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O que ha de errado com o mundo - G K Chesterton

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o mesmo tipo de retórica sobre
finura corporal, própria de uma classe ornamental, não pode aplicar-se, tal como está, a um
lixeiro. Espera-se de um gentleman que esteja basicamente impecável o tempo todo. Mas não
é maior desonra estar um varredor de rua sujo do que estar um mergulhador molhado. Um
limpador de chaminés não é mais desonrado por estar coberto de fuligem do que Michelângelo
por estar coberto de argila ou Bayard por estar coberto de sangue. Tampouco esses
prolongadores da tradição das escolas públicas fizeram ou sugeriram algum substituto para o
esnobe sistema atual em que a limpeza é algo praticamente impossível para os pobres. Refiro-
me ao ritual geral da roupa branca e do vestir as roupas descartadas pelos ricos. Um homem
entra na roupa de outro homem como entra na casa de outro homem. Nossos educadores não se
horrorizam quando um homem pega as calças de segunda mão do aristocrata, pois eles
mesmos pegaram idéias de segunda mão do aristocrata.
13. O PAI BANIDO
Há pelo menos uma coisa da qual nunca se ouviu sequer um rumor nas escolas populares: a
opinião do povo. As únicas pessoas que parecem não ter nada que ver com a educação das
crianças são os pais delas. Porém, o inglês pobre tem tradições bastante definidas em muitos
aspectos. Estão escondidas sob embaraço e ironia e os psicólogos que as desemaranharam
falam que são demasiado estranhas, bárbaras, reservadas. Mas, na verdade, as tradições dos
pobres são, o mais das vezes, simplesmente as tradições da humanidade, coisa que muitos de
nós já não vemos há tempos. A classe operária, por exemplo, tem por tradição usar uma
linguagem grosseira para falar de coisas repulsivas, pois assim reduz-se a chance de que
alguém ceda à tentação de justificá-las. Essa tradição tinha-a já a humanidade, até que os
puritanos e seus filhos, os seguidores de Ibsen, começaram a espalhar a idéia oposta: não
importa o que você diga, contanto que o diga com palavras e semblante complexos. Ou ainda,
as classes educadas transformaram a maioria das piadas sobre aparência física em tabus. Ao
fazê-lo, contudo, converteram em tabu não só o humor de fundo de quintal, mas também
metade da literatura mundial sadia. Cobrem os narizes da Punch Magazine, de Bardolph,
Stiggins e Cyrano de Bergerac69 com refinados embornais. Novamente, as classes educadas
adotaram um costume horrendo e pagão: considerar a morte um assunto desagradável demais
para ser abordado, deixando-a sobreviver sob a forma de um segredo pessoal, como um
defeito físico. Os pobres, ao contrário, são espalhafatosos e tagarelas ao comunicar suas
perdas, no que têm razão. Entenderam uma verdade da psicologia que está por trás de todos os
costumes funerários dos filhos dos homens. A melhor maneira de diminuir o sofrimento é
ampliá-lo; a melhor maneira de suportar uma crise dolorosa é insistir que ela é uma crise;
permitir àqueles que se sentem tristes que ao menos se sintam importantes. Nisso, os pobres
são simplesmente os sacerdotes da civilização universal, e seus festins embuchados e
parlatórios solenes cheiram às carnes cozidas de Hamlet, ao pó e ao eco dos jogos fúnebres
em honra de Pátroclo.
