A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
125 pág.
O Ultimo dia de um Condenado - Victor Hugo (2) (1)

Pré-visualização | Página 5 de 24

no mais deserto recanto dos boulevards
exteriores? Na Grève, em pleno dia, vá lá, mas na barreira de São Jacques! Mas
às oito horas da manhã! Quem é que passa nesse sítio? Quem é que lá vai? Quem
é que sabe que se está aí matando um homem? Quem é que se apercebe que aí
se está dando um exemplo? Um exemplo para quem? Com certeza para as
árvores do boulevard.
Não vedes pois que as vossas execuções públicas se fazem às escondidas?
Não vedes que vos escondeis? Que tendes medo e vergonha da vossa obra? Que
balbuciais ridiculamente o vosso discite justitiam moniti? Que no fundo vós estais
assustados, interditos, inquietos, pouco seguros de terdes razão, alcançados já pela
dúvida geral, cortando cabeças por rotina e sem saber bem o que fazeis? Não
sentis no fundo do coração, que perdestes já o sentimento moral e social da
missão de sangue, que os vossos predecessores, os velhos parlamentares,
executavam com uma consciência tão tranquila? À noite não voltais a cabeça
sobre o travesseiro mais vezes, que eles? Outros, antes de vós, ordenaram
execuções capitais, mas eles julgavam-se no direito, no justo, no bem. Jouvenel
des Ursins julgava-se um juiz; Élie de Thorrette julgava-se um juiz;
Laubardemont, La Rey nie e Laffemos julgavam-se também juízes! Vós, no
vosso foro íntimo, não tendes bem a certeza de não serdes uns assassinos?
Vós deixais a Grève pela barreira de São Jacques, a multidão pelo
isolamento, o dia pelo crepúsculo. Não fazeis com firmeza, o que fazeis.
Escondei-vos, digo-vos eu!
Todas as razões em favor da pena de morte, ei-las por terra. Eis todos os
silogismos dos tribunais reduzidos ao nada. Todas essas sentenças ei-las desfeitas
e reduzidas a cinza. O menor vislumbre da lógica desbarata todos os maus
raciocínios.
Que os homens do rei não venham pois pedir mais cabeças aos nossos
jurados, aos nossos homens, conjurando-os com voz cariciante em nome da
sociedade a proteger, da vindicta pública a assegurar, de exemplos a dar.
Retórica e mais nada! Uma alfinetada nessas hipérboles e esvaziar-se-ão No
fundo dessa adocicada fala, vós só achareis dureza de coração, crueldade,
barbarismo, desejo de provar zelo, necessidade de ganhar os honorários. Calai-
vos, mandarins! Sob a mão de veludo do juiz sentem-se as garras do carrasco.
É difícil pensar a sangue frio no que é um procurador real do crime. É um
homem que ganha a sua vida mandando os outros para o cadafalso. É o
fornecedor titular das praças da Grève. De resto é um sujeito, que tem
pretensões a estilo e a literato, que é bom falador ou julga sê-lo, que recita no
momento preciso um verso latino ou dois antes de chegar à morte, que procura
fazer efeito e que interessa o seu amor próprio, ó miséria! Naquilo que é a vida
dos outros, que tem os seus modelos próprios, os seus tipos desesperantes a
atingir, os seus clássicos, Bellart e, Marchangy, como tal poeta tem Racine e
outro Boileau.
Nos debates puxa para o lado da guilhotina; é o seu papel, é o seu estado. O
seu libelo é a sua obra literária; engrinalda-o de metáforas, perfuma-o de
citações, porque é preciso que na audiência seja belo e agrade às damas. Tem a
sua bagagem de lugares comuns ainda desconhecidos na província, as suas
elegâncias de dizer, os seus efeitos e as suas delicadezas de escritor. Odeia os
termos próprios quase tanto como os nossos poetas trágicos da escola de Delille.
Não tenham medo, que ele dê às coisas o seu nome próprio. Ora! As suas ideias,
cuja nudez vos revoltaria, são completamente mascaradas com epítetos e
adjetivos. Torna Sausson apresentável; envolve numa gaze o cutelo; esfuma a
báscula; enrola o pano vermelho numa perífrase. Já nem se sabe o que é. É
agradável e decente.
