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O que ha de errado com o mundo - G K Chesterton

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esportista que joga o jogo não é
a soma de todos os méritos morais num mundo em que tão freqüentemente o que se precisa é
de um trabalhador que trabalhe. Sem dúvida, há que deixar o gentleman parabenizar a si
mesmo por não ter perdido seu amor natural ao prazer, como ocorre ao blasé e ao precoce.
Mas, quando se tem a alegria pueril, é melhor que se tenha também a inconsciência pueril. E
não creio que devamos cultivar uma afeição especial pelo garotinho que não cessa de dizer
que seu dever é brincar de esconde-esconde e que uma das virtudes de sua família é ser ilustre
no jogo dos quatro cantos.
Outra hipocrisia tão irritante quanto essa é a atitude oligárquica diante da mendicância, que a
considera contrária à caridade organizada. Aqui, como no caso do asseio e do atletismo, a
atitude seria também perfeitamente humana e compreensível se não fosse mantida como um
mérito. Assim como o aspecto óbvio do sabão é sua conveniência, o aspecto óbvio dos
mendigos é sua inconveniência. Os ricos mereceriam pouca censura se simplesmente
dissessem que nunca lidaram diretamente com mendigos, pois na moderna civilização urbana é
impossível lidar diretamente com mendigos; ou, se não impossível, pelo menos muito difícil.
Mas essa gente não recusa esmola aos mendigos alegando que tal caridade é difícil. Eles
recusam-na sob o pretexto grosseiramente hipócrita de que tal caridade é fácil demais! Com
uma grotesca gravidade, eles dizem: “Qualquer um pode enfiar a mão no bolso e dar um tostão
a um homem pobre; mas nós, filantropos, vamos para nossas casas meditar e analisar os
problemas do pobre até descobrirmos para qual prisão, reformatório, casa de correção ou
manicômio será melhor mandá-lo.” Tudo isso não passa de uma grande mentira. Eles não
meditam sobre a situação do pobre quando vão para casa e, se o fizessem, isso não alteraria o
fato de que a razão que os leva a querer acabar com a mendicância é a constatação puramente
racional de que são um incômodo. Pode-se perdoar um homem por não fazer este ou aquele
ato de caridade casual, em especial quando se trata de caso tão genuinamente difícil e dúbio
quanto o da mendicância. Mas há algo de pestilencialmente pecksniffiano68 em não fazer uma
tarefa difícil sob o pretexto de não ser difícil o bastante. Se um homem se der ao trabalho de
conversar com os dez mendigos que lhe batem à porta, ele logo descobrirá se essa atitude é de
fato tão mais fácil que preencher um cheque para um hospital.
12. A RANCIDEZ DAS NOVAS ESCOLAS
É por essa profunda e debilitante razão, é pela cínica e abandonada indiferença que as
escolas públicas da Inglaterra dispensaram à verdade que elas não nos dão o ideal de que
precisamos. Só nos resta pedir a seus críticos modernos que se lembrem que, bem ou mal, a
coisa pode ser feita. A fábrica está funcionando, as rodas estão girando, os gentlemen estão
sendo fabricados com seu sabão, seu críquete e sua caridade organizada. Em tudo isso, como
já disse anteriormente, a escola pública tem realmente uma vantagem sobre os demais
sistemas educacionais de nossa época. É possível distinguir um ex-aluno de uma escola
pública em qualquer dos muitos ambientes em que ele se encontre: do fumadouro de ópio
chinês ao jantar de um banqueiro judeu-alemão. Mas duvido que alguém consiga distinguir
entre duas pequenas vendedoras de fósforos qual foi educada numa religião não-confessional
e qual recebeu uma educação secular. A alta aristocracia inglesa que nos governou desde a
Reforma, nesse sentido, é realmente um modelo para os modernos. Tinha um ideal e, portanto,
produziu uma realidade.
