A 2 - O Trabalho Intelectual - Jean Guitton
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A 2 - O Trabalho Intelectual - Jean Guitton


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O trabalho intelectual
Conselhos para os que estudam e para os que
escrevem
JEAN GUITTON
Tradução
Lucas Félix de Oliveira Santana
A Félix de Clinchamps e André Railliet
Prefácio
\u201cAs verdades mais preciosas são aquelas que se
descobrem por último; mas as verdades mais
preciosas vêm a ser os métodos\u201d.
\u2014 Nietzsche
Este pequeno livro de conselhos completa um
outro, A nova arte de pensar, publicado na mesma
coleção. O seu propósito é semelhante: nasceu de
um mesmo sentimento de profunda amizade pelos
estudantes, sobretudo por aqueles que sofrem dos
males causados pela desorganização e pela solidão.
Tem por objetivo ajudá-los no seu trabalho;
aspiraria, pois, a libertá-los de toda e qualquer
impressão de inferioridade ou de angústia. Mas este
livro também se dirige a todos aqueles que, apesar
da barafunda da vida moderna, ainda não
renunciaram à leitura, à escrita, ao pensamento.
Este livro também é dedicado aos que já sabem;
dado que, no que diz respeito ao conhecimento, ao
estilo e à linguagem, somos todos aprendizes e,
como dizia Goethe, é bom que se aprenda a fazer a
coisa mais insignificante da maneira mais
grandiosa.
É fácil observar como é raro, durante a juventude
do aluno, que o professor o ensine a trabalhar. Ele
lhe indica o enunciado do exercício; aprecia, avalia
os seus trabalhos; e, vez ou outra \u2014 e cada vez
menos à medida que o saber aumenta \u2014, propõe-
lhe certas correções, aponta-lhe, num modelo
criado pelo próprio professor, o que seria
conveniente fazer. Mas, quanto à maneira como ele
fez, pouco ou nada lhe diz; a aprendizagem é
deixada à mercê do acaso ou da inspiração. É dessa
inexperiência sobre a maneira de fazer que resulta,
em grande parte, a impressão de desânimo que
muitos tiram de seus estudos.
De resto, e sucessivamente em cada etapa da vida, é
imperfeito o uso que fazemos de nossa energia
mental. Essa energia é tão abundante que não nos
passa pela cabeça preocuparmo-nos com o seu
emprego! No entanto, com o mesmo esforço, se a
aplicássemos melhor, obteríamos tanto mais
benefício! Quanto não ganhariam nossas
existências em suavidade e plenitude se de nossa
parte houvesse um pouco mais de arte e paciência!
É verdade que a experiência do savoir-faire é
incomunicável, tendo cada um de desembaraçar
seus próprios novelos... Mas não me esqueço do
auxílio que recebi, outrora, de obras que tratavam
do método no trabalho, e que me inspiraram a
completá-las escrevendo este livro.1
Que o leitor não procure aqui por receitas
extraordinárias. Apenas reavivo idéias simples que
creio estarem presentes nas mais antigas tradições
da pedagogia de meu país. Seja qual for o assunto
de que se trata, aqui se verá como é necessário que
o espírito aprenda a se concentrar e a encontrar seu
ponto de aplicação; e como, para que amadureça,
deve o espírito dar tempo ao tempo, não se negando
ao repouso e aos \u201cintervalos\u201d de descanso; e de
como o espírito precisa se exprimir para conhecer-
se a si mesmo, já que conteúdo e forma são
inseparáveis (e é por isso que falarei sobre o estilo);
e se verá, por fim, que não há estado em que o ato
de pensar seja impossível (e é por isso que falarei
sobre o trabalho do espírito nos estados de fadiga e
de dor).
O que me levou a escrever este livro de auxílio foi
a lembrança de turmas de aprendizes trabalhando
no ateliê de um professor de desenho. Este não
procede como procedem os professores de letras ou
de ciências. Vê como ele opera: cada aluno
exercita-se a seu modo diante do modelo ou de
obras inimitáveis. De vez em quando, os alunos
ouvem o mestre resmungando entre eles; depois,
eis que toma o lugar de um dos alunos e vai corrigir
ali, à sua vista, os seus esboços. Ora, no meu
entender, tais métodos têm mais valor do que todos
os cursos do mundo. De minha parte, teria eu
preferido passar \u2014 como fizeram os Tharaud \u2014
um único dia no ateliê de Barrès a acompanhar
durante meses os cursos de licenciatura na
Sorbonne.2
E é por essa razão, inspirado na idéia de Descartes,
que, antes de explicar o seu método, contou-nos a
sua história, que farei referência a algumas ocasiões
que me fizeram redescobrir as regras imutáveis da
arte de trabalhar. No caso de o leitor não estar
disposto a passar por experiências semelhantes,
esses conselhos não serão mais que poeira e cinza.
