A menina feita de espinhos
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A menina feita de espinhos


Disciplina<strong>filosofia</strong> Românica2 materiais10 seguidores
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A MENINA FEITA DE
ESPINHOS
Universo dos Livros Editora Ltda.
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FABIANE RIBEIRO
A MENINA FEITA
DE ESPINHOS
© 2015 by Universo dos Livros 
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Capa
Rebecca
Barboza
CDD B869
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação
(CIP)
Angélica Ilacqua CRB-8/7057
R369m
Ribeiro, Fabiane
A menina feita de espinhos / Fabiane Ribeiro. \u2013\u2013 São Paulo :
Universo dos Livros, 2015.
352 p.
ISBN: 978-85-7930-824-6
1. Literatura brasileira 2. Literatura fantástica I. Título
15-0538
Este livro é para aqueles que sabem conviver com espinhos,
Para aqueles que aceitam o diferente,
Que amam sem medos e preconceitos,
Que sabem que vão sentir dor em vários momentos da vida, mas não
desistem por isso.
Para aqueles que gostam de giz de cera, bichos de pelúcia e rosas
vermelhas.
Para aqueles que sabem chorar. De verdade. Não apenas derramar
lágrimas.
Para aqueles que veem beleza em tudo. Absolutamente tudo.
Mas se você não é assim, este livro ainda é para você, porque celebra
justamente as diferenças.
E este livro é também para meus leitores, minha família, meus amigos,
meus cães e para todos que me ajudam a continuar na carreira literária e
apoiam cada uma de minhas novas histórias. Vocês são demais, e eu
realmente desejo que também realizem seus sonhos!
SUMÁRIO
1 º Ato Desabrochar
2 º Ato Uma coleção de momentos
3 º Ato Escondido no canto da alma
4 º Ato O espelho
5 º Ato Não há nada que eu possa fazer para mudar e nada que eu possa
fazer para entender
6 º Ato A menina que, assim como as roseiras, era feita de espinhos
7 º Ato À distância de um toque
8 º Ato Sonhos que se tornam fragmentos de vergonha
9 º Ato Olhos tão azuis e tão bonitos
\u201cEla é sozinha, porém, mais importante que todas vós, pois foi ela que eu
reguei. Foi ela que pus sob a redoma. Foi ela que abriguei com o para-vento.
Foi por ela que matei as larvas (exceto duas ou três, por causa das
borboletas). Foi ela que eu escutei se queixar ou se gabar, ou mesmo calar-se
algumas vezes, já que ela é a minha rosa.\u201d
\u2014 Antoine de Saint-Exupéry, em O Pequeno Príncipe (1943).
PRÓLOGO
Eu nasci assim. Com espinhos venenosos sobre toda a minha pele.
Repelindo, assustando e repugnando as pessoas.
Meu aspecto é de um monstro. Medonho, feio e desrespeitoso. Para muitas
pessoas é justamente isso que sou: um desrespeito à humanidade; para outras,
nem humana sou. Seria mais digno para seus olhos se eu não existisse. Na
maioria das vezes, penso que elas estão certas e recolho-me à minha
insignificância.
Eu deixo o mundo mais feio.
Entretanto, há vezes em que meu coração não aguenta e me pede para sair
de casa, ver a cor do céu e sentir o cheiro da grama. E ver pessoas,
acreditando que talvez elas não me olhem com ânsia de vômito, só para variar
um pouco.
Isso nunca acontece; passo os dias seguintes chorando por ser tão feia e
diferente.
Eu aprendi, com tantos olhares de nojo que recebi, que há beleza em tudo.
Há beleza na tristeza e na dor, até mesmo na raiva. E há beleza na vida, em
suas despedidas e em seus desencontros. E também em suas artimanhas
maquiavélicas, sempre adiando a felicidade. Mas em mim, não. Não há
beleza nenhuma em mim.
Não é bonito nem fácil ser eu mesma.
Além de comprometer minha aparência e impedir que eu seja tocada ou
que toque alguém, os espinhos sobre minha pele também são uma máquina
mortífera, pois estão cheios de veneno. Sou uma força da natureza pronta
para matar qualquer predador ao simples toque.
