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O que ha de errado com o mundo - G K Chesterton

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Como no caso do ensino elementar, as manifestações são de uma
inadequação fria e negligente. Até um selvagem seria capaz de ver que pelo menos as coisas
corpóreas que são boas para um homem são muito provavelmente más para uma mulher.
Apesar disso, não há um só jogo de rapazes, por mais brutal que seja, cuja prática não se tenha
estendido às garotas. Para citar um exemplo mais concreto: dão pesadas tarefas de casa para
as garotas, esquecendo-se de que elas já têm muitas tarefas domésticas em suas casas. Tudo
faz parte de uma mesma estúpida sujeição. Deve haver um colarinho alto e engomado em torno
dos pescoços das mulheres, porque ele já é um estorvo ao redor dos pescoços dos homens.
Como se um servo saxão, se lhe pusessem um colarinho de cartão, fosse pedir de volta a velha
coleira de bronze.
Nesse momento, hão de responder-me, não sem sarcasmo: “E o que você prefere? Você
voltaria à elegante mulher dos primeiros tempos vitorianos, com suas madeixas aneladas e
frascos de sais, um pouco dada à aquarela, falando um pouco de italiano, tocando um pouco de
harpa, escrevendo em álbuns banais e pintando telas estúpidas? Você prefere isso?”. Ao que
respondo: “Certamente que sim.” Não tenho dúvida de que à nova educação da mulher prefiro
isso, porque havia nisso um desígnio intelectual, ao passo que não há nada na educação
moderna. Nada me desconvence de que, mesmo do ponto de vista prático, aquela mulher
elegante seria superior à maioria das mulheres deselegantes. Creio que Jane Austen era mais
forte, mais perspicaz e mais astuta que Charlotte Brönte. Estou bastante seguro de que ela era
mais forte, mais perspicaz e mais astuta do que George Eliot72. Era capaz de fazer algo que
nenhuma das outras conseguia: era capaz de descrever fria e sensivelmente um homem. Nada
me convence de que a antiga dama, que só era capaz de arranhar um italiano precário, fosse
menos vigorosa que a nova dama, que só é capaz de balbuciar o inglês americano. Tampouco
estou convencido de que as antigas duquesas, não tão exitosas em sua pintura da abadia de
Melrose, fossem tão menos inteligentes que as modernas duquesas, que só sabem pintar os
próprios rostos – e ainda por cima muito mal pintados. Mas essa não é a questão. A questão é
saber qual era a teoria, qual a idéia por trás de suas antigas e fracas aquarelas e de seu
italiano arranhado. A idéia era a mesma que, num plano mais grosseiro, expressava-se nos
vinhos caseiros e nas receitas hereditárias e que, de mil maneiras inesperadas, pode ainda ser
encontrada entre as mulheres dos pobres. É aquela idéia que eu reclamava na segunda parte
deste livro, de que o mundo deve manter o grande amador, a fim de que não tenhamos de nos
tornar todos artistas e perecer. Alguém precisa renunciar a todas as conquistas especializadas
para a mulher poder conquistar todos os conquistadores. Para ser uma rainha da vida, não
poderá ser nela um soldado. Não creio que a mulher elegante com seu italiano ruim fosse um
produto perfeito, assim como também não creio que o fosse a mulher do cortiço, a falar de gim
e funerais. Infelizmente, ninguém é perfeito. Mas ambas procedem de uma idéia
compreensível, ao passo que a nova mulher não procede de nada nem de lugar algum. É bom
ter um ideal, é bom ter o ideal certo, e essas duas tinham um ideal. A mãe do cortiço com seus
funerais é a filha degenerada de Antígona, a obstinada sacerdotisa dos deuses do lar. A dama
com o italiano ruim era a decaída prima de décimo grau de Pórcia, a grande e próspera dama
italiana, a amante renascentista da vida, que bem poderia ser uma barrister, simplesmente
porque poderia ser qualquer coisa. Afundados e desprezados no mar da monotonia moderna e
da imitação, os tipos apegam-se firmemente às suas verdades originais. Antígona, feia, suja e
freqüentemente bêbada, continuará a enterrar seu pai. A dama elegante e desenxabida, que não
leva a nada, ainda consegue perceber vagamente a diferença fundamental entre si mesma e seu
marido: ele tem de ser algo na cidade, já ela pode ser tudo no campo.
