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A-reportagem

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TEORIA E TÉCNICA 
DE REPORTAGEM, 
ENTREVISTA 
E PESQUISA JORNALÍSTICA 
 
 
 
Nilson Lage 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 1
NOTA DO AUTOR 
 
 
Este livro resulta de cursos que ministrei em disciplinas de técnicas de 
Jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina, entre 1992 e 1999. Foi 
produzido com tempo disponibilizado para pesquisa acadêmica (dez horas semanais) no 
segundo semestre de 1999 e primeiro de 2000. 
Destina-se aos cursos de graduação em Jornalismo mas pode ser lido 
(gostaria que fosse) também por colegas em atividade: eles reconhecerão, aqui e ali, sua 
própria experiência e talvez se surpreendam ao saber que muita teoria recente tem-se 
preocupado com o assunto. 
No momento em que a reportagem se transforma – ou amplia – com a 
entrada em cena dos computadores, da Internet e dos bancos de dados, creio que é 
conveniente uma reflexão sobre nossa atividade. Ela não se faz aqui (até porque os fatos 
tecnológicos avançam depressa demais para o tempo de produção e a durabilidade 
previsível de um livro), mas espero dar elementos para que se efetive. 
Cumpre-me agradecer aos jornalistas Hélio Schuch, Francisco Karam, 
Marcelo Soares e Lara Lima, que me forneceram material de suas pesquisas e 
indicações bibliográficas; Eduardo Meditsch e Luiz Alberto Scotto de Almeida, que 
leram os originais, fizeram correções e sugeriram mudanças. Também ao distante 
companheiro Fran Casal, da Espanha, em cujo sítio na Internet encontrei documentos de 
grande utilidade. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 2
 
 
SUMÁRIO 
 
 
 
 
Ser 
repórter.................................................................................................................................
........ 
Pautas & 
Pautas................................................................................................................................ 
Fontes & 
Fontes............................................................................................................................... 
Entrevistador & 
Entrevistado......................................................................................................... 
Repórteres & 
Ética........................................................................................................................... 
Reportagem 
especializada................................................................................................................ 
Repórteres & 
Pesquisa..................................................................................................................... 
Reportagem assistida por 
computador.......................................................................................... 
Apêndice – A formação universitária dos 
jornalistas.................................................................. 
Bibliografia..........................................................................................................................
............... 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 3
 
 
 
 
 
 
 
 
 
SER REPÓRTER 
 
 
 
 
 
Se perguntarmos às pessoas em geral que figura humana é a mais 
característica do jornalismo, a maioria responderá, sem dúvida: o repórter. Se 
interrogarmos um jornalista sobre quem é mais importante na redação, ele - excetuado o 
caso de algum projetista gráfico ou editor egocêntricos - dirá que é o repórter. No 
entanto, a reportagem como atividade não existiu ou era irrelevante em 200 dos quase 
400 anos da história da imprensa. 
Quando o jornalismo surgiu, no início do Século XVII, o paradigma do 
texto informativo era o discurso retórico, empregado desde tempos remotos para a 
exaltação do Estado ou da fé. As línguas nacionais européias vinham surgindo, cada 
qual com seus grandes autores literários (Camões em Portugal; Cervantes e Quevedo na 
Espanha; Sheakespeare e Milton na Inglaterra; Racine e Molière na França) - e este era 
o padrão que se buscava imitar. 
 
1. O publicismo 
 
Os primeiros jornais circularam, a partir de 1609, em centros de comércio, 
ligados à burguesia, e os primeiros jornalistas incumbiam-se de difundir as idéias 
burguesas. Algumas décadas mais tarde, os aristocratas também promoveram a edição 
de jornais que, de sua parte, divulgavam temas caros à aristocracia, dedicando muito 
espaço, por exemplo, aos casamentos, viagens de príncipes e festas da corte. 
Fazer jornal era atividade barata: bastavam uma prensa, tipos móveis, papel 
e tinta. As tiragens possíveis - centenas, talvez poucos milhares de exemplares - 
correspondiam a um público leitor restrito de funcionários públicos, comerciantes e seus 
auxiliares imediatos. 
Foi nesse contexto que a profissão fixou a sua imagem mais antiga e 
renitente: a do publicismo. 
 4
Por muitas décadas, o jornalista foi essencialmente um publicista, de quem 
se esperavam orientações e interpretação política. Os jornais publicavam, então, fatos de 
interesse comercial e político, como chegadas e partidas de navios, tempestades, atos de 
pirataria, de guerras ou revolução; mas isso era visto como atração secundária, já que o 
que importava mesmo era o artigo de fundo, geralmente editorial, isto é, escrito pelo 
editor - homem que fazia o jornal praticamente sozinho. 
A pretensão de orientar e interpretar está sem dúvida ligada ao estilo, que 
era parecido com o dos discursos e proclamações. A narrativa surgia às vezes - tanto de 
acontecimentos reais quanto de eventos fictícios ou alegóricos - e os registros menores 
lembram o tom seco dos enunciados informativos conhecidos na época (anais, atas, 
relatórios, as relações de episódios listados em ordem cronológica que tinham o nome 
de crônicas), mas a linguagem dominante ficava entre a fala parlamentar, a análise 
erudita e o sermão religioso. 
Muitas grandes figuras da revolução de Cromwell, na Inglaterra do Século 
XVII, ou da Revolução Francesa, no Século XVIII, eram publicistas. O conceito 
publicístico do jornalismo perdura até hoje. É nesse sentido que Lenine, que escrevia 
artigos na Iskra e na Pravda ditando diretrizes para a Revolução Russa de 1917, foi um 
grande jornalista. 
No Brasil, exemplo moderno de publicista é Carlos Lacerda, jornalista 
experiente que montou seu próprio jornal, a Tribuna da Imprensa e, na década de 1950, 
galgou, a partir dele, posições políticas importantes, chegando a governador da 
Guanabara, o antigo Distrito Federal que depois se juntaria ao Estado do Rio de Janeiro. 
A Tribuna teve alguns bons repórteres, mas a grande maioria de seus leitores comprava 
o jornal para ler o artigo de Lacerda; eram os lacerdistas. 
As pessoas que detêm algum poder ou se estabelecem em áreas de 
influência social costumam sustentar visão publicística do jornalismo. É por causa dessa 
concepção que políticos, economistas e dirigentes sindicais lutam para impor aos órgãos 
que controlam o palavrório empolado de seus discursos; e os intelectuais em geral, 
incapazes de distinguir informação de propaganda, imaginam que os jornalistas têm 
poder absurdo sobre o público, que eles chamam de massa, quando lhes é hostil, e povo, 
quando lhes é simpático. 
Muitas dessas pessoas costumam avaliar o jornalismo por um critério 
singular: independente da qualidade da informação, ele é bom quando os fatos relatados 
apontam para interpretação favorável a suas idéias e mau quando ocorre o contrário. 
Assim, para a média dos intelectuais progressistas, o jornalismo foi ótimo no Vietnã, 
quando houve condições de mostrar a guerra de perto, com cenas vivas de sua tragédia 
humana, e péssimo na cobertura das intervenções americanas subseqüentes (na Líbia, no 
Iraque, na Somália, na Iugoslávia ...), em que essas condições foram suprimidas. 
 
2. Sensacionalismo e educação 
 
O século XIX europeu