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O Ultimo dia de um Condenado - Victor Hugo

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em latim, que dirigi ao
carcereiro, que as não compreendeu, obtiveram-me o passeio uma vez por
semana com os outros presos e fizeram desaparecer o colete, onde eu estava
paralisado. Depois de muitas hesitações deram-me tinta, papel, penas e uma
lâmpada.
Todos os domingos, depois da missa, deixavam-me no pátio, à hora do
passeio. Aí conversava com os presos. São boas pessoas, os desgraçados!
Contavam-me os seus golpes, e, se não soubesse que eles se vangloriam deles,
seria para causar horror. Ensinaram-me a falar calão. É uma língua enxertada na
linguagem geral, como uma espécie de excrescência horrível, como uma
verruga. Algumas vezes tem uma energia singular, um pitoresco horrível: — há
chorume no andamento, querendo dizer, que há sangue no caminho; casar com a
viúva, por ser enforcado, como se a corda da forca fosse a viúva de todos os
enforcados; A cabeça dum ladrão tem dois nomes: marmita dos pensamentos,
quando medita, raciocina e aconselha o crime; a bola, quando o carrasco a corta.
Algumas vezes tem o espírito das comédias: bandeja de cavacos por cesto de
trapeiro; a mentirosa pela língua; e depois palavras estranhas, misteriosas, alegres
e sórdidas, vindas não se sabe donde: mestre Brás pelo carrasco; a pinha pela
morte e a chafurdeira pela praça das execuções.
E depois o que eu escrever assim, não será talvez inútil. Este diário dos meus
sofrimentos, hora por hora, minuto por minuto, suplício por suplício, se tiver
forças de o levar até ao momento, em que me for fisicamente impossível
continuar, esta história, necessariamente incompleta, mas tão completa possível,
das minhas sensações não terá consigo um grande e profundo ensinamento? Não
haverá neste libelo do pensamento agonizante, nesta progressão sempre
crescente de dores, nesta espécie de autopsia intelectual dum condenado, mais
alguma coisa que uma lição para aqueles, que condenam? Talvez esta leitura lhes
torne a mão menos leve, quando se tratar outra vez de mandar deitar uma
cabeça, que pensa, uma cabeça de homem, naquilo que eles chamam a balança
da justiça? Talvez não tenham pensado nunca, não tenham refletido, os
desgraçados, nesta lenta sucessão de torturas, que contem a fórmula respetiva da
sua condenação à morte? Se alguma vez se detiveram nesta ideia pungente, que
no homem que condenam, há uma inteligência que contava viver, uma alma,
que se não dispôs para a morte? Eles não veem em tudo isto senão a queda
vertical dum cutelo triangular e pensam sem dúvida que para o condenado nada
há antes, nem depois.
Estas folhas desenganá-los-ão. Talvez um dia publicadas façam deter o seu
espírito sobre os sofrimentos do espírito, porque esses são dos que se não
imaginam. Eles estão triunfantes por poderem matar sem quase fazerem sofrer o
corpo. Eh! É bem disso que se trata! O que é a dor física em face da dor moral!
Horror e piedade é o que causam leis assim feitas. Dia virá em que talvez que
estas memórias, últimas confidentes dum miserável, para isso tenham
contribuído.
A não ser que, depois da minha morte, o vento leve estes bocados de papel,
sujos de lama ou que vão apodrecer à chuva, colados como estrelas, nalgum
vidro quebrado do carcereiro.
VII
Que o que aqui escrevo, possa um dia ser útil a outros, que isso faça deter o
juiz prestes a julgar e que salve desgraçados, inocentes ou culpados, da agonia a
que eu estou condenado! Porquê? Para quê? Que importa? Quando a minha
cabeça tiver sido cortada, que me importa a mim, que cortem outras? Na
verdade pude pensar estas loucuras? Deitar abaixo o cadafalso depois de eu lá ter
subido! Pergunto o que me fará a mim isso?
O quê! O Sol, a primavera, os campos cheios de flores, as aves, que
despertam de manhã, as nuvens, as árvores, a natureza, a liberdade, a vida, tudo
isso já não é para mim!
Ah! A mim é que era preciso salvar! — É então verdade que isso não pode
ser, que é preciso morrer amanhã, talvez hoje, sem remédio?
