/combate-ao-trabalho-escravo.aspx> Acesso em: 10 out 2017. 
_______. Projeto de Lei do Senado n. 432, de 2013. Disponível em: <https://www25.senado.leg.br/web/atividade/materias/-/materia/114895> Acesso em: 12 out 2017.

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