Prévia do material em texto
1
Marketing Estratégico
GRADUAÇÃO
ANTROPOLOGIA E RELAÇÕES
ÉTNICO-RACIAIS
1
ESTRATÉGIA EMPRESARIAL
PÓS-GRADUAÇÃO
ANTROPOLOGIA E RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS
CENTRO UNIVERSITÁRIO DINÂMICA DAS CATARATAS Núcleo de Educação a Distância
Antropologia e Relações Étnico Raciais.
BERGER, Prof°. Carlos Norberto
Foz do Iguaçu - PR 2016.
54 p.
Administração - EaD
CDU: 574
NEAD – Núcleo de Educação a Distância
Av. Bartolomeu de Gusmão, 1324 - Centro – CEP: 85.852-130
Foz do Iguaçu – Paraná / ead.udc.br / 3574-6900
2
ESTRATÉGIA EMPRESARIAL
PÓS-GRADUAÇÃO
ANTROPOLOGIA E RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS
APRESENTAÇÃO
Prezado(a) Acadêmico(a),
Você está participando da disciplina de ANTROPOLOGIA E RELAÇÕES
ÉTNICO-RACIAIS na modalidade a distância, ofertada pelo Centro Universitário
Dinâmica das Cataratas - UDC. Sabemos que o seu percurso de aprendizagem
necessita ser acompanhado e orientado, para que você obtenha sucesso nos
estudos e construa um conhecimento relevante à sua formação profissional.
Preparamos este material didático com os conteúdos teóricos e as orientações de
atividades planejadas pelo professor, possibilitando, assim, guiá-lo no autoestudo
ao longo do semestre. Além disso, você conta com o ambiente virtual de
aprendizagem como espaço de estudo e de participação ativa no curso. Nele
você encontra as orientações para realizar atividades e avaliações online, além de
recursos que vão enriquecer a proposta deste material didático, tais como links
para sites da Internet, vídeos gravados pelo professor e outros por ele sugeridos,
textos, animações, ilustrações, dentre outras mídias.
Lembre-se, no entanto, de que você deve se organizar para criar sua própria
autonomia de estudo. Isso inclui o planejamento do seu tempo de dedicação ao
estudo individual e de participação colaborativa no ambiente virtual.
Este material é o seu livro-texto e apoio importante no desenvolvimento de sua
aprendizagem no curso.
Bom estudo!
Direção UDC Online
3
ESTRATÉGIA EMPRESARIAL
PÓS-GRADUAÇÃO
ANTROPOLOGIA E RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS
SUMÁRIO
APRESENTAÇÃO ....................................................................................................... 2
UNIDADE I – INTRODUÇÃO ...................................................................................... 4
1.1 O HUMANO: NATUREZA E CULTURA ................................................................ 5
1.2 CULTURA E TRABALHO ...................................................................................... 9
1.3 CULTURA E FORMAS DE TRABALHO .............................................................. 12
UNIDADE II – DEFINIÇÕES DE CULTURA ............................................................. 23
2.1 CULTURA OU CULTURAS ................................................................................. 26
2.2 A CENTRALIDADE DA CULTURA ..................................................................... 36
UNIDADE III – IDENTIDADE E DIFERENÇA ........................................................... 39
3.1 ALTERIDADE ...................................................................................................... 49
REFERÊNCIAS ......................................................................................................... 52
4
ESTRATÉGIA EMPRESARIAL
PÓS-GRADUAÇÃO
ANTROPOLOGIA E RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS
UNIDADE I – INTRODUÇÃO
Quando se trata de organizações ou relações empresariais surge logo a
perspectiva multifacetária que é própria das organizações. Quanto maior for uma
empresa, quanto maior for o campo de atuação de uma organização, tanto maior é o
lastro de pessoas, culturas e relações interpessoais e interculturais sobre o qual
suas ações incidem.
É fundamental que o planejamento de tais ações contemple os diferentes
aspectos envolvidos nas questões culturais. Na atualidade, uma empresa que atua
em qualquer ramo há de se preocupar com questões que envolvem a cultura, as
relações de gênero, sexo, etnia, etárias e outras.
Esse texto produz um olhar sobre esses diferentes aspectos que envolvem
as questões culturais, ciente de que a cultura assumiu uma posição central em
qualquer fórum da sociedade atual. Para entender essa centralidade faz-se
necessário estabelecer os conceitos que permitam visualizar os fluxos das diferentes
compreensões, por um lado, e os dados que apontam para a intensidade como
fatores culturais atuam sobre o cotidiano tanto nas instâncias de dimensões micro
quanto nas de dimensões macro.
As organizações percebem-se como agentes num mundo globalizado, isto é,
multicultural, plural, e, simultaneamente, interligado. Entender de cultura globalizada
e de culturas localizadas não é apenas um desafio, mas uma grande possibilidade
de entender as possibilidades de negócios, mas também os riscos que são, cada
vez mais, igualmente globalizados.
Por outro lado, entender de cultura reflui para dentro da empresa. Pois,
quando há uma percepção da cultura dos colaboradores mais diretos da empresa e
das representações que os mesmos fazem da sua posição de sujeito naquela
organização, pode se aprimorar o planejamento bem como se criar uma sinergia
maior que possibilite potencializar ao máximo a participação desses colaboradores
em direção aos objetivos da empresa.
Ainda pode se afirmar que um melhor entendimento das questões culturais é
imprescindível para a percepção das questões sociais que envolvem a empresa no
que se refere a sua responsabilidade social.
5
ESTRATÉGIA EMPRESARIAL
PÓS-GRADUAÇÃO
ANTROPOLOGIA E RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS
Dito isso, vale lembrar que ao se fazer uma abordagem antropológica da
cultural, levando em conta a contribuição das demais ciências, bem como das
contribuições da filosofia, se evoca uma série de conceitos que se entrecruzam e,
por isso, precisam ser tratados em bloco.
Desde já quero disponibilizar aqui um conceito de cultura, facilmente
localizável na internet, que pode servir de base para um entendimento preliminar
para os enunciados seguintes.
O significado mais simples desse termo afirma que cultura abrange todas
as realizações materiais e os aspectos espirituais de um povo. Ou seja, em
outras palavras, cultura é tudo aquilo produzido pela humanidade, seja no
plano concreto ou no plano imaterial, desde artefatos e objetos até ideais e
crenças. Cultura é todo complexo de conhecimentos e toda habilidade
humana empregada socialmente. Além disso, é também todo
comportamento aprendido, de modo independente da questão biológica.
(SILVA, 2006, p. 1).
1.1 O HUMANO: NATUREZA E CULTURA
Somos seres humanos, seres naturais e culturais simultaneamente. Há em
nós aspectos naturais que amamos (como o prazer de ver, degustar, etc.) e outros
que não gostamos tanto (envelhecer, morrer, etc.).
Os aspectos naturais da nossa existência nos dão potencialidades – o ser
humano nasce com uma capacidade inata para desenvolver as linguagens, possui
em cérebro altamente desenvolvido, pode dispor da utilização do polegar opositor,
só para citar alguns exemplos - por outro lado, nossa natureza nos coloca infinitas
limitações, somos totalmente dependentes dos adultos por amplo espaço de tempo,
no início de nossas vidas; nosso aparto biológico não nos permite voar; nossas
forças físicas e o volume de nossa voz estão aquém do que desejamos.
Na ânsia de vencermos tais limitações criamos objetos e crenças,
transformamos espaços e modificamos nosso corpo, impomos um comportamento
que parece mais adequado ao que entendemos ser. A natureza que há em nós estápermeada pela cultura, de tal forma que não nos damos conta onde uma começa e a
outra termina.
6
ESTRATÉGIA EMPRESARIAL
PÓS-GRADUAÇÃO
ANTROPOLOGIA E RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS
Normalmente falamos de natureza sem sabermos muito bem a que nos
referimos. Uns entendem natureza como o lugar ou o elemento que não sofreu
alteração da ação humana. Outros a entendem como o princípio gerador da vida
dentro de uma essência pré-estabelecida.
Outros atrelam a natureza a um elemento definidor de atributos: “o homem é
naturalmente....”. Independente da concepção que possamos ter, a ciência tem
mostrado que aquilo que definimos como natureza, depende de nossas concepções.
Portanto, o que entendemos por natureza depende da cultura na qual estamos
inseridos e dos discursos aos quais nos filiamos. Ou seja, até o que entendemos
sobre “natureza” passa a depender da nossa cultura.
Quando afirmo - estou com vontade de ir ao banheiro. O que estou a dizer?
Que preciso suprir minhas necessidades fisiológicas (natureza?) ou que só consigo
realizá-las no espaço “banheiro” (um espaço culturalmente criado para essa
finalidade)? Uma pessoa que passou por transplantes tem uma vida possibilitada
pela natureza ou pela cultura? Mesmo depois de até os nossos dentes sofrerem
constantes intervenções da cultura odontológica que desenvolvemos, continuamos
tendo um corpo natural?
Nossos espaços são apenas naturais? Mesmo os mais belos bosques que
visitamos são alterados por nossas ações e também por nossas interpretações.
Assim uma árvore (aparentemente apenas natural) para alguns pode significar um
elemento sagrado e para outro um valor comercial, ou artístico.
Com isso pode se afirmar que o homem enquanto um ser cultural, intervém
em si mesmo e no mundo modificando, transformando as coisas e a interpretação
das coisas. O mundo (e nele o homem) está assim enredado na compreensão, na
percepção que a cultura produz. Tanto que pode se afirmar que sem o homem não
haveria mundo, uma vez que o mundo existe de fato na compreensão que o homem
tem. Um mundo sem o homem seria um mundo sem definição, sem conceito.
Vale aqui a leitura da poesia de Carlos Drumond de Andrade –
Especulações em trono da palavra homem. Citamos abaixo um excerto da mesma,
destacando apenas os versos que mais contribuem com esse texto:
7
ESTRATÉGIA EMPRESARIAL
PÓS-GRADUAÇÃO
ANTROPOLOGIA E RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS
“Como se faz um homem?
Apenas deitar,
copular, à espera
de que do abdômen
brote a flor do homem?
......Quanto vale o homem?
Menos, mais que o peso?
Hoje mais que ontem?
Vale menos, velho?
Vale menos morto?
Menos um que outro,
se o valor do homem
é medida de homem?
Como morre o homem,
como começa?
Sua morte é fome
que a si mesma come?
Morre a cada passo?
Quando dorme, morre?
Quando morre, morre?
.... Tem medo de morte,
mata-se, sem medo?
Ou medo é que o mata
com punhal de prata,
laço de gravata,
pulo sobre a ponte?
Por que vive o homem?
Quem o força a isso,
prisioneiro insonte?
Como vive o homem,
se é certo que vive?
.... Por que mente o homem?
8
ESTRATÉGIA EMPRESARIAL
PÓS-GRADUAÇÃO
ANTROPOLOGIA E RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS
mente, mente, mente,
desesperadamente?
Por que não se cala,
se a mentira fala,
em tudo que sente?
Por que chora o homem?
... Para que serve o homem?
para estrumar flores,
para tecer contos?
Para servir o homem?
Para criar Deus?
Sabe Deus do homem?
E sabe o demônio?
....Mas existe o homem?
Poesia Completa de Carlos Drummond de Andrade, p. 428 (Nova Aguilar)
Disponível em:
http://palavraguda.wordpress.com/2007/12/24/especulacoes-em-torno-da-
palavra-homem/ acesso em 12/07/2014.
A poesia de Drummond nos leva a pensar que somos nós que definimos
“como se faz um homem”, igualmente definimos “o valor do homem”; “o sentido da
vida do homem”; “o que é mentira na fala do homem”; “a serventia de um homem”;
“o que é a morte de um homem”; etc.
Somos seres naturais no sentido que nosso equipamento biológico obedece
a determinações sobre as quais podemos interferir, mas não conseguimos (pelo
menos até o momento) anulá-las. Tais determinações nos desafiam a transformar o
mundo para impedir que elas nos embarguem de vivenciarmos uma vida com mais
satisfação.
Essa realidade fez com que a humanidade em todos os tempos buscasse
mecanismos de ampliação do seu próprio equipamento biológico, potencializando-o
ao máximo para alcançar suas realizações. Desde a criação da alavanca, da roda,
dos óculos ou do telefone, o que o ser humano buscou foi ampliar-se em suas
http://palavraguda.wordpress.com/2007/12/24/especulacoes-em-torno-da-palavra-homem/
http://palavraguda.wordpress.com/2007/12/24/especulacoes-em-torno-da-palavra-homem/
9
ESTRATÉGIA EMPRESARIAL
PÓS-GRADUAÇÃO
ANTROPOLOGIA E RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS
possibilidades. Assim a tecnologia transformou o próprio homem. Eis um paradoxo,
o homem cria o objeto transformando a natureza e o objeto transforma o homem
tornando-o mais capaz.
Nesse primeiro momento já podemos afirmar que o humano é um ser que se
autoproduz na cultura. Disso pode se depreender que homem e cultura são
reciprocamente criatura e criador. Por esse motivo há quem pergunte: quem veio
primeiro o homem ou a cultura? Se o homem é um ser cultural e ao mesmo tempo
produtor da cultura, só se pode conceber o homem e a cultura como
simultaneamente nascidos.
Mesmo nos mitos da fundação do mundo, nas mais diferentes culturas, o ser
humano aparece transpassado pela cultura, seja na forma de comportamento que
apresenta, na crença que demonstra ou na forma de legalidade que propõe.
1.2 CULTURA E TRABALHO
O que está afirmado acima já aponta para o que aqui irá se tratar: o homem,
desde sempre, é um ser que trabalha e ao trabalhar se produz.
Mas o que é trabalho? Primeiro vamos nos afastar da ideia de trabalho como
sinônimo de emprego. Pois trabalhamos mesmo fora de nossos postos de trabalho.
Trabalho é tudo o que fazemos para transformar o mundo e a nós mesmos. O
ser humano deseja transformar o mundo. Ele dispõe da capacidade de pensar –
prefigurar – o mundo já transformado. Cria em sua mente o mundo que ainda não é,
e põe-se a trabalhar para que esse mundo que ainda não é passe a sê-lo.
O trabalho humano é teleológico. Antes de nos pormos a agir já
visualizamos os resultados. Investimos esforço físico, energia e tempo para que o
que está preconcebido se torne realidade. Antes de lavarmos o carro já o
imaginamos limpo e nos pomos a trabalhar para que o carro limpo aconteça.
Talvez a melhor maneira de se definir o que é trabalho humano seja
definindo o seu contrário. O que é trabalho desumano. Muitas vezes se define como
trabalho desumano o que produz grande fadiga, ou o que traz um desgaste físico ou
emocional significativo. Assim, se caracteriza como trabalho desumano o do
pedreiro ou o do camponês. Como então entender que muito trabalho fatigante e
10
ESTRATÉGIA EMPRESARIAL
PÓS-GRADUAÇÃO
ANTROPOLOGIA E RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS
desgastante, em muitos casos, produz satisfação e realização pessoal? Imagine a
satisfação do pedreiro que trabalhou todo seu feriado na construção de sua casa,
jamais concordaria que aquele trabalho foi desumano.
Sem entrar nesse mérito. Quero definir aqui como trabalho desumano
aquele que dispensa as características próprias do ser humano. Então, trabalho
desumano seria aquele que anula a criatividade, o trabalho no qual a pessoa que o
exerce não tem condições de pré-determinar, de divergir, de interferir na lapidação
da obra sobre a qual atua.