Oh! Deus! Ideia horrível capaz de fazer esmagar a cabeça de encontro ao
muro da prisão.
VIII
Contemos o tempo que me falta:
Três dias de demora depois da sentença pronunciada na apelação.
Oito dias de esquecimento na secretaria do tribunal, depois do que as peças,
como eles dizem, são enviadas ao ministro.
Quinze dias de demora no ministro, que nem mesmo sabe que elas existem
e que no entanto as manda, depois de exame, para o tribunal da relação.
Aí, classificação, numeração e registo, porque a guilhotina tem muita gente
à espera e cada um deve ir por sua vez.
Quinze dias para esperar para que se não cometa connosco nenhuma
injustiça.
Finalmente o tribunal reúne, de ordinário a uma quinta-feira, indefere vinte
recursos em massa e remete tudo de novo para o ministro, que o remete ao
procurador geral, que o remete para o carrasco. Três dias!...
Na manhã do quarto dia, o substituto do procurador geral, quando está a pôr
a gravata diz:
— É preciso acabar com este negócio.
Então, se o substituto não tem qualquer almoço de amigos, que o impeça
disso, a ordem de execução é minutada, redigida, passada a limpo, expedida e no
dia seguinte desde a aurora se ouve na praça da Grève pregar madeira e nas ruas
uivarem em voz alta os pregoeiros roucos.
Ao todo seis semanas. A pequena tinha razão.
Ora, há já pelo menos cinco semanas, talvez seis, nem me atrevo a contá-
las, que estou neste quartinho de Bicêtre e parece-me, que há três dias, era
quinta-feira.
IX
Acabo de fazer o meu testamento.
E para quê? Fui também condenado nas custas e o que tenho mal chegará
para as pagar. A guilhotina custa muito caro.
Deixo mãe, mulher e uma filha. — Ai! Uma filhinha de três anos, bela,
rosada e delicada, com uns grandes olhos pretos e longos cabelos castanhos.
Quando a vi pela última vez, tinha ela dois anos e um mês.
Assim, depois da minha morte, essas três mulheres ficarão sem amparo:
uma sem o filho, outra sem marido e a terceira sem pai. Três órfãs de diferente
espécie, três viúvas em consequência da lei.
Concordo que eu devo ser castigado, mas o que fizeram essas inocentes?
Nada importa que elas fiquem desonradas e reduzidas à miséria! — É a isto, que
se chama justiça?
A sorte da minha pobre mãe não me inquieta, porque já está velha; tem
sessenta e quatro anos e este golpe a matará. E se viver mais alguns dias, se tiver
até ao último momento um pouco de cinza quente para aquecer os pés, nada dirá.
Também me não inquieto com minha mulher; não goza saúde, o seu espírito
é fraco e morrerá também. Salvo se enlouquecer. Dizem que a loucura faz viver;
ainda assim o seu espírito não sofrerá e, embora viva, dormirá como se estivesse
morta.
Mas minha filha, a minha pequenina Maria, que a esta hora talvez esteja
rindo, brincando ou cantando, em nada pensando, essa é que me causa vivas
inquietações.
X
Eis aqui a descrição da minha cela:
Oito pés quadrados. Quatro paredes de cantaria, que se alinham em ângulo
reto sobre o pavimento de lajes, um degrau acima do nível do corredor externo.
À direita da porta, para quem entra, há uma espécie de buraco, a que eles
querem dar o nome de alcova. Nesse lugar se deita um feixe de palha, onde se
julga, que o preso descansa e dorme, vestido com umas calças de linho, uma
camisola de riscado, e isto tanto de inverno, como de verão.
Por cima da minha cabeça, fingindo céu, há uma abobada negra, da qual
pendem, como farrapos, espessas teias de aranha.
Finalmente não há janela, nem respiradoiro; a porta da entrada é de
madeira, toda chapeada de ferro.
Enganei-me; no meio da porta, lá muito ao alto, há uma abertura de nove
polegadas quadradas, com uma grade em cruz e que o chaveiro pode fechar de
noite.
Por fora há um corredor muito comprido, iluminado e arejado por meio de
respiradoiros estreitos praticados no alto dos muros e dividido em
compartimentos de pedra e cal, que têm comunicação entre si por uma série de
portas em arco e baixas; cada um destes