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Aula 1 politicas publicas de saude

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AULA 1 
POLÍTICAS PÚBLICAS DE SAÚDE 
Profª Tânia Maria Santos Pires 
 
 
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CONVERSA INICIAL 
Para falar de políticas públicas de saúde, é de fundamental importância que 
estudemos a origem do cuidado, as motivações para que ele aconteça e como a 
responsabilidade do cuidado se estabeleceu de forma oficial, tornando-se uma 
tarefa do estado, até que se expressasse na forma como conhecemos e 
denominamos hoje de políticas públicas de saúde. 
Vivemos, atualmente, uma onda de questionamentos a esse respeito em 
razão das recentes ondas migratórias, sobretudo de pessoas empobrecidas pelas 
guerras ou catástrofes, que buscam desesperadamente por outros locais onde 
possam viver com um pouco mais de segurança. As sociedades mais 
desenvolvidas no contexto social se manifestam de diversas maneiras, ora 
acolhendo, ora rejeitando os refugiados. No meio desta ambivalência de 
sentimentos, repete-se a pergunta que vem sendo feita desde os primórdios das 
organização da sociedade: De quem é a tarefa de cuidar? 
Essa reflexão nos levará a uma melhor compreensão das prioridades 
estabelecidas pelos governos e também como podemos contribuir para um 
cuidado melhor executado e mais justo. 
CONTEXTUALIZANDO 
A triste história de Antônia 
Salvador, Bahia, Brasil, colônia de Portugal, ano de nosso Senhor Jesus 
Cristo de 1750. Antônia dos Santos era uma jovem de 18 anos, solteira e pobre. 
Órfã desde os 5 anos de idade, perdeu o pai por doença e a mãe morreu em um 
dos partos. Na ocasião, fora viver com alguns parentes que a entregaram para 
uma família de posses, para que trabalhasse como serviçal em troca de 
alimentação e abrigo. Lembra-se de que tinha irmãos, mas estes foram 
igualmente espalhados e não tem notícias deles, exceto de um deles, Pedro, mais 
velho 7 anos que ela e que de vez em quando ia visitá-la na casa da senhora. 
Nesse momento, Antônia está feliz e apaixonada pelo seu namorado 
secreto, João Sousa, de 22 anos. Ambos trabalham como serviçais em uma das 
casas de famílias nobres de Salvador, ela como cozinheira e ele como cavalariço. 
O namoro era secreto pelo fato de trabalharem no mesmo local, mas queriam se 
casar, embora até o momento não tivessem dinheiro para isso. 
 
 
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João ouviu falar que os marinheiros estavam ganhando muito dinheiro nas 
viagens entre Brasil e Portugal. Era sua intenção embarcar como marinheiro, 
ganhar dinheiro e voltar para casar-se com sua namorada. Assim pensando, 
embarcou em um dos galeões que singravam os mares transportando riquezas 
da colônia para o reino, sem saber que deixava Antônia grávida e desamparada 
à sua sorte e, principalmente, sem saber que nunca mais a veria. 
Depois de um mês da partida de João, Antônia começou a ter sintomas 
suspeitos de gravidez, angústia que piorou quando notou que suas regras não 
vieram nos outros dois meses. Procurou uma mulher conhecida e experiente em 
partos e teve a confirmação de que estava grávida. A sensação de pânico e 
desespero se apoderou dela. Como faria agora, sozinha, para lidar com essa 
situação? As viagens ao reino costumavam demorar muito. Provavelmente, 
quando João retornasse, seu ventre já estaria crescido e todos saberiam de sua 
desdita de ser mãe solteira. Entendeu que estava sozinha e desonrada. 
Resolveu inventar uma história, uma viagem ao interior, dizendo que ia 
atender um de seus irmãos ainda vivos que estava doente e abrigou-se em uma 
casa pobre de uma das vilas próximas, onde viveu miseravelmente até o 
nascimento de seu filho. 
Antônia sabia que não poderia ficar ali, teria que voltar a trabalhar, mas não 
seria aceita em nenhuma casa de Salvador levando um pequeno bastardo. O que 
poderia fazer? Jamais abandonaria seu pequenino à morte. Foi quando lembrou-
se da Santa Casa e da roda dos enjeitados. Assim que seu bebê completou 40 
dias de vida, Antônia saiu de madrugada, ainda escuro, com o seu pacotinho 
aconchegado ao peito e se dirigiu ao convento, onde silenciosamente depositou 
seu bebê no cilindro conhecido como a roda dos enjeitados. Em seguida, tocou o 
sino e escondeu-se atrás da coluna de uma igreja próxima, de onde, entre 
lágrimas silenciosas, veria a roda girar e se despediria de seu filho, para nunca 
mais encontrá-lo. 
Nunca mais encontrou-se novamente com João também. O sonho de um 
casamento feliz acabou no fundo do mar, onde o corpo de João foi jogado depois 
que contraiu uma febre, que deixou sua pele e olhos amarelos, causando grande 
dor em todo o corpo, hemorragias na boca e pele, vindo a morrer durante a 
viagem. 
 