Assim o trabalho pode ser cansativo e fatigante mas vivenciado como obra
sobre a qual o ser humano exerceu toda sua humanidade, aplicando sua
criatividade, sua capacidadede fazer escolhas e de planejar o resultado que
buscava.
Pressupomos o trabalho sob forma exclusivamente humana. Uma
aranha executa operações semelhantes às do tecelão, e a abelha
supera mais de um arquiteto ao construir sua colmeia. Mas o que
distingue o pior arquiteto da melhor abelha é que ele figura na mente
sua construção antes de transformá-la em realidade. No fim do
processo de trabalho aparece um resultado que já existia antes
idealmente na imaginação do trabalhador. Ele não transforma
apenas o material sobre o qual opera; ele imprime ao material o
projeto que tinha conscientemente em mira, o qual constitui a lei
determinante do seu modo de operar e ao qual tem de subordinar
sua vontade. E essa subordinação não é um ato fortuito. Além do
esforço dos órgãos que trabalham, é mister a vontade adequada que
se manifesta através da atenção durante totó o curso do trabalho. E
isto é tanto mais necessário quanto menos se sinta o trabalhador
atraído pelo conteúdo e pelo método de execução de sua tarefa, que
lhe oferece por isso menos possibilidade de fruir da aplicação das
suas próprias forças físicas e espirituais (MARX, K. p. 1).
Quando Karl Marx definia o trabalho como algo teleológico, não dizia
nenhuma novidade. O ser humano ao se pôr a trabalhar já tem “pré-figurado” o
resultado do seu trabalho. Assim, o camponês antes de arar a terra já visualiza a
plantação crescendo e o processo pelo qual seu terreno irá passar para tornar-se
verde novamente. Da mesma forma o pedreiro em sua construção e todos outros
trabalhadores que podem participar do planejamento e da criação de sua obra.
O trabalho humano guarda assim o sentido de transcendência. Nele o
homem, projeta-se a um “ainda não”, a um momento que ele ainda não vivenciou,
buscando fugir do seu estado atual. A vontade de romper com seu estado atual
11
ESTRATÉGIA EMPRESARIAL
PÓS-GRADUAÇÃO
ANTROPOLOGIA E RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS
impulsiona o ser humano a trabalhar para criar um momento outro, uma nova
situação em outras bases. Nessa nova situação, não apenas as coisas serão outras,
ele “o próprio homem” será outro.
Portanto, o que caracteriza verdadeiramente o trabalho é seu status de
atividade voltada a uma finalidade pré-estabelecida, pré-figurada. A finalidade última
do trabalho é sempre transformar o mundo, permitindo ao homem adentrar em uma
nova realidade ainda não vivida.
Se o trabalho é a ação transformadora da realidade, na verdade o
animal não trabalha, mesmo quando cria resultados materiais com
essa atividade, pois sua ação não é deliberada, intencional. O
trabalho humano é a ação dirigida por finalidades conscientes, a
resposta aos desafios da natureza na luta pela sobrevivência. Ao
reproduzir técnicas que outros homens já usaram e ao inventar
outras novas, a ação humana se torna fonte de ideias e ao mesmo
tempo uma experiência propriamente dita. O trabalho, ao mesmo
tempo que transforma a natureza, adaptando-a às necessidades
humanas, altera o próprio homem, desenvolvendo suas faculdades.
Isso significa que, pelo trabalho, o homem se auto-produz. Enquanto
o animal permanece sempre o mesmo na sua essência, já que
repete os gestos comuns à espécie, o homem muda as maneiras
pelas quais age sobre o mundo, estabelecendo relações também
mutáveis, que por sua vez alteram sua maneira de perceber, de
pensar e de sentir (ARANHA, 1999. p. 5).
O trabalho é transformador da natureza e do próprio homem, portanto
elemento fundamental na manutenção e na criação da cultura humana e da cultura
de cada povo. Mas o próprio processo de trabalho, a execução dos nossos projetos
subjetivos, é produtor de cultura, em múltiplos sentidos. É, nele, que o humano toma
inúmeras decisões, portanto precisa fazer complexas inferências, aprimorando sua
forma de pensar, sentir e determinar. É durante o processo de trabalho que o
homem busca agregar forças, seja ela dos instrumentos inanimados (alavanca, roda
d’água, etc.), ou dos animais que consegue dominar e colocar a seu serviço.
No mesmo processo de trabalho o ser humano busca parcerias e estabelece
relações com outros humanos para conseguir sucesso em seus empreendimentos
mais amplos. Assim o trabalho, enquanto ação teleológica, desperta o homem para
a coletividade e a comunhão de objetivos.
Por ser uma atividade relacional, o trabalho, além de desenvolver
habilidades, permite que a convivência não só facilite a
aprendizagem e o aperfeiçoamento dos instrumentos, mas também
12
ESTRATÉGIA EMPRESARIAL
PÓS-GRADUAÇÃO
ANTROPOLOGIA E RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS
enriqueça a afetividade resultante do relacionamento humano:
experimentando emoções de expectativa, desejo, prazer, medo,
inveja, o homem aprende a conhecer a natureza, as pessoas e a si
mesmo.
O trabalho é a atividade humana por excelência, pela qual o homem
intervém na natureza e em si mesmo. O trabalho é condição de
transcendência e, portanto, é expressão da liberdade (ARANHA,
1999. p. 6).
Para pensar
I – Em todos os postos de trabalho, a pessoa que trabalha participa ativamente do
planejamento de suas atividades?
II – O desenvolvimento tecnológico utilizado nas organizações tem contribuído para
a humanização do trabalho?
III – A globalização da economia tem possibilitado uma maior troca de conhecimento
entre os trabalhadores?
IV – As organizações, enquanto espaços de trabalho, tornam mais efetivos os
intercâmbios e as formas de solidariedade entre os trabalhadores?
1.3 CULTURA E FORMAS DE TRABALHO
Se o trabalho produz a cultura e é por excelência uma atividade humana,
conforme o humano foi mudando também mudaram as formas de trabalho.
Reciprocamente, alteradas as formas de trabalho, essas causaram transformações
no ser humano. Isto é, não só o exercício do trabalho, mas a forma de organizá-lo
produziu transformações na cultura. MARX (op. cit. p.1) dirá:
O que distingue as diferentes épocas econômicas não é o que se faz,
mas como, com que meios e trabalho se faz. Os meios de trabalho
servem para medir o desenvolvimento da força humana de trabalho
e, além disso, indicam as condições sociais em que se realiza o
trabalho.
13
ESTRATÉGIA EMPRESARIAL
PÓS-GRADUAÇÃO
ANTROPOLOGIA E RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS
Os primeiros grupos humanos não contavam com a noção de propriedade
privada. Entre eles, tudo era de todos. Lá o trabalho era visto como tarefa de todos e
as formas de divisão do trabalho respeitavam apenas as capacidades físicas de
cada um. Mais do que isso, grande parte das atividades visavam à mera
sobrevivência o que exigia o empenho de todos e de cada um.
Com isso não está se afirmando que não houvesse uma hierarquia das
competências individuais, onde alguns se destacavam como caçadores e outros
como artesões, etc. Porém, a cumplicidade e solidariedade eram formas concretas
de resolver problemas e garantir a sobrevivência, assim, um caçador em tempos de
migração assumiria qualquer outra tarefa. Pois sua função primeira era defender e
apoiar o grupo na busca de melhores condições de vida.
Com o surgimento da agricultura, descoberta principalmente pelas mulheres,
o ser humano pode planejar melhor suas atividades, pois havia agora uma nova
atividade, a do cultivo, que ao mesmo tempo em que possibilitou mais alimentação,
melhor nutrição, ampliou significativamente a quantidade de indivíduos em cada
grupo. Desde então, incipientes formas de divisão de trabalho começam a
acontecer, se atribuindo aos homens mais a caça e a pesca e às mulheres, crianças
e velhos o cultivo. Com a domesticação dos animais, essa divisão torna-se
novamente tênue, pois a atividade pastoril irá ocupar tanto mulheres como homens.
É com o início da “civilização” que a divisão do trabalho torna-se evidente.
Com o surgimento da propriedade privada dos meios de produção as formas de
trabalhopassam a ser organizadas de outra forma. Vale lembrar que a principal
forma de propriedade privada era a terra, fonte dos bens essenciais à sobrevivência.
Desde então, o foco não é mais a sobrevivência e conforto do grupo, mas a
sobrevivência e conforto dos proprietários. Logo, o trabalho passa a ser dividido
conforme seus critérios. Assim vemos, por exemplo, no Egito Antigo o faraó
estabelecer quem seria escriba, quem seria agricultor, quem seria construtor.
A legitimação da propriedade privada e, consequentemente, da autoridade
do faraó dar-se-á pela religião e por outros mecanismos. Mas a imposição dessa
mesma autoridade se dará pelo uso da força. Quando os mecanismos de persuasão
não funcionam se apela à coação. Por esse motivo, fica evidente a divisão do
trabalho que privilegia sacerdotes e escribas, num primeiro escalão. Pois são eles
que assegurarão a ideologia que sustentará a estrutura social.
14
ESTRATÉGIA EMPRESARIAL
PÓS-GRADUAÇÃO
ANTROPOLOGIA E RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS
A forma de se conceber e de se organizar o trabalho passa por profundas
transformações. Surgem atividades realizadas em forma de mera exploração do
outro ser humano como instrumento de trabalho, desumanizando o processo, pois
quem realiza o trabalho não participa do seu planejamento, nem pode colocar nele
sua criatividade.
O trabalho não é mais realizado pelo sujeito como uma estratégia de
transformação da realidade, mas passa a ser mera execução de ordens desprovidas
de sentido para quem as obedece. O que se questiona aqui não é a fadiga do
trabalhador, nem a insalubridade de seu trabalho, mas o fato de ele não participar do
planejamento do mesmo, nem poder, no processo de trabalho, determinar-se.
Tal realidade levará os gregos a repudiarem o trabalho e exaltarem o “ócio”,
o tempo livre, a possibilidade de estarem disponíveis para guerrear, criar, fazer
política e filosofar. A filosofia grega logo irá estabelecer a distinção entre os que
devem trabalhar e os que foram apartados para o “ócio”. Entenda-se que ócio não é
sinônimo de descanso ou tempo para nada fazer, mas a total liberação das
atividades que visam à sobrevivência, para a realização das atividades tidas como
dignas.
É importante enfatizar que a palavra escola deriva da palavra ócio, ou seja, a
escola é o lugar dos que estão liberados das atividades indignas e passam a ocupar-
se com seu aprimoramento nos campos da arte, da política e da guerra (Paidéia).
Por outro lado, os que estão destinados as atividades indignas aprenderão o
necessário lá no próprio processo de trabalho (Douléia).
Não podemos confundir, por um lado, ócio com improdutividade, visto que
cidadãos gregos que usufruíam do ócio dedicavam-se às artes, ao estudo, ao
ensino, à política e à guerra. Por outro lado, não se pode pensar a cultura grega a
partir de concepções capitalistas atuais centradas num consumo infinito, portanto
numa produção infinita, onde tudo deve ser transformado em mercadoria e onde
todos são valorizados, apenas, pela sua participação no crescimento da economia.
Essa, com certeza, não era uma preocupação dos gregos. Nem seus escravos eram
avaliados pela produtividade, bastava que possibilitassem ao seu senhor conforto e
lhe tivessem respeito.
Entre os gregos, portanto, o trabalho estava associado ao esforço físico,
fadiga e penalização; trabalhar era uma atividade indigna reservada aos escravos.
15
ESTRATÉGIA EMPRESARIAL
PÓS-GRADUAÇÃO
ANTROPOLOGIA E RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS
Os romanos seguirão a mesma lógica. Mesmo que eles não dediquem, com tanto
afinco, o tempo livre ao estudo, à filosofia e à arte; o dedicarão à arte da guerra, à
política e à elaboração de leis.
Do que até aqui foi exposto pode se perceber que não houve uma
preocupação com o desenvolvimento da técnica, uma vez que a distância entre os
que trabalhavam e os que estudavam era grande. Mesmo assim, não se pode
afirmar que os gregos não tiveram grandes avanços técnicos, pois, mesmo havendo
essa distância entre trabalho e ócio, os gregos conseguiram avanços significativos
tanto no fabrico de armas, como na arte da arquitetura. A construção da Acrópole
parece ser uma prova irrefutável do avanço da tecnologia entre os gregos.
O cristianismo trará nova compreensão do trabalho. Visto como um mal
necessário, o trabalho servirá para afastar o homem dos “maus pensamentos”. O
cansaço e a fadiga afastarão os humanos dos pensamentos pecaminosos,
associados à gula e ao sexo. Por isso, mesmo nos mosteiros o tempo deve ser
dividido entre: “tempo de contemplação” e “tempo de trabalho”. Nos relatos dos
mosteiros beneditinos é comum se ler sobre o trabalho exercido pelos monges sob
ordenação de seus superiores.
Nesse período a organização do trabalho sé dá a partir da ideologia da
nobreza articulada com a doutrina da Igreja. Na doutrina se consagram três formas
de atividade:
I – Os Belatores - nobres destinados à arte da guerra – são os nobres
destinados desde a infância a arte da guerra. Ou seja, todos nascidos nobres,
permaneceriam nobres para sempre e sua função social seria defender os seus
contra os inimigos externos que poderiam atacar. Seu esforço físico estava
associado aos constantes treinamentos para as guerras, além do preparo para a
vida de cavaleiro.
II – Os Oratores – nobres destinados à vida eclesial - os bispos, padres,
monges, freiras e demais pessoas destinadas à vida religiosa. Sua tarefa era orar
pelo lugar onde viviam para defender as pessoas contra os ataques da forças
espirituais do mal, além de preservarem a própria santidade e desenvolverem todos
os trabalhos eclesiásticos. Nos mosteiros, bem como nos conventos, o trabalho
manual era visto como parte da preservação da vida religiosa.
16
ESTRATÉGIA EMPRESARIAL
PÓS-GRADUAÇÃO
ANTROPOLOGIA E RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS
II – Os Laboratores – os camponeses – destinados ao trabalho que garantirá
todos os recursos destinados à sobrevivência dos seus e dos nobres desenvolverão
todas as atividades, desde o cultivo das terras até a fabricação de armas, jóias e
vestimentas talares. Portanto, cuidarão de toda a produção de bens materiais. No
trabalho servil, serão explorados pelos nobres (clérigos ou não), que lhes imporão
um trabalho árduo, mas em suas terras terão o direito de planejar e executar
conforme seus próprios critérios.
Para pensar
Embora tenhamos em alguns locais trabalho escravo, você já deve ter
notado que nenhuma das formas de organizar o trabalho, listadas acima, são
amplamente utilizadas hoje. Então, antes de continuar a leitura tente responder as
seguintes questões:
I – Existem hoje pessoas que não trabalham por acharem o trabalho algo
desprezível?
II – A camada mais rica da sociedade atual vive o ócio ou trabalha arduamente para
ampliar seus lucros e suas fortunas?
III – Atualmente uma pessoa é valorizada por viver no “ócio”?
Acima vimos que na escravidão o trabalho árduo e fatigante era imposto aos
que precisavam obedecer. Vimos também que tanto o escravo grego como o servo
medieval (este apenas quando trabalhava em suas terras) tinham certa participação
na condução de suas atividades, bem como a possibilidade de aprender e
desenvolver novas técnicas, independente das determinações de seus senhores.
