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Criminal, Penal 2019

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Ademais, tal entendimento de isonomia normativa já era sólida no Egrégio Supremo Tribunal Federal, o que inclusive culminou na edição da Súmula 560, que assim reza:
“A extinção da punibilidade pelo pagamento do tributo devido estende-se ao crime de contrabando ou descaminho, por força do art. 18, § 2º, do Dec.-Lei nº. 157/67.”
		Desta sorte, podemos dizer que o crime de descaminho é intrinsecamente tributário, ou seja, tutela o direito do Estado em cobrar impostos e contribuições, onde, por esta trilha, em face do pagamento dos tributos incidentes, a ação penal deve ser extinta. 
 							
3 - “DESCAMINHO DE BAGATELA”
EXTINÇÃO DA PUNIBILIDADE 
 LEI Nº 10.522/2002 – EXTENSÃO POR ANALOGIA
 		Consta da denúncia que, revistado o veículo do Acusado, deu-se a apreensão da mercadoria (diversos componentes eletrônicos), a qual desacompanhada da documentação fiscal pertinente, esta avaliada em R$ 9.345,00(nove mil, trezentos e quarenta e cinco reais), conforme Laudo Merceológico que demora às fls. 26/28. 
		O fato em espécie, não constitui infração penal, em face do valor inexpressivo da mercadoria em liça – diga-se, de propriedade dos Co-Réus --, devendo ser aplicado o “princípio da insignificância”, porquanto o valor da mercadoria, tocante ao valor do tributo devido, perfaz um montante inferior àquele que a própria União se desinteressa para cobrança por meio de execução fiscal. 
		Vejamos a Lei Federal que assegura esta diretriz:
LEI Nº 11.033, DE 21 DE DEZEMBRO DE 2004.
( . . . )
Art. 20 - Serão arquivados, sem baixa na distribuição, mediante requerimento do Procurador da Fazenda Nacional, os autos das execuções fiscais de débitos inscritos como Dívida Ativa da União pela Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional ou por ela cobrados, de valor consolidado igual ou inferior a R$ 10.000,00 (dez mil reais).
		Desta maneira, mesmo que por absurdo verdade fosse o que é atribuído ao Réu na denúncia, ainda assim não haveria lesividade na pretensa conduta do delito de descaminho, visto que tributo devido(sonegado), em face dos valores das mercadorias apreendidas, é inferior àquele previsto para os fins de execução fiscal(Lei nº. 11.033/04, art. 20). 
 				Consoante o magistério de Cezar Roberto Bittencourt, evidenciando considerações acerca do princípio da insignificância, verificamos que:
`A tipicidade penal exige uma ofensa de alguma gravidade aos bens jurídicos protegidos, pois nem sempre qualquer ofensa a esses bens ou interesses é suficiente para configurar o injusto típico`. (BITENCOURT, Cezar Roberto. Tratado de Direito Penal. 16ª Ed. São Paulo: Saraiva, 2011, vol. 1, p. 51)
		A Corte Maior já tem entendimento consolidado neste sentido:
PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA. IDENTIFICAÇÃO DOS VETORES CUJA PRESENÇA LEGITIMA O RECONHECIMENTO DESSE POSTULADO DE POLÍTICA CRIMINAL. CONSEQÜE NTE DESCARACTERIZAÇÃO DA TIPICIDADE PENAL EM SEU ASPECTO MATERIAL. DELITO DE DESCAMINHO CP, ART. 334, " CAPUT ", SEGUNDA PARTE). TRIBUTOS ADUANEIROS SUPOSTA MENTE DEVIDOS NO VALOR DE R$1.568,67. DOUTRINA. CONSIDERAÇÕES EM TORNO DA JURISPRUDÊNCIA DO STF. PEDIDO DEFERIDO. O PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA QUALIFICA-SE COMO FATOR DE DESCARACTERIZAÇÃO MATERIAL DA TIPICIDADE PENAL. 