Se eu tivesse nascido com bula, os efeitos colaterais seriam: urticária,
inchaço, ardência, lacrimação, irritação de mucosas, problemas respiratórios
e, em caso grave, parada cardíaca.
Portanto, o aviso foi dado. Se você quer continuar a conhecer a trajetória
sinuosa de minha existência literalmente espinhenta e venenosa, fique à
vontade.
Nunca compreendi quando dizem que \u201cnem tudo são flores\u201d. Será que
quem fala isso já pensou como seria se tudo fosse espinhos? É assim comigo.
Foi assim comigo.
Até o dia em que\u2026
Certos olhos me encontraram e viram algo belo em mim. Algo que eu
nunca vi e nunca veria. Segundo suas próprias palavras, eu era bonita porque
havia brilho no meu olhar. Não um brilho qualquer, mas aquele que só tem
quem conhece a vida e suas facetas mais tristes, e ainda assim não desiste de
caminhar sob o sol.
Ele disse que meus espinhos eram necessários porque eles faziam de mim
uma roseira rara. A única a caminhar sobre a terra e capaz de realmente se
apaixonar.
Finalmente alguém havia visto pétalas em mim.
PRIMEIRO ATO 
Desabrochar
CAPÍTULO 1
Esta é a minha história. Ela é sobre felicidade e sobre tristeza, porque uma
não existe sem a outra.
Ela é também \u2013 e principalmente \u2013 sobre bondade.
A bondade presente em um olhar, quando optamos por ver o diferente
como igual. A bondade de um abraço apertado e de um aperto de mãos e de
um beijo no rosto \u2013 coisas que jamais poderei fazer. A bondade de saber dizer
palavras tão gigantes na hora certa: adeus, eu te amo, você é importante, você
é belo.
A bondade presente naquele momento raro em que engolimos uma ofensa
e, em seu lugar, entregamos uma flor.
Eu sempre adorei flores, principalmente rosas, mas nem sempre elas me
protegeram. As coisas e as pessoas que amamos não estão do nosso lado em
todos os momentos; às vezes caminhamos sobre muitas pedras descalços e
sozinhos. E mesmo que algumas pessoas estejam ao nosso lado, a caminhada
de cada um, no fim das contas, é pessoal. Não que não haja amor,
aprendizado mútuo e entrega em cada relação que estabelecemos ao longo de
nossa existência. Estou dizendo que apenas nós somos capazes de realmente
compreender a pior parte de cada uma das grandes e pequenas dores que
enfrentamos.
Eu tive que conviver com a solidão por muito tempo, mesmo quando não
estava tão sozinha assim. Ser diferente é algo solitário.
Ter pessoas que ajudem é, sim, muito bom, e esta história apresentará
várias dessas flores raras que desabrocharam em meu jardim.
E esta história é também sobre o meu desabrochar. Eu nasci um ramo de
espinhos, querendo ser flor. E cada espinho em mim doeu desde o primeiro
instante. Eu só consegui viver quando abracei a dor de ser quem sou \u2013 a dor
tornou-se uma amiga e passei a caminhar do seu lado. Ela nunca foi embora,
mas eu consegui sair do lugar e seguir meu caminho. Sempre junto à dor .
Lado a lado com meus espinhos.
Cada um sente na pele a dor de ser quem é.
Comigo é literalmente isso que acontece.
Aprendi da forma mais cruel possível.
E, assim como ninguém nunca compreendeu com clareza minhas tristezas
(apesar de alguns terem tido o interesse e isso fez toda a diferença), ninguém
jamais entenderá a escolha que mamãe fez.
Ela morreu quando eu nasci. Ela deu sua vida pela minha (ninguém nunca
me disse isso, com essas palavras, mas eu simplesmente sei e, de alguma
forma, acho que ela sabia também).
Quando foi para o hospital com hemorragia, papai disse que mamãe não
chorou. Ela estava resignada e havia feito uma escolha.
Escolhera a minha vida.
Sem nunca ter tido a chance de ver meus espinhos, ela amou cada um
deles.
Ela amou a sua pequena menina feita de espinhos sem preconceito ou
dúvida. A menina que furou seu ventre e lhe tirou a vida e que nunca pôde