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Boa-fé objetiva no Processo Civil

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do indivíduo pela pessoa, sendo a dignidade da pessoa humana 
vértice de todo o direito, público ou privado. 
Decorrendo dos princípios constitucionais mencionados, principalmente do 
princípio da dignidade da pessoa humana, pode-se enxergar o princípio da boa-fé, 
pois, ainda que não esteja previsto na Constituição, pode-se constatá-lo quando a 
Carta Magna exige comportamento leal, probo, digno, que se espera do homem 
médio. (COSTA, GOMES, 2012, p. 16) 
José Moacyr Nascimento (2011, p. 1) aduz que o princípio da boa-fé pode 
ser relacionado ao ditame constitucional que estabelece como objetivo fundamental 
da República a construção de uma sociedade solidária, na qual o respeito comum 
seja um elemento essencial a qualquer relação jurídica. Pois se presume o homem 
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como parte integrante de uma comunidade, e não um ser isolado, cuja vontade tem 
de ser respeitada, porém, sujeita a limites externos. 
Neste sentido, dispõe Patricia Ayub da Costa e Sérgio Alves Gomes (2012, 
p. 18) sobre a procedência do princípio da boa-fé no conceito do Estado 
Democrático de Direito e nos demais princípios expressos na Carta Magna: 
Portanto, no paradigma de um Estado Democrático de Direito (art. 1º, caput, 
da CF) fundamentado na dignidade da pessoa humana (art. 1º, III, CF), 
cujos objetivos são construir uma sociedade livre, justa e solidária (art. 3º, I, 
CF); promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, 
cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação (art. 3º, IV, CF) que 
rege suas relações internacionais pelos princípios da igualdade entre os 
Estados (art. 4º, V, CF); defesa da paz (art. 4º, VI, CF); solução pacífica dos 
conflitos (art. 4, VII, CF); cooperação entre os povos para o progresso da 
humanidade (art. 4º, IX, CF) só pode ser regido pelo princípio da boa-fé 
objetiva, pois é esse princípio que fundamenta o comportamento desse 
modelo de Estado. 
 
Compreende-se que tais valores que figuram na Constituição são postulados 
éticos que demonstram que o Estado deve garantir os valores humanos. Decorre-se 
daí a afirmação de que a boa-fé objetiva move a sociedade, porquanto, para se viver 
em harmonia social, é preciso que os indivíduos se respeitem, que tenham 
comportamento leal e isso decorre do princípio da boa-fé objetiva. (COSTA, 
GOMES, 2012, p. 18) 
Com os novos valores constitucionais, a autonomia da vontade e o 
individualismo cederam lugar às regras deontológicas da boa-fé, haja vista, que ao 
se conferir que todas as relações jurídicas devem ser norteadas pela lealdade e 
confiança, percebe-se que a “boa-fé atua como uma luz irradiante para a 
interpretação constitucional, premissa básica da ordem jurídica.” (PRETEL, 2009, p. 
54). 
Portanto, o princípio da boa-fé objetiva deve ser considerado princípio 
constitucional, cabendo aos Juízes a função de aplicá-lo aos casos concretos, na 
busca da efetivação da dignidade da pessoa humana e demais princípios inerentes 
à convivência harmônica em sociedade. (COSTA, GOMES, 2012, p. 19). 
 Conforme Mariana Pretel (2009, p. 56), pode se afirmar que a Constituição, 
ao promover a boa-fé como postulado ético inspirador do ordenamento, seja como 
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norma infraconstitucional ou regra de interpretação, conferiu força normativa e 
aplicabilidade imediata ao princípio, expandindo-o para todas as áreas do direito. 
Desta maneira, vale lembrar que o princípio da boa-fé objetiva positivado no 
Código Civil e no Código de Defesa do Consumidor, foi legitimado pela Constituição, 
pois, ali, implicitamente, emanando dos valores do Estado Democrático de Direito, 
está o princípio da boa-fé objetiva. (COSTA, GOMES, 2012, p. 19). 
Pois, como ressalta Mariana Pretel (2009, p. 47): 
toda interpretação constitucional se assenta no pressuposto da 
superioridade hierárquica da Constituição sobre os demais atos normativos, 
entende-se então que são os valores supremos que garantem a validade de 
toda a legislação do Estado. 
 