A forma de se organizar o trabalho interfere na forma de se organizar a
sociedade. A organização das formas de trabalho é fundamental para a produção
cultural de um povo. Pois, nela aparecem as formas de organização social, a forma
de se desenvolverem as técnicas de trabalho, a forma de se ter acesso aos bens e a
forma hierarquizada ou não das pessoas e das atividades a serem desenvolvida.
17
ESTRATÉGIA EMPRESARIAL
PÓS-GRADUAÇÃO
ANTROPOLOGIA E RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS
Na tabela abaixo apresento algumas consideraçõesbem conhecidas dos
historiadores e dos cientistas das ciências humanas, mas que podem nos ajudar a
entender o texto posterior a ela.
Período
Histórico
Exemplo de
Pessoas de
Destaque
Fator de destaque – status - de uma pessoa em
determinada sociedade.
Período
anterior a
Antiguidade
Clássica
Idosos
Eram pessoas que se destacavam por conhecerem as
tradições do seu povo, sua história, seus remédios, suas
doutrinas, seu corpo moral. Pelo conhecimento histórico
que tinham e pela experiência de vida, eram respeitadas e
valorizadas como pessoas sábias, que mantinham a
unidade do grupo.
Grécia
Clássica
600 a.C –
400 a.C
Filósofo e
outros
estudiosos de
forma geral
As pessoas mais respeitadas eram as que tinham melhor
argumento. Os filósofos, matemáticos e outros
conseguiam comprovar suas teorias ou validar seus
enunciados e, por isso, tornavam-se pessoas de destaque
social. Também políticos que faziam bom uso da retórica,
produzindo argumentos sólidos eram tidos como dignos
de respeito. Exemplos: Platão, Aristóteles, Pitágoras...
Roma
Republicana
e Império
Romano
O homem
cívico –
Político ou
Soldado.
Nesse período, em Roma, todo o respeito e status
elevado se dirigia ao homem que demonstrasse ter por
Roma amor maior que por si próprio. Alguém que
demonstrasse estar disposto abrir mão de seus privilégios
para bem servir Roma. Exemplos: Júlio César, Marco
Aurélio, Trajano, etc...
Período
Medieval
470 d.C –
1453 d.C
O Homem da
Fé
Nesse período as pessoas que tinham um status mais
elevado eram os clérigos, além de serem nobres,
entendiam dos desígnios de Deus. Exemplos: Agostinho,
Tomás de Aquino, Bento de Núrcia, Francisco de Assis.
Modernidade
Período
Cientistas
Desde a renascença, mas em especial no século XVIII e
XIX, os homens que ganharam destaque são os que
atuaram no mundo da ciência, assim destacaram-se
Descartes, Rousseau, Newton, Galileu e outros.
18
ESTRATÉGIA EMPRESARIAL
PÓS-GRADUAÇÃO
ANTROPOLOGIA E RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS
Na atualidade Os mais úteis.
Na atualidade as pessoas são avaliadas e valorizadas por
sua utilidade. Quais pessoas, que vindo ao nosso bairro,
encontrariam muitos admiradores querendo fotos e
autógrafos? Não necessariamente as pessoas mais ricas
ou mais poderosas, mas as pessoas que se mostram mais
úteis para o mundo dos negócios, mais úteis em
campanhas publicitárias, mais úteis no desenvolvimento
de determinada tecnologia.
Basta pensarmos num grande jogador de futebol, ele é
assediado por todos como um ícone do momento. Mas se
problemas físicos lhe tirarem definitivamente do campo,
em meses não terá mais utilidade e será esquecido.
Fonte: Elaborado pelo autor (2014)
Partindo-se da tabela acima temos que nos perguntar como se construiu a
ideia de que nossa utilidade é aquilo que nos define como pessoa de maiores ou
menores status.
Na primeira metade do século XVI, quando nem a modernidade havia ainda
se constituído, Martim Lutero já exaltava o trabalho, em qualquer profissão. Para ele,
o trabalho era o exercício do amor ao próximo e a Deus. Contrariando o catolicismo
da época, Lutero dirá que a vida sacerdotal ou monástica não é mais elevada do que
a vida em outra ocupação. Assim eleva o valor do trabalho como forma de serviço a
Deus.
Acontece então uma mudança radical na forma de ver o trabalho, o exercício
da profissão. Antes trabalhar era apenas uma forma de cumprir com os deveres de
fidelidade ao senhor feudal e de conseguir a subsistência. Lutero exaltará o trabalho
atribuindo a ele um valor espiritual. Trabalhar torna-se uma forma de agradar a
Deus.
Sugestão de Vídeo
Filme: Lutero
Ficha técnica:
Diretor: Eric Till
Elenco: Joseph Fiennes, Alfred Molina, Bruno Ganz, Jonathan Firth, Peter
Ustinov, Claire Cox e Uwe Ochsenknecht.
19
ESTRATÉGIA EMPRESARIAL
PÓS-GRADUAÇÃO
ANTROPOLOGIA E RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS
Produção: Dennis A. Clauss,Brigitte Rochow, Christian P. Stehr e
Alexander Thies.
Duração: 121 min
Ano: 2003
País: Alemanha Gênero: Drama
SINOPSE DO FILME LUTERO
Após quase ser atingido por um raio, Martinho Lutero acreditou ter
recebido um chamado e se juntou ao Monastério. Ainda jovem e
admirado, logo se vê atormentado pelas práticas da Igreja Católica da
época. As tensões se intensificam quando prega suas 95 teses na porta
da Igreja. Obrigado a se redimir publicamente, se recusa a negar os seus
escritos até que a Igreja Católica consiga provar que suas palavras
contradizem a Bíblica. Preso e excomungado, foge. Mesmo vivendo como
um criminoso numa aventura emocionante, mantém sua fé e luta para que
todas as pessoas tenham acesso a Deus
Tenha mais informações sobre o filme em:
http://www.eduardostefani.eti.br/blogs/blog1.
php/2012/11/13/resenha-do-filme-lutero-2003 - acesso em 12/07/2014.
João Calvino irá tirar consequências das ideias de Lutero, em parte,
contrariando ao próprio pensamento de Lutero. Calvino irá defender a doutrina na
qual o trabalho não é apenas uma forma de se servir a Deus. Segundo ele, quando
uma pessoa com seu trabalho consegue riquezas, demonstra que está sendo
abençoada por Deus naquilo que faz. Portanto, acumular riquezas advindas do
esforço pessoal, do trabalho dedicado, é uma forma de provar que está sendo
abençoado por Deus. Toda doutrina da predestinação desenvolvida por Calvino
reforçará a noção de que o trabalho é uma forma de louvor a Deus. Também que a
burguesia emergente, que buscava acumular através da dedicação ao trabalho,
mostrava-se abençoada ao ampliar suas posses.
O Renascimento cultural e científico e o Mercantilismo abriram os
horizontes da Europa, a partir de 1450. A reforma de João Calvino
(1509-1564), exaltando o individualismo, a atividade econômica e o
êxito material, deu grande impulso à economia. Enriquecer não
constituía mais um pecado, desde que a riqueza fosse obtida
honestamente e pelo trabalho. A cobrança de juro e a obtenção de
lucro passaram a ser permitidas. Entre os protestantes, o verdadeiro
pecado veio a ser a ociosidade, quando a mente desocupada passa
a se ocupar do mal. Como a leitura da Bíblia tornou-se fundamental
no culto, incentivou-se a educação, o que se repercutiu na melhoria
da produtividade do trabalho e no desenvolvimento econômico
(Souza, s.d, p.4).
http://www.sinopsedofilme.com.br/mostrar.php?q=124
http://www.sinopsedofilme.com.br/mostrar.php?q=124
http://www.eduardostefani.eti.br/blogs/blog1
20
ESTRATÉGIA EMPRESARIAL
PÓS-GRADUAÇÃO
ANTROPOLOGIA E RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS
Como muito bem mostrou Max Weber, em sua obra “A ética protestante e o
espírito do capitalismo”, a doutrina desenvolvida pelos reformadores foi exaltadora
do trabalho e do acúmulo de bens que dele possa derivar. A classe burguesa
preocupada com a escassez de mão de obra para suas fábricas, nos séculos
seguintes, irá se utilizar dessa doutrina. A consonância entre a doutrina dos
reformadores e os interesses da burguesia instituiu o trabalho como um valor
supremo e o não trabalho, o ócio ou a preguiça, como um mal, um pecado, um crime
a ser punido.
A ideia de que o homem é pleno de capacidades e deve colocá-las a serviço
dos outros homens na transformação do mundo já estava presente na Europa com o
advento do humanismo, mas vai se aprofundar rapidamente na doutrina religiosa e
mesmo na literatura. Vejamos as palavras de Hamlet na obra de William
Shakespeare:
Que obra-prima é o homem! Como é nobre em sua razão! Como é
infinito em faculdades! Em forma e movimentos, como é expressivo e
maravilhoso! Nas ações, como se parece com um anjo! Na
inteligência, como se parece com um deus! A maravilha do mundo! O
padrão de todos os seres criados!. (Hamlet, William Shakespeare,
trad., São Paulo: Martin Claret, 2002, p.47)
O trabalhocomo obra humana será exaltado e toda a recusa ao trabalho ou
o pouco afinco na execução do mesmo serão vistos como condenáveis. O rico será
visto como abençoado e o pobre como aquele a quem Deus não deu o dom de
saber tirar bons resultados de seu trabalho. Portanto, nessa visão, o pobre é culpado
pela sua pobreza. Tal ideologia legitimou a exploração do trabalho nas fábricas,
inclusive de crianças de pouca idade.
Sugestão de Vídeo
Filme: Daens - Um Grito de Justiça
Ficha técnica
(Daens)
Drama, Biografia, Histórico, Bélgica, França, Holanda, 1992, 138min;
Colorido. Direção: Stijn Coninx.
Sinopse
Drama indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro de 1993. Narra a
história do padre belga Adolf Daens(Jan Decleir), um pioneiro na luta
http://www.sociologia.seed.pr.gov.br/modules/conteudo/conteudo.php?conteudo=678
http://www.sociologia.seed.pr.gov.br/modules/conteudo/conteudo.php?conteudo=678
21
ESTRATÉGIA EMPRESARIAL
PÓS-GRADUAÇÃO
ANTROPOLOGIA E RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS
pelos direitos dos trabalhadores em seu país na virada do século. Nessa
época, as tecelagens do norte da Bélgica decidiram substituir os operários
por mulheres e crianças, a quem pagavam salários menores.
Impressionado pela miséria que presencia, o religioso lidera um
movimento de protesto. Um filme, que partindo de seu tema, o trabalho
das mulheres (e a comparação dos salários dos Homens) e do trabalho
do menor, se mantém atualíssimo.
Tenha mais informações sobre o filme em
http://www.sociologia.seed.pr.gov.br/modules/conteudo/conteudo.php?con
teudo=678#
acesso em 12/07/2014.
O maior representante do liberalismo clássico, Adam Smith, em sua principal
obra - "A Riqueza das Nações" -, afirmou que a riqueza dos países não residiria no
ouro, na prata ou na agricultura, mas sim no trabalho, capaz de transformar matéria
bruta em produtos com valor de mercado. Para ele o trabalho era o fator gerador de
riquezas e o estado não devia interferir na economia, isto é, entre outras coisas, na
relação entre patrão e empregado. Portanto, as fábricas se tornaram livres para
explorar a mão de obra e extrair o máximo do trabalho para a produção e obtenção
de lucros.
O filme - “Deans: um grito de justiça” –, sugerido acima, mostra como as
fábricas, tendo liberdade, extraíram o máximo dos trabalhadores, em especial de
mulheres e crianças. Para legitimar essa exploração criou-se toda uma ideologia de
exaltação do trabalho e de condenação aos que se negavam a trabalhar, mesmo
nas piores condições de trabalho.
Ao contrário dos gregos que viam no ócio um direito dos cidadãos mais
dignos, aqui a ociosidade será vista como desprezível. Aquele que se nega a
trabalhar é pessoa de má índole, ofende a Deus e deixa de contribuir como o
crescimento da riqueza. Daí a frase “o trabalho dignifica o homem”.
O capitalismo caracteriza-se pelo emprego de trabalhadores
assalariados, juridicamente livres, que vendem a sua força de
trabalho aos proprietários dos meios de produção, denominados
empresários, que os contratam para produzir bens ou serviços a
serem destinados ao mercado, com o fim de obter lucro. Para gerar
esse lucro, definido como a diferença entre as receitas totais e os
custos totais, o capitalista aluga ou constrói prédios, compra
máquinas e matérias-primas e contrata trabalhadores, incluindo-se
pessoal de escritório e técnicos de nível médio e superior. (Souza,
s.d, p.7).
http://www.sociologia.seed.pr.gov.br/modules/conteudo/conteudo.php?conteudo=678
http://www.sociologia.seed.pr.gov.br/modules/conteudo/conteudo.php?conteudo=678
22
ESTRATÉGIA EMPRESARIAL
PÓS-GRADUAÇÃO
ANTROPOLOGIA E RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS
Atualmente, a forma como a economia tem se organizado, coloca o trabalho
como fator decisivo para a sobrevivência de cada um. Ter acesso ao trabalho torna-
se fundamental para se manter a qualidade de vida.
No Brasil, a distribuição de renda piorou entre 1960 e 1985 e
melhorou entre 1985 e 1993. O índice de Gini do Brasil passou de
0,50, em 1960, para 0,66, em 1985, caindo para 0,60 em 1993. Com
o advento do Plano Real, estudos recentes mostram que a
distribuição de renda melhorou entre 1994 e 1997, mas piorou nos
últimos anos, pelo aumento do desemprego.
A população brasileira de menor renda, entretanto, empobreceu. Em
1960, os 10% mais pobres detinham 1,9% da renda, percentual que
caiu para 0,7% em 1993; enquanto 1% da população mais rica, que
detinha 12,1% da renda nacional, em 1960, passou para 15,5%, em
1993 (cfe. IBGE) (Souza, s.d, p.24).
Com a reestruturação produtiva, o desenvolvimento de novas tecnologias e
a produção baseada na demanda, ter acesso a um posto de trabalho tornou-se uma
conquista. Tudo isso coloca o trabalhador numa nova relação como o seu trabalho,
onde além de obter o acesso ao posto de trabalho ele deve manter-se como o mais
apto para ocupá-lo, além de estar preparado para a versatilidade que o mundo do
trabalho lhe exige.
Síntese da unidade I
O Homem se produz através da cultura.
No trabalho o homem transforma o mundo e a si mesmo.
Trabalho humano é o que não inibe as potencialidades criativas do homem.
Diferentes culturas forjaram suas formas de organizar e conceber o trabalho.
O trabalho produz cultura, pois altera as relações dos homens com o meio e
com os outros homens.
A concepção do que é o trabalho irá sempre depender dos interesses em jogo
em determinada sociedade.
Na cultura atual a tecnologia desafia o homem a cavar seu espaço na esfera
produtiva.
23
ESTRATÉGIA EMPRESARIAL
PÓS-GRADUAÇÃO
ANTROPOLOGIA E RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS
UNIDADE II – DEFINIÇÕES DE CULTURA
Acima já se tratou de alguns elementos que estão envolvidos quando
falamos de cultura. Aqui queremos problematizar o conceito de cultura para
podermos entender melhor sua relevância para a sociedade atua. Edgar Morin
discute as questões culturais da perspectiva da filosofia para estabelecer um
conceito que dê conta dos desafios atuais que se apresentam para a humanidade.
