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Boa-fé objetiva no Processo Civil

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à boa-fé subjetiva está a 
má-fé, também vista subjetivamente como a intenção de lesar a outrem. 
 
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Deste modo, Mariana Pretel (2009. p.21) sintetiza a subjetividade desta 
vertente da boa-fé na frase: “Diz-se, que na boa-fé subjetiva, o sujeito está “em” ou 
“de” boa-fé.” 
Percebe-se que na boa-fé subjetiva tem de ser levada em conta a intenção 
intrínseca psicológica do sujeito, se ele crê estar agindo de modo correto. De 
maneira que, se for verificado que o obreiro tenha agido erroneamente em razão de 
desconhecimento, pode até ser perdoado e seu ato jurídico valer normalmente 
(ROSENVALD, 2009, p. 458). 
Assim, corrobora Mariana Pretel (2009, p. 20): 
Sob este prisma, há a valoração da conduta do agente, uma vez que agiu 
na crença, analisando-se a convicção na pessoa que se comporta conforme 
o direito. O manifestante da vontade crê que sua conduta é correta, tendo 
em vista o grau de conhecimento que possui de um ato ou fato jurídico. Há 
a denotação de ignorância, crença errônea, ainda que escusável. 
 
Portanto, verifica-se que há de ser levado em conta o real entendimento que 
o obreiro tem do ato lesivo que praticou, pois se havia desconhecimento, não há que 
se falar em contrariedade à boa-fé subjetiva. 
No estudo de NEGRÃO (2005, p. 68 apud LEONARDO, 2006, p.9) pode se 
constatar este entendimento: 
Ela se subsume na circunstância do desconhecimento de uma dada 
ocorrência, de um vício que torne ilegítima a aquisição de um determinado 
direito ou posição jurídica. É o estado de justificativa pelo não conhecimento 
de circunstância ou fato que interfere na esfera jurídica alheia, torna 
ilegítima a aquisição do direito ou posição jurídica. Na boa-fé subjetiva, o 
manifestante da vontade crê que sua conduta é correta, tendo em vista o 
grau de conhecimento que possui de um ato ou fato jurídico. Para ele há um 
estado de consciência ou aspecto psicológico a ser considerado. 
 
Por outro lado, ao verificar a intenção do agente, pode ser constatada a má-
fé, que seria a vontade de lesar a outra parte, agindo propositalmente contra os 
valores prezados pela boa-fé. Sendo assim, o juiz, ao comprovar a existência do 
dolo do agente, deve compelir tais atos jurídicos. 
Cesar Augusto Luiz Leonardo (2006, p. 10) explicita sobre a configuração da 
má-fé: 
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 A conduta contrária à boa-fé subjetiva é a má-fé, calcada na ideia de dolo, 
que consiste na consciência e vontade de praticar um ato contrário ao 
Direito ou, de qualquer forma, lesar outra parte. Assim, a conduta daquele 
que age em desconformidade à boa-fé subjetiva é adjetivada por “má-fé”. 
Importante ressaltar que para a configuração da má-fé, é imprescindível a 
prova do dolo. Daí dizer-se que a boa-fé se presume, enquanto a má-fé 
deve ser provada. 
 
Neste sentido, Antônio Manuel da Rocha e Menezes Cordeiro (2001 apud 
Mariana Pretel, 2009, p.21), instrui como o Juiz deverá julgar ao analisar a má-fé na 
intenção do agente: 
Perante uma boa-fé puramente fática, o juiz, na sua aplicação, terá de se 
pronunciar sobre o estado de ciência ou de ignorância do sujeito. Trata-se 
de uma necessidade delicada, como todas aquelas que impliquem juízos de 
culpabilidade e, que, como sempre, requer a utilização de indícios externos. 
Porém, no binômio boa-má fé, o juiz tem, muitas vezes, de abdicar do 
elemento mais seguro para a determinação da própria conduta. [...] Na boa-
fé psicológica, não há que se ajuizar da conduta: trata-se, apenas de decidir 
do conhecimento do sujeito. [...] O juiz só pode promanar, como qualquer 
pessoa, juízos em termos de normalidade. Fora a hipótese de haver um 
conhecimento direto da má-fé do sujeito – máxime por confissão – os 
indícios existentes apenas permitem constatar que, nas condições por ele 
representadas, uma pessoa, com o perfil do agente, se encontra, numa 
óptica de generalidade, em situação de ciência ou ignorância. 
 
