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Boa-fé objetiva no Processo Civil

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de padrões éticos na sociedade, e que poderia ser mais utilizado no 
âmbito processual como forma de valorizar as condutas éticas e combater as 
atitudes abusivas e lesivas. 
No primeiro capítulo tratar-se-á dos aspectos da boa-fé em si, analisando 
suas vertentes subjetiva e objetiva e sua evolução histórica até a positivação no 
Código Civil brasileiro de 2002. 
Ver-se-á os fundamentos que inserem a boa-fé no ordenamento jurídico por 
meio de uma análise da Constituição, pretendendo definir a boa-fé objetiva como 
princípio constitucional. Tratar-se-á também, sobre as funções para aplicação da 
boa-fé objetiva nas relações jurídicas. 
De modo que, após discorrer sobre os principais aspectos da boa-fé 
objetiva, no segundo capítulo objetiva-se pesquisar sobre sua possível inserção no 
campo processual civil. 
Buscar-se-á uma conexão entre os objetivos do processo com o princípio da 
boa-fé objetiva e formas de efetivá-lo no âmbito processual, analisando a atuação 
dos juízes, a teoria do processo cooperativo e a criação de deveres para todas as 
partes envolvidas no processo. 
Sendo assim, este trabalho tem como objeto analisar a possibilidade de uma 
maior utilização do princípio da boa-fé objetiva no âmbito processual civil, tendo 
como objetivo trazer à discussão acadêmica uma imaginável forma de melhorar o 
processo judicial através da ética e da boa-fé. 
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1 - BOA-FÉ OBJETIVA 
 
O ser humano tem em sua essência viver em sociedade, pois somente se 
unindo a outros homens ele consegue ser forte o suficiente para sobreviver no 
mundo. 
Na evolução da vida em sociedade, desenvolveram-se visões individualistas 
e coletivistas para regrar as relações sociais, sendo que, atualmente, prevalece a 
noção de função social. Além do mais, em decorrência da crise do sistema liberal e 
o consequente progresso do neoconstitucionalismo, a implantação desses valores 
sociais no meio do direito é imprescindível. 
Não significa que um ser humano, individualmente considerado, tenha 
perdido o seu valor, mas, sim, que sempre deve ser buscado o bem comum, com 
fundamento na pessoa humana. De modo, que não há mais espaço para atitudes 
antiéticas, contrárias ao padrão dos valores sociais, como argumenta Mariana Pretel 
(2009, p. 52). 
Consequentemente, aos poucos alguns valores sociais vêm sendo 
incorporados ao direito, tal como o princípio da boa-fé. 
Nas palavras de José Moacyr Nascimento (2011, p.1): 
Em razão do fenômeno recente e ainda inacabado – o 
neoconstitucionalismo - a quase totalidade dos sistemas jurídicos 
caracteriza-se pela prevalência do elemento ético, leal e probo, 
assegurando o acolhimento do que é lícito e a repulsa ao ilícito. A boa-fé é 
conceito moral que impõe conduta pautada na honestidade, na moralidade, 
na transparência, na cooperação, na confiança, na probidade, no intuito de 
não lesar, prejudicar e nem frustrar outrem. 
 
O princípio da boa-fé é um valor inerente ao ser humano, pois para se 
adaptar a viver em sociedade tem de haver cooperação e lealdade. 
Como diria STOCO (2002, p. 37) 
Estar de boa-fé e agir de boa-fé constituem estados inerentes ao ser 
humano. Ele nasce puro, ingênuo e absolutamente isento de maldade ou 
perversidade. Em sua gênese, vai se transformando segundo influência dele 
sobre si próprio e da sociedade em que vive sobre ele, podendo manter sua 
condição original ou assumir comportamentos decorrentes da influência e 
da sua conversão. 
 