Ele entende que:
A cultura é constituída pelo conjunto dos saberes, fazeres, regras,
normas, proibições, estratégias, crenças, ideias, valores, mitos, que
se transmite de geração em geração, se reproduz em cada indivíduo,
controla a existência da sociedade e mantém a complexidade
psicológica e social. Não há sociedade humana, arcaica ou moderna,
desprovida de cultura, mas cada cultura é singular. Assim, sempre
existe a cultura nas culturas, mas a cultura existe apenas por meio
das culturas (MORIN, 2000. p. 56).
LARAIA (2009. p.68) entende que a cultura produz em nós atitudes,
comportamentos e posturas por nos oferecer uma cosmovisão. Diz ele: “o modo de
ver o mundo, as apreciações de ordem moral e valorativa, os diferentes
comportamentos sociais e mesmo as posturas corporais são assim produtos de uma
herança cultural, ou seja, o resultado da operação de uma determinada cultura.
Destaco abaixo sete contribuições de KROEBER apresentadas por LARAIA
(2009, p. 48-49), para ampliação do conceito de cultura.
1. A cultura, mais do que a herança genética, determina o comportamento
do homem e justifica as suas realizações.
2. O homem age de acordo com seus padrões culturais. Os seus instintos
foram parcialmente anulados pelo longo processo evolutivo por que
passou [...].
3. A cultura é o meio de adaptação aos diferentes ambientes ecológicos.
Em vez de modificar para isso seu aparato biológico, o homem modifica o
seu equipamento superorgânico.
4) Em decorrência da afirmação anterior, o homem foi capaz de romper
com as barreiras das diferenças ambientais e transformar toda a terra em
seu habitat.
5. Adquirindo cultura, o homem passou a depender muito mais do
aprendizado do que a agir através de atitudes geneticamente
determinadas.
24
ESTRATÉGIA EMPRESARIALPÓS-GRADUAÇÃO
ANTROPOLOGIA E RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS
6. Como já era do conhecimento da humanidade, desde o Iluminismo, é
este processo de aprendizagem (socialização ou endoculturação, não
importa o termo) que determina o seu comportamento e a sua capacidade
artística ou profissional.
7. A cultura é um processo acumulativo, resultante de toda a experiência
história das gerações anteriores, Este processo limita ou estimula a ação
criativa do indivíduo.
Disso temos que admitir que ao nascermos em um grupo humano toda a
carga cultural desse grupo perpassará nossa forma de perceber e viver, moldando
nosso caminhar, escolhendo nossas palavras. Pois, nos comunicaremos com a
língua desse grupo e aprenderemos os movimentos aprovados e reprovados, etc.,
antes mesmo de termos qualquer possibilidade de negá-los.
Como veremos mais adiante, a cultura é resultado de uma infinidade de
intercâmbios entre gerações e entre culturas, esses intercâmbios possibilitaram um
processo de humanização, pois quanto mais produzimos cultura mais nos
distanciamos do homem natural, uma vez que superamos os limites que a natureza
nos colocava.
A cultura se tornou possível porque, em nossa inteligência abstrata,
conseguimos trabalhar com símbolos assim criamos, por exemplo, as leis, as
moedas e uma infinidade de conceitos com os quais trabalhamos sem nos darmos
conta que são meras abstrações. Tais símbolos fazem sentido quando conectados a
cultura que lhe atribui sentido.
Vimos que um símbolo é alguma coisa que se apresenta no lugar de
outra e presentifica algo que está ausente. Quando dizemos que a
Cultura é a invenção de uma ordem simbólica, estamos dizendo que
nela e por ela os humanos atribuem à realidade significações novas
por meio das quais são capazes de se relacionar com o ausente:
pela palavra, pelo trabalho, pela memória, pela diferenciação do
tempo (passado, presente, futuro), pela diferenciação do espaço
(próximo, distante, grande, pequeno, alto baixo), pela diferenciação
entre o visível e o invisível (os deuses, o passado, o distante no
espaço) e pela atribuição de valor às coisas e aos homens (bom,
mau, justo, injusto, verdadeiro, falso, belo, feio, possível, impossível,
necessário, contingente) (CHAUI, 1998. p.293).
Todas as organizações trabalham com pessoas, dirigem-se às pessoas,
buscam convencer ou persuadir pessoas, atuam no sentido de motivar pessoas.
Interagem com outras organizações comandadas por diferentes pessoas. Quanto
25
ESTRATÉGIA EMPRESARIAL
PÓS-GRADUAÇÃO
ANTROPOLOGIA E RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS
mais amplo for lastro de relações de uma organização maior será a necessidade de
seus agentes entenderem a cultura das outras organizações e das outras pessoas.
Internamente, o clima organizacional pode ganhar qualidade quando se entende a
cultura das pessoas ali envolvidas. Se relacionar com as pessoas exige conhecer as
pessoas, mas para conhecermos as pessoas precisamos entender a cultura na qual
se inscrevem, bem como entender o processo pelo qual essa cultura está passando.
Para pensar
I – Muitas pessoas só existem na cultura - na linguagem. Você concorda
com quem diz que a Branca de Neve é real porque serve de modelo para
algumas mulheres?
II – Segundo as contribuições de Kroeber, apresentadas por Laraia, o
homem se adapta ao meio ou adapta o meio a ele, para não precisar se
adaptar?
III – Qual a sua definição do conceito de cultura?
IV – Afirmamos que nossa forma de ser é definida pela cultura, na qual
estamos inseridos. Com as organizações acontece o mesmo? Por que?
Desafio: Na coluna nº 01 você encontra uma poesia dirigida a um educador.
Transcreva a mesma para a coluna nº 02, dirigindo-a a um executivo. Para tal você
precisará se colocar no lugar de alguém que está lidando com o executivo.
Coluna 01 - PARA VOCÊ ME EDUCAR... Coluna 02 – Seu texto
Para você me educar,
você precisa me conhecer,
precisa saber da minha vida,
meu modo de viver e sobreviver;
conhecer a fundo as coisas nas quais eu
creio e às quais me agarro nos momentos de
solidão, desespero, sofrimento.
Precisa saber e entender
as verdades, pessoas e fatos
aos quais me entrego
quando preciso ir além de mim mesmo.
Para você me educar,
precisa me encontrar lá onde eu existo,
quer dizer, no coração das coisas,
nos mitos e nas lendas,
----------------------------------------------------
----------------------------------------------------
----------------------------------------------------
----------------------------------------------------
----------------------------------------------------
----------------------------------------------------
----------------------------------------------------
----------------------------------------------------
----------------------------------------------------
----------------------------------------------------
----------------------------------------------------
26
ESTRATÉGIA EMPRESARIAL
PÓS-GRADUAÇÃO
ANTROPOLOGIA E RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS
nas cores e nos movimentos,
nas formas originais e fantásticas,
na Terra, nas estrelas,
nas forças dos astros, do sol e da chuva.
Para você me educar,
você precisa estar comigo onde eu estou,
mesmo que você venha de longe e
que esteja muito adiante.
Só há um adiante para mim:
aquele que eu construo e conquisto.
Só há uma forma de construí-lo:
a partir de mim mesmo e do meio em que
vivo.
Para você me educar,
precisa compreender a cultura do contexto
em que se dá meu crescimento.
Pois suas linhas de força
são as minhas energias.
Suas crenças e expectativas
são as que passam a construir o meu credo
e as minhas esperanças.
Mas eu também estou aberta para as outras
culturas.
Identidade cultural não significa prisão ao
espaço que ocupo
mas abertura ao que é autenticamente nosso
e ao que, vindo de fora, nos pode fazer mais
nós mesmos.
A cultura universal é produto de todos os
homens,
Mas como posso contribuir com essa
fraternidade
se não constituí o meu eu
e não tenho minha expressão cultural
própria? .....
(Autor Desconhecido) Disponível em:
http://profonodete.blogspot.com.br/2011/01/p
ara-voce-me-educar.html, acesso em
12/07/2014.
----------------------------------------------------
----------------------------------------------------
----------------------------------------------------
----------------------------------------------------
----------------------------------------------------
----------------------------------------------------
----------------------------------------------------
----------------------------------------------------
----------------------------------------------------
----------------------------------------------------
----------------------------------------------------
----------------------------------------------------
----------------------------------------------------
----------------------------------------------------
----------------------------------------------------
----------------------------------------------------
----------------------------------------------------
----------------------------------------------------
----------------------------------------------------
----------------------------------------------------
----------------------------------------------------
----------------------------------------------------
--------------------------------------------
2.1 CULTURA OU CULTURAS
Muitas vezes ouvimos vozes inflamadas defendendo a superioridade dessa
ou daquela cultura. Alguns falam de culturas como se houvesse uma linha
ascendente que parte lá dos primatas, como ponto mais baixo (mais atrasado) e se
http://profonodete.blogspot.com.br/2011/01/para-voce-me-educar.html
http://profonodete.blogspot.com.br/2011/01/para-voce-me-educar.html
27
ESTRATÉGIA EMPRESARIAL
PÓS-GRADUAÇÃO
ANTROPOLOGIA ERELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS
estende até o povo “mais evoluído”, normalmente, um povo associado ao maior
desenvolvimento tecnológico.
Outras vozes falam de determinada cultura como se ela fosse propriedade
de um povo, construída por elementos criados por esse povo e demonstrasse a
capacidade inventiva somente daquele povo. Nessa mesma direção alguns pensam
a cultura como algo fechado, embora reconheçam que dentro de um povo sempre
existem os que se desviam da “verdadeira cultura” daquele povo. Assim defendem
que um “verdadeiro alemão” está associado à cerveja (Bier), às salsichas (Wurst) e
ao Strudel e ao Knedel. Logo, um alemão que prefere uma feijoada, seria uma
espécie de pseudo alemão. Neste caso, a incorporação de novos hábitos ou novos
elementos numa cultura, seria uma forma de descaracterizá-la, de empobrecê-la.
Seguindo essa lógica pode se encontrar alguém que diga que um indígena
do povo Guarani (que convive a mais de 500 anos com a cultura européia) não é
bem índio por estar usando uma camiseta da coca-cola. Verdade é que a camiseta
da coca-cola representa toda uma tentativa de colonização cultural, mas a
introdução do uso de camisetas da Coca-Cola numa tribo, não apaga a cultura local,
apenas traz mais um elemento que ali será utilizado e interpretado segundo o
momento atual daquela cultura.
Situação semelhante acontece com os imigrantes alemães que povoaram
partes do sul do Brasil. É fácil definir alguns traços que ligam esses imigrantes ao
velho continente. Tais traços vão desde a dedicação ao trabalho até as formas de
organizarem e conduzirem os rituais religiosos. Por outro lado, é comum você
chegar à casa de agricultores imigrantes, ou mesmo numa reunião de senhoras
alemãs na igreja, e encontrá-los comendo uma “cuca” (pão doce, com recheio ou
cobertura igualmente doce) acompanhada de um chimarrão, bebida oriunda da
cultura indígena.
A presença do chimarrão na casa dos imigrantes ou da camiseta da Coca-
Cola na tribo indígena demonstra apenas que a cultura desse grupo agregou um
novo elemento, mas não que ela se desfez ou se enfraqueceu. Tal realidade
comprova que uma cultura não é estática, nem estável, ela se faz e se refaz num
processo dinâmico e até contraditório, incluindo novos elementos, secundarizando
outros elementos e, até abandonando elementos que a constituíam.
28
ESTRATÉGIA EMPRESARIAL
PÓS-GRADUAÇÃO
ANTROPOLOGIA E RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS
O estudo de qualquer cultura irá apontar para a origem estrangeira de
muitos de seus elementos, quanto maior for o interesse de um grupo humano de
agregar elementos de outras culturas e dar-lhes um sentido peculiar, tanto mais
complexa torna-se essa cultura.
Assim, o chimarrão indígena e o chimarrão do imigrante, mesmo sendo o
mesmo elemento, revestem-se de sentidos diferentes, próprios daquela cultura.
Seria possível imaginar um líder de uma tribo defender o uso do chimarrão como
elemento propiciador de maior saúde aos seus consumidores e um imigrante
defender o mesmo uso afirmando que o chimarrão cria vínculos na família e entre
vizinhos reforçando laços comunitários.
No mundo globalizado a cultura tornou-se um elemento central, as formas de
comunicação e as trocas de bens e de concepções têm possibilitado um
apagamento das fronteiras entre uma e outra cultura, bem como desafiado cada
cultura local apresentar suas peculiaridades, deixando claro o que lhe caracteriza
como única dentro da aldeia global.
Cito na íntegra o texto do antropólogo Ralph Linton - “o Cidadão norte-
americano” - por ele permitir que se perceba como uma cultura é profundamente
permeada por elementos de outras culturas, mesmo que numa atitude costumeira –
pouco reflexiva – não percebamos isso.
O cidadão norte-americano
“O cidadão norte-americano desperta num leito construído segundo
padrão originário do Oriente Próximo, mas modificado na Europa
Setentrional, antes de ser transmitido à América. Sai debaixo de cobertas
feitas de algodão, cuja planta se tornou doméstica na Índia; ou de linho ou
de lã de carneiro, um e outro domesticados no Oriente Próximo; ou de
seda, cujo emprego foi descoberto na China. Todos esses materiais foram
fiados e tecidos por processos inventados no Oriente Próximo. Ao levantar
da cama faz uso dos “mocassins” que foram inventados pelos índios das
florestas do Leste dos Estados Unidos e entra no quarto de banho cujos
aparelhos são uma mistura de invenções européias e norte-americanas,
umas e outras recentes. Tira o pijama, que é vestiário inventado na Índia e
lava-se com sabão que foi inventado pelos antigos gauleses, faz a barba
que é um rito masoquístico que parece provir dos sumerianos ou do antigo
Egito.
Voltando ao quarto, o cidadão toma as roupas que estão sobre uma
cadeira do tipo europeu meridional e veste-se. As peças de seu vestuário
tem a forma das vestes de pele originais dos nômades das estepes
asiáticas; seus sapatos são feitos de peles curtidas por um processo
inventado no antigo Egito e cortadas segundo um padrão proveniente das
civilizações clássicas do Mediterrâneo; a tira de pano de cores vivas que
29
ESTRATÉGIA EMPRESARIAL
PÓS-GRADUAÇÃO
ANTROPOLOGIA E RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS
amarra ao pescoço é sobrevivência dos xales usados aos ombros pelos
croatas do séc. XVII. Antes de ir tomar o seu breakfast, ele olha a rua
através da vidraça feita de vidro inventado no Egito; e, se estiver
chovendo, calça galochas de borracha descoberta pelos índios da América
Central e toma um guarda-chuva inventado no sudoeste da Ásia. Seu
chapéu é feito de feltro, material inventado nas estepes asiáticas.
De caminho para o breakfast, pára para comprar um jornal, pagando-o
com moedas, invenção da Líbia antiga. No restaurante, toda uma série de
elementos tomados de empréstimo o espera. O prato é feito de uma
espécie de cerâmica inventada na China. A faca é de aço, liga feita pela
primeira vez na Índia do Sul; o garfo é inventado na Itália medieval; a
colher vem de um original romano. Começa o seu breakfast, com uma
laranja vinda do Mediterrâneo Oriental, melão da Pérsia, ou talvez uma
fatia de melancia africana. Toma café, planta abssínia, com nata e açúcar.
