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Crítica à disciplina escolar - por uma pedagogia da autonomia

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CRÍTICA À DISCIPLINA ESCOLAR: POR UMA 
PEDAGOGIA DA AUTONOMIA*
Por Antônio Marques**
O professor que desrespeita a curiosidade do educando, o seu gosto estético, a sua inquietude, a sua linguagem, (...), que se furta de estar respeitosamente presente à experiência formação formadora do educando, transgride os princípios fundamentalmente éticos de nossa existência (...). Saber que devo respeito à autonomia e à dignidade do educando exige de mim uma prática em tudo coerente com este saber.
(Paulo FREIRE)
A Concepção Comum de Disciplina no Cotidiano da Sala de Aula
Inicialmente, é conveniente esclarecer que, no âmbito da prática educacional escolar, é muito comum falar-se em “disciplina”, referindo-se a um determinado “comportamento bom” que o aluno deve externar com relação às normas e regulamentos estabelecidos pelo estabelecimento de ensino. Significa um procedimento de conduta discente que assegure o “bom funcionamento” da ordem institucional e a “tranqüilidade” do trabalho pedagógico em sala de aula. O importante é que o aluno pense e aja de acordo com aquilo que lhe é determinado, evitando os possíveis “problemas” que seriam criados por um espírito questionador. Desse modo, o aluno disciplinado é o aluno submisso e obediente, que não questiona, que não contesta as normas e os valores que lhe são impostos. Tal concepção contribui, portanto, com a manutenção de uma organização social autoritária e excludente. 
Como diria FOUCAULT (1994:126), a escola, por meio da disciplina, realiza uma sujeição constante do aluno, produzindo um tipo de “sujeito útil e dócil” ao sistema capitalista. Na perspectiva foucaultiana, é esse o papel da disciplina, um modo específico de poder individualizante que encontrou nas instituições educacionais um de seus pontos fundamentais de ancoragem, como lembra (ÁLVAREZ-URÍA, 1996). É nesse sentido que a questão da disciplina na escola é tratada nesta pesquisa. Esta, porém, delimita-se ao âmbito específico da prática pedagógica do professor, pretendendo identificar e analisar o controle disciplinar que se efetiva, concretamente, na relação do professor com seus alunos no cotidiano da sala de aula. 
A disciplina em sala de aula foi e continua sendo objeto de muitas preocupações para os professores. Com ela se perde muito tempo em detrimento da interação do aluno com o conhecimento e com a realidade (VASCONCELLOS, 1992). Isso parece estar relacionado a certo “senso comum pedagógico”, que concebe a disciplina como obediência e subordinação do aluno aos ditames do professor; que trata a disciplina como um fenômeno restrito ao espaço da escola e da sala de aula, sempre propondo a utilização de “medidas” autoritárias para punir qualquer comportamento que ameace o equilíbrio da “ordem”. 
Comumente, os professores preconizam a disciplina como indispensável na formação de sujeitos autônomos e críticos, que saibam usufruir seus direitos e exercer seus deveres, sendo responsáveis e comprometidos com o processo de transformação social. Contudo, a prática de disciplina adotada por esses professores, no interior da sala de aula, inviabiliza tal formação, uma vez que se destinam a produzir sujeitos obedientes e submissos. Os alunos não poderão construir sua autonomia, se tal disciplina impede-os de desenvolverem, de modo crítico, a livre expressão, a criatividade e a construção do conhecimento. Portanto, em sua concepção comum, a disciplina escolar comporta em si um caráter ambíguo. Procuro tecer considerações críticas a essa concepção de disciplina, discutindo seu papel no processo de (de)formação do sujeito (aluno), enquanto proponho aos professores uma pedagogia da autonomia, a fim de que a sala de aula possa ser um espaço significativo para a formação de sujeitos, mulheres e homens sensíveis à causa da dignidade da vida e da liberdade, comprometendo-se com a construção de uma mundo, onde a utopia da genuína felicidade não seja algo distante e inatingível, mas algo que se vá realizando no cotidiano das relações humanas e sociais. 