O que os filantropos dificilmente perdoam (ou não perdoam) na vida das classes
trabalhadoras são apenas as coisas que temos de perdoar em todos os grandes monumentos do
homem. Pode ser que o trabalhador seja tão grosseiro quanto Shakespeare ou tão tagarela
quanto Homero; que, se religioso, fale tanto sobre o inferno quanto Dante; que, se mundano,
fale tanto sobre bebida quanto Dickens. Se o homem pobre pensa menos na ablução cerimonial
que Cristo desprezou do que na bebedura cerimonial que Ele santificou, não é porque lhe falta
embasamento histórico. A única diferença entre o homem pobre de hoje e os santos e heróis da
história está naquilo que em todas as classes separa o homem comum, que é capaz de sentir,
do homem grandioso, que é capaz de expressar. O que ele sente é meramente a herança do
homem. Ora, ninguém espera que cocheiros e carregadores de carvão possam educar seus
filhos em tudo. Mas isso tampouco se pode esperar de proprietários rurais, coronéis e
mercadores de chá. Deve haver um educador especialista in loco parentis70. Mas, enquanto o
mestre de Harrow está in loco parentis, o mestre de Hoxton está contra parentem71. A política
vaga do proprietário rural, as ainda mais vagas virtudes do coronel, a alma e os anseios
espirituais do mercador de chá são, na prática, transmitidas aos filhos dessas pessoas nas
escolas públicas inglesas. Mas quero fazer aqui uma pergunta muito franca e enfática: pode um
ser vivente ter a pretensão, por mínima que seja, de assinalar de que forma as virtudes e
tradições próprias dos pobres são reproduzidas na educação dos pobres? Não desejo que a
ironia do verdureiro ambulante apareça na escola com a mesma vulgaridade com que no bar;
mas ela aparece sob algum outro aspecto? A criança é ensinada a simpatizar com o admirável
bom humor e os jargões do pai? Não espero que a pietas patética e ansiosa da mãe, com suas
roupas e carnes fúnebres, seja fielmente imitada pelo sistema educacional; mas será que ela
tem alguma influência sobre o sistema educacional? Por acaso algum mestre da escola
elementar concedeu um instante sequer de consideração ou respeito? Não espero que o mestre
odeie hospitais e centros do C.O.S. tanto quanto os pais de seus alunos; mas será que ele os
odeia em alguma medida? Ele ao menos compreende o ponto de honra do homem pobre contra
todas as instituições oficiais? Não é certo que um ordinário mestre de escola elementar não
tomará apenas como algo meramente natural, mas como um fundamental dever de consciência
a erradicação dessas lendas rudes de um povo laborioso? Não tomará por princípio pregar
sabão e socialismo contra cerveja e liberdade? Nas classes mais baixas, o mestre não trabalha
para os pais, mas contra eles. A educação moderna significa impor os costumes da minoria e
desarraigar os costumes da maioria. Em vez da caridade cristã, do riso shakespeariano e da
homérica reverência pelos mortos, aos pobres impuseram-lhes cópias pedantes dos
preconceitos dos distantes ricos. Devem pensar na banheira como uma necessidade, porque
para os afortunados ela é um luxo. Devem agitar bastões suecos, porque seus mestres temem
os porretes ingleses. Devem abandonar seus preconceitos contra serem alimentados pela
paróquia, porque os aristocratas não têm vergonha de serem alimentados pela nação.
14. INSENSATEZ E EDUCAÇÃO DA MULHER
O mesmo ocorre no caso das garotas. Perguntam-me muitas vezes o que penso das novas
idéias sobre a educação da mulher. Ora, não há novas idéias sobre a educação da mulher! Não
há nem nunca houve sequer um vestígio de idéia nova. Tudo o que os reformadores da
educação fizeram foi questionar o que se vinha fazendo aos garotos e então aplicá-lo às
garotas, assim como questionaram o que se vinha ensinando aos jovens proprietários rurais
para então ensiná-lo aos jovens limpadores de chaminé. Aquilo a que chamam novas idéias
são, na verdade, velhas idéias colocadas no lugar errado. Se os garotos jogam futebol, por que
as garotas não deveriam jogar? Se os garotos vestem os uniformes de suas escolas, por que as
garotas não deveriam vesti-los? Se há centenas de garotos freqüentando as escolas durante o
dia, por que não deveriam as garotas freqüentá-las também? Se os garotos vão para Oxford,
por que não deveriam as garotas ir para lá? Se os garotos usam bigodes, por que as garotas
não os deveriam usar? Isso é, em suma, o que eles chamam de novas idéias. Não empregaram
qualquer trabalho intelectual nisso. Jamais se perguntaram o que é o sexo, jamais se
perguntaram se ele é um fator que altera isto ou aquilo e por que provoca alterações, assim
como, analogamente, na construção de uma educação popular, jamais houve qualquer esforço
por compreender o gênio e o coração do povo. Não é senão uma imitação laboriosa,
elaborada e elefantina.