A domesticação do gado bovino e a ideia de aproveitar o seu leite são
originárias do Oriente Próximo, ao passo que o açúcar foi feito pela
primeira vez na Índia. Depois das frutas e do café vêm waffles, os quais
são bolinhos fabricados segundo uma técnica escandinava, empregando
como matéria prima o trigo, que se tornou planta doméstica na Ásia Menor.
Rega-se com xarope de maple inventado pelos índios das florestas do
leste dos Estados Unidos. Como prato adicional talvez coma o ovo de
alguma espécie de ave domesticada na Indochina ou delgadas fatias de
carne de um animal domesticado na Ásia Oriental, salgada e defumada por
um processo desenvolvido no norte da Europa.
Acabando de comer, nosso amigo se recosta para fumar, hábito
implantado pelos índios americanos e que consome uma planta originária
do Brasil; fuma cachimbo, que procede dos índios da Virgínia, ou cigarro,
proveniente do México. Se for fumante valente, pode ser que fume mesmo
um charuto, transmitido à América do Norte pelas Antilhas, por intermédio
da Espanha. Enquanto fuma, lê notícias do dia, impressas em caracteres
inventados pelos antigos semitas, em material inventado na China e por
um processo inventado na Alemanha. Ao inteirar-se das narrativas dos
problemas estrangeiros, se for bom cidadão conservador, agradecerá a
uma divindade hebraica, numa língua indo-européia, o fato de ser cem por
cento americano.” (LINTON, citado por LARAIA, 2003, p.106-108)
Para Pensar
Antes de continuar a leitura dedique-se a responder as seguintes
questões:
Questão I - Tente elencar o maior número de elementos de outras
culturas que interferiram, ou interferirão, neste seu dia.
Questão II - A cultura na qualvocê vive é herdeira principalmente de
quais culturas?
Questão III - Com a globalização todas as culturas se tornarão iguais?
Questão IV - Quais elementos você pode identificar como típicos,
específicos, de sua cultura?
30
ESTRATÉGIA EMPRESARIAL
PÓS-GRADUAÇÃO
ANTROPOLOGIA E RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS
O texto de LINTON aponta para a variedade de elementos de múltiplas
culturas em uma só cultura, essa se faz herdeira de todo um lastro de descobertas
de outros povos. Isso poderia nos levar ao equívoco de pensar que esse texto está
tratando de uma unificação ou planificação das culturas e do total apagamento das
fronteiras entre uma cultura e outra. Caso pensássemos assim entraríamos em
sintonia com as vozes que criticamos acima. Insisto que alguns alimentam
preconceituosamente a ideia de que estamos num processo de evolução e que uma
cultura mais evoluída irá seduzir a todos para adotarem seus elementos e
procedimentos.
Mas não é isso que LINTON está afirmando, apenas mostra em sua
narrativa que o cidadão norte americano, possivelmente sem perceber, está imerso
numa miscelânea de heranças das mais diversas fontes culturais e que seu estilo de
vida só se tornou possível graças ao aprendizado que seu povo recebeu de outras
culturas.
O fato de haver uma intensa comunicação entre as diferentes regiões do
planeta e uma troca tanto de bens materiais como de tecnologias e de outros
conhecimentos nas mais diversas áreas e isso estar tornando menos vivíveis a
fronteira entre uma cultura e outra, não é sinal de que iremos viver numa cultura
unificada. Vejamos alguns exemplos:
As línguas – Muitos pensavam que com a globalização a língua inglesa se
tornaria uma língua predominante de tal forma que as outras línguas iriam perder
seu prestígio. De fato a língua inglesa hoje é fundamental para os intercâmbios
próprios dos tempos globalizados. Mas ao contrário do que se esperava, outras
línguas, entre elas o Português e o Espanhol, ganham mais prestígio. Existe hoje
todo um trabalho de divulgação dessas línguas com vistas a sua expansão, ora esse
trabalho abre porta para relações comerciais e políticas, ora as relações comerciais
e políticas abrem porta para a expansão da língua.
O mesmo poderia se dizer da culinária, das danças ou das religiões. O velho
pensamento homogeneizador - que acreditava que as grandes religiões seriam
amplamente dominantes - vê de um lado a preservação de religiões tradicionais,
como a Umbanda no Brasil, bem como o ressurgimento de antigos cultos como os
das antigas religiões célticas. Além disso, as religiões dominantes como o
31
ESTRATÉGIA EMPRESARIAL
PÓS-GRADUAÇÃO
ANTROPOLOGIA E RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS
cristianismo agregam dentro de si uma variedade de doutrinas que aponta mais para
uma pluralidade de cultos e crenças do que para uma unificação.
Frente a essas constatações pode ser que alguém simplifique tudo
defendendo que há uma cultura mundial e que essa cultura é a própria pluralidade, a
vida permeada por um variado conjunto de elementos culturais que cada indivíduo
elege como seus e que a vida se dá em relações multiformes, dependendo das
escolhas individuais.
Diversos estudiosos debruçaram-se sobre essa temática e apontam para um
caminho diferente. Tentarei demonstrar isso utilizando aqui algumas contribuições
de Stuart Hall e Edgar Morin. Na próxima unidade demonstrarei que cada cultura é
peculiar em suas representações e na forma como constrói a identidade dos
indivíduos.
Um efeito desta compressão espaço-tempo é a tendência à
homogeneização cultural — a tendência [...] de que o mundo se torne
um lugar único, tanto do ponto de vista espacial e temporal quanto
cultural: a síndrome que um teórico denominou de McDonaldização
do globo. É, de fato, difícil negar que o crescimento das gigantes
transnacionais das comunicações, tais como a CNN, a Time Warner
e a News International tende a favorecer a transmissão para o
mundo de um conjunto de produtos culturais estandartizados,
utilizando tecnologias ocidentais padronizadas, apagando as
particularidades e diferenças locais e produzindo, em seu lugar, uma
‘cultura mundial’ homogeneizada, ocidentalizada. Entretanto, todos
sabemos que as consequências desta revolução cultural global não
são nem tão uniformes nem tão fáceis de ser previstas da forma
como sugerem os ‘homogeneizadores’ mais extremados. É também
uma característica destes processos que eles sejam mundialmente
distribuídos de uma forma muito irregular — sujeitos ao que Doreen
Massey (1995) denominou de uma decisiva “geometria do poder” —
e que suas consequências sejam profundamente contraditórias. Há,
certamente, muitas consequências negativas — até agora sem
solução — em termos das exportações culturais do ocidente
tecnologicamente super desenvolvido, enfraquecendo e minando as
capacidades de nações mais antigas e de sociedades emergentes na
definição de seus próprios modos de vida e do ritmo e direção de seu
desenvolvimento [...]. Há também diversas tendências contrapostas
impedindo que o mundo se torne um espaço culturalmente uniforme
e homogêneo [...]. A cultura global necessita da “diferença” para
prosperar — mesmo que apenas para convertê-la em outro produto
cultural para o mercado mundial (como, por exemplo, a cozinha
étnica). É, portanto, mais provável que produza “simultaneamente”
novas identificações (Hall, ibid.) “globais” e novas identificações
locais do que uma cultura global uniforme e homogênea. (HALL,
Stuart, 1997, p.3)
32
ESTRATÉGIA EMPRESARIAL
PÓS-GRADUAÇÃO
ANTROPOLOGIA E RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS
Ao mesmo tempo em que uma cultura global, uniforme e homogênea
transita pelo planeta instalando produtos culturais que se tornam hegemônicos, uma
infinidade de expressões culturais autóctones, locais e peculiares (re) aparecem. Os
fatores que as faz (re) surgir podem ser variados.
Como já citado acima, um produto cultural local pode ser rebuscado como
insumo para as estratégias do mercado que visa transformar tudo, inclusive
questões culturais, em mercadoria. Assim a dança de um determinado grupo local
pode ser fator de atração de turistas e tornar-se fonte de lucro para uma rede de
investidores em turismo. Portanto, para estes é fundamental que se volte às origens
e se encontre as peculiaridades dessa antiga dança para que ela, parecendo mais
exótica, seja mais atraente para o público já enfadado com os ritmos globalizados.
Também a culinária local pode tornar-se fator de atração turística bem como
incrementar o comércio de determinados ingredientes de menor aceitação no
mercado. Da mesma forma a cultura religiosa local que exalta um espaço sagrado
ou um santo, ali estabelecido, pode ampliar o lucro de quem investe na exploração
desse negócio. Vale lembrar que a exploração mercadológica de um produto
cultural, não necessariamente afeta as concepções que o envolvem.
Outro fator que pode fazer ressurgirem produtos culturais peculiares a um
grupo social é a necessidade de reforçarem sua identidade e estabelecerem
vínculos internos mais robustos, a massificação tende a apagar as fronteiras que
estabelecem as identidades e as diferenças, tema que trataremos na próxima
unidade.
A resistência a essa massificação pode se dar através da valorização
daquilo que é próprio daquele grupo humano, que “resgata” o seu passado, sua
história, seus costumes. Vale lembrar que toda forma de “rebuscar” o passado é
sempre uma forma de se manter a memória do grupo apenas naquilo que ela é
desejada. Ou seja, se busca no passado os elementos, os fatos que servem para
organizar a vida no presente.
A destruição das culturas locais, além de serem improváveis, seria um
empobrecimento do legado de gerações que, em cada tempo, produziram
elaborações significativas. Produção que se mantém viva em cada povo e quetransgrediram fronteiras inserindo-se desapercebidamente em outras culturas, como
nos mostrou LINTON em seu belo texto, já citado.
33
ESTRATÉGIA EMPRESARIAL
PÓS-GRADUAÇÃO
ANTROPOLOGIA E RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS
As técnicas podem migrar de uma cultura para outra, como foi o caso
da roda, da atrelagem, da bússola, da imprensa. Foi assim também
com determinadas crenças religiosas, depois com ideias leigas que,
nascidas em uma cultura singular, puderam se universalizar. Mas
existe em cada cultura um capital específico de crenças, ideias,
valores, mitos e, particularmente, aqueles que unem uma
comunidade singular a seus ancestrais, suas tradições, seus mortos.
Os que veem a diversidade das culturas tendem a minimizar ou a
ocultar a unidade humana; os que veem a unidade humana tendem a
considerar como secundária a diversidade das culturas. Ao contrário,
é apropriado conceber a unidade que assegure e favoreça a
diversidade, a diversidade que se inscreve na unidade (MORIN,
2000. p. 56).
Atualmente se constata, cada vez com mais intensidade, a presença de
grupos que, por se sentirem agredidos pela globalização e homogeneização da
cultura, reagem a ela produzindo espaços e estratégias de resistência. Em muitos
casos essa resistência é pautada naquilo que MORIN chama de racionalização. Ou
seja, naquilo que acontece quando determinado grupo social ou toda uma sociedade
se fecha em torno de uma verdade tida como absoluta, quando o pensamento se
fecha sobre si mesmo, impedindo questionamentos ou reflexões.
A racionalização possibilita a criação de grupos fundamentalistas que se
organizam para produzir uma identidade pautada na absoluta concordância com as
verdades formuladas por aquele grupo. Assim, determinado grupo se compacta
internamente, fortalece seus vínculos e assume uma atitude proselitista por um lado
e maniqueísta por outro.
Proselitista: Aquele que zelosamente busca novos adeptos para sua doutrina. Pessoa ou
grupo que se empenha em convencer ou persuadir outros a frequentarem o mesmo grupo,
aderindo às mesmas crença e valores.
Maniqueísta: Prática de dividir pessoas ou atitudes entre as que pertencem ao bem e as
que pertencem ao mal. Diz-se daqueles que só conseguem ver maldade ou engano, nas
pessoas que não são do seu grupo e não conseguem refletir criticamente sobre as práticas
e crenças do seu grupo.
Fundamentalistas são os que se valendo de uma interpretação literal dos livros sagrados,
impõem internamente seus dogmas, impedindo discordância; e alimentam um profundo
desprezo, quando não ódio, pelas doutrinas ou procedimentos contrários ao de seu grupo.
34
ESTRATÉGIA EMPRESARIAL
PÓS-GRADUAÇÃO
ANTROPOLOGIA E RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS
O próprio ritmo e a irregularidade da mudança cultural global
produzem com frequência suas próprias resistências, que podem,
certamente, ser positivas, mas, muitas vezes, são reações
defensivas negativas, contrárias à cultura global e representam fortes
tendências a “fechamento” (ver Woodward, 1997). Por exemplo, o
crescimento do fundamentalismo cristão nos EUA, do
fundamentalismo islâmico em regiões do Oriente Médio, do
fundamentalismo hindu na Índia, o ressurgimento dos nacionalismos
étnicos na Europa Central e Oriental, a atitude anti-imigrante e a
postura euro-cética de muitas sociedades do ocidente europeu, e o
nacionalismo cultural na forma de reafirmações da herança e da
tradição [...], embora tão diferentes entre si, podem ser considerados
como reações culturais conservadoras, fazendo parte do retrocesso
causado pela disseminação da diversidade efetuada pelas forças da
globalização cultural. (HALL, Stuart, 1997, p.4)
Embora as diferentes formas de reação a globalização, homogeneização e
uniformização da cultura possam ser criticadas, em especial as caracterizadas como
formas de fundamentalismo, todas elas aparecem como reação a um poder que
tenta atuar através da dominação cultural.
Se retrocedermos até as décadas de 1960 e 1970, ou já na década de 1930,
perceberemos o poder da cultura norte americana no Brasil. Os EUA, em especial,
nos tempos de Guerra Fria, elaborou todo um plano de divulgação de seu estilo de
vida para ser adotado nos países capitalistas. Na figura do Superman, o herói
defensor da liberdade e do bem, projetou uma imagem positiva dos EUA, fazendo-
nos crer que deveríamos nos aculturar e adotar seu estilo de vida – conhecido como
“american way of life”.
É normal que um povo viva, defenda e tente divulgar seu estilo de vida.
Todos acreditam que sua forma de ver e viver a vida faz sentido. A imposição de
determinada cultura ou a hierarquização das mesmas que são problemáticas.
Existem aqueles que banalizam a cultura do outro, ou até acreditam que o outro não
tenha cultura. Quando superamos nosso preconceito e assumimos uma postura de
alteridade percebemos que cada grupo humano tem sua cultura e que todas elas
são complexas.
Em cada cultura encontraremos sentidos atribuídos aos conceitos que em
nossa cultura chamamos de, saudade, luto, amor, paz, belo, dor, ódio, deus, medo,
vida, morte, parto, etc. Nesse “etc” cabem páginas de conceitos que existem em
cada cultura. Mas não só conceitos, costumes, crenças, valores, tradições, a língua
(todas as línguas são complexas) e a produção material que pressupõe
35
ESTRATÉGIA EMPRESARIAL
PÓS-GRADUAÇÃO
ANTROPOLOGIA E RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS
conhecimento dos elementos da natureza, dos meios de ordená-los e utilizá-los, dos
instrumentos de trabalho, da organização do trabalho e da distribuição de seus
resultados. Um simples camponês semianalfabeto, além de tudo isso, domina o
conhecimento do nome, forma, comportamento e utilidade de milhares de espécies
animais e vegetais. Talvez haja quem diga que ele não tem cultura!
Num país como o nosso, dizer que alguém é inculto porque é semi-
analfabeto deixa transparecer que Cultura é algo que pertence a
certas camadas ou classes sociais socialmente privilegiadas,
enquanto a incultura está do lado dos não-privilegiados socialmente,
portanto, do lado do povo e do popular (CHAUI, 1998, p.291)
Sugestão de Vídeo
Filme: A Excêntrica Família de Antonia
Ficha Técnica
Gênero: Drama
Direção: Marleen Gorris
Roteiro: Marleen Gorris
Elenco: Dova Van Der Groe, Marina De Graa, Wileque Van Ammel Rooy
Duração: 102 min.
