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Qual Instituifdo Para o Sujeito Psic6tico?
Eu lhes agrade9o, inicialmente, o convite para vir a este pais,
que para n6s e sempre urn pouco mftico, o Brasil, mas tambem a
oportunidade de trabalhar com voces quest6es que se tomaram
urn pouco menos marginais para os psicanalistas, menos margi-
nais do que elas eram ha dez ou vinte anos. Talvez porque, neste
tempo, urn a certa ideia sobre o analista solitarjo, analista apagado,
que nao tern nenhum ideal e que nao acredita em nada, deixou
lugar a uma outra ideia, evocada por Eric Laurent, recentemente
em urn a conferencia, que e a ideia do analista cidadao. Os ~nalis
tas come<;aram a apreender, ou deveriam comec;ar a apreender, que
ha uma comunidade de interesses entre o discurso analftico e a
democracia e que nao se trata somente de escutar fechado no seu
consult6rio, mas de ~~b~r transmitir o que concerne a condi<;ao
h1,1mana, o que, da particularidade de urn sujeito, pode ser util para
urn numero maior de pessoas. Para parafrasear o que diz Lacan em
"Televisiio ", a prop6sito da safda do discurso capitalista, ele nao
sera urn progresso se for somente para alguns. Os psicanalistas
devem tamar posi<;ao, ter uma incidencia sobre a orientac;ao da
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polftica de saude mental de urn estado ou de uma regiao. Pedir um
tipo de saude mental ou respeito aos direitos do homem; deve ser
solidario da introduc;ao do lugar do sujeito na clfnica psiquiatrica.
Houve urn tempo que pensava que os analistas deviam se
manifestar apenas no campo da cultura. N6s acredi..t:amos que de-
vemos intervir tambem sobre pontos mais precisos da sociedade,
como em comites de etica, redes de ajuda, praticas institucionais e
sociais, para que a dimensao do sujeito, no sentido psicanalftico
seja levada em conta, ao contrario da sua exclusao .Pelo discurso
da ciencia, que esta nesse momento fagocitando a psiquiatria. 0
que afastou os psicanalistas de uma interven<;ao no campo da sau-
de mental foi uma formula<;ao do problema em termos de rela<;6es
de antinomia ou de compromisso entre duas praticas: por urn lado,
a pratica da analise, e, por outro lado, a pratica de cuidados medi-
cos, sociais e psiquiatricos. Pode-se opor, quase termo a termo, os
objetivos da saude mental e os do discurso do analista, para mos-
trar a sua inconciliabilidade. Conclui-se, entao, que o analista de-
veria, ou se afastar da institui<;ao ou af se situar, mas em uma posi-
<;ao anti-institucional.
Eu vou lembrar alguns termos desta oposi<;ao. A institui<;ao
visa reduzir a pregnancia do sintoma, enquanto que o analista ten-
ta fazer emergir o significante inconsciente. A institui<;ao quer o
berne a saude do indivfduo, enquanto o analista nao visa nenhum
bern mas somente a emergencia do desejo, que pode comportar o
mal-estar e a angustia. A institui<;ao responde a demanda, enquan-
to o analista, por sua escuta radical, visa a raiz mesma da deman-
da. A institui<;ao tenta constmir a unidade do sujeito, enquanto o
analista visa a divisao do sujeito. A conclusao pratica dessas opo-
siy6es e de conduzir o analista a oscilar entre uma atitude de recu-
sa ou de crftica a institui<;ao, crftica a instituiyao como lugar de
tratamento psicanalftico, ou en tao uma inser<;ao, mas contra a ori-
enta<;ao da polltica institucional. Em ambos os casos, a psicam1li-
se acaba nao tendo mais nenhuma incidencia sobre a clinica e so-
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bre a pratica institucional. Sea questao da rela(_(ao entre a psicaml.-
lise e a institui(_(ao se esgotasse nesta oposi(_(ao, ela se traduziria na
questao: e possfvel praticar a psicanalise na institui<;:ao ou nao?
Isso depende, creio, do fato de se ter ligado muito a psicana-
lise, o discurso analitico, a cura, ao tratamento do neur6tico. Esta
redu(_(ao da psicanalise ao tratamento dos neur6ticos ignora, ou
desconhece, que as institui<;:6es ou as redes de ajuda se ocupam de
outras categorias sociais diferentes das que se endere(_(arn normal-
mente aos psicanalistas. E nao somente isso, mas tambem se ocu-
pam de abrigar outras categorias clinicas diferentes da neurose.
Elas respondem antes a passagem ao ato. Enfim, essa identifica-
<;:ao da psicanaiise a cura, ao tratamento dos neur6ticos, arrisca-se
a ignorar que a considera(_(ao do mal estar da civiliza<;:ao teve uma
incidencia sobre as teorias das puls6es e sobre a pratica da psica-
mllise no proprio Freud. Entao ha urn impasse, quando transpo-
mos o tratamento. dos neur6ticos a institui<;:ao, diretamente.