Torno a dizer que estas páginas só se propõem a mostrar que o progresso deve basear-se em
princípios, conquanto nosso progresso moderno baseie-se em precedentes. Guiamo-nos não
por aquilo que se pode afirmar em teoria, mas por aquilo que já foi admitido na prática. É por
isso que os jacobinos foram os últimos tories da história com os quais uma pessoa briosa
poderia simpatizar. Desejavam uma coisa específica, estavam dispostos a ir adiante por ela e,
assim, estavam também dispostos a retroceder por ela. Mas os tories modernos só cultivam a
obtusidade de defender situações que eles não tiveram o excitante prazer de criar. Os
revolucionários fazem a reforma; os conservadores apenas conservam a reforma. Eles jamais
reformam a reforma, o que geralmente é muito mais necessário. Assim como a corrida
armamentista é apenas uma espécie de lânguido plágio, a corrida dos partidos é apenas uma
espécie de lânguida herança. Os homens têm votos; então, que as mulheres tenham-nos em
breve. As crianças pobres são educadas à força; então, que em breve as alimentem à força. A
polícia fecha os pubs à meia-noite; então, que em breve feche-os às onze. As crianças deixam
a escola aos catorze anos; então, que em breve deixem-na aos quarenta. Nenhum lampejo de
razão, nenhum retorno momentâneo aos primeiros princípios, nenhum questionamento abstrato
de qualquer coisa óbvia, nada disso é capaz de interromper esse galope louco e monótono do
progresso por precedentes. É uma boa maneira de evitar uma revolução genuína. Segundo essa
lógica, os radicais vivem tão rotineiramente quanto os conservadores. Encontramos um velho
lunático e grisalho a dizer que seu avô lhe aconselhara a manter-se perto de um umbral.
Encontramos outro velho lunático e grisalho a dizer que seu avô lhe aconselhara apenas a
seguir por uma vereda.
Tornei a mencionar aqui a primeira parte do argumento porque chegamos agora ao ponto em
que ele se mostra mais forte e surpreendentemente. A prova final de que nossas escolas
elementares não têm um ideal próprio definido está no fato de imitarem tão abertamente os
ideais das escolas públicas. Nas escolas elementares temos todos os preconceitos éticos e
exagerações do Eton e do Harrow cuidadosamente reproduzidos para pessoas que
absolutamente não se adaptam a eles. Temos a mesma doutrina loucamente desproporcional do
efeito da limpeza física sobre o caráter moral. Educadores e políticos da educação declaram,
entre calorosas aclamações, que a limpeza é de longe muito mais importante que todas as
contendas sobre ensino moral e religioso. Isso dá a entender que, contanto que um rapazinho
lave suas mãos, não importa se é para limpar a geléia da mãe ou o sangue do irmão. Temos a
mesma pretensão insincera de que o esporte sempre fomenta um sentido de honra, quando
sabemos que ele muitas vezes o destrói. Acima de tudo, sustentamos a mesma grande
suposição de classe alta de que as grandes instituições fazem melhor as coisas, uma vez que
dispõem de grandes somas de dinheiro e têm poder para controlar todo o mundo; e de que a
caridade trivial e impulsiva é, de algum modo, desprezível. Como diz o sr. Blatchford: “O
mundo não quer piedade, mas sabão... e socialismo.” A piedade é uma das virtudes populares,
enquanto o sabão e o socialismo são dois passatempos da classe média-alta.
Esses ideais “saudáveis” – como são chamados – que nossos políticos e mestres tomaram
emprestados das escolas aristocráticas e aplicaram às democráticas não são de forma alguma
apropriados a uma democracia empobrecida. Uma vaga admiração pelo governo organizado e
uma vaga desconfiança da ajuda individual não podem adaptar-se às vidas de pessoas para
quem gentileza significa emprestar uma panela e honra significa manter-se fora das casas de
correção. O resultado disso é ou o desencorajamento daquele sistema de generosidade ligeira
e fragmentária, que é uma glória diária para os pobres, ou um nebuloso conselho às pessoas
que não têm dinheiro para desperdiçar. Tampouco a exagerada glória do atletismo –
razoavelmente defensável no caso de ricos que só saltam e correm porque comem e bebem de
maneira prejudicial à saúde – seria conveniente quando aplicada ao povo, cuja maioria já
pratica cotidianamente toda forma de exercício, com a pá ou o martelo, com a picareta ou o
serrote. Quanto ao terceiro caso, o da limpeza, é óbvio que