Ano: 1995
País: Bélgica / Holanda / Inglaterra
Cor: Colorido
Sinopse
Comandada por Antonia, a saga familiar atravessa três gerações, falando
de força, de beleza e de escolhas que desafiam o tempo. Nesse universo
conhecemos curiosos personagens, como o filósofo pessimista, a netinha
superdotada, a filha lésbica, a avó louca, o padre herege, a amiga que
adora procriar, a vizinha que sofre abusos sexuais e os muitos amigos
que são acolhidos por sua generosidade.
36
ESTRATÉGIA EMPRESARIAL
PÓS-GRADUAÇÃO
ANTROPOLOGIA E RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS
2.2 A CENTRALIDADE DA CULTURA
A percepção da centralidade da cultura pode se dar a partir da observação
das nossas experiências cotidianas, experiência aqui entendida como aquilo que nos
acontece, aquilo que se passa conosco.
A expressão “centralidade da cultura” indica aqui a forma como a
cultura penetra em cada recanto da vida social contemporânea,
fazendo proliferar ambientes secundários, mediando tudo. A cultura
está presente nas vozes e imagens incorpóreas que nos interpelam
das telas, nos postos de gasolina. Ela é um elemento chave no modo
como o meio ambiente doméstico é atrelado, pelo consumo, às
tendências e modas mundiais. É trazida para dentro de nossos lares
através dos esportes e das revistas esportivas, que frequentemente
vendem uma imagem de íntima associação ao "lugar" e ao local
através da cultura do futebol contemporâneo. Elas mostram uma
curiosa nostalgia em relação a uma“comunidade imaginada”, na
verdade, uma nostalgia das culturas vividas de importantes “locais”
que foram profundamente transformadas, senão totalmente
destruídas pela mudança econômica e pelo declínio industrial.
(HALL, Stuart, 1997, p.5)
Há uma consciência de que a cultura interfere nas relações de poder,
propiciando um lugar privilegiado de comando a quem dispor de meios e estratégias
para interferir no processo de sua produção e controle.
Em meio a toda conversa sobre “desregulamentação” (…) tem
ocorrido um processo de sofisticação e intensificação dos meios de
regulação e vigilância: o que alguns têm denominado “o governo pela
cultura”. Neste diferentes exemplos reconhecemos que a “cultura”
não é uma opção soft. Não pode mais ser estudada como uma
variável sem importância, secundária ou dependente em relação ao
que faz o mundo mover-se; tem de ser vista como algo fundamental,
constitutivo, determinando tanto a forma como o caráter deste
movimento, bem como a sua vida interior (HALL, Stuart, 1997, p.6).
A centralidade que a cultura ocupa no cenário mundial nesse terceiro milênio
desafia as organizações a auscultar ao mesmo tempo as tendências globais e as
especificidades locais, sem negligenciar a pujança de cada uma delas. Estruturar-se
em função de uma, sem considerar os impactos da outra pode ser desestabilizador
numa sociedade global onde os riscos são igualmente globais. Segundo GIDDENS
(2000, p 34) “o risco é a dinâmica mobilizadora de uma sociedade propensa à
37
ESTRATÉGIA EMPRESARIAL
PÓS-GRADUAÇÃO
ANTROPOLOGIA E RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS
mudança, que deseja determinar seu próprio futuro em vez de confiá-lo à religião, a
tradição ou aos caprichos da natureza.
Mais do que se proteger dos câmbios culturais e de suas consequências, as
organizações devem contribuir para que a Cultura e as culturas se desenvolvam
potencializando ainda mais o ser humano em suas realizações.
O duplo fenômeno da unidade e da diversidade das culturas é
crucial. A cultura mantém a identidade humana naquilo que tem de
específico; as culturas mantêm as identidades sociais naquilo que
têm de específico. As culturas são aparentemente fechadas em si
mesmas para salvaguardar sua identidade singular. Mas, na
realidade, são também abertas: integram nelas não somente os
saberes e técnicas, mas também ideias, costumes, alimentos,
indivíduos vindos de fora. As assimilações de uma cultura a outra
são enriquecedoras. Verificam-se também mestiçagens culturais
bem-sucedidas, [...]. Ao contrário, a desintegração de uma cultura
sob o efeito destruidor da dominação técnico-civilizacional é uma
perda para toda a humanidade, cuja diversidade cultural constitui um
dos mais preciosos tesouros (MORIN, 2000. p. 57).
Para pensar
I – A centralidade da cultura, interfere em nossas vidas pessoais,
interfere também na vida de uma organização? Como?
II – Há uma governamentalidade que se dá pela cultura, como ela afeta
as organizações?
III – As organizações participam do exercício de governamentalidade pela
cultura?
Síntese da unidade II
As organizações e os indivíduos precisam entender que a globalização irá
alterar as culturas locais, mas não irá diluí-las. Portanto deve se pensar em
Cultura e culturas.
A centralidade da cultura no mundo atual interfere nas organizações tanto nas
suas relações externas quanto na sua organização interna.
A globalização provoca alterações rápidas na sociedade e altera a estrutura
de cada cultura.
As culturas são sempre móveis, mutáveis e “intercambiantes”.
38
ESTRATÉGIA EMPRESARIAL
PÓS-GRADUAÇÃO
ANTROPOLOGIA E RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS
As tentativas de imposição de elementos culturais muitas vezes provocam
reações, até pelo fechamento cultural de alguns grupos.
Cultura está relacionada às múltiplas formas de o ser humano produzir
símbolos, de criar arranjos para forjar condições melhores para viver. Por
isso, todo ser humano tem cultura.
39
ESTRATÉGIA EMPRESARIAL
PÓS-GRADUAÇÃO
ANTROPOLOGIA E RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS
UNIDADE III – IDENTIDADE E DIFERENÇA
Quando se aborda a questão da centralidade da cultura e de suas
repercussões no e para o mundo das organizações é porque a forma como
atualmente se tratam as questões culturais que envolvem faixa etária, gênero, sexo,
etnia, religião, etc. são complexas e interferem no jogo de forças, constitutivas do
poder atual.
No âmbito da gestão pública, fica cada vez mais evidente a necessidade de
atenção à cultura e seus problemas ou potencialidades. Já em 1997, HALL chamava
a atenção para o fato de que administrar envolve o governamentalidade da cultura.
Solucionar problemas geralmente é uma questão de mudar a forma
como as pessoas fazem as coisas, ou como elas veem o mundo.
Não importa o quanto desejemos que o governo nos deixe em paz,
quando nos confrontamos com grandes problemas sociais,
esperamos que o governo empenhe todos os seus esforços para
mudar as atitudes ou crenças das pessoas envolvidas na criação ou
na solução destes problemas. Em outras palavras, geralmente
esperamos que o governo mude a cultura {grifo meu} das pessoas...
A cultura agora está na agenda das reformas do governo, pois
sabemos, a partir de uma série de recentes pesquisas, que a cultura
talvez seja o fator determinante mais importante em uma combinação
de sucesso econômico e coesão social, a longo prazo. Ignorar este
fato foi o erro tanto dos estatistas de esquerda quanto dos partidários
do laissez-faire de direita. (PERRI, apud, HALL,1997, p.18)
Sugestão de Vídeo
FILME: A VIDA DOS OUTROS (Onde o poder é absoluto, nada é
confidencial)
Ficha Técnica:
Nacionalidade: Alemanha
Duração: 137min.
Direção: Florian Henckel von Donnersmarck
Ano: 2006
Sinopse
Considerado um dos melhores filmes lançados nos cinemas nos últimos
anos, aplaudido pelos críticos e pelo espectador. A Vida dos Outros narra
uma história real do dramático (e às vezes hilário) sistema de espionagem
existente na Alemanha Oriental durante o período da Guerra Fria. Nos
anos 80, o Ministro da Cultura se interessa por Christa, atriz popular que
namora com Georg, o mais conhecido dramaturgo do país e um dos
poucos que consegue enviar textos para o outro lado da fronteira. Com a
http://www.filmesdecinema.com.br/filmes-de-melhores/
http://www.filmesdecinema.com.br/filmes-de-filmes/
http://www.filmesdecinema.com.br/filmes-de-lancados/
http://www.filmesdecinema.com.br/filmes-de-cinemas/
http://www.filmesdecinema.com.br/filmes-de-ultimos/
http://www.filmesdecinema.com.br/filmes-de-aplaudido/
http://www.filmesdecinema.com.br/filmes-de-pelos/
http://www.filmesdecinema.com.br/filmes-de-criticos/
http://www.filmesdecinema.com.br/filmes-de-vida/
http://www.filmesdecinema.com.br/filmes-de-outros/
http://www.filmesdecinema.com.br/filmes-de-narra/
http://www.filmesdecinema.com.br/filmes-de-historia/
http://www.filmesdecinema.com.br/filmes-de-real/
http://www.filmesdecinema.com.br/filmes-de-dramatico/
http://www.filmesdecinema.com.br/filmes-de-vezes/
http://www.filmesdecinema.com.br/filmes-de-sistema/
http://www.filmesdecinema.com.br/filmes-de-espionagem/
http://www.filmesdecinema.com.br/filmes-de-existente/
http://www.filmesdecinema.com.br/filmes-de-alemanha/
http://www.filmesdecinema.com.br/filmes-de-oriental/
http://www.filmesdecinema.com.br/filmes-de-periodo/
http://www.filmesdecinema.com.br/filmes-de-guerra/
http://www.filmesdecinema.com.br/filmes-de-anos/
http://www.filmesdecinema.com.br/filmes-de-ministro/
http://www.filmesdecinema.com.br/filmes-de-cultura/
http://www.filmesdecinema.com.br/filmes-de-interessa/
http://www.filmesdecinema.com.br/filmes-de-atriz/
http://www.filmesdecinema.com.br/filmes-de-popular/
http://www.filmesdecinema.com.br/filmes-de-namora/
http://www.filmesdecinema.com.br/filmes-de-conhecido/
http://www.filmesdecinema.com.br/filmes-de-dramaturgo/http://www.filmesdecinema.com.br/filmes-de-pais/
http://www.filmesdecinema.com.br/filmes-de-poucos/
http://www.filmesdecinema.com.br/filmes-de-consegue/
http://www.filmesdecinema.com.br/filmes-de-enviar/
http://www.filmesdecinema.com.br/filmes-de-textos/
http://www.filmesdecinema.com.br/filmes-de-outro/
http://www.filmesdecinema.com.br/filmes-de-lado/
40
ESTRATÉGIA EMPRESARIAL
PÓS-GRADUAÇÃO
ANTROPOLOGIA E RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS
suspeita dos dois serem infiéis às ideias comunistas, eles passam a ser
observados pelo frio e calculista Capitão Gerd, temido agente do serviço
secreto, que fica fascinado pelas suas vidas e personalidades.
A criação de uma cultura organizacional se dá num jogo de forças, há
diferentes interesses na e em relação à organização. Que interesses são esses?
Como se pode atuar sobre a cultura para atendê-los ou neutralizá-los? Como podem
ser criados pela cultura novos interesses?
Não estamos necessariamente falando aqui em dobrar alguém por
coerção, influência indevida, propaganda grosseira, informação
distorcida ou mesmo por motivos dúbios. Estamos falando em
arranjos de poder discursivo ou simbólico. Toda a nossa conduta e
todas as nossas ações são moldadas, influenciadas e, desta forma,
reguladas normativamente pelos significados culturais. Uma vez que
a cultura regula as práticas e condutas sociais, neste sentido, então,
é profundamente importante quem regula a cultura. A regulação da
cultura e a regulação através da cultura são, desta forma, íntima e
profundamente interligadas. (HALL,1997, p.18)
Todas as organizações, bem como qualquer instituição social, terão que
colocar as questões culturais em suas pautas, caso queiram interagir com a
sociedade sem prejuízos na relação com esta. Não se trata aqui de apenas ser
“politicamente correto” e cumprir alguns protocolos mais ou menos estabelecidos. Os
debates atuais sobre as questões culturais exigem que se entendam os processos
pelos quais passam os questionamentos sobre as identidades e as relações de
poder nelas implicadas.
Quando se fala de culturas, logo vem o discurso “politicamente correto”
afirmando que se deve tomar uma atitude de tolerância em relação ao outro.
Certamente a tolerância faz parte, mas não é ela que está em pauta quando se
defende uma sociedade plural, quando se denunciam as relações de poder nos
discursos que tentam fixar identidades posicionando os sujeitos.
Tolerância: Essa palavra está presente em muitos discursos de uma
forma dúbia, muitas vezes denunciando o preconceito de quem a
defende. Alguns imaginam que quando se fala de uma sociedade plural,
se fala apenas de pessoas que toleram umas às outras. Essa ideia,
muitas vezes, sedimenta uma relação hierárquica entre os indivíduos ou
grupos humanos. Dela poderiam se depreender frases como: Sou
http://www.filmesdecinema.com.br/filmes-de-suspeita/
http://www.filmesdecinema.com.br/filmes-de-dois/
http://www.filmesdecinema.com.br/filmes-de-infieis/
http://www.filmesdecinema.com.br/filmes-de-ideias/
http://www.filmesdecinema.com.br/filmes-de-eles/
http://www.filmesdecinema.com.br/filmes-de-passam/
http://www.filmesdecinema.com.br/filmes-de-observados/
http://www.filmesdecinema.com.br/filmes-de-frio/
http://www.filmesdecinema.com.br/filmes-de-calculista/
http://www.filmesdecinema.com.br/filmes-de-capitao/
http://www.filmesdecinema.com.br/filmes-de-temido/
http://www.filmesdecinema.com.br/filmes-de-agente/
http://www.filmesdecinema.com.br/filmes-de-servico/
http://www.filmesdecinema.com.br/filmes-de-fica/
http://www.filmesdecinema.com.br/filmes-de-fascinado/
http://www.filmesdecinema.com.br/filmes-de-pelas/
http://www.filmesdecinema.com.br/filmes-de-suas/
http://www.filmesdecinema.com.br/filmes-de-vidas/
41
ESTRATÉGIA EMPRESARIAL
PÓS-GRADUAÇÃO
ANTROPOLOGIA E RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS
religioso e {“sou tão bom”} que tolero os ateus! Sou cientista e {“sou tão
polido”} que tolero os analfabetos!
Podemos contrapor tolerância à alteridade, mas antes de se pautar
procedimentos, precisamos refletir sobre o que impede a sociedade de acolher a
pluralidade sem hierarquizar os grupos humanos. Para tal precisamos clarear alguns
conceitos.
Certamente você já ouviu falar muito em colonização. Portugal colonizou o
Brasil. Alemães e italianos colonizaram o sul do Brasil. Mas colonizar tem sido
utilizado em outro sentido. Diz-se colonizado o grupo de pessoas que
sistematicamente convivendo com um discurso que lhe dá identidade, passa a se
reconhecer nesse discurso, aderindo ao discurso mais legitimado, mesmo que esse
lhe seja desfavorável. Vejamos alguns exemplos.
I – Uma mulher, que trabalha fora de casa, exalta seu marido porque ele lhe
ajuda nas tarefas domésticas.
II – Uma mulher, após visitar a casa de um casal, afirma que a casa estava
suja, acusando a outra mulher de ser relaxada.