0 esquema com urn da pratica da psicanalise vai da vida soci-
al ao consult6rio do analista. Ha urn estado da clfnica em que esta
passagem nao e possfvel. Entao, a pratica tende a transpor o con-
sult6rio do analista ao interior da institui<;:ao, o que faz com que a
institui(_(ao apare<;:a, nessa aplica(_(ao, como se)1do simplesmente o
envolt6rio do consult6rio do psicanalista. Esse esquema, que trans-
forma a institui<;:ao urn "em torno" do consult6rio do analista, des-
conhece a razao da existencia da institui<;:ao e, por essa mesma
razao, a natureza da clfnica que a institui(_(ao acolhe. Quando dis-
cutimos para saber quando a institui(_(ao e compatfvel com o con-
sult6rio do analista ou nao, desconhecemos a razao da existencia
da institui(_(ao. Porque antes de existir para eventualmente tratar
do sujeito, a institui<;:ao existe para acolhe-lo, coloca-lo ao abrigo,
coloca-lo a distancia, assisti-lo. Antes de ter urn objetivo
terapeutico, a institui<;:ao e uma necessidade social, e a necessida-
de de uma resposta social a fenomenos clfnicos, a certos estados
da psicose, a certas passagens ao ato, a alguns estados de
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Psicanalise e lnstitui~ao - A Segunda CUnica de Lacan
depauperamento ffsico, que podem levar o sujeito a exclusao soci-
al absoluta e ate a morte. E isto, entao, que motiva a criac;ao de
uma institui9ao e nao se deve comparar a institui(_(ao de cuidados e
a consulta psicanalftica e ver se a instituic;ao realiza os objetivos
da psicanalise. Nao se deve fazer essa comparaya0.' Nao devemos
tampouco nos limitar a introduzir o consult6rio do psicanalista na
institui(_(ao e considerar simplesmente que a ins.titui<;ao e a sal a de
espera do analista.
Trata-se de reconhecer a diferen(_(a de duas pr~ticas . A pratica
do tratamento psicanalftico e uma coisa e a pn1tica da institui9a0 e
outra. A clfnica permite frequentemente, a entrada na experiencia
psicanalftica, mas nem sempre. A clfnica exige, tambem frequen-
temente, uma resposta que pode ser simplesmente a de uma prati-
ca social ou institucional. Mais ainda que 'fenomenos de lingua-
gem ou delfrio, trata-se, nessa cHnica, daquilo que do gozo, como
diz Lacan, faz retorno no corpo e no agir: passagem ao ato suicida
ou perigosa, auto-mutilay6es, errancia, imobilidade catatonica,
perda de qualquer interesse, uso excessive de drogas. Ora, nao e
porque a resposta a esta clinica se inscreve no discurso do mestre
que ela deve ser abandonada pelos analistas ou que os analistas
de vern se inscrever para contesta-la, por uma outra pratica. Quan-
do constatamos que na base da existencia da institui9ao ha a clini-
ca, n6s podemos propor uma terceira via, uma outra forma de co-
locar o problema, que nos perrnite sair do eterno debate de saber
se a psicanalise pode ou nao ser praticada na institui<_;;ao e se a
instituiyao e ou nao compatfvel como discurso do analista. A ques-
tao, en tao, nao e da rela(_(ao entre a institui(_(ao e a pratica da psica-
nalise de consult6rio, mas a terceira via, que n6s propomos, e a de
considerar que ha duas praticas distintas. A pratica da cura, do
tratamento a dois e a pratica institucional que e necessariamente
coletiva.
Nao e porque uma pratica e a dois que ela e, necessariamen-
te, o discurso do analista. 0 discurso do analista nao coincide ne-
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cessariamentecom a pratica a dois. Nos podemos Jegitimamente
colocar a questao se o discurso do analista pode orientar uma cura
a dois ou se ele pode orientar uma pratica feita por muitos. A ques-
tao nao e de saber qual psicana.Jise praticar na instituic;ao, mas
qual institui<;,:ao praticar na psicanalise. Entao, nao e a psicanalise
na institui<;ao, mas a institui<;ao na psicanalise. Colocar o proble-
ma nesses termos sup6e reconhecer a motiva<;ao clfnica da insti-
tui <;ao. A institui<;ao constitui a resposta pratid.vel em alguns esta-
dos da clfnica, a unica resposta praticavel na ausencia da qual as
pessoas que sofrem, ou as pessoas que lhes sao proximas, ficam
expostas a urn insuportavel, que pode ter consequencias dramati-
cas. Em alguns estados da clfnica, nao se trata de ir ao consult6rio
do analista, trata-se de ser protegido.
Uma jovem mulher que encontramos na apresenta<;ao de pa-
cientes e cuja posi<;ao subjetiva se traduzia por uma certeza - a
certeza de ser feia e monstmosa a tal ponto que ela nao podia se
suportar sem a presenc;a de alguern que a amasse - passava todo o
tempo, de urn homem a outro sofrendo toda especie de violencia
e inconvenientes. Ela dizia no hospital: "fora daqui eu vou dizer
sirn a nao importa a quem, nao importa o que". E por isso que ela
queria ficar no hospital. Lembrar a rnotivac;ao~clfnica da existen-
cia da institui<;ao tern a vantagern de evitar desconhecer sua fun-
<;ao social insubstitufvel e de evitar sua supressao como foi o caso
na Italia. Nao e porque a instituic;ao cura que ela deve ser rnantida,
nem porque ela nao cura que ela deve ser suprirnida. Se mantemos
a institui<;ao porque ela cura, ha urn grande risco de considerar
natural que o paciente fique no hospital indefinidamente, que fi-
que no hospital enquanto nao fique curado. Se consideramos que a
insti tui<;ao deve curare se consideramos que a instituic;ao nao cura,
0 risco e grande de deixar 0 paciente na errancia e aos dramas de
retornar a uma familia e ao seu lugar natural, que da, frequente-
mente, lugar a vagabundagern. Isso acontece quando desconhece-
mos a func;ao social da instituic;ao. Eu diria mesmo que manter
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Psicanalise e lnstitui{:iio -A Segunda Clinica de Lacan
essa func;ao social tern por fun c;ao colocar urn limite a fun<;,:ao tera-
peutica. Sem o limite da sua func;ao social, a institui<;ao corre o
risco de se transformar em urn lugar de aliena<;ao, de experirnenta-
c;ao e, sem o limi te da sua func;ao teriJ.peutica, ela cone o risco de
ser simplesmente suprimida. Fazer valer a necessitlade social de
uma resposta institucional a clfnica, uma resposta no social, tern a
vantagem que eu mencionei - de evitar suprirnir a institui<;ao ou
hospitalizar indefinidamente OS pacientes. A prirneira van tagem e
evitar esses dois riscos. A segunda vantagem e a de deslocar o
assento do conflito entre dois discursos a uma questao clfnica co-
mum.
