Anexo AD2 - Turismo e Sociedade - 2019 2º
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XIII ENCONTRO DA ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA EM
PLANEJAMENTO URBANO E REGIONAL
25 a 29 de maio de 2009
Florianópolis - Santa Catarina - Brasil
TURISMO PARA QUEM?: CONFLITOS ACERCA DA MANIPULAÇÃO DE FLUXOS E DA
PRODUÇÃO DOS ESPAÇOS TURÍSTICOS.
Erick Silva Omena de Melo (UFRJ/IPPUR) - erickomena@gmail.com
Turismo Para Quem?: Conflitos Acerca da Manipulação de Fluxos e 
da Produção dos Espaços Turísticos. 
 
 
Este trabalho pretende contribuir acerca da reflexão referente aos processos sócio-
espaciais que o turismo engloba, na tentativa de se construir uma visão que trabalhe com 
sua manifestação em diversas escalas. De maneira específica, procurou-se considerar a 
importância e influência do direcionamento de políticas públicas e intervenções urbanas na 
intensificação dos processos de fragmentação e homogeneização territorial nos espaços 
turísticos. Considerando que diferentes classes sociais praticam turismo, especial atenção é 
dispensada à correlação entre as diversas escalas de deslocamento de turistas de grupos 
sociais específicos, a como estas distintas grandezas de mobilidades refletem o poder que 
cada um destes grupos detêm no campo social e aos mecanismos de controle destes fluxos. 
Para tanto é abordado o caso do turismo praticado por moradores de áreas periféricas da 
metrópole do Rio de Janeiro na cidade de Cabo Frio/RJ, baseando-se em estudos 
realizados previamente. São consideradas, ainda, a conciliação de interesses e os conflitos 
que envolvem a legitimação da exclusão destas práticas, além das possíveis conseqüências 
das tentativas de controle de fluxos por parte das intervenções urbanas, como uma 
intensificação da fragmentação do território turístico cabofriense. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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Com as mudanças ocorridas a partir da década de 70 do século passado no sistema 
de acumulação de capital, isto é, a transição do que se convencionou chamar de sistema 
fordista para o sistema de acumulação flexível, algumas atividades econômicas obtiveram 
um status de maior importância na geração de riquezas da economia mundial, enquanto 
outros setores, inversamente, perderam espaço no que se refere às suas participações 
relativas. Destaca-se o crescimento do setor de serviços em detrimento do setor industrial, 
tendo-se em vista os diversos indicadores econômicos que apontam para estas 
transformações, em especial aqueles relativos à atividade turística, que já alcançou a marca 
de 11,5 % na geração do PIB mundial (UNEP apud SLOB; WILDE, 2008), estando no rol de 
atividades econômicas que mais movimentam capital no mundo. É com este grande peso 
econômico do turismo que se reconhece sua força na recente formação sócio-espacial, 
especialmente em países em desenvolvimento, os quais muitas vezes recorrem à atividade 
em busca de melhorias sociais e econômicas. Neste contexto, muitos subespaços destes 
países são eleitos como portadores de uma certa \u201cvocação turística\u201d, especialmente porções 
do território que, na fase de acumulação anterior, não possuíam papel relevante, o que pode 
ser encontrado em larga medida nos países da América Latina e, especificamente, no Brasil. 
Assim, este trabalho pretende contribuir acerca da reflexão referente à consideração 
dos processos sócio-espaciais que o turismo engloba, na tentativa de se construir uma visão 
que trabalhe com sua manifestação em diversas escalas. De maneira específica, procurou-
se considerar a importância e influência do direcionamento de políticas públicas e 
intervenções urbanas na intensificação dos processos de fragmentação e homogeneização 
territorial nos espaços turísticos. Sendo o deslocamento de turistas a característica 
fundamental do turismo, e considerando que diferentes classes sociais o praticam, especial 
atenção foi dispensada à correlação entre as diferentes escalas de deslocamento de turistas 
de grupos sociais específicos, a como estas distintas grandezas de mobilidades refletem o 
poder que cada um destes grupos detêm no campo social e aos mecanismos de controle 
destes fluxos. Para tanto será primeiramente abordado o caso do turismo praticado por 
moradores das áreas periféricas da metrópole do Rio de Janeiro na cidade de Cabo Frio, 
situada na região das Baixadas Litorâneas do estado do Rio de Janeiro, baseando-se em 
estudos realizados previamente. Esta prática ia de encontro a interesses de outras classes 
praticantes do turismo no mesmo local, além dos interesses dos próprios investidores do 
setor na cidade, o que gerou uma tensão social que resultou na estigmatização destes 
grupos desfavorecidos, recebendo inclusive o rótulo pejorativo de \u201cfarofeiros\u201d por parte da 
população local e dos demais turistas. Assim, intervenções urbanas com o intuito de 
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extinguir a prática das então chamadas excursões de \u201cfarofeiros\u201d 1 foram implementadas, 
procurando legitimar a exclusão destes grupos do cenário turístico de Cabo Frio e 
dificultando suas possibilidades de mobilidade. São consideradas, ainda, as conciliações de 
interesses e os conflitos que envolvem a legitimação destas exclusões, além das possíveis 
conseqüências das tentativas de controle de fluxos por parte das intervenções urbanas, 
como uma intensificação da fragmentação do território turístico cabofriense. 
 