Neste sentido, conclui Diego Martins Silva do Amaral (2009): 
O princípio boa-fé objetiva se estabelece em uma regra ética, em um 
grande dever de guardar fidelidade à palavra dada ou ao comportamento 
praticado, na idéia de não fraudar ou abusar da confiança alheia, o respeito 
e a obrigação. Como já argumentado anteriormente, não surgiu com o 
Código Civil de 2002 ou mesmo com o Código de Defesa do Consumidor, 
mas, ao contrário, passou por uma lenta e gradativa evolução, desde os 
tempos romanos, passando pelo direito alemão, sendo que, pelo legislador 
constituinte de 1988 foi reconhecida e erguida à condição de princípio, 
adquirindo o status de fundamento ou qualificação essencial da ordem 
jurídica. Isto significa dizer que atua como postulado ético inspirador de toda 
ordem jurídica e que, por fim, sempre deverá ser aplicado no caso concreto. 
Nos dias atuais, não há como não se reconhecer a sua incidência em todos 
os temas de direito civil, direito processual civil e direito do consumidor. 
 
Portanto, compreende-se que a boa-fé objetiva é um vértice de todo o 
ordenamento jurídico com seu fundamento na própria Constituição, sendo 
configurado como princípio (implícito), de modo que, toda a legislação 
infraconstitucional e a interpretação jurídica têm de ser pautados em seus valores 
éticos. 
Isto posto, passar-se-á a analisar as funções da boa-fé objetiva, ou seja, a 
maneira de aplicar este princípio no campo das relações jurídicas. 
 
1.4 - Funções da Boa-fé Objetiva 
Os doutrinadores ao analisarem as cláusulas da boa-fé objetiva que foram 
positivadas no Código Civil de 2002 definiram as funções da boa-fé para atuar no 
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regramento das relações jurídicas. Entre essas funções, pode se perceber a 
interpretativa (hermenêutico-integrativa) relacionada ao artigo 113, a integrativa 
(criadora dos deveres anexos), conforme artigo 422, e a limitadora de direitos 
subjetivos que decorre do exame do artigo 187. 
Neste sentido, corrobora Nelson Rosenvald (2009, p. 459), ao discorrer 
sobre a multifuncionalidade da boa-fé objetiva: 
A boa-fé é multifuncional. Para fins didáticos, é interessante delimitar as três 
áreas de operatividade da boa-fé no Código Civil de 2002. Desempenha 
papel de paradigma interpretativo na teoria dos negócios jurídicos (art. 113); 
assume caráter de controle, impedindo o abuso do direito subjetivo, 
qualificando-o como ato ilícito (art. 187); finalmente, desempenha atribuição 
integrativa, pois dela emanam deveres que serão catalogados pela 
reiteração de precedentes jurisprudenciais (art.422). 
 
José Moacyr Nascimento (2011, p.1) salienta que essa tripartição 
metodológica foi construída para a área contratual, em consequência da positivação 
da boa-fé objetiva que foi realizada no código civil. No entanto, afirma que é possível 
e necessário deslocá-la para o campo do direito processual. 
Portanto, observando-se que o princípio da boa-fé objetiva insere-se no 
âmbito jurídico e social por diversas formas, torna-se necessário individualizar e 
especificar cada uma de suas funções. 
 
1.4.1 - Função Interpretativa (Hermenêutico-integrativa) 
A primeira das funções da boa-fé é a que se denomina como interpretativa, 
pois, por decorrer de um princípio geral do direito, gera a todos os interpretes do 
direito o dever de interpretar as relações jurídicas com base nos paradigmas éticos 
sociais previstos pela boa-fé objetiva. 
A interpretação, no âmbito jurídico, significa atribuir, extrair, esclarecer o 
sentido das normas ou dos negócios realizados entre as partes, com a finalidade de 
resolver os casos concretos. (DIMOULIS, 2007, p. 172) 
Ao interpretar a relação jurídica, o operador do direito, tem a boa-fé objetiva 
como um referencial, para poder extrair do objeto de questão, o sentido moral 
adequado à sociedade. (AMARAL, 2009) 
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Deste modo, interpretar a lei ou o contrato de acordo com os preceitos da 
boa-fé objetiva será sempre adequá-los a

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