Quando o estado crftico da psicose pode permitir a adesao da
transferencia a urn analista, nao e necessaria ~ nero desejavel que
o sujeito seja acolhido na institui<;ao. 0 tratamento da ps icose nao
exige automaticamente uma estrutura coletiva de resposta. Muitas
vezes, o sujeito se arranja para criar, ele mesmo, uma pequena
institui<;ao em torno dele mesmo, com varias pessoas que inter-
vern. Assim, quapdo o tratamento da psicose pode aderir ao ana-
lista, a resposta institucional nao e necessaria. Mas, a clfnica, as
vezes, exige uma estrutura coletiva de resposta. E a clfnica que
exige respostas que nao podem ser dadas por urn s6. Trata-se, en-
tao, de saber se a psicanalise pode orientar uma pratica que pode
nao ser a de urn s6, nem de urn so momento do dia. Isso porque a
agitac;ao, a injuria, a crise epileptiforme, a briga, a interpreta<;ao
persecut6ria de urn gesto I!~O esperam a entre vista do dia seguinte
para se produzir. Uma certa maneira de responder e de endere~ar
se ao sujeito, uma certa maneira de intervir ou nao, urn calculo da
posi~ao que e preciso ocupar, sao exigidos em todos os mementos
da permanencia do paciente na institui~ao , sob pena de tornar-se
isso dificil para os outros ou insuportavel para o sujeito. A ques_-
tao, entao, e saber se nos podemos orientar uma pratica que nao e
de urn so e que nao se limita a certos mementos de urn dia. 0
acolhimento institucional nao esta limitado no tempo enem a uma
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s6 pessoa.
Tomemos o caso do adolescente que tern uma faca e nao quer
abandona-la, mas a equipe teme que ele possa se ferir ou ferir os
outros. E preciso tomar uma posi9ao diante disso e essa tomada de
posi<;ao pode ser feita por qualquer urn dos membros do coletivo
institucional. E preciso encontrar uma resposta. En tao, a resposta,
neste caso, foi a de propor ao adolescente guardar a faca dentro de
uma caixa fechada com chave e que a caixa fosse colocada no
escrit6rio da diretora, que era a unica a ter a chave da caixa. Isso e
uma historinha que pemtitiu ao sujeito separar-se dafaca sem perde-
la e de nao continuar a se constituir em perigo para os outros.
Se uma pessoa que mora na institui<;ao vern se ·queixar que os
outros o agridem, acusando-o de ser urn ladrao, ele vern pedir que
todos os que o chamam de ladrao sejam afastados da institui<;ao.
Nao se trata de dizer a ele que, de fato, ele entra nos quartos para
- ·pegar cigarros dus outros. Prirneiro, e melhor acolhe-"lo.:-com o seu
protesto, por exernplo, por urna declara<;ao de ordem geral que
reconhe<;a sua posi<;ao, dizendo que as agress6es verbais nao sao
perrnitidas nessa casa. E uma maneira inicial de acolhe-lo como
seu protesto. Antes de evocar as outras disposi<;6es relativas aos
quartos, nao se trata de discutir com ele pad. dizer-lhe que talvez
os outros tenham razao. Trata-se, sobretudo, de presentificar urn
e Outro no qual ele tern urn Iugar, que o acolhe enquanto mestre,
como alguem que tern razao, por uma declara<;ao do tipo geral,
universal, antes de se colocar numa rela<;ao dual com ele. Sao ti-
pos de intervenyao que todos os membros do coletivo podem ser
levados a fazer. Nao sao reservadas a urn ou outro ou a algum
momento do dia. E a natureza rnesma da clfnica, acolhida na insti-
tui¢ao, que exige uma resposta comum, uma resposta da qual cada
urn pode ser o vetor.
Se lev amos em conta que a motivayao de institui<(ao e a clfni-
ca, a questao nao e mais entre a psicana.Iise e a institui9ao, mas da
rela<;ao entre a clinica e a institui9ao e, no centro dessa clinica, a
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Psicantilise e /nstitui~iio -A Segunda Clfnica de Lacan
clfnica da psicose. Ou, como dizia Lacan no fechamento das J or-
nadas sobre as Psicoses das Crianyas, a questao de uma institui<;ao
que esteja realmente em rela<;ao com a psicose. A primeira trans-
forma<(ao da questao nao e a psicamilise e a instituic;ao, mas clini-
ca e instituic;ao e a segunda transforrna<;ao da queSt:ao, nao e psi-
cana.Iise e institui<;ao, mas a questao da p~icose e da psicanalise,
que da valor a urn segundo tempo do ensino de Lacan.
