A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
56 pág.
Boa-fé objetiva no Processo Civil

Pré-visualização | Página 12 de 15

faz 
com que a Jurisdição perca parte de sua credibilidade e eficácia, gerando 
insegurança jurídica para o ordenamento. (VINCENZI, 2003, p. 76). 
 
2.3.2 - Vedação de condutas abusivas 
Outro problema que os Juízes devem combater são os abusos de direitos, 
correspondentes à teoria que faz parte à função limitadora de direitos da boa-fé 
objetiva, mencionada no capítulo anterior. 
No âmbito do processo civil, a teoria do abuso do direito tem emprego na 
acepção de que as partes não podem abusar dos seus direitos subjetivos de ação e 
de defesa. (PRETEL, 2009, p. 183). 
Deste modo, as condutas processuais devem ser traçadas de acordo com 
um padrão mediano de conduta, que respeite os mínimos de ética e lealdade, ou 
seja, a existência de um direito não permite o exercício abusivo deste mesmo direito. 
“O direito de ação e o de defesa não podem ser exercitados de forma abusiva e 
tampouco em descompasso com a ética, a lealdade, a verdade e a boa-fé objetiva.” 
(PRETEL, 2009, p. 183). 
Conclui Mariana Pretel (2009, p. 183) que a teoria do abuso do direito 
proveniente da boa-fé objetiva “relaciona-se ao exercício inadmissível de posições 
jurídicas no processo e ao exercício inadmissível dos direitos de ação e de defesa.” 
Neste sentido, Leide Maria Gonçalves dos Santos (2008, p. 185) resume 
sobre o abuso de direito no campo processual: 
44 
 
 
 
a boa-fé objetiva retrata uma norma ético-jurídica que estabelece as balizas 
de atuação de todos os que participam da relação jurídica processual. A 
boa-fé objetiva estabelece um padrão de comportamento baseado na 
lealdade e na probidade e visa precipuamente à proteção da confiança 
despertada na contraparte. Por sua vez, o abuso do direito processual 
caracteriza-se pelo exercício de um direito que contraria a boa-fé objetiva. O 
abuso do direito caracteriza-se pelo uso de um direito legitimamente 
assegurado, entretanto exercido de maneira disfuncional, de maneira 
anormal, promovendo um retardamento no desenvolvimento do processo e, 
por conseguinte, na solução da lide. 
 
Deste modo, com a interpretação que deve ser dada ao Código de Processo 
Civil, conforme os valores atuais, a teoria do abuso de direito não deve ser apenas 
relacionada à vertente da boa-fé subjetiva, mas também ao seu prisma objetivo. Ao 
passo que, a violação dos limites impostos pela lei para o exercício dos direitos dos 
cidadãos em juízo, pode tanto ocasionar a litigância de má-fé quanto a 
responsabilidade civil resultante de desrespeito à boa-fé objetiva, em analogia ao 
disposto no artigo 187 do Código Civil. (PRETEL, 2009, p. 184). 
Assim, percebe-se que para obter um processo mais justo e équo, com 
menos atos abusivos e condutas temerárias, faz-se necessário um maior ativismo 
judicial, para que o Juiz em colaboração com as partes busque a melhor solução 
para o caso, com base nos preceitos da boa-fé objetiva. 
 
2.3 - Colaboração Processual 
Pode-se compreender que atualmente no processo civil o Juiz além de deter 
o Poder Jurisdicional, deve buscar com o processo os objetivos do Estado, de modo 
que a forma de atuação do Juiz interferirá na consecução ou não dos valores 
constitucionais. Entretanto, mesmo que o ativismo judicial seja de suma importância 
para obter-se a melhor prestação processual, deve-se salientar que na realidade 
social, não basta a atuação solitária do Poder Judiciário. (PARCHEN, 2012, p. 5). 
A partir desta exigência de todas as partes colaborarem para o melhor 
andamento processual e para chegar à solução mais justa possível, surge o 
Princípio da Cooperação no processo civil, como define Laura Fernandes Parchen 
(2012, p. 5): 
45 
 
 
 
O princípio da cooperação exige, pois, um juiz mais ativo, situado no centro 
da controvérsia, o que, ao invés de causar um distanciamento com as 
partes e entre elas, vai buscar restabelecer o caráter isonômico do 
processo, ou, ao menos, conseguir um ponto de equilíbrio. Impende 
ressaltar que esse objetivo, dentro de uma perspectiva não autoritária do 
papel do juiz e mais contemporânea em relação à divisão do trabalho entre 
o juiz e as partes, somente pode ser alcançado por meio do fortalecimento 
dos poderes das partes, com sua participação mais ativa e leal no processo, 
de modo a contribuir mais efetivamente à formação da decisão judicial, com 
ampla colaboração tanto na pesquisa dos fatos como na valorização jurídica 
da causa. 
 
