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Atlantida no Reino da Luz - Roger Bottini Paranhos

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cansado em minha direção. Com o olhar fixo, 
ele voltou a questionar-me: 
— E se as coisas não acontecerem como você espera? E se 
tiver que abrir mão de seus objetivos e interesses? E se o nosso 
mundo “descer” para a dimensão primeva e formos conquista- 
dos por povos bárbaros ou, então, se tiver que abrir mão das 
coisas que deseja para si, qual será sua reação? 
Aquelas foram novamente perguntas inesperadas, colocan- 
do-me em xeque. Eu esperava ser interrogado sobre questões 
técnicas, e não sofrer aquela estranha abordagem psicológica. 
Depois de um momento de hesitação, respondi, com estranho 
brilho no olhar: 
— Tudo acontecerá conforme planejo. Não permitirei que 
seja diferente. E, se formos conquistados por povos bárbaros, 
lutarei até o fim de minhas forças para não sucumbirmos nas 
mãos do inimigo. Darei meu sangue para vencer os adversários, 
se isso for necessário. 
Ártemis, então, olhou para seu pai, que lhe disse, com se- 
veridade: 
— Espírito guerreiro! Não pode tornar-se mestre do Vril. 
Sessão encerrada. 
Aquela dura observação me causou indignação, fazendo- 
me perder o controle: 
— Como você pode me julgar assim, sem conhecer-me? 
Essa entrevista foi muito rápida para ser conclusiva, e eu já sou 
um mestre do Vril, não preciso de seu título! 
Ele se virou para mim e falou, com um tom que misturava 
serenidade e compaixão, capaz de gelar minha alma: 
— Conheço-o, meu jovem, melhor do que você mesmo. E 
é por isso que temo pelo poder que você adquiriu tão rapida- 
mente. Você é instável, desconhece o vulcão que se esconde nas 
entranhas de sua alma. Receio que essa força sedutora que pos- 
sui lhe traga muitos dissabores no futuro. O Vril é um podero- 
so e sedutor elemento, que pode tornar-nos anjos de Deus ou 
arrastar-nos para o caminho sombrio. Eu não sinto equilíbrio 
em tua alma. Deus queira que eu esteja enganado, mas você é 
um capelino. Você não deveria possuir esse poder, no estágio de 
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evolução em que se encontra. No entanto, essa é a vontade do 
Espírito Criador, que te legou esse destino. Quem somos nós 
para julgar os desígnios de Deus? E uma péssima época para 
um instável filho da "raça adâmica” deter o poder absoluto so- 
bre o Vril. Estamos ingressando em um tempo de conflitos, e 
não sabemos seu desfecho. Sim, sinais negros do mal flutuam 
na linha do horizonte! 
O grande sábio refletiu, então, por mais alguns instantes e, 
por fim, sentenciou, taciturno, porém em tom profético: 
— Espero que não chegue o dia em que você irá amaldiçoar 
essa energia poderosa que hoje o fascina. Sim, ela o fascina! Eu 
vejo isso, apesar de você disfarçar esse sentimento. 
Eu, então, perturbei-me e falei, com evidente irritação: 
— Suas observações são injustas. Eu me conheço muito 
bem. Eu tenho o controle sobre mim. 
0 misterioso ancião, que parecia tudo saber, voltou a per- 
guntar, em tom conciliador, procurando acalmar-me: 
— Então, diga-me por que você acorda algumas noites, as- 
sustado, sem saber o motivo? Seria por causa de pesadelos cujo 
significado não compreende? 
O silêncio reinou na sala do Conselho. Como ele poderia 
saber aquilo? Será que Ártemis havia lhes informado sobre 
meus dramas interiores ou estava lendo pensamentos, por al- 
gum método hipnótico? Não esbocei resposta nenhuma. Meu 
olhar dizia tudo. 
— E por que você passa horas com o olhar perdido, como 
se estivesse fora do mundo? Existem traumas em seu incons- 
ciente que você desconhece e que poderão aflorar no futuro, 
de forma incontrolável, colocando-o, facilmente, sob o domínio 
sorrateiro das trevas. Você é um capelino e, como tal, traz uma 
bagagem espiritual perigosa, que precisa ser controlada a todo 
instante. 
Aquelas observações graves e diretas me desequilibraram; 
o sangue me subiu à cabeça. Dei um passo em direção ao meu 
inquiridor e falei, com o dedo em riste e com olhar transtornado: 
— Você se diz um grande sábio, mas se comporta como 
um... 
