A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
56 pág.
Boa-fé objetiva no Processo Civil

Pré-visualização | Página 7 de 15

ética, tendo em vista que o Código Civil 
traz a eticidade como paradigma. (PRETEL, 2009, p. 74) 
Esta função, em que a boa-fé objetiva serve para orientar toda a 
interpretação dos negócios jurídicos, especialmente dos contratos, está prevista no 
artigo 113 do Código Civil (LEONARDO, 2006, p. 31), no qual está expresso que “Os 
negócios jurídicos devem ser interpretados conforme a boa-fé e os usos do lugar de 
sua celebração.” 
Assim, ainda que a doutrina tenha definido a função interpretativa da boa-fé 
objetiva com base no artigo 113 do Código Civil, ela não se prende ao Direito 
Obrigacional, tampouco aos Contratos, entretanto, aplica-se a todo e qualquer ato 
jurídico, e não somente nos negócios jurídicos. (LEONARDO, 2006, p. 31). 
Neste sentido, Cesar Augusto Luiz Leonardo (2006, p. 31) relembra sobre o 
caráter principiológico da boa-fé objetiva que deve balizar todo o ordenamento: 
Aliás, dada sua natureza de princípio geral do Direito, como axioma que 
permeia todas as relações jurídicas (e não somente as contratuais), deve 
ser parâmetro interpretativo em qualquer relação que tenha vínculo jurídico, 
independente de finalidade econômica manifesta no ato. 
 
Portanto, esta função da boa-fé é exercida através da interpretação, onde se 
procura o melhor sentido de uma determinada manifestação em algum ato jurídico. 
Até visa elucidar a manifestação jurídica que esteja obscura, como cita Gustavo 
Henrique Schneider Nunes (2012, p. 17): “existindo uma lacuna ou até mesmo uma 
expressão confusa, dificultando a tarefa do intérprete, deve-se socorrer da boa-fé 
objetiva.” 
Assim, pode-se evidenciar que o recurso interpretativo da boa-fé é a fórmula 
do intérprete do direito garantir a finalidade econômico-social de todos os negócios 
jurídicos, cabendo ao Juiz não permitir que a lei ou o contrato atinja uma finalidade 
contrária aos valores éticos da coletividade. (PRETEL, 2009, p. 76). 
Logo, conclui Cesar Augusto Luiz Leonardo (2006, p. 31): “sempre que se 
mostrar necessário interpretar algum ato jurídico, deve-se, sempre, favorecer uma 
interpretação que privilegie a boa-fé ética.” 
27 
 
 
 
Além do mais, deve-se destacar que a interpretação conforme a boa-fé, 
ainda levando em consideração seu status de princípio geral do Direito, também 
deve orientar o Legislador na elaboração da Lei. “Mutatis mutandis, o feitor da Lei, 
em seu labor, deve sempre ter em conta o padrão de conduta que se espera do 
homem médio; deve primar pela probidade e retidão, incentivando sempre o 
comportamento dotado de tais predicativos.” (LEONARDO, 2006, p. 32). 
Assim, resta demonstrado uma das principais funções da boa-fé objetiva, 
qual seja balizar todas as interpretações jurídicas garantindo o entendimento das 
relações contratuais e legais no Direito em conformidade com os padrões éticos da 
sociedade. 
 
1.4.2 - Função Integrativa (criadora dos deveres anexos) 
Além da função interpretativa, a boa-fé também possui a função integrativa, 
que consiste na criação de deveres anexos ao negócio jurídico, independente da 
vontade das partes, adequando o negócio aos parâmetros de eticidade da 
sociedade. 
Nelson Rosenvald (2009, p. 459) afirma que através da análise do art.422 do 
Código Civil pode-se enxergar a função integrativa da boa-fé. Em que a boa-fé serve 
como uma fonte criadora de deveres jurídicos para as partes, além de auxiliar na 
interpretação dos negócios jurídicos. Esta função serve para garantir os deveres de 
proteção e cooperação com os interesses da outra parte, propiciando a realização 
do negócio jurídico com a finalidade desejada e a função social-econômica 
adequada. 
Mariana Pretel (2009, p. 76) explica que integrar neste caso, significa 
”completar, inteirar, integralizar, determinar de forma explícita.” Sendo que integrar 
uma lei ou um negócio jurídico é completar o seu teor de acordo com os ditames do 
ordenamento jurídico, criando deveres anexos para determinados casos concretos. 
Podendo concluir-se que a relação jurídica é definida pela vontade das partes 
integrada com a boa-fé objetiva. 
A função integrativa também permite que as eventuais lacunas existentes no 
ordenamento jurídico sejam colmatadas por normas concretas que promovam “a 
28 
 