Cabo Frio e os \u201cFarofeiros\u201d 
Atualmente, a cidade de Cabo Frio possui sua economia baseada na atividade 
turística. Isto se reflete na contribuição do setor terciário do PIB municipal, que alcança a 
fatia de 71% do total (CIDE,2004). A forte participação do setor de aluguéis e da construção 
civil, maior até mesmo do que a de serviços hoteleiros, caracteriza um turismo com fortes 
indícios de veraneio, o que também pode ser comprovado por dados do IBGE(2000) 
referentes ao número de domicílios não-ocupados, que representam pouco menos de 50 % 
em relação ao número total de domicílios de todo o município. O turismo de veraneio, ou de 
segunda residência, pode ser apontado como uma prática das classes médias e médias-
altas, enquanto que o turismo em Cabo Frio, baseado no sistema de aluguéis por 
temporada, é muitas vezes atribuído às classes médias baixas. No entanto, o \u201cturismo de 
um dia\u201d ou a prática das excursões é que tem sido mais nitidamente buscado pelas classes 
populares, por conta do seu custo mais reduzido. 
A atividade turística só começa a ser praticada em Cabo Frio a partir de meados do 
século XX, quando diversas obras de infra-estrutura, como a criação de rodovias (RJ-106, 
RJ-104, Ponte Rio-Niterói) e o acesso aos automóveis possibilitaram que os primeiros 
turistas chegassem à região. Segundo Alcântara (2005), Cabo Frio se consolida já nesta 
época como um dos principais destinos da elite brasileira e desde então ocorre um processo 
de atração de fluxos turísticos heterogêneos, massificando, gradativamente, o seu produto 
turístico. Esta adoção do turismo como principal atividade econômica ocasionou várias 
mudanças na formação deste espaço. Algumas estatísticas demonstram a força com que 
isso ocorreu. Em 1950, a população urbana do primeiro distrito de Cabo Frio era de 8.185 
habitantes. Em 1982, esse número já era de 40.668 e em 1996 de 87.525 residentes 
(IBGE,2000). Os dados relativos à oferta de infra-estrutura turística não são menos 
 
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 Aqui esta atividade também é considerada turismo, apesar da mesma não caber no conceito utilizado pela 
Organização Mundial do Turismo (2008), pois este afirma que para que o turismo seja caracterizado, deve 
ocorrer pelo menos um pernoite do turista no local visitado, o que não ocorre nas excursões praticadas pelas 
classes populares citadas, em decorrência do baixo poder aquisitivo. Considerando-se a elaboração do conceito 
de turismo pela OMT com fins de produções estatísticas, pode-se perceber que o mesmo dificilmente poderia ser 
utilizado neste trabalho que possui finalidade diversa