Sendo assim, demonstra-se que a boa-fé subjetiva refere-se à ciência do 
sujeito ao agir, e, que, portanto, o Juiz deve analisar não somente o resultado da 
conduta, mas o real conhecimento do agente. 
 
 1.1.2 - Boa-fé objetiva 
A boa-fé objetiva, diferentemente da boa-fé subjetiva, baseia-se em critérios 
objetivos para analisar a conduta, menosprezando o estado psicológico e a vontade 
do agente (LEONARDO, 2006, p.10). 
A boa-fé lealdade, como também é chamada a boa-fé objetiva, pauta-se na 
honestidade, lealdade e probidade com a qual o sujeito condiciona o seu 
comportamento (PRETEL, 2009, p.22). 
Portanto, trata-se de uma regra deontológica, um dever de se manter leal ao 
acordo realizado ou a conduta praticada, para evitar o abuso da confiança alheia, 
agindo em consonância com a ética. Não se opõe à má-fé e também não guarda 
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qualquer relação no fato da noção que o sujeito possui da realidade (PRETEL, 2009 
p.22). 
Neste sentido, Judith Martins Costa (2000, p. 411) discorre sinteticamente 
sobre o conceito da boa-fé objetiva: 
por 'boa-fé objetiva' se quer significar - segundo a conotação que adveio da 
interpretação conferida ao § 242 do Código Civil alemão, de larga força 
expansionista em outros ordenamentos, e, bem assim, daquela que lhe é 
atribuída nos países da common law - o modelo de conduta social, 
arquétipo ou standard jurídico, segundo o qual 'cada pessoa deve ajustar a 
própria conduta a esse arquétipo, obrando como obraria um homem reto: 
com honestidade, lealdade, probidade'. Por este modelo objetivo de conduta 
o status pessoal e cultural dos envolvidos, não se admitindo uma aplicação 
mecânica do standard, de tipo meramente subsuntivo. 
 
Ainda, Mariana Pretel (2009, p.22) define o conceito da boa-fé objetiva como 
um dever de se manter conforme os padrões de comportamentos criados pelos 
valores da coletividade: 
Caracteriza-se como um dever de agir, um modo de ser pautado pela 
honradez, ligada a elementos externos, normas de conduta, padrões de 
honestidade socialmente estabelecidos e reconhecidos. 
Na verdade, trata-se de uma técnica que permite adaptar uma regra de 
direito ao comportamento médio em uso em uma dada sociedade num 
determinado momento. Parte-se de um padrão de conduta comum, do 
homem mediano, num determinado caso concreto, levando em 
consideração os aspectos e acontecimentos sociais envolvidos. Traduz o 
estabelecimento de verdadeiros padrões de comportamento no caso 
concreto. É a sinceridade que deve nortear todas as condutas humanas, 
negociais ou não negociais. Em outras palavras, o sujeito deve ajustar sua 
própria conduta ao arquétipo da conduta social reclamada pela ideia 
imperante. 
 
Portanto, verifica-se a noção objetiva da boa-fé, relacionada à confiança 
geral, fundada no arquétipo de comportamento coletivo e reciprocidade de deveres 
(ROSENVALD, 2009, p. 458-459). 
Deste modo, diz-se, na boa-fé objetiva, que o sujeito age "de acordo" com a 
boa-fé, pois está agindo conforme elementos externos impostos como padrões de 
conduta pela sociedade (PRETEL, 2009, p.23). 
Flávio Alves Martins (2000, p. 104), expõe que a boa-fé objetiva não é 
contrária à má-fé ou ao dolo, mas haverá ausência de boa-fé quando não se 
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proceder em conformidade com os padrões sociais de conduta, qualquer que seja o 
motivo da desconformidade. 
Neste mesmo sentido, são as palavras do professor Igor Cezne (2007, p. 
255): 
A antítese da boa-fé objetiva não é a intenção de prejudicar o outro (má-fé), 
mas sim a exteriorização de um comportamento ímprobo, egoísta e 
reprovável, ou seja, em descompasso com os parâmetros da ética 
obrigacional, consistindo na violação dos chamados deveres anexos de 
conduta. 
 
Entretanto, a boa-fé objetiva não se restringe aos valores éticos da 
sociedade, ela se conecta ao ordenamento jurídico, devendo o juiz usar os meios 
necessários para zelar pela manutenção da confiança existente entre as pessoas, 
sejam elas partes de um contrato, litigantes ou participantes de qualquer relação 
jurídica

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