Ártemis se surpreendeu com aquela atitude exagerada e 
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destemperada de minha parte, então, colocou rapidamente a 
mão em meu ombro, freando meus impulsos e me disse, ao pé 
do ouvido, com uma severidade que não lhe era comum: 
— Basta, Andrey! Ele tem razão. Está ficando evidente seu 
descontrole. 
— Minha mãe! — repliquei em tom choroso. Estou sendo 
agredido e desrespeitado. 
Ela acariciou meus cabelos e falou, com serenidade: 
— Meu filho, a função do Conselho é colocar-te à prova. 
Eles não estão aqui para agradar-te. Compreende? 
Eu concordei, com um gesto decepcionado. Respirei profun- 
damente, por alguns segundos, até serenar meu estado de espíri- 
to, e, em um tom conciliador, dirigi-me novamente ao Conselho: 
— Desculpem por minha imaturidade! Nunca quis o título 
de mestre do Vril, apenas gostaria de estagiar no mundo primi- 
tivo. Acredito que será importante para meu amadurecimento 
e talvez lá possa descobrir e vencer o que se esconde no incons- 
ciente de minha alma e que tanto preocupa este sábio Conselho. 
Os conselheiros, então, ergueram-se e disseram, a uma só voz: 
— Ficamos felizes por tua lucidez. Pedido concedido! 
Eu agradeci com um gesto sereno e me despedi de Árte- 
mis, cabisbaixo, com a desculpa de que eu precisava meditar em 
uma das salas de oração, nos pavimentos inferiores. 
Entretanto, antes de sair, uma das anciãs ergueu-se diante 
de mim e disse: 
— Meu jovem, só mais um minuto, por gentileza. 
Eu me voltei para a mesa do Conselho e aguardei suas pa- 
lavras. Ela, então, falou, com muito carinho: 
— Meu filho, o que tanto aflige teu coração? 
Eu abaixei a cabeça e lhe respondi, com sinceridade, sem 
hesitar: 
— Sou feliz, tenho tudo o que um homem poderia sonhar. 
Possuo riqueza, beleza, sucesso em minha vocação sagrada, 
amo minha mulher, e ela retribui esse amor na mesma inten- 
sidade; entretanto, não consigo ter paz de espírito. Em alguns 
momentos, não me sinto digno e em condições espirituais de 
viver neste mundo perfeito. 
A nobre senhora fez um sinal afirmativo com a cabeça e 
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voltou a perguntar-me, com um sorriso gentil: 
— E o que te impede de ter paz de espírito e sentir-se digno 
de viver neste mundo que você julga perfeito? 
— Acredito que seja porque eu não consigo harmonizar-me 
com essa perfeição. Sinto-me como um peixe fora d’água. Sinto 
um incompreensível desconforto. 
— E o que te impede de se harmonizar com a perfeição? 
Meditei, por alguns segundos, sobre a nova pergunta, que 
parecia querer penetrar nos porões de meu inconsciente, e res- 
pondi: 
— Quero a Luz, mas minha alma, às vezes, obscurece-se 
com sentimentos que não consigo entender. Parece que preciso 
travar uma luta diária contra um sentimento incoerente com 
a realidade em que vivo. Tenho a Luz ao meu redor, mas meu 
coração, constantemente, sente-se obscurecido pela sombra. 
Ela fez uma expressão como de quem compreendia minha 
questão e voltou a questionar-me, com olhar profundo, muito 
penetrante: 
— Entendo. E por que você crê que não é digno de viver na 
Luz? Por que acredita que a ação do lado obscuro, necessaria- 
mente, precisa dominar-te? Qual a tua crença sobre isso? O que 
você pensa acerca de si mesmo, para crer nisso? 
Eu abaixei os olhos, levemente, para meu lado esquerdo, 
como se estivesse realizando um diálogo interno com minha 
própria consciência, e respondi: 
— Não sei! Só sei que preciso encontrar essa resposta, antes 
que seja tarde demais. Entendo que é apenas uma crença distor- 
cida de minha realidade, mas não consigo me desvencilhar dela. 
Não tenho por que me condenar. Isso não faz sentido nenhum. 
Contudo, às vezes, surpreendo-me me punindo por erros de um 
passado distante, que prejudicam as ações do presente e os pla- 
nos para o futuro. Sim, talvez vocês

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