Passo a uma segunda parte. Podemos dizer que o primeiro
tempo do ensino de Lacan consistia em considerar a psicose prin-
cipalmente e essencialmente em termos de deficit. Partia da neu-
rose e aplicava as psicoses a psicanalise elaborada a partir do tra-
tamento dos neur6ticos. Enquanto que urn segundo mornento do
ensino de Lacan consiste antes em aplicar a psicose a psicamilise,
impondo uma reviravolta conceitual, modifica<;6es te6ricas e
consequencias pniticas, passando entao, da aplicac;ao da psicana-
lise a psicose a aplica<;ao da psicose a psicanalise. N6s paSSllffiOS
de urn clfnica que importava, para o-dispositive institucional, a
pratica da psicanalise como praticada na cura dos neur6ticos, seja
para pratica-la so, seja para aplicar as categorias da cura dos neu-
roticos a institui<;ao. Entao, passamos de uma aproximayaO tera-
peuticaa uma aproxirnac;ao que eu diria ser mais didatica para
nos. E a psicose que nos ensina sobre a estrutura e que nos ensina
sobre as soluc;6es que ela mesma encontra para fazer face a uma
falta central do proprio simbolico. E na escola da psicose que nos
nos colocamos para aprender como praticar.
Colocar-nos numa posic;ao de aprendizagem em rela<;ao a cli-
nica, posic;ao de aprendizagern na qual nos coloca a psicose, mas
tambern o segundo tempo do ensino de Lacan, o segundo tempo
relative a teoria das psicoses, tern uma prime ira consequencia so-
bre a es trutura da propria equipe, porque ela leva a uma
desierarquiza<;ao do saber previo. Diante de tudo que ternos para
aprender, o saber constitufdo, os tftulos, os diplomas, tudo isso vai
ser fortemente relativizado nessa posi<;ao de pesquisa, de estudo,
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de questionamento. Essa posi~ao tern a imensa vantagem de con-
tribuir para dissipar os efeitos imaginaries que comporta toda hie-
rarquia do saber, em proveito de uma comunidade de trabalho en-
tre pr.aticantes, trabalhadores, alunos da clfnica. Estar entre traba-
lhadores, em uma posi<;ao nao hierarquica em rela~ao ao saber,
repercute-se em uma divisao de uma mesma responsabilidade. A
libido da equipe investe-se em colocar hipoteses em comum e dis-
cuti-las quanto a estrategia a adotar, em relac;ao a analise do que
teve algum efeito antes, em vez de inves tir em quest5es de prerro-
gativas.
Em segundo lugar, que e o mais importante, este esvazia-
mento de saber previo redobra a dispersao natural do sujeito su-
posto saber, a dispersao do suposto saber que esta implicada num
trabalho feito por muitos. Entao, o fato de estar trabalhando com
muitos ja dispersa o sujeito suposto saber e essa dispersao e redo-
brada pelo fato de que estamos numa posi<;ao de aprendizagem.
Essa posic;ao de urn sujeito suposto nao saber e urn a posi<;ao favo-
ravel para encontrar urn sujeito que sabe o que acontece com ele,
que e ele mesmo a significac;ao do que lhe e enderec;ado enigmati-
camente. E uma posi<;ao favoravel para encontrar esse sujeito, sem
alimentar uma posic;ao intrusiva, persecutoria de transferencia.
En tao, a inclusao da clfnica nos fundamentos da instituic;ao,
e sua repercussao sobre a estrutura da equipe comporta, desde j a,
uma condi~ao de tratamento que e adequada a posic;ao subjetiva
que ela acolhe. Ela nos permite saber nao saber de uma boa ma-
neira no acolhimento dos sujeitos e e por isso que ela tern uma
viitude de apaziguamento para o sujeito neur6tico. Mas, quando
se trata das psicoses, essa significac;ao do saber se liga a existencia
mesma do sujeito, porque na psicose o saber nao e suposto, mas
realizado pelo proprio sujeito, que e a referencia, o gozo desse
saber. E por isso que quando o Outro se apresenta como o Outro
do saber, ele pode ser encontrado sob uma forma erotomanfaca ou
persecutoria. Enquanto que a posic;ao do sujeito suposto nao saber
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Psicanalise e }JZstiwi~ao -A Segunda Cllnica de Lacan
deixa principalmente ao sujeito a iniciativa de saber.
Urn jovem tern uma verdadeira paixao pelo Pink Floyd, que
vern provavelmente do seu pai. Ele grava todos os discos , ele imi-
ta os gestos do baterista, mas desenvolve tambem, em tomo de
tudo isso, uma interpreta<;ao delirante e uma grande agita<;ao. De-
vemos encoraja-lo nessa via aumentando, por exe'inplo, as ocasi-
5es em que ele pode escutar essa musica, participar de concertos,
enquanto que quando lhe colocamos a ques tao: "voce vai mexer
corn musica mais tarde, por exemplo, profissionalmente?" ele res-
ponde: "e preciso que eu fac;a meu negocio de onibus, de carro."
Quem sabe se nessa hist6ria devemos encorajar a interpreta<;ao
delirante ou levar em conta o que ele diz a proposito desses oni-
bus? Ficamos sabendo, com efeito, que ele conhece toda a carto-
grafia da regiao, as distancias em quilOmetros, as estradas. E ele
que organiza os itineraries das excursoes. E uma via menos se-
mantica na relas;ao com a linguagem, do que a via das interpreta-
<;:5es e de todo o discurso que ele pode ter sobre Pink Floyd. Como
acompanha-lo? Como orientar nosso acompanhamento? Eis af urn
tipo de problema que pode animar urn trabalho em comum de uma
equipe, mas cuja orienta<;:ao vai ser diferente segundo o ponto de
gravidade do saber, isto e , sej a ele colocado do lado do sujeito ou
do lado do tecnic·o. Se n6s consideramos que ha algo para desen-
volver do lado da apresenta<;:ao , e porque nos pensamos nas suas
relac;oes com seu pai. Nos mesmos e que desenvolvemos toda
uma explica<;:ao e uma interpretac;ao, enquanto que o sujeito, quando
nos lhe colocamos a questao, vern nos falar de todas estas his tori-
as de geografia. Se colocamos a enfase sobre o saber da equipe,
podemos ser tentados a encorajar a primeira via, a da musica. Se,
ao contrario, deixamos ao sujeito a chance de inventar esse seu
proprio trajeto, mesmo se isso parece ter pouco sentido para nos,
talvez essa segunda via sej a mais conforme com o tratamento da
psicose, inerente a propria psicose.
