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Boa-fé objetiva no Processo Civil

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crises. O 
fato social entra no sistema jurídico, e cuida de produzir efeitos no processo 
– instrumento precípuo de resolução de crises -, no sistema jurídico e no 
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sistema social, ligando-se, assim, à sociedade. O intercâmbio, como se 
observa, é constante e inegável. 
 
Tendo em vista, os novos direitos que foram promovidos com a Constituição 
Federal, o processo civil como instrumento do Estado para consecução dos seus 
objetivos, deve ser atualizado para acompanhar este desenvolvimento. 
Vale lembrar, que o atual Código de Processo Civil de 1973 ainda está 
ligado aos valores do antigo código Beviláqua de 1916, que teve como influencia o 
Código Napoleônico de 1803 de concepção liberalista, onde tudo deveria ser 
resolvido através da pecúnia, não buscando a efetiva garantia dos direitos da 
pessoa. 
Neste sentido, explica Leide Maria Gonçalves Santos (2008, p. 273): 
A concepção advinda do Estado liberal, traduzida na visão do processo 
como um jogo ou um duelo irrefreado entre as partes, onde o juiz atuava 
como mero árbitro, deixou como reminiscências a higidez das garantias 
constitucionais processuais traduzindo uma concepção individualista e 
refratária a uma normatização que impusesse comportamentos de 
probidade para os contendores. Sob esse panorama, o art. 14, inciso II do 
CPC foi concebido numa perspectiva estritamente subjetivista. Na expressa 
menção de Buzaid, a boa-fé nos meandros do direito processual significava 
agir conforme o direito, de acordo com a lei. Esse dispositivo do CPC não 
foi concebido para veicular a boa-fé objetiva, mas, sim, a boa-fé subjetiva – 
a boa-fé que se contrapõe à má-fé. Entretanto, o Processo Civil, sob uma 
perspectiva constitucional, com as suas raízes estruturadas no Texto 
constitucional, permite transmudar essa aplicação subjetivista da boa-fé, 
que estava afinada com aquele momento histórico-cultural, para dar-lhe 
uma conotação objetivista a reger os comportamentos dos participantes do 
Processo. 
 
Dessa forma, é necessário que as partes encarem o processo como 
instrumento ético e axiológico de consecução de objetivos constitucionais, não se 
valendo do processo como instrumento de vingança e de procrastinação da tutela 
jurídica. De tal maneira, que “as condutas impróprias, desleais, antiéticas e 
contraproducentes devem ser coibidas e neutralizadas pelo magistrado com 
fundamento na boa-fé objetiva, a qual também está vinculado.” (NASCIMENTO, 
2011, p. 2). 
Leide Maria Gonçalves Santos (2008, p. 143) afirma que ainda que haja 
preocupação com a efetividade do processo não pode esquecer-se do dever de 
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lealdade de todos os seus participantes, pois só é possível atingir os escopos 
processuais se houver consonância entre lealdade e efetividade. Haja vista que 
todos os trâmites processuais são delineados pela lealdade processual e pela boa-fé 
objetiva as quais, devidamente observadas, conduzem, inequivocamente, à 
efetividade da prestação da tutela jurisdicional. 
Ainda, Leide Maria Gonçalves Santos (2008, p. 144) sobre os fundamentos 
éticos do processo cita que: 
A concepção do processo justo e équo, que permeia grande parte dos 
ordenamentos jurídicos modernos, cuja matriz é desenhada nos textos 
constitucionais, e sob a qual as normas infraconstitucionais precisam se 
amoldar, encontra-se refletida nos fundamentos éticos do processo. “Da 
mesma maneira que a cláusula do devido processo legal transformou no 
tempo a garantia de legalidade procedimental (ou garantia da justiça formal) 
na mais ampla garantia de justiça substancial”, os textos constitucionais, ao 
conferirem aos valores éticos plena legitimação e relevância jurídica, 
propiciam o constante ajustamento das formas de tutela jurídica e da 
estrutura publicista do processo com os valores imperantes na sociedade ao 
longo do tempo e, via de consequência, a sua aceitabilidade. 
 
