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Sto Afonso Ma de Ligorio_Preparação para a morte_Considerações sobre as verdades eternas (1)

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teria sido um santo... E agora, que me restam, senão 
remorsos e mágoas sem fim? Sem dúvida, o pensa-
mento de que poderia ser eternamente feliz e que 
será para sempre desgraçado, atormentará mais ter-
rivelmente o condenado do que todos os demais cas-
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tigos infernais. 
 
AFETOS E SÚPLICAS 
 Como é que pudestes, meu Jesus, aturar-me 
tanto tempo? Tantas vezes que me apartei de vós, 
outras tantas viestes procurar-me; ofendi-vos e me 
perdoastes; voltei a ofender-vos e novamente me 
concedestes perdão... Fazei, Senhor, que participe 
da dor amarga que, sob suores de sangue, sofrestes 
por meus pecados no horto de Getsêmani. Arrepen-
do- me, caríssimo Redentor, de ter tão indignamente 
desprezado o vosso amor... Malditos prazeres, detes-
to-vos e vos amaldiçôo, porque me fizestes perder a 
graça de Deus!... Meu diletíssimo Redentor, amo-vos 
sobre todas as coisas; renuncio a todas as satisfa-
ções ilícitas e proponho antes morrer mil vezes do 
que tornar a ofender-vos... Pelo afeto com que me 
amastes na cruz e oferecestes a vida por mim, con-
cedei-me luz e força para resistir à tentação e pedir 
vosso poderoso auxílio... 
Ó Maria, meu amparo e minha esperança, que 
tudo podeis conseguir de Deus, alcançai-me a graça 
de que não me aparte nunca mais de seu amor san-
tíssimo! 
PONTO III 
Considerar o grande Bem que perderam, será o 
terceiro remorso dos condenados, cuja pena, segun-
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do São João Crisóstomo, será mais grave pela priva-
ção da glória do que pelos próprios tormentos do in-
ferno. 
“Conceda-me Deus quarenta anos de reinado e 
renunciarei gostosamente ao seu paraíso”, disse a 
infeliz princesa Isabel da Inglaterra... 
Obteve, de fato, os quarenta anos de reinado. 
Mas que dirá agora a sua alma na outra vida? Certa-
mente, não pensará o mesmo. Que aflição e que de-
sespero sentirá ao ver que, por reinar quarenta anos 
entre angústias e temores, gozando um trono tempo-
ral, perdeu para sempre o reino dos céus! Maior afli-
ção, entretanto, sentirá o réprobo ao reconhecer que 
perdeu a glória e o Sumo Bem, que é Deus, não por 
acidentes de má sorte nem pela malevolência de ou-
tros, mas por sua própria culpa. Verá que foi criado 
para o céu, e que Deus lhe permitiu escolher livre-
mente a vida ou a morte eterna. Verá que teve em 
sua mão a faculdade de tornar-se, para sempre, feliz 
e que, apesar disso, quis lançar-se, por sua livre von-
tade, naquele abismo de suplício, donde nunca mais 
poderá sair, e do qual ninguém o livrará. Verá como 
se salvaram muitos de seus companheiros que, não 
obstante terem de passar por perigos idênticos ou 
maiores de pecar, souberam vencê-los, recomendan-
do-se a Deus, ou, se caíram, não tardaram a levan-
tar-se e se consagraram novamente ao serviço do 
Senhor. Ele, porém, não quis imitá-los e foi cair de-
sastrosamente no inferno, nesse mar de tormentos, 
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onde não existe a esperança. 
Meu irmão! Se até aqui foste tão insensato que, 
para não renunciar a um mísero deleite, preferiste 
perder o reino dos céus, procura a tempo remediar o 
dano. Não permaneças em tua loucura e teme ir cho-
rá-lo no inferno. Quem sabe se estas considerações 
que lês sejam o último apelo de Deus? Se não muda-
res de vida e cometeres outro pecado mortal, Deus, 
talvez, te abandonará e te condenará a sofrer eter-
namente entre aquela multidão de insensatos que 
agora reconhecem o seu erro (Sb 5,6) e o confessam 
desesperados, porque não ignoram que é irremediá-
vel. Quando o inimigo te induzir a pecar, pensa no 
inferno e 90 recorre a Deus e à Santíssima Virgem. O 
pensamento do inferno poderá livrar-te do próprio in-
ferno. “Lembra-te de teus novíssimos e não pecarás 
jamais” (Ecl 7,40), porque esse pensamento te fará 
recorrer a Deus. 
AFETOS E SÚPLICAS 
 Ah, soberano Bem! Quantas vezes vos perdi por 
um nada, e quantas vezes mereci perder-vos para 
sempre! Reanimam-me e consolam-me, entretanto, 
aquelas palavras do Profeta: “Alegre-se o coração 
dos que buscam ao Senhor” (Sl 104,3). Não devo, 
pois, perder a esperança de recuperar vossa graça e 
vossa amizade, se vos procuro com sinceridade. 
Sim, meu Senhor, suspiro por vossa graça mais 
que por qualquer outro bem. Prefiro ver-me privado 
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de tudo, até da vida, a perder o vosso amor. Amo-
vos, meu Criador, amo-vos sobre todas as coisas; e 
porque vos amo pesa-me de vos ter ofendido... Meu 
Deus, desprezei-vos e perdi-vos; perdoai-me e permi-
ti que vos encontre, porque não quero tornar a vos 
perder. Admiti-me de novo na vossa amizade e a-
bandonarei tudo para amar unicamente a vós. Assim 
o espero da vossa misericórdia... 
Pai Eterno, ouvi-me; por amor de Jesus Cristo, 
perdoai-me e concedei-me a graça de nunca mais me 
separar de vós. Se de novo e voluntariamente vos 
tornasse a ofender, teria justa razão para recear que 
me abandonásseis... 
Ó Maria, esperança dos pecadores, reconciliai-
me com o meu Deus e guardai-me debaixo do vosso 
manto, a fim de que nunca mais me separe do meu 
Redentor. 
 
