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ANTROPOLOGIA AFRICANA, MITO OU REALIDADE

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ANTROPOLOGIA AFRICANA: MITO OU REALIDADE? 
K,1be11ge/e M 1111a,1ga 
(Museu de Arqueologia e Etnologia , Universidade de São Paulo) 
Ot1eremos apenas retraçar aqui as linhas gerais do dcsenvolvin1cnto 
da Antropologia Africana, a fin1 de definir sua situação atual e questionar 
seu destino. 
Con1 efeito, a história das relações entre nações euro-americanas e 
povos africa11os, nos últimos quatro séct1los, n1ostra de maneira evidente 
que a imparcialidade, a eqüidade, a honesti(iade e a justiça nunca esti, 1eran1 
presentes nos intercân1bios econômicos, sociais e culturais. No can1po 
intelectual, a análise das circunstâncias l1istóricas que acompanl1aran1 o 
desenvolvimento das teorias e métodos t1tilizados pelos especialistas da 
África revelot1 as relações íntimas e s11b-rcptícias que sempre existiran1 
entre a conquista colonial e os prodt1tores do coni1ecin1cnto sobrt; a 
África. Por isso, várias críticas foram e são atualmente dirigidas ~ontra 
a Antropologia tradicional. Estas críticas vieram, cm prin1eiro lugar , elos 
intelectuãis africanos e, em segundo lt1gar, dos pr<.1prios intelectt1ais curo-
. " -americanos contemporaneos. 
A crítica autenticamente africa11a à Antropologia tradicional aparece 
cront1Iogicamcnte desde 1937 no livro de Jomo ·Kc11yatta Fa ci11g l\1(>11,zt 
Kenya '. Neste traball10 antropológico sobre a África, cscrit() por t1n1 
africano, o autor tenta uma apresentação con1pleta da sc)cicdadc kikuyu 
Revista de Antropologia, (26), 1983. 
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f \~ t '~: , , \._'rLl:tdl'Ír ,1n1etllt.' anlit"l)ll)nialista ,1i1a1\.'~\. n1 n:t \nt1\ pl)l,)gi--1 
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l ! n t a .. ( ) r e l a l i , i ~ ll l l , a n 1 , ri e a n t) • \... l H l "i t l L· r .. 11 h.l ) a ~ s t 1 l' i · l : h.i • " l 1 u r 1 t. l n ..1 ~ , ", n l t) 
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tJrigi11aL Ulll:l \.'l)11t1~~u1a,~~\l), tlUL' n1nis l~lrllL ' s 'r~l L'h"llll lll~1 ~·1,~rs" n:\li~la l 
l1:t~ica'' t l ,1rdin"-\r), lll's n11 cnl1\,11 ~'nlr~ f t)J() \, l t)5l) ) I''ll""-'l lil l) ,rca-\\.)l 
t l ~ l s s ) · i ~.-d : t 1 ", ~ '"t) l 11 i l l L t 1 s 1, ~ 1 s ~ u ~J ~ r L. i 11, i d i L'. • H,~ L-) ç s h.' , \.' u ~ "i i r 'i t ~' ~ ~ 1 
·tu{ l~tfL(cr1uina,:~tl) ;. 
N t ) t n t a n t t), t) r L 1 t i v i ~ n 1 t) : 1 n 1 , ri l'\ 1 n t) n ~h-' 's ç\ \ J) l Yll ' l e ' r t ~ 1 ~ \. · r l t 1 e a s . 
l :te tl~,, histt,ric,1n 1 ·nt"' sua fut1 ·.'t) ilt 'l,\ll~tL·a. l'n1l)\'fa ~1 · 'itl1t1"l, ~t1~1 J)r )-. ~ 
t , ' ~: j t > 1 \ t ) l 1 a , , ~ t t l l ) , t) ~ ; \ [ ri \ t n ) s , ~ l n 1 t 1 ' l L \ u n 1 \ \ i l l · \ ) l l) t ! i 1 s u t i l l} L h.. {' • l r t i L" i l" ~ \ 
l la ti Í V Í ~. l 1 l h) S } '-) \ t) S ê.l f ri\.' a ll l) s t l ) n H.) n 1 ~ .. t\ l l) ~' rl1 l) t h.' l ~ [ '~ C l1 f l' ~' !1t~1111 
Antropologia uf rica na 153 
a questão vital d,1 f c)rn1açâo da consciê11cia e da t1nit1atlc nacionais. A 
idéia exagerada da espccificitia(lc d<.)S p<1V()S af rica.11(1S, transf(lrr11ati<.)S una-
nimc1ncntc cm trib()S pcll)S ct11tt1ralistas, in1pctlc ,t captação tias linl1as 
gerais de sc111cll1a11ças <.1t1r p0Jeria1n n1ilitar e.n1 fu11ção eia uniclallc 11a-
cil)nal e mcsn1l1 ela t111idaclc ct>11tincntal 8. 
As contestaç'õcs <.1cilic11tais n1ais significat i\'as à Ant r<.1p(>logia tradi-
cional, ist() é, às teses c<)11titias Il<.) ilun1inis1110, 11a A11trtlpt)lllgia vito-
riana e 11a A11tr(1pl)lt)gia clássica, c(-1i11ciJcr11 Ct)n1 os n1(lvin1L'11tos de 
descolonizaçüo na tl)talitiatle dt) Tcrl:cirt> Mu11tlo, 111ovi111~ntos cst~s de-
flagrados principaln1e11tc depois da. Scgt111d~1 Gut·rra Mt111dial. A lógica l1isté)-
rica explica e st1stenta essa n1uJa11ç,1. E111 pri1ncircl ll1gar, essa antropc>ll)gia 
nasceu e cresceu dentro dos paraLlig111as fu11da111e11tais da illcologia Cl)l(>nial 
e, por st1a vez, esta (1 lti111a tlt ilizou a. antrt)poh.>gia co111<.) ( .,(>rp11s Cie111 íf ic·() 
para legitin1ar e. orga11izar sua ação. Mudando o cs<.1t1c111a Ctllt)nial, isto é, 
descoloniza11tio verdadeira ou f,1lsan1e11te ( 11~t)-colcl11iza11tit1 Clll e11tiLlCOlt)-
nizancio), a Antrc.lpol()gia, co1110 disciplina vi11culada à iJ~<)lc)gia c<)lo-
nial devia, nccessari~111c11tc, se reatiaptar. Esta rcadaf)taçüo ac<.)n1panhl)U e 
acon1panha todos os 111can<lros, 111eta111<.)rft)ses e travcstiJL)S <.ll) coltH1ia-
lismt) e do in1pcrialis1110 c>cidcntal.

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