A Concepção Foucaultiana de Disciplina
Michel FOUCAULT (1979; 1994) compreendeu e identificou como disciplina a manifestação do poder que emerge das sociedades modernas. Seus estudos nesse campo são bastante valiosos para uma compreensão critica da disciplina na escola e na sala de aula, hoje. Na perspectiva foucaultiana, a disciplina é entendida “como uma forma de dominação e de exercício de poder nos espaços sociais menores, cuja organização não é garantida, no seu cotidiano, pelas leis maiores” (FOUCAULT apud KHOURI, 1989:41). É, portanto, nesses espaços sociais menores – por exemplo, a sala de aula –, que a disciplina exerce um controle minucioso e rigoroso do corpo e da alma dos indivíduos, impondo-lhes “uma relação de docilidade-utilidade” (FOUCAULT, 1994:126). Por isso, a disciplina é uma arte de adestrar os corpos humanos, torná-los obedientes, tendo em vista satisfazer determinadas exigências da organização social capitalista.
Conforme FOUCAULT, a vigilância e o controle contínuo exercidos sobre os corpos são uma técnica ou procedimento disciplinar comum que se consolida em todas as instituições sociais modernas, a partir do final do século XVIII e início do século XIX. Essa tecnologia de poder sobre o corpo dos indivíduos se efetiva na distribuição dos indivíduos num determinado espaço arquitetônico, cuja disposição física (corredores, degraus, compartimentos, púlpitos, vidraças, etc.), faz com que tais indivíduos sejam identificados, classificados, individualizados, controlados. Esse dispositivo disciplinar, enquanto possibilita a vigilância permanente dos indivíduos (poder), constitui, ao mesmo tempo, sobre eles um saber. Como diz FOUCAULT, (apud Aquino, 1997:103), tal saber “se ordena em torno da norma, em termos do que é normal ou não, correto ou não, do que se deve fazer ou não fazer”. As instituições disciplinares são, portanto, responsáveis, de acordo com FOUCAULT (1994:130), “por todo um corpo de saber, de descrições, de receitas e de dados”, fazendo aparecer o homem moderno, como produto do poder e do saber. 
Como toda instituição disciplinar, a escola, de acordo com a concepção foucaultiana, é um espaço onde se produz o saber-poder, com base nas técnicas políticas disciplinares, que asseguram o adestramento dos corpos dos indivíduos. Aliás, no entender de AQUINO (1997), a escola, em comparação com outras instituições sociais, concluindo inadvertidamente, teria um caráter mais austero, mais poroso à contenção e ao controle dos indivíduos que se encontram sob sua jurisdição.
Por Uma Pedagogia da Autonomia
Pretendo aqui suscitar algumas reflexões que nos levem ao questionamento das práticas disciplinadoras no cotidiano da sala de aula; e, enquanto isso, acenem para a proposta de um saber docente que propicie a autonomia do sujeito. Ou seja — parafraseando Paulo FREIRE (1997:65-67) —, um saber docente que, respeitando a autonomia do ser do educando, se contraponha a uma “pedagogia do adestramento” e constitua uma “pedagogia da autonomia”.
Numa dimensão filosófica, o sujeito é o homem enquanto existente, enquanto ser-no-mundo. E, por isso mesmo, é limitado, finito, circunscrito a um determinado tempo e espaço. Mas, existe nele algo que o impulsiona à superação de suas limitações: a sua consciência, a sua capacidade de pensar, de refletir, de perguntar. Ou seja, o homem é um ser capaz de projetar-se além de sua finitude. É um ser transcendente.
 Assim, entre todos os seres do mundo, é o único que é capaz de saber que existe, de saber que é diferente deles, mais que eles: é sujeito.
De tudo isso, resulta que o homem é um ser inconcluso, inacabado, porém, consciente disso, conforme lembra FREIRE (1976). E essa consciência o faz lançar-se no mundo como um projeto, isto é, como um ser sempre desafiado a promover-se, a buscar constantemente a sua realização humana. E a educação – escolar e não-escolar – é um dos meios que ele utiliza para esse fim.
Na sala de aula, o professor tem o importante papel de “levar” o aluno – como indica

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