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Portanto, a boa-fé é um valor inerente do ser humano, que se relaciona com 
a subjetividade da pessoa em ser honesta, leal, proba. Porém, a sociedade, como 
um todo, é que definirá os padrões de comportamento a serem seguidos em 
conformidade com a boa-fé, e que, por conseguinte, deverão ser regulados pelo 
direito. 
Sendo assim, ao analisar a boa-fé no âmbito jurídico, percebem-se diversas 
visões, seja por um prisma subjetivo ou objetivo, como princípio ou cláusula geral 
(PRETEL, 2009, p. 17). Logo, em razão desta dificuldade de conceituação, faz-se 
necessário primeiramente diferenciar a boa-fé objetiva da boa-fé subjetiva, antes de 
traçar um breve desenvolvimento histórico sobre a boa-fé objetiva. 
1.1 - Conceito dúplice da boa-fé 
Primeiramente, cabe salientar a existência de dois conceitos dentro do 
princípio da boa-fé, como demonstrar-se-á a seguir pelo entendimento de alguns 
doutrinadores, para depois analisar-se especificadamente a boa-fé subjetiva e a 
objetiva. 
Cesar Augusto Luiz Leonardo (2006, p.9) concorda com a duplicidade de 
conceitos da boa-fé: “Em que pese a existência de entendimentos no sentido de que 
a boa-fé é um conceito único que se manifesta de diversas formas, é predominante 
o pensamento que o instituto apresenta duas vertentes: a subjetiva e a objetiva.” 
Basicamente, a boa-fé subjetiva é relacionada à índole do agente, ou seja, 
tem a ver com seus valores pessoais no seu agir, enquanto a boa-fé objetiva refere-
se aos valores da sociedade no agir da pessoa, um padrão de comportamento ético. 
Mariana Pretel (2009, p.19-20) explica resumidamente a diferença que existe 
entre a boa-fé subjetiva e a objetiva: 
 
Em princípio, poder-se-ia dispor que a boa-fé subjetiva se refere a dados 
psicológicos, elementos internos, os quais conduzem o sujeito a uma 
ignorância do caráter ilícito de suas condutas, relacionando-se com a ideia 
de crença errônea; enquanto que, a boa-fé objetiva se vincula a elementos 
externos, normas de conduta, que determinam a forma de agir de um 
indivíduo, conforme os padrões de honestidade socialmente reconhecidos. 
 
Este também é o entendimento de Miguel Reale (2003): 
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Em primeiro lugar, importa registrar que a boa-fé apresenta dupla faceta, a 
objetiva e a subjetiva. Esta última – vigorante, v.g., em matéria de direitos 
reais e casamento putativo – corresponde, fundamentalmente, a uma 
atitude psicológica, isto é, uma decisão da vontade, denotando o 
convencimento individual da parte de obrar em conformidade com o direito. 
Já a boa-fé objetiva apresenta-se como uma exigência de lealdade, modelo 
objetivo de conduta, arquétipo social pelo qual impõe o poder-dever que 
cada pessoa ajuste a própria conduta a esse arquétipo, obrando como 
obraria uma pessoa honesta, proba e leal. Tal conduta impõe diretrizes ao 
agir no tráfico negocial, devendo-se ter em conta, como lembra Judith 
Martins Costa, “a consideração para com os interesses do alter, visto como 
membro do conjunto social que é juridicamente tutelado”. Desse ponto de 
vista, podemos afirmar que a boa-fé objetiva se qualifica como normativa de 
comportamento leal. A conduta, segundo a boa-fé objetiva, é assim 
entendida como noção sinônima de “honestidade pública”. 
 
Deste modo, pode se concluir que uma pessoa pode agir acreditando que 
sua conduta é correta, em conformidade com a boa-fé subjetiva, mas ao mesmo 
tempo, estar agindo de modo contrário à boa-fé objetiva, aos valores impostos pela 
coletividade como padrão de conduta, como expõe Nelson Rosenvald (2009, p. 
458). 
Assim, evidenciado o conceito que diz que existem duas vertentes da boa-fé, 
que a pessoa com um único ato pode estar de acordo com uma vertente e com a 
outra não, passa-se a analisar agora a boa-fé subjetiva. 
 
1.1.1 - Boa-fé Subjetiva 
A boa-fé subjetiva tem a ver com a vontade do sujeito, ou seja, à crença de 
estar agindo de modo correto, honesto, e está, destarte, essencialmente relacionada 
ao intuito de obrar do sujeito. 
Neste sentido explica Judith Martins Costa (2000, p. 411): 
 
A expressão boa-fé subjetiva denota o estado de consciência ou 
convencimento individual de obrar (a parte) em conformidade ao direito 
(sendo) aplicável, ao campo dos direitos reais, especialmente em matéria 
possessória. Diz-se ‘subjetiva’ justamente porque, para a sua aplicação, 
deve o intérprete considerar a intenção do sujeito na relação jurídica, o seu 
estado psicológico ou íntima convicção. Antitética

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