A primeira condi<;:ao deste acolhimento institucional da psi-
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Alfredo Zenoni
cose e o esvaziamento de saber, que deriva do fato de colocar a
clinica em posi~ao de mestre. E a segunda condi~ao ligada a esta
consiste num certo esvaziamento do querer ou do poder. 0 acolhi-
mento feito por muitos da clinica e tambem 0 acolhimento de va-
rias pessoas. N6s nao somas somente muitos como tecnicos, mas
ha tambem muitos sujeitos acolhidos. Ha o problema que n6s vi-
mas hoje na discussao de casas que e o problema da coabitac;ao
dos sujeitos que vivem em comum. A necessidade de uma certa
regulac;ao desta comunidade. Isso coloca o problema da regra e da
lei. Da mesma forma que ao nfvel do saber n6s operamos o esva-
ziamento, como operar o esvaziamento ao nfvel do querer, como
presentificar para o sujeito urn Outro que nao seja a encarnac;ao do
querer do Outro?
Urn dos grandes problemas de supervisao na instituic;ao e o
problema da coabitac;ao dos sujeitos que residem af, o problema
da violencia, os roubos , os insultos, as injurias. 0 sujeito nao esta
somente diante dos tecnicos, mas tambem diante dos outros paci-
entes. A nos sa posic;ao deve ser de representantes da lei? Em urn
certo sentido sim, porque somas responsaveis par esses sujeitos,
nao temos apenas uma relac;ao individual com cada urn deles. De-
vemos tambem garantir a coexistencia de tojlos. A manobra con-
siste em njg_ preseiJ.J;ific~ a vonta.de do Outro, mas ~m pr5!sentificar
urn Outro que e ele mesmo submetido a uma lei. Nao devemos
ficar numa posic;ao paterna ao considerar que n6s introduzimos a
dimensao da lei, mas nos mostramos n6s mesmos enquanto sub-
metidos a lei. E por isso que trata-se de formular as coisas de tal
maneira que ela nos implique tambem.
Para dar urn exemplo simples e banal, quando as injurias ar-
riscam produzir agressividade no outro, antes de dizer voce nao
pode injuriar o outro devemos formular alga que fala da regra se-
gundo a qual as injurias nao sao permitidas na casa, nem para os
residentes na casa nem para os membros da equipe. Urn residente
nos da uma ideia disso ele mesmo, quando nos diz como ele res-
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Psicanalise e lnstituiriio -A Segunda Cllnica de Lacan
ponde a uma acusac;ao que lhe fazem outros residentes do lugar: a
acusa<;ao sobretudo das mulheres, que o acusam de andar nu. Ele
responde: "sao as enfermeiras que querem me ver to do nu". 0
estilo de resposta que n6s temos que ter nesse momenta nao e de
proibir-lhe de andar nu, mas como ele proprio no~ sugere: "nin-
guem tern o direito de obriga-lo a andar nu", que e entao, de algu-
ma maneira, uma forma de colocar o assento sabre o Outro que
quer algo dele e em relac;ao ao qual n6s nos colocamos do seu
lado. "0 Outro nao tern o direitode obrigar voce a an dar nu". Nao
somas n6s que o proibimos de andar nuJ mas n6s rios colocamos
do lado dele para colocar uma barra sabre o Outro. "Voce pode ate
vestir uma calc;a, e melhor".
A regra que rege a vida coletiva e uma regra que se aplica
inicialmente ao Outro. Urn pouco da mesma·maneira que os cole-
gas que trabalham com crianc;as psic6ticas podem, ocasionalmen-
te, endere<;a!-Se ao Outro para repreende-lo porque ele esta chate-
ando o sujeito ou porque ele o obriga a fazer alguma coisa. A urn
menino chamado Dimftrio que dizia gue nao conseguia trabalhar,
perguntamos: "Alguem te impede de trabalhar?"- "Sim". 0 tec-
nico diz: "mostre-me esse chato". E a crianc;a indica uma manchi-
nha no chao. En tao, o tecnico comec;a a brigar com esse pontinho
no chao.
Quando uma crianc;a tern grande dificuldade para se separar
da sua mae ou da professora, e sabre esse Outro, que e a mae ou a
prcifessora, que deve se efetuar a operac;ao de regulac;ao, e nao
sabre a crianc;a. E o Outro que devemos regular, limitar. Entao,
por exemplo, uma crian~a que queria ir para a piscina, mas nao
conseguia se separar da professora. 0 tecnico fala a urn colega:
"Jean Franc;ois, e precise que Danielle deixe a crianc;a ir para a
piscina". En tao, Jean Franc;ois diz a colega: "perfeitamente, deixe
Lulu tranquila agora". 0 que permite que a crianc;a va
tranquilamente dizendo a professora: "ate logo!" :E urn pequeno
exemplo da pratica com as crianc;as.
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I
B Alfredo Zenoni
As coisas sao mais cornplicadas quando estamos diante de
pacientes adultos, quando se trata de agress6es, roubos, injurias.
