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Boa-fé objetiva no Processo Civil

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alguns 
deveres anexos, que são “os deveres de lealdade, cooperação e colaboração, 
informação (aviso e esclarecimento), previdência e segurança, prestação de contas, 
proteção e cuidado, entre outros.” (PRETEL, 2009, p. 78). 
Nesta mesma banda, aduz Cesar Augusto Luiz Leonardo (2006, p. 36): 
Portanto, ao passo que a boa-fé impõe uma conduta de cooperação e de 
lealdade entre as partes de uma obrigação, ela tem a função criadora de 
deveres laterais, paralelos à prestação principal. É nesta esteira que se 
inserem os seguintes deveres: de informação, de cuidado, de aviso, de 
prestar contas, de colaboração e cooperação, de proteção e de segredo, 
dentre outros. 
 
Assim, porquanto a boa-fé objetiva pode criar deveres implícitos que 
completam as relações jurídicas com base na lealdade, confiança e cooperação, 
abrangendo requisitos para harmonia social, independentemente da vontade das 
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partes, por outro lado, ela também pode limitar certos direitos subjetivos e minorar 
algumas manifestações de vontade, como será visto adiante. 
1.4.3 - Função Limitadora dos direitos subjetivos 
 
Outra função da boa-fé objetiva é limitar os direitos subjetivos das partes. 
Com os novos axiomas promovidos na Constituição, colocando a pessoa em 
primeiro lugar, o Estado passou a ter legitimidade para interferir nas relações 
privadas, procurando diminuir as desigualdades entre as partes. Por conseguinte, 
através da boa-fé objetiva o Estado busca garantir a finalidade econômico-social do 
contrato ao limitar a liberdade dos contratantes. (CEZNE, 2007, p. 257). 
Esta função da boa-fé pode ser chamada de “negativa”, pois ela limita o 
exercício de posições jurídicas e restringe o exercício do titular de um determinado 
direito. (LEONARDO, 2006, p. 34). 
Salienta Mariana Pretel (2009, p. 86), que a função controladora pode ser 
encontrada no artigo 187 do Código Civil, o qual contempla a previsão legal do ato 
abusivo, assim dispondo: “Também comete ato ilícito o titular de um direito que, ao 
exercê-lo, excede manifestamente os limites impostos pelo seu fim econômico ou 
social, pela boa-fé e pelos bons costumes”. 
Analisando tal artigo, pode se perceber que a boa-fé e os bons costumes de 
acordo com os seus fins sociais e econômicos, impõem limites ao exercício dos 
direitos. (PRETEL, 2009, p. 87). 
Neste sentido, expõe Cesar Augusto Luiz Leonardo (2006, p. 32-33): 
A boa-fé objetiva também limita o exercício de posições jurídicas, da 
seguinte forma. O Direito atribui direitos, deveres, faculdades e ônus às 
pessoas. Todavia, o titular de uma posição jurídica, ao exercê-la, não o 
pode fazer de qualquer forma, mas deve sempre respeitar aos limites 
estabelecidos por ela mesma e pelo Direito (entendido como todo o 
Ordenamento Jurídico) e, por via de consequência, à boa-fé, dada a sua 
condição de proposição jurídica. É dizer: os direitos subjetivos não são 
absolutos, devendo ser exercidos conforme sua finalidade econômica e 
social, sem desrespeitar os preceitos decorrentes da boa-fé objetiva. 
 
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Brunela Vincenzi (2003, p. 164) afirma que a aplicação da função corretiva 
da boa-fé objetiva além de limitar o exercício de direitos subjetivos nas relações 
contratuais também pode controlar o exercício de posições jurídicas exercidas numa 
relação processual: poderes, faculdades, ônus, direitos potestativos e deveres. 
Corroborando tal afirmação de que a função controladora pode ser exercida 
sobre qualquer manifestação de vontade em uma relação jurídica, é a citação de 
Gustavo Henrique Schneider Nunes (2012, p. 15): 
A boa-fé tem por escopo controlar todas as manifestações de vontade, 
limitando-as ao exercício de direitos daí decorrentes. Não mais se aplica o 
entendimento de que tudo que não estiver proibido no contrato ou na lei 
torna-se, por via de consequência, permitido. Essa visão ultrapassada dava 
azo a inúmeras falcatruas, sempre em prejuízo da parte mais vulnerável da 
relação jurídica. 
 