Sendo assim, é direito das partes uma atuação mais efetiva do Juiz, 
incumbindo-lhes, em contrapartida, o dever de colaborar com o processo de forma 
leal, com condutas pautadas pela boa-fé, a fim de que se alcance a maior 
aproximação possível da verdade, objetivo principal no processo civil do Estado 
Constitucional. (MITIDIERO, 2011, p. 20). 
 Este dever de colaborar das partes no processo civil está relacionado à boa-
fé objetiva, pois esta, como manancial dos deveres acessórios, impõe a cooperação 
das partes para concretização de um processo justo e équo. A boa-fé objetiva, além 
de combater as condutas abusivas, também serve como instrumento para banir 
atitudes contrárias ao desenvolvimento do processo, ainda que não sejam de má-fé 
(subjetiva), portanto, cabem ser controladas pelo Juiz e indicadas pelas partes. 
(VINCENZI, 2003, p. 170). 
Daniel Mitidiero (2011, p. 114), ainda define o conceito de processo 
cooperativo: 
O processo cooperativo parte da ideia que o Estado tem como dever 
primordial propiciar condições para organização de uma sociedade livre, 
justa e solidária, fundado que está na dignidade da pessoa humana. 
Indivíduo, sociedade civil e Estado acabam por ocupar assim posições 
coordenadas. O direito a ser concretizado é um direito que conta com a juris 
prudentia, nada obstante concebido, abstratamente, como scientia juris. Por 
essa vereda, o contraditório acaba assumindo novamente um local 
destaque na construção do formalismo processual, sendo instrumento ótimo 
para viabilização do diálogo e da cooperação no processo, que implica de 
seu turno necessariamente a previsão de deveres de conduta tanto para as 
partes como para o órgão jurisdicional (deveres de esclarecimento, 
consulta, prevenção e auxílio). O juiz tem o seu papel redimensionado, 
assumindo uma dupla posição: mostra-se paritário na condução do 
processo, no diálogo processual, sendo, contudo, assimétrico no quando da 
decisão da causa. A boa-fé a ser observada no processo, por todos os seus 
participantes (entre as partes, entre as partes e o juiz e entre o juiz e as 
partes), é a boa-fé objetiva, que se ajunta à subjetiva para realização de um 
processo leal. A verdade, ainda que processual, é um objetivo cujo alcance 
46 
 
 
 
interessa inequivocamente ao processo, sendo, portanto, tarefa do juiz e 
das partes, na medida de seus interesses, perseguí-la. 
 
 Assim, cabe salientar, que a garantia constitucional do contraditório, serve 
de suporte e de limite para a aplicação princípio da boa-fé objetiva no processo civil, 
de modo que todas as partes devem proceder com lealdade, em cooperação e 
colaboração para a realização dos escopos da jurisdição. (VINCENZI, 2003, p. 172). 
O princípio do contraditório serve como instrumento de viabilização do 
diálogo e da cooperação, gerando deveres de conduta para as partes e para o juiz 
ao analisar os casos concretos. (PARCHEN, 2012, p. 10). 
Assim, conclui-se que o processo cooperativo exige de todos os sujeitos da 
relação processual atitudes em conformidade com a boa-fé objetiva. Pois, a boa-fé 
objetiva significa propor respeito aos padrões de conduta baseados na lealdade, 
razoabilidade, confiança, estabilidade, eticidade e segurança, indo além das 
intenções subjetivas dos agentes. (VIANA, GAGLIANO, 2012, p. 2). 
Desta forma, pode-se afirmar, que o princípio da boa-fé objetiva ao lado do 
princípio do devido processo legal e do princípio do contraditório adequadamente 
redimensionado, são os fundamentos do processo cooperativo, modelo

Crie agora seu perfil grátis para visualizar sem restrições.