Portanto, a busca por um processo justo demanda um permanente trabalho 
de todos os operadores do direito, para que consigam atrelar o direito processual 
aos anseios da sociedade e aos direitos materiais que surgem. (SANTOS, 2008, p. 
190). 
Desta forma, a reformulação processual na busca pela efetividade da 
prestação da tutela jurisdicional deve ser imposta com a criação de normas que 
estabeleçam uma conduta irrepreensível, pautada na boa-fé objetiva, para todos os 
sujeitos que participam do processo. De modo, que as partes processuais devem 
agir com lealdade e cooperação não somente com a contraparte, mas com o próprio 
órgão jurisdicional, assim possibilitando uma relação jurídica processual justa e 
équa. (SANTOS, 2008, p. 146). 
Para efetivar os princípios constitucionais no campo processual, no objetivo 
de obter um processo justo e équo faz-se necessária a ampliação dos poderes do 
juiz, para que ele possa evitar as condutas abusivas e contrárias à boa-fé. 
 
2.3 - Atuação do Juiz 
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Com a valorização da dignidade da pessoa humana, houve uma 
publicização do Direito Processual, rompendo com a ideia de que o processo era um 
mero campo de batalha onde as partes lutavam apenas por seus próprios 
interesses. A publicização do Direito fez com que os escopos sociais se juntassem 
aos interesses das partes na relação processual, impondo a todos agirem conforme 
padrões de condutas definidos pela lealdade, probidade e pela boa-fé. A orientação 
publicista do processo, que visa o bem comum, dá poderes ao Juiz, para que, com 
base na boa-fé objetiva, combata todas as manobras que intentem abusos de 
direito. (SANTOS, 2008, p. 181). 
 
2.3.1 - Ampliação dos Poderes do Juiz 
Em decorrência de todos os tipos de conflitos complexos que surgem na 
Jurisdição, é necessário que o Estado possa intervir nas relações processuais, 
ampliando os poderes dos Juízes, para buscar as decisões mais justas e équas. “O 
juiz indiferente, impotente perante a vontade das partes, é inconcebível ante os 
novos anseios da sociedade.” (VINCENZI, 2003, p. 54). 
Brunela Vincenzi (2003, p. 56) defende que os poderes exercidos pelo Juiz 
na função jurisdicional devem ser ampliados, sejam os poderes instrutórios, os 
poderes gerais de direção do processo, de julgamento das pretensões das partes e 
de imposição dos efeitos desse julgamento. Por outro lado, também é necessário 
definir os limites de sua atuação, para que seja respeitado o princípio constitucional 
do devido processo legal, garantindo as partes um processo justo e équo, objetivo 
da sociedade solidária. 
Para que a tutela jurisdicional prestada pelo Estado harmonize-se ao direito 
material, objeto da ação, é necessário analisar os casos concretos trazidos para a 
Jurisdição, para tanto, deve ser permitido ao Juiz dialogar com as partes, flexibilizar 
o procedimento em algumas hipóteses, adiantando provimentos, deliberando sobre 
provas, de modo que sua decisão tenha eficácia e verdadeira efetividade no mundo 
dos fatos, e não só no mundo do processo. (VINCENZI, 2003, p. 58). 
Sobre a ampliação dos poderes do Juiz, conclui Brunela Vincenzi (2003, p. 
58-59): 
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Não basta a simples ampliação dos poderes do juiz; é preciso que na 
mesma medida imponha-se o dever de dar efetividade ao direito trazido ao 
processo para ser solucionado, diminuindo o inimigo tempo de que falava 
Carnelutti, igualando as posições das partes no processo, invertendo os 
malefícios do dano marginal à parte que litiga temerariamente ou que abusa 
do “direito de ação” e do “direito de defesa”, buscando, precipuamente, a 
verdade essencial para o julgamento. Todas essas atitudes, aliadas aos 
poderes ampliados, darão maior credibilidade aos provimentos 
jurisdicionais, advinda do respeito a suas decisões, que serão, em maior 
número, aceitas e cumpridas, pois só assim se tornarão efetivas (tutela 
efetiva). 
 
Nesta seara, percebe-se, com base no estudo dos trâmites processuais, que 
a tolerância às condutas temerárias e abusivas das partes e de seus advogados

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