 
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Restava, agora, para Antônia, tentar retomar seu antigo trabalho, onde pelo 
menos teria pão e abrigo ou, quem sabe, alugar-se como ama de leite para alguma 
família de posse. 
Considerando que na Europa já havia uma estrutura incipiente de cuidados 
aos desamparados, o que faltava ao Brasil colônia e à coroa portuguesa naquele 
momento para dar suporte à Antônia e ao seu anônimo filhinho em momento tão 
difícil, trazendo a todos um desfecho humanitário e correto? 
TEMA 1 – O CUIDADO COM OS MAIS FRÁGEIS E VULNERÁVEIS 
Para a subsistência do mais rudimentar grupamento social, há necessidade 
de implementação de ações positivas no interesse comum. Essas ações precisam 
ser organizadas em forma de projetos, amparadas por legislação, que venham ao 
encontro das necessidades daquela comunidade, promovendo seu cuidado e 
desenvolvimento. A esse conjunto de planos e ações voltadas ao interesse 
público, chamamos de políticas públicas. 
De forma mais estruturada por definição, políticas públicas “podem ser 
definidas como conjuntos de disposições, medidas e procedimentos que traduzem 
a orientação política do Estado e regulam as atividades governamentais 
relacionadas às tarefas de interesse público” (Lucchese, 2002, p. 3). São 
consideradas “como de responsabilidade do Estado – quanto à implementação e 
manutenção a partir de um processo de tomada de decisões que envolvem órgãos 
públicos e diferentes organismos e agentes da sociedade relacionados à política 
implementada” (Höfling, 2001). 
As políticas públicas de saúde fazem parte do campo de ação do Estado, 
o qual tem a responsabilidade de planejar, implementar e executar ações de 
saúde, nos seus diversos níveis de gestão, para a melhoria das condições de 
saúde da população. “Consiste em organizar as funções públicas governamentais 
para a promoção, proteção e recuperação da saúde dos indivíduos e da 
coletividade” (Lucchese, 2002, p. 3). 
Os temas e conteúdos das políticas públicas costumam variar de acordo 
com as características de um povo e sua cultura, porém há temas inquestionáveis 
por serem necessidades básicas de todos os povos. As temáticas da saúde e do 
amparo social são exemplos claros de temas irrefutáveis nas agendas de gestão 
pública atualmente, no entanto, a compreensão de que as necessidades de saúde 
e cuidado são direitos humanos acima de outros interesses e que a preservação 
 
 
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da vida é de interesse público tanto quanto também o é na esfera individual 
demorou um pouco para se consolidar ao longo da estruturação das sociedades 
até nossos dias. 
No contexto do cuidado, diversos setores apresentam-se ligados por 
interfaces e ações comuns, com objetivos confluentes. Essa confluência de 
interesses observa-se facilmente nas interfaces dos setores de saúde, educação, 
infraestrutura, ação social, moradia, emprego e renda. Não é por acaso que as 
populações com melhor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) são as que 
apresentam melhores indicadores em saúde, como também os piores indicadores 
estão entre as que tem o pior IDH. Essa relação entre desenvolvimento econômico 
e qualidade de vida e saúde está na base da elaboração dos estudos dos 
determinantes sociais de saúde. 
A definição de Determinantes Sociais de Saúde (DSS), de acordo com a 
comissão nacional que estudou o tema, são os fatores sociais, econômicos, 
culturais,