 
 
lealdade, transparência, informação, probidade e quejandos, afinando-se 
plenamente com a concepção da boa-fé lealdade e valores constitucionais.” 
(NASCIMENTO, 2011, p. 1). 
Com a integração, há uma atuação positiva da boa-fé como verdadeira fonte 
de direito, criando direitos e deveres, ditos secundários, acessórios ou anexos, que 
mais do que regras morais de confiança e lealdade na relação jurídica, devem ser 
regras jurídicas que se inserem no ordenamento. (PRETEL, 2009, p. 77). 
Outro modo de perceber que os deveres anexos têm como fonte a 
integração, é que eles não decorrem diretamente da vontade principal das partes e 
nem diretamente da Lei regente específica. Destarte, a função integrativa da boa-fé 
objetiva estabelece deveres, obrigações, não existentes de forma explícita no 
contrato ou na Lei imediata. (NASCIMENTO, 2011, p.1). 
Antes de se escrever sobre os deveres anexos, deve-se elucidar sobre os 
demais deveres das obrigações, e, neste sentido, ao discorrer sobre a boa-fé 
objetiva nos contratos, expõe Igor Cezne (2007, p. 258): 
Por deveres principais devemos entender aqueles relacionados ao objeto da 
relação e que irá determinar o próprio tipo de contrato, ou seja, é o cerne da 
relação. Já os deveres secundários são divididos em dois tipos. O primeiro 
– deveres secundários meramente acessórios da obrigação principal – é 
aquele que assegura a obrigação principal (ex. na compra e venda o dever 
de transportar, embalar, ou conservar); o segundo – deveres secundários 
com prestação autônoma – é decorrência da obrigação principal (ex: 
Indenização por mora ou cumprimento defeituoso). 
 
Além do mais, os deveres principais da obrigação decorrem da vontade 
explícita das partes ao celebrarem determinado contrato. 
Por outro lado, os deveres anexos não têm como fonte a vontade das partes, 
tampouco se originam na Lei ou em alguma previsão contratual. Com efeito, esses 
deveres decorrem da função integrativa da boa-fé objetiva e, ainda que implícitos, 
impõem-se a ambas as partes do negócio jurídico independentemente de suas 
vontades. (LEONARDO, 2006, p. 36). 
Neste sentido, aduz Nelson Rosenvald (2009, p. 459) sobre a não 
voluntariedade das partes sobre os deveres anexos: 
29 
 
 
 
Todavia, outros deveres se impõem na relação obrigacional, completamente 
desvinculados da vontade de seus participantes. Trata-se dos deveres de 
conduta, também conhecidos na doutrina como deveres anexos, deveres 
instrumentais, deveres laterais, deveres acessórios, deveres de proteção e 
deveres de tutela. 
 
Ainda, Nelson Rosenvald, (2009, p. 459) corroborando que os deveres 
laterais são destinados a ambas as partes do negócio: 
Os deveres de conduta são conduzidos ao negócio jurídico pela boa-fé, 
destinando-se a resguardar o fiel processamento da relação obrigacional 
em que a prestação se integra. Eles incidem tanto sobre o devedor quanto 
sobre o credor, mediante resguardo dos direitos fundamentais de ambos, a 
partir de uma ordem de cooperação, proteção e informação, em via de 
facilitação do adimplemento, tutelando-se a dignidade do devedor e o 
crédito do titular ativo. 
 
Destarte, diante desta característica criadora de deveres laterais, impostos 
aos sujeitos da relação jurídica sem considerar a volitividade, pode-se chamar esta 
função decorrente da boa-fé, de ativa ou positiva. (LEONARDO, 2006, p. 37). 
Assim sendo, assevera Mariana Pretel (2009, p. 78), que os deveres anexos 
de prestação autônoma são uma forma de satisfazer os interesses da coletividade, 
pois impõem, para cada caso concreto, deveres de conduta baseados na ética social 
a ambos os integrantes da relação jurídica. A autora ainda exemplifica

Crie agora seu perfil grátis para visualizar sem restrições.