Devo dizer, em conclusão, que as regras aqui
sugeridas não convirão, talvez, a todas as famílias
do espírito. Não foi minha intenção ser completo,
mas sim, e unicamente, fazer-me útil para aqueles a
quem estas páginas são de antemão destinadas.
NOTAS
1 Tenho em mente aqui principalmente Le travail
intellectuel et la volonté, de Payot, e sobretudo La
vide intellectuelle, de Sertillanges.
2 Jean e Jérôme Tharaud e Maurice Barres,
escritores franceses - NE.
I - Observando como os outros
trabalham
\u201cNunca considerei a minha ação e toda a minha
obra senão simbolicamente, e foi-me
indiferentíssimo saber se fazia panelas ou pratos\u201d.
\u2014 Goethe
I. A PRIVAÇÃO
A insatisfação em face da pedagogia de nossas
primeiras idades é um sentimento honroso e
necessário. Uma pedagogia perfeita não serviria
para formar um homem, o qual tem a necessidade
de que se seja com ele, ao mesmo tempo, bom e
mau para que atinja sua estatura. O vício de uma
educação sistemática é não produzir mais que um
homem-criança, como o são na maior parte das
vezes os filhos primogênitos, como talvez o seria o
Emílio.1 Demos portanto graças aos céus pelos
defeitos, pelas lacunas de nossos primeiros mestres,
sem as quais não teríamos a possibilidade de nos
corrigir. O contraste é a condição de uma
experiência original. Um mestre instrui-nos por
aquilo que nos dá. Estimula-nos por aquilo que lhe
falta, e que nos induz a sermos o nosso próprio
mestre interior.
É raro dispormos, na idade adulta, de um período
de repouso e tempo livre que nos permita rever
pormenorizadamente aquela primeira etapa, de
modo a julgá-la com os olhos do espírito maduro e
recomeçarmos nossos estudos desde o alfabeto. E é
ainda melhor quando essa tomada de consciência é
acompanhada de privações. Muitas pessoas deste
século, depois do célebre ano de 40, na solidão da
província, na vida clandestina, na prisão, na
emigração, no exílio, conheceram esses períodos de
retomada da infância. Gostaria de contar o que
cinco anos de reclusão me ensinaram sobre o
trabalho do espírito.
Uma das primeiras características dessas situações
é que nelas se esquece de tudo o que até então se
nos afigurava extremamente necessário, e fica-se
assim reduzido à atenção, à memória, a raras
conversações. É isso o que me leva a pensar, em
primeiro lugar, que os livros não são
indispensáveis, que um número diminuto deles
deve ser suficiente \u2014 sei disso por ter visto viver
um pensador cego. Nossa civilização, supersaturada
de conhecimentos e meios de conhecer,
proporciona ao homem tantas máscaras e tantos
falsos apoios que ele já não distingue entre o que
sabe e o que ignora. A prova de que sabemos
determinada coisa \u2014 disse-o Aristóteles \u2014 é o
podermos ensiná-la. Avaliei naquela ausência de
livros e de anotações quão pouco sabiam os mais
sábios \u2014 mas esse pouco, quando tirado de suas
entranhas, ensinavam-no bem.
O primeiro inverno passou sem caneta nem tinta;
pouco papel e nem sequer uma mesa isolada, um
canto tranqüilo; mas sempre aquele vai-e-vem
quotidiano da vida doméstica; em suma, o trabalho
numa cozinha, onde tantas e tantas crianças pobres
estavam recolhidas, com o caderno em meio à
louça e a atenção obrigada ao esforço para colocar-
se acima do barulho. Os objetos nos foram
entregues um por um, com longos intervalos. Se a
caneta, os cadernos e os livros nos tivessem sido
entregues juntos, estaríamos de novo na
abundância.
Aquela existência cativa punha à prova os diversos
tipos de cultura adquiridos na escola. Eis os
homens de vinte a cinqüenta anos, em pleno vigor,
e desfrutando desse bem que os homens sempre
procuram e quase nunca encontram: o lazer. Dias
inteiros sem ocupação alguma, que podiam
consagrar a instruírem-se, se assim o quisessem.