Nos dois primeiros casos as mulheres aderiram ao discurso masculino que
as representa cotidianamente como responsáveis pelo serviço do lar. Nessa
representação os homens até podem “ajudar”. Se o homem só ajuda, ainda assim a
responsável é a mulher! Esse discurso é tão presente na sociedade que o tomamos
como “normal” – natural – sem percebermos que ele se erigiu num longo processo
histórico que privilegiou o homem, inferiorizando a mulher ao atrelá-la às tarefas
domésticas.
O cotidiano e o agir dos seres humanos são perpassados pela
linguagem, nela se articulam nossas representações, que são
múltiplas, contraditórias e em confronto, mas, é através delas que
os indivíduos e os grupos humanos dão sentido ao mundo em que
vivem. (CHARTIER, 1991. p. 178).
III – A professora fala de sua profissão, exaltando a importância do amor pelos
alunos, como se “ter um bom coração” fosse o suficiente para que os problemas se
resolvessem.
Na revista Nova Escola e na literatura infanto-juvenil, as professoras
[grifo meu] são exaustivamente exaltadas por sua afetividade,
42
ESTRATÉGIA EMPRESARIAL
PÓS-GRADUAÇÃO
ANTROPOLOGIA E RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS
dedicação desinteressada e por condutas muito próximas das
representações cristalizadas do “ser mãe” e “ser mulher”, deixando
evidente, no que se refere às identidades das professoras, o
predomínio de uma “ordem do coração” sobre a “ordem da razão”
(CANDAU. 2002. p.40).
Nessa perspectiva, a mulher na escola não é vista como uma profissional
que precisa de competência técnica, humana e política, mas como aquela que
estende a sua maternidade até a escola, por uma “natural” inclinação feminina de
dedicar-se abnegadamente ao cuidado dos outros. A colonização é entendida como
o processo pelo qual os grupos humanos passam, que lhes induz a encontrarem sua
identidade no discurso socialmente legitimado.
A identidade, por sua vez, é relacional só posso afirmar quem sou me
distinguindo daquele que não é o que sou. Se eu afirmar ser gaúcho, estou
afirmando que não sou paranaense, nem carioca. Para estabelecer a identidade
gaúcha, preciso representar “o que é ser gaúcho”, novamente estou estabelecendo
diferenças entre “o gaúcho” e “o não gaúcho”.
Os signos que constituem as representações, não apenas
descrevem “realidades”, eles criam “o real”, eles têm efeito de
“verdade”. Identidade e diferença não podem ser entendidas como
entidades preexistentes que guardam uma origem longínqua ou um
momento fundador. Elas precisam ser constantemente recriadas. É
no esforço de dar sentido ao mundo social que os diferentes grupos
disputam a produção de representações que fundam novas
identidades ao estabelecerem as diferenças (SILVA, T.T. 2000. p.96)
Ana Maria Colling demonstrou de forma muito evidente que Platão,
Aristóteles e Hipócrates elaboraram toda uma representação do corpo feminino que
influenciou a teologia cristã e se estendeu até nós. Nessa representação a
identidade feminina recebe status muito inferior aohomem. COLLING (2013) conclui
que
O discurso da diferença biológica entre homens e mulheres assume
um caráter universal e imutável, construído e reconstruído no
entrecruzamento dos mais variados discursos, como o da Religião,
da Filosofia, da Medicina, da Biologia, da Psicanálise, da Educação,
do Direito etc., atravessando todas as relações sociais e, dessa
maneira, legitimando-se. A violência contra a mulher, o mito do sexo
frágil, o tamanho do cérebro, ainda hoje invocado, um corpo
propenso à doenças, por isso subordinado, é o resultado do
desprezo ao feminino. Mata-se um corpo, castiga-se um corpo por
43
ESTRATÉGIA EMPRESARIAL
PÓS-GRADUAÇÃO
ANTROPOLOGIA E RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS
variados motivos fúteis. Mostrar a historicidade dos corpos, os
discursos pretensamente científicos transformados em verdades, é
também uma tarefa acadêmica (COLLING, 2013, p.27).
Em minha dissertação de mestrado – Os manuais de história e a produção
do discurso sobre as mulheres da Idade Média - provei que os manuais utilizados
nas escolas naquele período não incluíam as mulheres na história. Quase nada
havia sobre elas nos manuais. Ocultar também é uma forma de representar.
Pensar as questões culturais hoje, não é formular uma política de tolerância
da empresa, nem adotar posturas “politicamente corretas”. É, sim, entender que há
uma política de produção das identidades e das diferenças e que nessa política
disputam-se as relações de poder entre os grupos humanos.
Acima produzimos um debate sobre a representação das mulheres, que
pode servir de metáfora, para entendermos todas as outras representações com as
quais convivemos. Assim como as mulheres foram representadas como inferiores
aos homens, outros grupos são representados como desviantes ou excluídos do
padrão.
Uma das estratégias de um discurso que visa criar uma identidade como
forma de exercício de poder é a universalização, que apaga as peculiaridades entre
as pessoas participantes do grupo que se tenta caracterizar. Assim se fala da
“mulher brasileira”.
Quem é ela? Todos sabem que existem grupos diferenciados de mulheres e
que essas diferenças as hierarquizam, pois há uma intersecção entre gênero, etnia,
orientação sexual, religião, faixa etária, classe social, etc. Uma doutora, branca,
magra, jovem, heterossexual, rica e urbanizada ocupa outra posição social do que
uma idosa, analfabeta, pobre, etc. Unificá-las na expressão “mulher brasileira”
apenas esconde as diferenças, sem aludir às desigualdades que dali derivam.
Quando nos referimos aos afrodescendentes os unificamos numa identidade
única que esconde a diversidade de etnias e culturas que convivem no território
brasileiro a partir da chegada deles.
Estudos indicam que os afrodescendentes que vivem no Brasil são
originários de mais de cinquenta povos africanos com culturas e tradições das mais
variadas. O mesmo procedimento se toma quando se unifica mais de cento e
44
ESTRATÉGIA EMPRESARIAL
PÓS-GRADUAÇÃO
ANTROPOLOGIA E RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS
cinquenta povos indígenas num só vocábulo – índios - que esconde a diversidade
cultural ali presente.
Outro recurso da dominação pela cultura é o estabelecimento do sujeito
padrão, aquele que não precisa de atributos para lhe caracterizar. Se eu afirmar que
um homem virá nos visitar, sem acrescentar nenhum atributo, pressupõe-se que ele
seja: “não afrodescendente”, “não idoso”, “não portador de necessidades especiais”,
“não mendigo”, etc. Quando solicito que meus alunos citem algum grupo étnico,
nunca citam os brasileiros brancos, sempre citam grupos que “estão fora do padrão”.
Estudos como os de Piza (2000, citado por BENTO, 2002, p. 49) e de
Tatum (2003, p. 93-95), realizados em contextos diferentes, são
esclarecedores quando mostram que pessoas brancas não
costumam sentir-se pertencentes a um grupo étnico-racial, ou dão
pouca atenção para sua identidade racial, uma vez que ser e viver
como brancos é a norma aceita pela sociedade. Segundo Piza (2000,
apud Bento 2002, p. 49), “aspectos da atitude branca – neutra, não
reconhecível, negada, expurgada do seu potencial político –
envolvem séculos de pensamentos e atos racistas”. E no entender de
Bento (2002, p. 48), não poderia ser diferente, pois “pessoas criadas
numa sociedade racializada têm uma visão de mundo marcada por
essa racialidade” (SILVA. 2007, p. 492).
A governamentalidade da cultura no Brasil sempre ocultou a multiplicidade
cultural do povo brasileiro, dificultando uma integração que permitisse o
“empoderamento” daqueles que não são o padrão. Roberto Da Matta (1984), em
seu livro - “O que faz o brasil, Brasil?” – demonstrou fartamente que a sociedade
brasileira guarda ares de democracia racial, acredita no mito da existência de uma
democracia racial, enquanto construiu e manteve estratégias de “empoderamento”
que excluía do exercício do poder os afrodescendentes e diga-se também os
indígenas.
A sociedade brasileira guarda ares de democracia racial enquanto aquilo
que HALL chamou de o governo pela cultura consegue manter uma convivência
tolerante mas que assegure o lugar privilegiado aos que sempre foram privilegiados,
os euro-descendente. Qualquer ação que sinalize com uma democratização dos
espaços de poder, ou seja, com uma igualdade de fato, gera reação imediata dos
que sempre tiveram o controle da sociedade, os euro-descendentes.
Portanto, o discurso da democracia racial deve ser entendido como um
artefato na construção das estratégias de poder daqueles que não queriam uma
45
ESTRATÉGIA EMPRESARIAL
PÓS-GRADUAÇÃO
ANTROPOLOGIA E RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS
igualdade de fato. Esse discurso, ora serviu para amenizar a discriminação racial,
ora para estabilizá-la garantindo espaço privilegiado (o universitário, por exemplo)
para o grupo dominante.
A sociedade brasileira sempre foi multicultural, desde os 1500, data
que se convencionou indicar como de início da organização social e
política em que vivemos. Esteve sempre formada por grupos étnico-
raciais distintos, com cultura, língua e organização social peculiares,
como é o caso dos povos indígenas que por aqui viviam quando da
chegada dos portugueses e de outros povos vindos da Europa.
Também os escravizados, trazidos compulsoriamente para cá,
provinham de diferentes nações e culturas africanas conhecidas por
pensamentos, tecnologias, conhecimentos, inclusive acadêmicos,
valiosos para toda a humanidade. No entanto, esta diversidade não
foi e hoje o é, com muita dificuldade, aceita. Fala-se e pensa-se
como se a realidade fosse meramente uma construção intelectual;
como se as desigualdades e discriminações, malgrado as denúncias
e reivindicações de ações e movimentos sociais não passassem de
mera insatisfação de descontentes. (SILVA. 2007, p. 493).
Pensar as relações de poder que perpassam as organizações e a sociedade
em geral é, antes de tudo estar atento as formas de práticas discursivas que atuam
na sociedade. A Antropologia, que estuda os efeitos da ação discursiva na e sobre a
cultura, busca perceber onde esses discursos servem a estratégias de poder que
acabam delimitando o lugar do outro, ou seja, esses discursos produzem um lugar
de sujeito para o outro, em determinada sociedade.
O poder não é pensado como algo que se estabelece de forma
exclusivamente unilateral pelo polo dominante sobre o polo dominado, mas como
sendo relacional, aquilo que se exerce na relação entre os polos, de forma dinâmica
e complexa (MAYER, 1996, p 43).
Pois, as identidades são construídas dentro dos discursos, portanto em
lugares históricos e institucionais que atuam em práticas e formações discursivas,
que faz surgir novas situações estratégicas no interior do jogo de modalidades
específicas de poder. A identidade é relacional e constitui-se a partir da marcação
simbólica doque é diferente. Diferença e identidade precisam ser ativamente
produzidas e esta produção se dá através da forma como os indivíduos e os grupos
sociais são representados nas práticas discursivas (BERGER, 2004, p.20).
De outra forma as representações produzem uma “normalização” na
sociedade. Cito um exemplo para simplificar. Estamos acostumados que duas
46
ESTRATÉGIA EMPRESARIAL
PÓS-GRADUAÇÃO
ANTROPOLOGIA E RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS
pessoas enamoradas formem um casal, logo aplicamos a mesma expressão para
uma dupla de homossexuais que estão enamorados. Nossa sociedade é o que
chamamos de “heteronormalizada”, nela o normal é a relação sexual heterossexual.
A heterossexualidade pressupõe a relação de um indivíduo masculino (que
represente os traços característicos da virilidade e força) com um indivíduo feminino
(que represente um modelo de feminilidade, que pressuporia, por exemplo “gestos
leves”). Atualmente, mesmo o movimento conhecido como Queer ou Teoria Queer,
questiona o fato de os próprios homossexuais, quando enamorados, assumirem
características distintivas de masculino e feminino.
Sem aprofundar a questão da homossexualidade ou heterossexualidade,
vale lembrar que essa normalidade é construída, porque a partir dela pode se
identificar o desviante, aquele que está fora da normalidade, ou seja, fora da via
socialmente aprovada.
Essas práticas discursivas estão amplamente presentes na escola que, em
nossa sociedade, é um lugar privilegiado de endoenculturação (ou socialização) dos
indivíduos que passam a se reconhecer a partir das representações que, entre outro,
a escola lhe fornece.
A escola delimita espaços. Servindo-se de símbolos e códigos, ela
afirma o que cada um pode (ou não pode) fazer, ela separa e institui.
Informa o “lugar” dos pequenos e dos grandes, dos meninos e das
meninas. Através dos seus quadros, crucifixos, santas ou esculturas,
aponta aqueles/as que deverão ser modelos e permite, também, que
os sujeitos se reconheçam (ou não) nesses modelos [...] Currículos,
normas, procedimentos de ensino, teorias, linguagem, materiais
didáticos, processo de avaliação são, seguramente, loci das
diferenças de gênero, sexualidade, etnia, classe — são constituídos
por essas distinções e, ao mesmo tempo, seus produtores. Todas
essas dimensões precisam, pois, ser colocadas em questão. É
indispensável questionar não apenas o que ensinamos, mas o modo
como ensinamos e que sentidos nossos/as alunos/as dão ao que
aprendem. Atrevidamente é preciso, também, problematizar as
teorias que orientam nosso trabalho (incluindo, aqui, até mesmo
aquelas teorias “consideradas críticas”). Temos de estar atentas/os,
sobretudo, para nossa linguagem, procurando perceber o sexismo, o
racismo e o etnocentrismo que ela frequentemente carrega e institui.
(LOURO. 1997, p. 58 e 64).
SILVA (2007, p. 493) chama a atenção para a forma que a escola brasileira
atuou na formação da identidade de índios e afrodescendentes no Brasil. Tal
47
ESTRATÉGIA EMPRESARIAL
PÓS-GRADUAÇÃO
ANTROPOLOGIA E RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS
atuação reforçava a representação negativa dos já marginalizados. Ela ilustra
apresentando um texto didático divulgado na escola primária nos anos de 1920.
O trecho citado do livro História Resumida do Brasil; programa
completo do primário (1927) ensinava palavras e atitudes
preconceituosas que, em diferentes formas e conotações, ainda se
manifestam em nossa sociedade. Sobre os primeiros habitantes do
Brasil, assim discorre o mencionado livro: “O Brasil, antes de ser
descoberto não tinha cultura de espécie alguma; não havia vilas nem
cidades; estava pelo contrário todo coberto de matos e era habitado
por numerosas tribos de Índios selvagens” (p. 7, grifo do livro).
Como já vimos e como veremos a seguir, a escola brasileira não participou
de nenhuma sociedade que tivesse como característica a “democracia racial”. Com
certeza podemos estender isso a toda a sociedade brasileira e a todas e cada uma
de suas instituições, das forças armadas às igrejas cristãs, das organizações
governamentais às empresas privadas. Isso por mais de 400 anos de história, senão
até os dias atuais.
Observem que não estou falando de um grupo que detêm o poder ou que,
pela via econômica, impões o poder sobre os demais, estou falando de um poder
que perpassa as instituições, perpassa os ambientes de trabalho e permeia o
convívio familiar. Um poder que é forte, porque é difuso, descontínuo, que se apoia
em múltiplos pontos e inclusive conta com o consentimento de quem sofre com suas
consequências. É o caso das mulheres a que nos referimos acima, se a dominação
feminina foi possível, o foi por dispor do apoio das mulheres que educaram seus
filhos e filhas dentro de um discurso colonizador da própria mulher.