0 importante nesses casos e considerar que n6s nao estamos la
para.fazer respeitar a lei, mas para presentificar urn Outro que res-
peita a lei e esta, ele mesmo, submetido a lei; que contribui para
criar urn esvazianmento do querer do Outro. Nao personificamos
urn Outro que quer, mas urn Outro do querer que e submetido a
lei; que tern a vantagem de confrontar o sujeito nao a urn Outro
que quer alguma coisa, mas a urn Outro que esta do seu lado, em
relac;ao a urn Outro que nao e regulado. N6s nos colocamos do
lado do sujeito enquanto ele mesmo e defensor da ordem e aqui
trata-se de evitar dois problemas. 0 problema da regra pela pro-
pria regra, que deve ser mantida a todo prec;o, sem excec;ao, isso e
urn prirneiro risco. 0 outro risco eo da regra terapeutica, regra que
e aplicada ou nao segundo o estado de saude do sujeito, regra que
decide se o sujeito e ou nao responsavel. N6s constatamos que o
fato de considera-Jo sempre como responsaveJ, nunca tern efeitos
nefastos sobre ele. Enquanto que considerar que as vezes ele nao e
responsavel, pode ter efei tos de desencadeamento. E quando nos
colocarnos dq seu !ado, para protege-lo, digarnos, do gozo do Ou-
tro, n6s o consideramos, no entanto, como Jesponsavel. 0 fato de
adotarmos uma posic;ao de esvaziamento do querer concerne, es-
sencialmente, o Outro e nao o sujeito. 0 sujeito permanece res-
ponsavel.
Eu tentei rnostrar como uma certa maneira de colocar o pro-
blema com porta ja condic;6es favoraveis ao tratamento. Podemos
considerar que o que eu desenvolvi e, essencialmente, uma teoria
da equipe. Eu coloquei a enfase, sobretudo, sobre a comunidade
dos tecnicos. Uma pratica feita por muitos tern por efeito, inicial-
mente, tratar os efeitos imaginaries pr6prios a todo coletivo. Cons-
tituir uma comunidade de trabalho fundada na clfnica nao e sim-
plesmente uma teoria da equipe, mas realiza condic;6es propfcias
ao acompanhamento do sujeito que ela acolhe. E uma teoria da
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Psicanalise e lnstituit;iio - A Segunda Clinica de Lacon
equipe, de como vao se colocar a trabalho, mas considera que ha
uma incidencia sobre o tratamento, enquanto ela presentifica o
Outro, cujo saber eo poder sao esvaziados. Inscrever-se nessa pra-
tica feita por muitos pode ser para o analista uma ocasii'io rnais
eficaz de transmissao da operac;ao freudiana na cHnica do que se
ele passar seu tempo reivindicando sua especialidade. 0 desejo do
analista nao esta limitado ao tratamento, a cura analftica. 0 desejo
do analista e tam bern urn dever em relac;ao a propria psicanalise. E
por isso que eu penso que a quesHio psicanalise ~ instituic;ao e
menos a questao da pratica do analista, do que a questao da trans-
missao da psicanalise. Espero ter-lhes dado algumas indicac;6es
para o debate do qual voces vao participar agora. Obrigado
Discussao:
Cezar Rodrigues Campos_· Essa posic;ao de debatedor com-
porta varias quest6es. Eu vou escolher iniciar o debate com uma
ou duas quest6es. Primeiro eu queria ressaltar a importancia des-
sas conferencias para as nossas praticas no servic;o publico, dizen-
do que concordo com essa terceira viae a questao da func;ao social
···~~ r. (r I : ' • t ,_-,
e da func;ao clirrica da instituic;ao.
No nosso meio, a func;ao social das instituic;oes, historica-
mente, funcionou como impossibilitadora da clfnica, dessa clfnica
que Zenoni esta propondo e que nos estamos experimentando na
cidade de Belo Horizonte, ha alguns anos. A fun<;ao social de aco-
lhimento, de suporte para a clfnica em situac;6es crfticas e insupor-
taveis para o sujeito, no nosso entender, dentro da nossa historia,
da nos sa cidade, do nosso pafs, nao ocorre espontaneamente e nem
por a<;ao de uma filtragem; produzindo o discurso analftico, pro-
duzindo urn tipo de instituic;ao. N6s tivemos que fazer uma
desconstruc;ao desse tipo de instituic;ao, nao para suprimf-la, por-
que nos sabemos e concordamos que ela, nesses momentos crfti-
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Alfredo Zenoni
cos, insupoltaveis para OS sujeitos, e a unica opc;ao. A instituic;ao
tern uma func;ao social. N6s nao tentamos e nem advogamos isso,
a supressao da instituic;ao. N6s estamos trabalhando para suprimir
uma instituic;ao com uma determinada l6gica que nao permite a
realizac;ao dessa clfnica. 0 nosso trabalho tern sido a desmontagem
dessa instituic;ao prescrita pela nossa fonnac;ao social , que tern se
revelado muito mais discriminadora e produtora de exclusao do
que de efeitos clfnicos. N6s temos trabalhado no sentido de des-
montar essas instituic;6es e construir exatamente uma instituic;ao
que cumpra essa func;ao social de abrigamento, de acolhimento e
de suporte para essas situac;6es crfticas do sujeito num momento
que ele nao suporta. Esse tern sido o nosso trabalho. No nosso
pafs, no nosso estado, na nossa cidade, a gente tern feito is so e tern
tentado construir uma rede de servic;os no campo da saude mental
na cidade de Belo Horizonte, cujos dispositivos cumpram deter-
minadas func;oes nos diversos momentos da clfnica, principalmente
na clfnica da psicose, mas tambem na clfnica das outras demandas
que aparecem no campo da saude mental. A pergunta que eu fac;o
e como isso ocorreu numa Belgica, se o senhor se refere a constru-
c;ao desse tipo de clfnica na cidade da Belgica, ou num setor, ou
num servic;o e o que o senhor acha da possirlilidade de n6s fazer-
mos isso. Essa e uma primeira pergunta.
