Razões de Recurso Administrativo
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Razões de Recurso Administrativo


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ILUSTRÍSSIMO SENHOR PREGOEIRO RESPONSÁVEL PELO PREGÃO Nº XXX
RAZÕES DE RECURSO ADMINISTRATIVO 
PREGÃO Nº XXX
Papelaria Azul Ltda., sociedade limitada inscrita no CNPJ sob o n. xx.xxx.xxx/xxxx-xx, estabelecida em (endereço), vem, através de seu representante legal, apresentar RAZÕES DE RECURSO ADMINISTRATIVO, em face da decisão administrativa que declarou vencedora a empresa Papelaria Vermelha Ltda. no PREGÃO Nº XXX, pelo que expõe para ao final requerer o seguinte: 
DOS FATOS
A referida repartição federal, através de seu Pregoeiro, publicou edital de PREGÃO, visando a aquisição de materiais de escritórios, de acordo com as condições e especificações constantes deste Edital e seu(s) Anexo(s).
Com a realização da fase de disputa, análise da proposta de preço e habilitação, a
empresa Papelaria Vermelha Ltda. foi declarada vencedora pelo Pregoeiro.
Ocorre que são vislumbradas algumas irregularidades no ato que declarou a empresa
vencedora, conforme será demonstrado a seguir:
DOS FUNDAMENTOS
O objeto do certame é o fornecimento de materiais de escritório, conforme as especificações do Edital. Em respeito aos princípios da legalidade e da vinculação ao instrumento convocatório (arts. 3º e 41 da Lei nº 8.666/93), a regra é que a Administração aja sempre dentro do que a lei permite, e os licitantes apresentem documentação capaz de refletir, desde logo, o atendimento das condições estabelecidas pela Administração no edital.
Ocorre que nenhuma das certidões fiscais apresentadas pela empresa recorrida, na fase de habilitação, demonstram possuir teor de veracidade, razão pela qual não podem ser considerados compatíveis em características com o objeto do certame.
Em nome do julgamento objeto, a análise das certidões fiscais apresentadas pela empresa deveria levar em consideração os ditames exigidos pela legislação, o que com o devido respeito, não foi observado pelo nobre Pregoeiro. Sobre a conduta do agente público, cumpre destacar embasamento no corpo da Lei 8666/93:
\u201cArt. 3º
§ 1o É vedado aos agentes públicos:
I - admitir, prever, incluir ou tolerar, nos atos de convocação, cláusulas ou condições que comprometam, restrinjam ou frustrem o seu caráter competitivo (...)\u201d
Nota-se, também, que, ao declarar a empresa recorrida vencedora, mesmo identificando a falsidade dos documentos apresentados, o Pregoeiro está indo de encontro com o princípio da moralidade, uma vez que atua em desconformidade com a ética, apresentando conduta de má-fé, de modo a aproximar-se de um conluio com a Recorrida. 
Ainda, ao aceitar os documentos falsificados, utilizando-se do argumento de que \u201cseria irrazoável tanta exigência da licitante\u201d, o agente público fere também o princípio do julgamento objetivo, posto que deixa de observar os critérios pré-estabelecidos no edital, julgando a disputa por seu entendimento, sem que haja fundamento no edital e na lei.
Na mesma esteira, acrescente-se entendimento doutrinário moldado nas palavras de Joel de Menezes Niebuhr, ao lecionar, brilhantemente, que a apuração das condutas faltosas praticadas por licitantes não consiste em faculdade do gestor público com tal atribuição, mas em dever legal, a saber:
\u201cA Administração Pública encara grande desafio em relação às sanções administrativas. Sob uma vertente, não deve ser omissa e leniente, deve exigir a execução rigorosa dos contratos administrativos e penalizar os contratados faltosos. De outra banda, deve ser prudente e moderada na aplicação das penalidades, analisando com detença, os fatos e sopesando bem a gravidade das condutas e os prejuízos causados, sempre em alinho ao princípio da proporcionalidade, a fim de evitar injustiça.\u201d
Além do mais, cumpre asseverar que a omissão quanto ao cumprimento de tal dever, em se consubstanciando em verdadeiras parcialidade e ilegalidade, por parte do agente público, no que se refere à má conduta praticada pelo licitante, poderá servir, eventualmente, de suporte para a incidência da Lei 8.429/1992, que, em seu artigo nº 11, estabelece que constitui ato de improbidade administrativa, que atenta contra os princípios da administração pública, qualquer ação ou omissão que \u201catenta contra os princípios da administração pública qualquer ação ou omissão que viole os deveres de honestidade, imparcialidade, legalidade, e lealdade às instituições\u201d.