Se por um lado, não estabelecemos um lugar de produção do poder,
também não se estabelece um lugar de ausência do poder. Por exemplo, os
escravizados no Brasil em muitas situações se utilizaram de diferentes estratégias
para sentirem-se sujeitos da sua própria história. A fuga, a falta de afinco no
trabalho, a dança, a sedução, a capoeira e tantos outros elementos foram utilizados
para demarcar a presença deles, enquanto sujeitos da história.
Numa leitura discriminatória dos afrodescendentes e dos índios os coloca
apenas como vítimas inertes no processo de dominação europeia. Um discurso
falsamente piedoso os empurra para a passividade e os coloca como vítimas
infelizes que apenas sofreram silenciosamente, por serem desprovidos de
48
ESTRATÉGIA EMPRESARIAL
PÓS-GRADUAÇÃO
ANTROPOLOGIA E RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS
capacidade de reação. Todo o sistema de segurança montado tanto no Brasil
Colônia, como no Brasil Império, as diversas formas de concessão feita pelos
escravocratas prova que também os escravizados tinham suas estratégias de poder.
Outra forma de se perceber suas estratégias é constatando que através de múltiplos
elementos (entre eles o samba, a feijoada, a religiosidade) introduziram seus
conhecimentos, crenças e tradições na cultura brasileira.
O ocultamento da diversidade no Brasil vem reproduzindo, tem
cultivado, entre índios, negros, empobrecidos, o sentimento de não
pertencer à sociedade. Visão distorcida das relações étnico-raciais
vem fomentando a ideia, de que vivemos harmoniosamente
integrados, numa sociedade que não vê as diferenças. Considera-se
democrático ignorar o outro na sua diferença. O ocultamento da
diversidade produz a imagem do brasileiro cordial, que trata a todos
com igualdade, ignorando deliberadamente as suas nítidas e
contundentes diferenças (SILVA. 2007, p. 498).
Foi exatamente o fato de se saber que o escravizado era capaz, de se ter
noção de que ele poderia requerer o poder, que fez com que se precisasse montar
toda uma maquinaria que lhes fizesse aceitar sua condição de inferioridade.
Condição essa que perpassa a história do Brasil, pois diversos dos mecanismos de
dominação cultural se mantiveram até poucas décadas e, parte deles, até hoje.
No Rio Grande do Sul as primeiras escolas públicas que se criaram,
destinaram-se a crianças guaranis, que ao matricular-se perdiam
seus nomes próprios e passavam a ser chamadas por um nome
português. Esperava-se que esquecessem sua cultura, a ponto de
adotar o cristianismo e de rejeitar hábitos costumes, arquitetura de
seus povos, passando a preferir o jeito português, dito “mais
civilizado” [...].
Na experiência brasileira, além do que se passou com os indígenas,
deve-se ter presente a situação dos africanos escravizados, de seus
filhos e descendentes. A eles foi negada a possibilidade de aprender
a ler, ou se lhes permitia, era com o intuito de incutir-lhes
representações negativas de si próprios e convencê-los de que
deveriam ocupar lugares subalternos na sociedade. Ser negro era
visto comoenorme desvantagem, utilizava-se a educação para
despertar e incentivar o desejo de ser branco. Além de cor da pele,
destaca Santos (2000), tratava-se também de lugar a ocupar na
sociedade, de poder (SILVA. 2007, p. 495).
A ideia de uma civilização superior, tão cara aos europeus, esconde que ela,
a civilização europeia, assim como “o cidadão norte americano” - descrito por
49
ESTRATÉGIA EMPRESARIAL
PÓS-GRADUAÇÃO
ANTROPOLOGIA E RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS
LINTON, compreende uma infinidade de heranças de outras culturas, que inclui
elementos das próprias culturas que estigmatiza como inferior.
O conceito de civilização, que se consolida no século XVIII, foi criado
pelos europeus para referir-se a suas culturas, ou melhor, à cultura,
avaliada por eles próprios como superior, a única civilizada.
Conforme ensina Taylor (2000, p. 151), o termo passa a ser usado
no plural, quando admitiu-se que outros povos também construíam
conhecimentos consistentes; mas o plural era e é indicativo de
inferioridade em relação à civilização no singular (SILVA. 2007, p.
495s).
As representações constituem-se no mundo social e nele recriam identidade
e diferença, estas não têm, portanto, uma preexistência ou um momento fundador
que lhes garanta a valia, a estabilidade ou instabilidade. Como tal, são sempre
móveis e transitórias, necessitando um constante e meticuloso trabalho de
rearticulação ou de reformulação. Os diferentes grupos que se defrontam no mundo
social recorrem ao passado, garimpando nele práticas discursivas e outros
elementos simbólicos que possam servir de artefatos para seus empreendimentos
em políticas de identidade (BERGER. 2004, p.21).
Quero dizer que em uma sociedade como a nossa, mas no fundo em
qualquer sociedade, existem relações de poder múltiplas que
atravessam, caracterizam e constituem o corpo social e que estas
relações de poder não podem se dissociar, se estabelecer nem
funcionar sem uma produção, uma acumulação, uma circulação e um
funcionamento do discurso (FOUCAULT, 2004, p. 179).
3.1 ALTERIDADE
O que foi exposto até aqui demonstrou que as questões étnicas ou de gênero
(poderíamos arrolar outras, como a sexual, a de classe, a etária) são criações
discursivas que constituem nosso corpo social e que se estabeleceram no processo
histórico de múltiplas formas. Entendendo-se dessa forma, se abandona atitudes
condenatórias deste ou daquele grupo e passa-se a perceber que essa construção
histórica precisa ser revisadas.
Cientes de que um amplo lastro de discursos produz as identidades e
através delas criam desigualdades, podemos pensar qual o desafio que está
colocado para os indivíduos e sociedade na atualidade. Abaixo elenco alguns
50
ESTRATÉGIA EMPRESARIAL
PÓS-GRADUAÇÃO
ANTROPOLOGIA E RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS
desafios que penso estarem colocados para as organizações frente às questões
culturais atuais.
I – Saber-se herdeira de uma tradição milenar que agregou uma infinidade de
elementos culturais que possibilitaram tanto o desenvolvimento técnico utilizado ou
produzido pela organização, como as próprias formas da dessa se organizar e de se
relacionar com a sociedade que a envolve.
II – Entender-se num mundo globalizado onde diariamente circula um conhecimento
fantasticamente amplo, que estabelece uma dinamicidade nas formas de produzir,
sentir e pensar o mundo.
III – Perceber que o conhecimento é oriundo de diferentes fontes e que se constrói
no mundo do trabalho, seja ele intelectual ou manual. Que o conhecimento por ser
obra de distintos indivíduos e culturas deve estar acessível e beneficiar, se possível,
a toda humanidade.
IV – Reconhecer que, no trabalho, o humano não apenas desenvolve uma atividade,
mas se constrói enquanto ser capaz de agir-pensar-agir, numa dialética interminável
que transforma os objetos e transforma o próprio ser humano. Portanto, o trabalho é
local de humanização, desenvolvimento da humanidade do homem.
V – Inserir em sua pauta de ações uma política que permita que todos os envolvidos
percebam que as relações humanas são pautadas também por questões culturais
(que envolve produção material, religião, língua, orientação sexual, entre outras) e
que essas, de forma sutil ou evidente, interferem nas escolhas, nos interesses e na
motivação de cada um.
VI – Respeitar a diversidade cultural a partir da perspectiva que todos são diferentes
e que as diferenças não justificam as desigualdades.
VI – Permitir que o diferente mantenha-se diferente trazendo para a organização o
que lhe é peculiar e que pode agregar novos valores, procedimentos e percepções.
É o caso das mulheres que podem contribuir com uma perspectiva diferente da
perspectiva masculina tradicional.
VII – Preocupar-se com o empoderamento dos grupos que por questões culturais
tiveram dificultados seus acessos aos espaços mais elevados da organização, ou da
sociedade em geral. Cito o exemplo de empresas onde uma das preocupações é
com o empoderamento das mulheres que nelas trabalham. Tal preocupação faz
51
ESTRATÉGIA EMPRESARIAL
PÓS-GRADUAÇÃO
ANTROPOLOGIA E RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS
sentido uma vez que as mulheres por questões de gravidez, ou outras, têm
encontrado mais dificuldade para ascensão no mundo do trabalho.
VIII – Envolver em sua política de responsabilidade social ações de proteção e
desenvolvimento dos grupos socialmente discriminados. Cito o exemplo de
empresas que na contratação de mulheres dão preferência às mulheres que são
vítimas de violência.
IX – Apoiar programas focados na defesa da pluralidade cultural, que propiciem a
difusão da cultura em sua diversidade mais ampla possível.
X – Atuar de forma a não discriminar nenhum grupo humano, mesmo aquele que
não converge com a filosofia da organização, cada grupo deve ser respeitado como
“o outro”, que tem o direito de ser outro. Intencionalmente, não falo de tolerância,
mas de respeito, porque na atitude respeitosa coloco o outro como co-sujeito, na
tolerância somente eu sou o sujeito.
Síntese da Unidade III
A produção das identidades e das diferenças se dá permeada pelas relações
de poder.
A colonização dos índios e dos afrodescendentes foi no sentido de levá-los a
assumir uma identidade que consentisse com a desigualdade.
As relações culturais no Brasil não podem ser pensadas sob o binômio
“vítimas x opressores”, mas a partir de uma infinidade de elementos culturais
que a partir das diferenças criam desigualdades.
Diversos aparatos foram utilizados no Brasil para inibir a participação de
afrodescendentes e indígenas na vida política do país.
Assim como Afrodescendentes e índios, no Brasil, as mulheres, na história da
humanidade, conviveram com uma dominação masculina que acima de tudo
estava estruturada na cultura.
As organizações que atuam no Brasil têm, por um lado, a diversidade como
fator a ser explorado para seu enriquecimento cultural, por outro, o desafio de
contribuir para que a diversidade não seja fator de discriminação, de
desigualdade.
52
ESTRATÉGIA EMPRESARIAL
PÓS-GRADUAÇÃO
ANTROPOLOGIA E RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS
REFERÊNCIAS
ARANHA, M. L. Filosofando: introdução à Filosofia. São Paulo: Moderna, 2003.
BERGER, Carlos Norberto, Os manuais de história e a produção do discurso
sobre as mulheres na Idade Média. (Dissertação) Ijuí, RS: UNIJUÍ, 2004.
CANCLINI, Nestor Garcia. Culturas híbridas: estratégias para entrar e sair da
modernidade. 3ª edição. São Paulo: Ed. USP, 2000.
CHARTIER, Roger. O mundo como representação. In: Estudos Avançados. 11 (5),
1991. p 178.
CHAUÍ, M. Convite à filosofia. São Paulo: Ática, 1998.
COLLING, ANA MARIA. A invenção do corpo feminino pelos gregos e a
violência contra a mulher. La Plata, FAHCE-UNLP, 25 al 27 de septiembre de
2013. Disponível em http://jornadascinig.fahce.unlp.edu.ar/iii-2013- acesso em
12/07/2014.
DA MATTA, Roberto. O que faz o brasil, Brasil? Rio de Janeiro: Rocco, 1984.
DIAS, Reinaldo. Cultura organizacional. São Paulo: Ed. Alínea, 2003.
FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. 20 ed. Organização e tradução de
Roberto Machado. Rio de Janeiro: Edição Graal, 2004.
FREITAS, Maria Éster. Cultura organizacional: identidade, sedução e carisma?
Rio de Janeiro: FGV, 2000.
FRY, Peter. A Persistência da Raça: ensaios antropológicos sobre o Brasil e a
África Austral. RJ: Civilização Brasileira, 2005.
GEERTZ. Clifford. Nova luz sobre a antropologia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar
Editor, 2001.
GIDDEENS, Anthony. Mundo em descontrole: o que a globalização está fazendo
de nós. Rio de Janeiro: Record, 2000.
HALL, Stuart. A centralidade da cultura: notas sobre as revoluções culturais do
nosso tempo. Educação & Realidade, Porto Alegre, v. 22, nº 2, p. 15-46, jul./dez.
1997.
__________. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A,
2006.
KUPER, Adam. Cultura: a visão dos antropólogos. São Paulo: EDUSC, 2000.
http://jornadascinig.fahce.unlp.edu.ar/iii-2013%20-%20acesso%20em%2012/07/2014
http://jornadascinig.fahce.unlp.edu.ar/iii-2013%20-%20acesso%20em%2012/07/2014
53
ESTRATÉGIA EMPRESARIAL
PÓS-GRADUAÇÃO
ANTROPOLOGIA E RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS
LARAIA, Roque de Barros. Cultura, um conceito antropológico. 24ª edição. Rio
de Janeiro: Zahar, 2009.
LOURO, Guacira L. Gênero, Sexualidade e educação numa perspectiva pós-
estruturalista. 7ª edição. Petrópolis: Vozes, 1997.
MARX, Karl. O capital. Volume 01, Parte III. Disponível em
https://www.marxists.org/portugues/marx/1867/ocapital-v1/vol1cap07.htm. – acesso
em 12/07/2014.
MEYER, Dagmar Estermann. Do poder ao gênero: uma articulação teórico-
analítica. In: LOPES, Maria Julia Marques et al (orgs). Gênero e saúde. . Porto
Alegre: Artes Médicas, 1996. p. 43.
MURARO, Rose Marie. A mulher no terceiro milênio. 8ª ed. Rio de Janeiro: Rosa
dos Tempos, 2002. p. 198.
MORIN, Edgar. Cultura e Barbárie Europeias. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil,
2009.
__________. Os sete saberes necessários à educação do futuro. 2ª edição. –
São Paulo: Cortez; Brasília, DF: UNESCO, 2000.
OLIVEIRA, Nara. Foz do Iguaçu intercultural: cotidiano e narrativas da
alteridade. Foz do Iguaçu, PR: Epígrafe, 2012.
ORTIZ, Renato. Cultura brasileira e identidade nacional. São Paulo: Brasiliense,
2006.
SHAKESPEARE, William. Hamlet, São Paulo: Martin Claret, 2002,
SILVA Kalina Vanderlei e SILVA Maciel Henrique. Dicionário de Conceitos
Históricos Contexto – São Paulo; 2006. Disponível em:
http://www.igtf.rs.gov.br/wp-content/uploads/2012/03/conceito_CULTURA.pdf.
Acesso em 12/07/2014.
SILVA, Petronília Beatriz Gonçalves e. Aprender, ensinar e relações étnico-
raciais no Brasil. Educação Porto Alegre/RS, ano XXX, n. 3 (63), p. 489-506,
set./dez. 2007. Disponível em:
http://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/faced/article/viewFile/2745/2092. –
acesso em 12/07/2014.
SILVA, Tomaz. T. (org.). Identidade e diferença: a perspectiva dos estudos
culturais. 3ª edição. Petrópolis. RJ: Vozes, 2000.
SOUZA, Nali de Jesus. Uma introdução à história do pensamento econômico.
s.d Disponível em http://www.nalijsouza.web.br.com/introd_hpe.pdf, acesso em
20/06/2014.
https://www.marxists.org/portugues/marx/1867/ocapital-v1/vol1cap07.htm
http://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/faced/article/viewFile/2745/2092
http://www.nalijsouza.web.br.com/introd_hpe.pdf