A segunda pergunta e, eu concordo plenamente com essa
posic;ao nossa de alunos da psicose. Acho que a psicose e total-
mente inesperada, nao existe urn saber que recobre a psicose. Ela
esta permanentemente a nos ensinar coisas. A pergunta vern a res-
peito do coletivo. Fico surpreso, de uma forma satisfat6ria, com
essa abordagem do coletivo, da equipe , a questao da
desierarquizac;ao, a retirada da hierarquia do saber previo. Isso e
importantfssimo, e isso que temos feito como estrategia para que
possamos construir urn tipo de clfnica. Isso e indispensavel, essa
estrategia do acolhimento. Eu acho que realmente e o carninho
para se comec;ar a construir qualquer caso clinico. Eu queria per-
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Psicanalise e fnstitui~ao -A Segunda CUnica de Lacan
gun tar o seguinte: eu entendi quena instituic;ao, no trabalho cole-
tivo, a equipe vai estar numa posic;ao em que vai operar na disper-
sao do sujeito suposto saber a enesima potencia. Como e que fica
a questao da escuta individual? Ela e indispensavel ou ela existe
para rnarcar uma posic;ao para continuar posteriorn'lente, mesmo
que ela nao tenha urn efeito? Se o enfoque e dado na abordagem
de cada membro da equipe, como fica essa questao da abordagem
individual, ela deve existir ou ela e dispensada nesse momento
para ser retomada em outro momento? Deve existir para marcar
esse Iugar, essa func;ao, para dar urn certa articulac;ao as diversas
ac;oes que acontecem? Enfim, como fica essa questao da referen-
cia individual, da referencia da escuta individual? Sao essas duas
quest6es que eu queria colocar para o professor para iniciar o de-
bate. Obrigado. ·
Alfredo Zenoni: A primeira questao e sobre a maneira como
essas mudanc;as foram feitas na Belgica. Existe uma tradic;ao que
remonta aos anos 50. Primeiro, a criac;ao de setores psiquiatricos e
nos anos sessenta comec;ou-se a criar, sobretudo na capital, estru-
turas residenciais extra-hospitalares, comunidades de vinte a vinte
e cinco residentes (r:noradores); mais tarde, apartamentos supervi-
sionados, uma situac;ao relativamente privilegiada. Mesmo na Fran-
c;a nao ha urn equivalente disso. Na Franc;a, sobretudo, foram de-
senvolvidos os setores. As estruturas residenciais custam mais, mas
eu creio que elas sao indispensaveis para conciliar as duas fun-
c;oes, a func;ao social da instituic;ao e a func;ao do tratamento. 0
risco da instituic;ao classica que provocou sua desconstru~ao e
destruic;ao na Italia e a dessocializac;ao, a segregac;ao, on de os pa-
cientes terminam sendo habitantes de uma estrutura a parte. Me
parece que o que nao foi feito na Itruia, por raz6es ideol6gicas,
ideol6gicas nq que conceme a do-ell~a mental, foi levar em conta·a
func;ao social da instituic;ao. Eles somente consideraram a func;ao
terapeutica e eles constataram que ela nao era terapeutica. Eles
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Alfredo Zenoni
fecharam os hospitais sem perceber que havia uma outra func;ao
que nao era encampada por uma outra estrutura residencial. Eu
creio que quando criticaram a institu i~ao psiquiatrica como urn
Jugar de aliena<;:ao e ate de tortura nao se viu que isso era devido a
identidade grande demais da func;ao terapeutica com a institui~ao.
Quando vemos a institui~ao na sua fun~ao terapeutica unicamen-
te, ha dois riscos: primeiro suprimi-la porque ela nao e terapeuti-
ca, porque os psic6ticos continuam a ser psic6ticos. Entao, supri-
mimos a institui<;:ao, colocamos os pacientes fora e supomos que
eles nao vao mais ser alienados. Esse eo primeiro risco, que e a
supressao da institui~ao. 0 segundo risco e manter o sujeito o tempo
todo na institui<;:ao porque ele nao se cura. N6s tomamos apenas o
ponto de vista da cura. Ou a suprimimos, ou a mantemos indefini-
damente . Por isso eu coloquei a enfase na fun~ao social, nao para
eliminar a fun~ao terapeutica, mas para sepani-las . A institui~ao
pode ter uma fun~ao social , mesmo que ela nao cure e, mesmo se
distinguimos as duas fun<;:6es , n6s podemos garantir a fun~ao tera-
peutica. E preciso distinguir a dimensao do sujeito e a dimensao
do cidadao, do indivfduo, que tern direi to a assistencia e ajuda. A
dimensao do sujeito e a dimensao da implica<;:ao, da Iiberdade, da
responsabilidade. Os cuidados nao sao regusados a urn indivfduo,
mesrno que o sujeito nao se implique. Sao dois pianos diferentes e
quando distinguimos os dois pianos, guardamos a chance do pla-
no do sujeito. Se oferecemos a assistencia e o acolhimento em
troca de psicoterapia eo sujeito aceita o tratamento, sera urn trata-
mento pro-forma, urn tratamento no qual o sujeito nao se implica.