 
CONSIDERAÇÃO XXIX 
Da glória 
Tristitia vestra vertetur in gaudium. 
Vossa tristeza há de converter-se em alegria (Jo 
16,20). 
 
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PONTO I 
Procuremos sofrer com paciência as aflições da 
vida presente, oferecendo- as a Deus, em união com 
as dores que Jesus Cristo sofreu por nosso amor e 
alentando-nos com a esperança da glória. Esses tra-
balhos, penas, angústias, perseguições e temores 
hão de acabar um dia e, se nos salvarmos, serão pa-
ra nós motivos de gozo e alegria inefável no reino dos 
bem-aventurados. É o próprio Senhor que nos anima 
e consola: “Vossa tristeza há de converter-se em ale-
gria” (Jo 16,20). 
Meditemos, portanto, sobre a felicidade da gló-
ria... Mas que diremos desta felicidade, quando nem 
os Santos mais inspirados souberam dar uma idéia 
acertada das delícias que Deus reserva aos que o 
amam?... 
David apenas soube dizer que a glória é o bem 
infinitamente desejável... (Sl 83,2). 
E tu, insigne São Paulo, que tiveste a dita de ser 
arrebatado ao céu, dize-nos alguma coisa ao menos 
do que viste ali!... Não, — respondeu o grande Após-
tolo, — o que vi não é possível exprimir. Tão subli-
mes são as delícias da glória, que não pode compre-
endê-las quem não as desfruta (2Cor 12,9). Tudo o 
que posso dizer, é que ninguém nesta terra viu, nem 
ouviu, nem compreendeu as belezas, as harmonias e 
os prazeres que Deus preparou para aqueles que o 
amam (1Cor 2,9). 
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Neste mundo, não somos capazes de imaginar os 
bens do céu, porque só formamos idéia do que o 
mundo nos apresenta... Se, por maravilha excepcio-
nal, um ser irracional fosse dotado de razão e sou-
besse que um rico senhor ia celebrar esplêndido 
banquete, imaginaria que o repasto haveria de ser o 
melhor e o mais seleto, mas semelhante ao que ele 
usa, porque não poderia conceber nada melhor como 
alimento. 
Assim acontece conosco relativamente aos bens 
da glória... Quanto é belo contemplar, em serena noi-
te de verão, a magnificência do firmamento recamado 
de estrelas! Quão agradável é admirar as águas tran-
qüilas de um lago transparente, em cujo fundo se 
descobrem peixes a nadar e pedras cobertas de 
musgo! Quanta formosura num jardim cheio de flores 
e de frutos, circundado de fontes e riachos, matizado 
por lindos passarinhos, que cruzam o ar e o alegram 
com seu canto mavioso!... Dir-se-ia que tantas bele-
zas são o paraíso... Mas não! Muito diferentes são os 
gozos e a formosura do paraíso. Para deles fazermos 
uma vaga idéia, consideremos que ali está Deus oni-
potente, enchendo de delícias inenarráveis as almas 
que ele ama... Quereis saber o que é o céu? — dizia 
São Bernardo, — pois sabei que ali não há nada que 
desagrade, e existe todo bem que deleita. 
Que dirá a alma quando entrar naquela mansão 
felicíssima?... Imaginemos um jovem ou uma virgem, 
que, tendo consagrado toda a sua vida ao amor e ao 
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serviço de Cristo, acaba de morrer e deixa este vale 
de lágrimas. Sua alma apresenta-se ao juízo; o juiz a 
acolhe com bondade e lhe declara que