Ainda, neste sentido, pode-se citar Brunela Vincenzi (2003, p. 165): 
Essas várias posições jurídicas podem ocorrer em relações jurídicas as 
mais diversas, nas quais se observa a necessidade de aplicação da regra 
objetiva para coibir exercícios inadmissíveis na relação contratual (veja-se, 
por exemplo, o direito à resilição contratual imotivada ou à rescisão por 
inadimplemento nos casos de adimplemento substancial), ou na relação 
jurídica processual (que, de maneira exacerbada, impedem ou alongam o 
tempo necessário para realização do direito material.) 
 
Percebe-se que, toda manifestação de vontade que gere efeitos jurídicos 
deve ser analisada para saber se ela se harmoniza ou não com o princípio da boa-fé 
objetiva. Ao passo que, havendo excessos, a boa-fé age para contornar ou adequar 
o ato aos padrões de conduta estabelecidos. (NUNES, 2012, p. 15). 
Neste contexto, cita-se Mariana Pretel (2009, p. 87-88): 
a boa-fé atua no sentido de contenção da visão individualista, de conceder 
um novo perfil à autonomia privada, conduzindo os direitos subjetivos a 
limites equilibrados, dentro do contexto da função social, da solidariedade e 
da dignidade da pessoa humana. 
 
A função controladora da boa-fé visa impedir práticas abusivas que se 
desvirtuem dos ditames éticos, podendo até interferir na autonomia de vontade, 
considerando nula algumas cláusulas contratuais. Ou seja, deve ser controlada toda 
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manifestação que contrarie o padrão ético da boa-fé, que busca atribuir lealdade e 
honestidade a todas as relações. (NUNES, 2012, p.17) 
Deste modo, o titular de um direito que o exerce ultrapassando os limites 
impostos pelo fim econômico ou social, pela boa-fé ou pelos bons costumes, pratica 
abuso de direito. (LEONARDO, 2006, p. 34). 
O legislador pátrio qualifica o abuso de direito como ato ilícito, ao inserir o 
artigo 187 no capítulo referente aos atos ilícitos no Código Civil de 2002. No entanto, 
deve-se salientar que no ato abusivo, o indivíduo não desrespeita as normas 
específicas individualmente, mas sim os valores que serviram de fundamento para 
as normas em geral. (PRETEL, 2009, p.88). 
Neste sentido Mariana Pretel (2009, p. 89) expõe sobre os limites do 
indivíduo ao exercer seus direitos: 
Todo indivíduo deve exercitar os seus direitos nos limites estabelecidos pelo 
conteúdo do próprio direito (limites internos) ou por disposições que 
decorrem da proteção dispensada a terceiros e da colisão de direitos 
(limites externos). Em outras palavras, pode se afirmar que, além dos limites 
que derivam da própria natureza do direito (objeto e conteúdo), existem 
outros, derivados da boa-fé e da função social (tal qual já fora deveras 
explanada a teoria dos deveres anexos, que decorrem da boa-fé). 
 
Nesta mesma esteira, a boa-fé também serve para limitar atos ilícitos, que 
não podem ser vistos ao se verificar apenas a conformidade do ato com a norma 
aparente, mas que devem ser analisados conforme os valores de todo o 
ordenamento e toda a conduta do agente. Esta análise abrangente da função 
limitadora da boa-fé pode ser relacionada com o instituto da teoria dos atos próprios, 
que impõe uma conduta coerente, não contraditória. (LEONARDO, 2006, p. 34). 
Outrossim, Mariana Pretel (2009, p. 85-86) explicita a teoria dos atos 
próprios: 
segundo a qual a ninguém é lícito fazer valer um direito em contradição com 
a sua conduta anterior interpretada objetivamente segundo a lei, segundo 
os bons costumes e a boa-fé, ou quando o exercício posterior se choque 
com a lei, os bons costumes e a boa-fé, sendo que o seu efeito é impedir 
que a parte que tenha violado os deveres, exija o cumprimento pela outra 
parte, ou se valha do seu próprio inadimplemento para se beneficiar de 
disposição contratual ou legal. 
 
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Dessa forma, devem ser analisados os pressupostos para a aplicação da 
referida teoria, haja vista que para a incidência desta regra, não basta verificar tão 
somente

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