Ademais, também é sabido que o uso de documento falso para fraudar o caráter competitivo de uma licitação está previsto no tipo penal do artigo 90, da Lei das Licitações, a Lei 8.666/1993. 
Foi com esse enquadramento, inclusive, que a 4ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul classificou crime cometido por empresário que tentou se habilitar numa licitação por meio de documento falso. 
O relator do referido acórdão, desembargador Rogério Gesta Leal, afirmou que a apresentação de documentos falsos caracteriza fraude à licitação, visando violar a competitividade, utilizando-se de subterfúgios ilícitos para que a empresa consagre-se vencedora. Explicou no acórdão:
\u2018\u2018Assim, tenho que a ação do réu de buscar a falsificação de um documento para fins de habilitação em certame público visa a um só fim: lograr-se vencedor na disputa, não passando de um meio necessário ao fim perseguido, qual seja a de frustrar ou fraudar o caráter competitivo da licitação\u2019\u2019 (RGL Nº 70057882276 (N° CNJ: 0512854-08.2013.8.21.7000) 2013/CRIME) 
Diante desses indícios, a Recorrente solicita que sejam realizadas diligências para verificar a veracidade do atestado emitido pela empresa Papelaria Vermelha Ltda para a licitante ora Recorrida.
No caso em apreço, é essencial que o Pregoeiro realize diligência (artigo 43, §3º, da Lei 8.666/93), solicitando informações complementares que comprovem a efetiva veracidade das certidões fiscais da empresa recorrida. 
Acerca do assunto, leciona o jurista Marçal Justen Filho: 
"Suponha-se que o particular apresentou um certo atestado para comprovar o preenchimento de experiência anterior. Há dúvidas, no entanto, sobre a compatibilidade da contratação referida no atestado e o objeto licitado. Será obrigatório que a Comissão convoque o interessado a esclarecer a natureza de sua experiência anterior. Para tanto, será muita mais relevante a exibição de documentação do que as meras palavras do licitante. Logo, será facultado ao interessado apresentar a documentação atinente à contratação de que resultou o atestado." (cf. in Comentários à Lei de Licitações e Contratos Administrativos, 14a ed., Dialética, São Paulo, 2010, p. 599).
Ao cabo, é oportuno apresentar jurisprudências do Supremo Tribunal Federal e do Tribunal da Justiça de São Paulo quanto ao assunto, respectivamente: 
"A faculdade conferida pelo artigo 43, § 3°, da Lei 8.666/93 à comissão de licitação para averiguar a veracidade de documento apresentado por participante do certame não retira a potencialidade lesiva da conduta enquadrada no artigo 304 do Código Penal. A consumação do delito de uso de documento falso independentemente da obtenção de proveito ou da ocorrência de dano." (HC nº 84.776/RS, Ia T., reI. Min. Eros Grau, J. em 05.10.2004, DJ de 28.10.2004) 
"Licitação. Habilitação dos proponentes. A conversão do julgamento em diligência para colher parecer técnico ou promover diligência para verificar, em concreto, realização de serviços pela proponente, não desatende, pelo contrário, cumpre a finalidade normativa do art. 43 da Lei 8.666/93" (TJSP, ApCv 82.422-5, DJ de 9/08/1999) 
Outrossim, o simples fato de apresentar declaração falsa já é punível, não necessitando que a empresa recorrida beneficie-se do fato para ocorrer a punido. Este é o preciso entendimento do TCU: 
\u201cA configuração da fraude à licitação não está associada ao seu resultado, ou seja, ao sucesso da empreitada. Trata-se de ilícito de mera conduta, sendo suficiente a demonstração, visando simular uma licitação perfeitamente lícita para, assim, conferir vantagem para si ou outrem\u201d (Acórdão 48/2014-Plenário, TC 01.083/2004-0, relator Ministro Benjamin Zymler, 22.1.2014) 
Em face do exposto,