E preciso que o sujeito tenha a assistencia a qual ele tern direito,
com a liberdade de recusar o tratamento. E somente essa liberdade
que garante essa possibilidade. E como quando, por exemplo, s6
libera-se urn sujeito da prisao se ele fizer uma psicoterapia. E muito
ambfguo. Isso comprornete a possibilidade do sujeito se engajar.
E importante distinguir a dimensao social e a dimensao terapeuti-
ca. Essa distin<;:ao s6 e possfvel se colocamos, no ponto de partida,
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Psicanalise e Jnstituiriio ·A Segwula Cltnica de Lacan
a clfnica. A causa pela qual os sujeitos estao na instituic;ao, antes
do que, para que, com vistas a que eles estao na institui~ao . As
estruturas residenciais abertas criadas na Belgica permitem isso.
0 sujeito pode ser acolhido sem ser obrigado a fazer urn tratamen-
to. Esse tratamento e deixado como uma op<_;:ao para'o sujeito. Mas
essa liberdade dada ao sujeito j a tern efeitos terapeuticos.
A segunda questao e sobre a escuta ind!vidual. A dimensao
da comunidade de trabalho assegura as condi~6es necessarias para
o tratamento. Mas as condi<;6es necessarias nao sao. as condi96es
suficientes. A dimensao coletiva e sobretudo sensfvel na pratica
com as crian<;as. Com as crian<;as e preciso estar sempre presente,
e preciso ser inter-cambia vel e nao se pode ficar sozinho com uma
comunidade de crian~as. Mesmo com os adultos, a estrutura da
comunidade de trabalho e necessaria em um'a institui<_;:ao, mas nao
suficiente. Este e urn aspecto que eu nao desenvolvi hoje, aquele
da escolha individual, que, segundo as institui96es, se faz de ma-
neira diferente. Em algumas institui<;oes, eo paciente que escolhe
o interlocutor e, em outras, e a equipe que designa o interlocutor.
Na institui~ao em que eu trabalho, n6s deixamos o paciente esco-
lher o seu interlocutor na cornunidade. E uma escolha que pode,
alias, ser plural. Ele pode escolher urn membro da equipe como
referencia.
Outra questao e: todos tern forma<_;:ao analftica? Nao obriga-
toriamente . E pela transferencia de trabalho que livrernente os di-
ferentes membros da equipe se tornam alunos da clfnica, estudio-
sos da clfnica e num terceiro tempo, podem entrar em analise. Mas
nao e obrigat6rio. 0 essencial e que haja responsabilidade de cada
urn no acolhimento da clfnica e na elabora<_;:ao de uma estrategia.
Acontece tambem que sujeitos se enderecem a algum tecnico que
esta em forma<;:ao analftica.
Pergunta inaudivel
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Alfredo Zenoni
Alfredo Zenoni: Trabalhamos em uma associac;ao que se cha-
ma A Equipe. Ha cinco estruturas: duas residenciais e tres de hos-
pital-dia. Eu sou o terapeuta responsavel de uma das estruturas
residenciais que se chama Le Foyer. Mas em Bruxelas ha cinco
comunidades terapeuticas. E excepcional, mesmo na Europa. N a
Rolanda ha tambem muitas estruturas residenciais.
Elisa Alvarenga: E preciso lembrar que em Bruxelas ha urn
milhao de habitantes.
Pergunta inaudivel
Alfredo Zenoni: Eu dizia que o tratamento da psicose nao
exige, necessariamente, uma instituic;ao, como prova o fato de que
muitos psic6ticos vern me ver no consult6rio. Falando com cole-
gas, vemos que ha cada vez mais psic6ticos .que vern ao consult6-
rio do analista. No entanto, eu dizia que sujeitos que vern para urn
tratamento com urn analista, se arran jam para que is so tome a for-
ma de uma institui<;ao invisfvel, muitas vezes. Por exemplo, eles
introduzem urn segundo analista, urn psiquiatra, uma assistente
social, urn medico, o administrador dos b~ns, etc. Eu fa<;o com
que todas essas pessoas terrninem por constituir uma rede. 0 rnf-
nimo e urn analista, urn psiquiatra e urn assistente social. Mas, de
fato, vemos que ha uma certa pluraliza<;ao do endere<;amento do
sujeito, mas nao necessariamente.
Pergunta inaudivel
Alfredo Zenoni: A estrutura residencial e uma estrutura fora
do hospital e os pacientes vern livremente. 0 princfpio de receber
sob a base da demanda deles, e eles tern que demandar varias ve-
zes, ja cria uma sele<;ao. Ha sujeitos que nao querem voltar, que
preferem voltarpara a casa da mae e ha sujeitos que preferem
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Psicanalise e !llStitui~iio- A Segunda Cllnica de Lacan \ I
permanecer no hospital, porque a estrutura residencial tern movi-
rnento demais. Metade dos sujeitos que fazern contato nao vern de
fato. Entao, o fato de deixar a iniciativa para o sujeito, faz com que
uma grande parte dos sujeitos acabe_m nao vindo. Isso ja, de uma
celia forma, seleciona OS sujeitos que vao ficar. Isso e 0 mais com-
plicado porque, uma vez que eles passarri os limites da entrada,
eles ficam bern nurna estrutura livre, comunitaria. 0 problema e a
safda deles. N6s estabelecemos urn limite absoluto de dois anos. A
metade do tempo desses do is anos e para p~eparar. alguma coisa
para depois, apmtamentos, alojamentos, etc. As vezes eles se or-
ganizarn a do is ou a tres para alugar urna cas a ou urn apartamento,
mas ha uns 20% talvez que nao conseguem sair e acabam voltan-
do ao hospital.
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