Imaginai-o, de noite, no seu gabinete de trabalho, elaborando com o seu
vagar esta arenga que fará levantar um cadafalso dentro de seis semanas? Vede-
o suando sangue e água para encaixar a cabeça dum acusado dentro do mais
fatal artigo do código? Vede-o enrolar com uma lei mal feita o pescoço dum
miserável? Notai como ele se esforça por envolver num misto de tropos e
sinedoques dois ou três textos venenosos para exprimir e a custo fazer sair a
morte de um homem? Não é verdade que, enquanto ele vai escrevendo sobre a
sua mesa, na sombra, tem provavelmente o carrasco enroscado a seus pés e que
de tempos a tempos para de escrever para lhe dizer, como o dono ao cão: —
Sossega, vais ter o teu osso!
De resto na vida privada, este homem do rei pode ser um homem honesto,
bom pai, bom filho, bom marido e bom amigo, como dizem todos os epitáfios do
Père-Lachaise.
Esperemos que não venha longe o dia, em que a lei abolirá todas estas
funções fúnebres. Só o ar da nossa civilização deve num tempo dado usar a pena
de morte.
Por vezes é-se tentado a crer que os defensores da pena de morte não
refletiram bem no que aquilo é. Pesai um pouco na balança de qualquer crime o
que seja este direito exorbitante, que a sociedade se arroga, de tirar o que não
deu, essa pena, a mais irreparável das penas irreparáveis!
De duas coisas uma: — Ou o homem, que vós matais, é sem família, sem
parentes, nem aderentes neste mundo e nesse caso não recebeu nem educação,
nem instrução, nem cuidados pelo seu espírito, nem pelo seu coração, e então
com que direito matais esse miserável órfão? Por acaso o punis porque a sua
infância rastejou pelo solo sem amparo, nem tutor! Imputais-lhe a viva força o
isolamento em que o deixaste? Fazeis um crime da sua desgraça! Ninguém lhe
ensinou a conhecer o que fazia. Esse homem ignora. A sua falta é do seu destino
e não dele. Matais um inocente!
Ou este homem tem uma família; e então julgais que o golpe, com que o
degolais, o fere a ele só? Que seu pai, sua mãe e seus filhos não sangrarão
também? Não. Matando-o, decapitais toda a família. E ainda aqui matais
inocentes!
Desastrada e cega penalidade, que de qualquer forma que se olhe, mata
inocentes!
Esse homem, esse culpado, que tem uma família, sequestrai-o. Na sua
prisão poderá ainda trabalhar para os seus. Mas como os fará ele viver do fundo
do seu túmulo? E pensais sem estremecer no que se tornarão esses rapazitos,
essas raparigas a quem tirais o pai, isto é, o pão? Oh! Pobres inocentes!
Nas colónias, quando uma sentença de morte mata um escravo, há mil
francos de indemnização para o proprietário do homem. O quê! Vós inutilizais o
chefe e não indemnizais a família! Também aqui não tirais um homem àqueles
que o possuem? Não está ele nas mesmas condições, se bem que por um título
muito mais sagrado, que o escravo em relação ao dono, não é a propriedade de
seu pai, o bem de sua mulher e de seus filhos?
Nós já caraterizámos a vossa lei de assassínio. Agora caraterizamo-la de
roubo.
Mas ainda mais. Pensastes na alma desse homem? Sabeis em que estado se
encontra? Ousais expedi-la assim tão lestamente? Antigamente ao menos alguma
fé havia no povo; no momento supremo o sopro religioso, que pairava no ar,
podia abrandar o mais cruel; um paciente era ao mesmo tempo um penitente; a
religião abria-lhe um novo mundo no momento em que a sociedade lhe fechava
outro; a alma era consciência de Deus; o cadafalso nada mais era, que a
fronteira do céu.
Agora que esperança pondes vós sobre o cadafalso, quando a multidão já
não crê? Agora que todas as religiões estão atacadas, como esses velhos barcos,
que apodrecem nos portos e que talvez outrora tivessem descoberto mundos?
Agora que as crianças se riem de Deus? Com que direito lançais para alguma
coisa, de que vós próprios duvidais, as almas obscuras dos vossos condenados,
essas almas, como as fizeram Voltaire e Pigault-Lebrun? Entregai-lo ao vosso
padre da prisão, sem dúvida um excelente velho; mas ele crê e faz crer? Não
desempenhará ele, como um encargo, a sua sublime obra? Tomais vós por um
padre esse indivíduo que acotovela o carrasco na carroça? Um escritor cheio de
alma e de talento disse-o antes de nós: Foi uma coisa horrível conservar