O princípio da insignificância. Que deve ser analisado em conexão com os postulados da fragmentariedade e da intervenção mínima do estado em matéria penal - Tem o sentido de excluir ou de afastar a própria tipicidade penal, examinada na perspectiva de seu caráter material. Doutrina. Tal postulado. Que considera necessária, na aferição do relevo material da tipicidade penal, a presença de certos vetores, tais como (a) a mínima ofensividade da conduta do agente, (b) a nenhuma periculosidade social da ação, (c) o reduzidíssimo grau de reprovabilidade do comportamento e (d) a inexpressividade da lesão jurídica provocada - Apoiou-se, em seu processo de formulação teórica, no reconhecimento de que o caráter subsidiário do sistema penal reclama e impõe, em função dos próprios objetivos por ele visados, a intervenção mínima do poder público. O postulado da insignificância e a função do direito penal: " de minimis, non curat praetor ". - O sistema jurídico há de considerar a relevantíssima circunstância de que a privação da liberdade e a restrição de direitos do indivíduo somente se justificam quando estritamente necessárias à própria proteção das pessoas, da sociedade e de outros bens jurídicos que lhes sejam essenciais, notadamente naqueles casos em que os valores penalmente tutelados se exponham a dano, efetivo ou potencial, impregnado de significativa lesividade. Aplicabilidade do princípio da insignificância ao delito de descaminho. - O direito penal não se deve ocupar de condutas que produzam resultado, cujo desvalor - Por não importar em lesão significativa a bens jurídicos relevantes - Não represente, por isso mesmo, prejuízo importante, seja ao titular do bem jurídico tutelado, seja à integridade da própria ordem social. Aplicabilidade do postulado da insignificância ao delito de descaminho (CP, art. 334), considerado, para tanto, o inexpressivo valor do tributo sobre comércio exterior supostamente não recolhido. Precedentes. (STF - HC 96.827; RS; Segunda Turma; Rel. Min. Celso de Mello; Julg. 10/03/2009; DJE 01/02/2013; Pág. 156)
HABEAS CORPUS. TIPICIDADE. INSIGNIFICÂNCIA PENAL DA CONDUTA. DESCAMINHO. VALOR DAS MERCADORIAS. VALOR DO TRIBUTO. LEI Nº 10.522/2002. IRRELEVÂNCIA PENAL. ORDEM CONCEDIDA. 
1. O princípio da insignificância é tratado como vetor interpretativo do tipo incriminador, tendo por objetivo excluir da abrangência do direito criminal condutas provocadoras de ínfima lesão ao bem jurídico tutelado. Tal forma de interpretação segue pari passu com as medidas legislativas de uma sadia política criminal que visa, para além de uma desnecessária carcerização, ao arejamento de uma justiça penal que deve se ocupar apenas das infrações tão lesivas a bens jurídicos dessa ou daquela pessoa individual quanto aos interesses gerais do corpo social. 
2. No caso, a relevância penal é de ser investigada a partir das coordenadas traçadas pela Lei nº 10.522/2002 (Lei objeto de conversão da Medida Provisória nº 2.176-79). Lei que, ao dispor sobre o " cadastro informativo dos créditos não quitados de órgãos e entidades federais ", estabeleceu os procedimentos a ser adotados pela procuradoria-geral da Fazenda Nacional, em matéria de débitos fiscais. 
3. Não há sentido lógico em permitir que alguém seja processado, criminalmente, pela falta de recolhimento de um tributo que nem sequer se tem a certeza de que será cobrado no âmbito administrativo-tributário. 
4. Ordem concedida para restabelecer a sentença absolutória. (STF - HC 100.692; GO; Segunda Turma; Rel. Min. Ayres Britto; Julg. 01/02/2011; DJE 27/02/2012; Pág. 35)
		A propósito, o Egrégio Superior Tribunal de Justiça decidiu que:
AGRAVO REGIMENTAL NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. PENAL. CRIME DE DESCAMINHO. DÉBITO TRIBUTÁRIO INFERIOR A R$ 10.000,00. NÃO INCIDÊNCIA DO PIS E COFINS NO CÁLCULO DOS TRIBUTOS ELIDIDOS. APLICAÇÃO DO PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA. ART. 20 DA LEI N. 10.522/2002. 
1. Consoante julgados do Superior Tribunal de Justiça e do Supremo Tribunal Federal, aplicável, na prática de descaminho ou de contrabando, o princípio da insignificância quando o valor do tributo suprimido é inferior a R$ 10.000,00 (dez mil reais). 
2. As contribuições instituídas pela Lei n. 10.865/2004, nos termos do seu art. 2º, inciso III, não incidem sobre bens estrangeiros que tenham sido objeto de perdimento, motivo pelo qual "o montante do valor devido do crédito tributário, referente às mercadorias estrangeiras apreendidas, deve ser calculada sem a incidência do PIS e do COFINS" (RESP nº 1220448/SP, Relator Ministro Celso Limongi, Desembargador convocado do TJ/SP, DJe de 18/04/2011). 
3. A consonância do acórdão recorrido com o