Houve um tempo em que eu, você e todos nós estávamos muito mais próximos de Deus. Tão
próximos que ainda hoje a cor de um seixo (ou de uma pintura) e o cheiro de uma flor (ou de
fogos de artifício) tocam-nos o coração com uma espécie de autoridade e convicção, como se
fossem fragmentos de uma mensagem confusa ou traços de um rosto esquecido. Incorporar
essa ardente simplicidade à totalidade da vida é o único objetivo real da educação. E quem
está mais perto da criança é a mulher – ela compreende. Dizer exatamente o que ela
compreende está fora do meu alcance. Só posso garantir que não é uma solenidade. É antes
uma leveza altaneira, um amadorismo ruidoso do universo, assim como o que sentíamos
quando éramos pequenos, o que nos fazia cantar, cuidar do jardim, pintar e correr. Arranhar as
línguas dos homens e dos anjos, meter o nariz nas terríveis ciências, fazer malabarismos com
colunas e pirâmides, jogar bola com os planetas, eis a audácia interior e a indiferença que a
alma humana, como o ilusionista a jogar suas laranjas, deve conservar para sempre. Eis
aquela coisa insanamente frívola a que chamamos sanidade mental. E a mulher elegante,
deixando cair os anéis dos cabelos por sobre suas aquarelas, sabia disso e agia levando-o em
conta. Ela fazia malabarismos com sóis frenéticos e flamejantes. Mantinha o arrojado
equilíbrio das inferioridades que é a mais misteriosa – e talvez a mais inacessível – das
superioridades. Ela mantinha a verdade primordial da mulher, da mãe universal: se uma coisa
é digna de ser feita, é digna de ser mal feita.
38 Robert Blatchford (1851-1943), autor, político e jornalista. Ateu, eugenista e socialista. Fundou o jornal semanal The Clarion, que publicou diversos
ataques a artigos de Chesterton.
39 A referência aqui é à famosa controvérsia ariana, a disputa entre os defensores da tese de que Deus Filho é de substância similar (homoiousian) à do Pai e
os defensores de que é consusbstancial (homoousian) ao Pai. A última tese ficou estabelecida no Primeiro Concílio de Nicéia.
40 Sr. Fagin e dr. Strong são personagens de romances de Charles Dickens. O primeiro é um criminoso judeu que figura em Oliver Twist; o segundo é
professor do protagonista de David Copperfield.
41 Henry Stephens Salt (1851-1939), escritor e crítico literário inglês, conhecido por ser vegetariano e o primeiro defensor ferrenho dos direitos dos animais.
42 Mary Baker Eddy (1821-1910), americana criadora da Ciência Cristã em 1866, defensora da tese de que todas as doenças têm uma causa psíquica e
podem ser curadas sem auxílio da medicina, por um processo de “cura cristã”.
43 Poeta e filósofo inglês (1844-1929), socialista, ativista gay e convicto defensor da liberdade sexual. Envolveu-se também na defesa de causas como os
direitos dos animais, o vegetarianismo, o feminismo e o ambientalismo.
44 A batalha de Bannockburn travou-se em 1314 entre Inglaterra e Escócia. Seu desfecho assegurou à Escócia a independência.
45 James Sully (1842-1923), professor e psicólogo inglês e um dos membros fundadores da British Psychological Society, famoso por seus estudos de
psicologia experimental da criança. Earl Barnes (1861-1935) foi também um proeminente professor inglês que se dedicou ao estudo da criança, seu
compartamento e desenvolvimento.
46 Richard Busby (1606-1695), reverendo anglicano e diretor da Westminster School por mais de 50 anos, onde também lecionou línguas clássicas. É
conhecido pelos castigos físicos que impunha aos alunos.
47 Senhora Grundy é uma personagem da peça Speed the Plough (1798), de Thomas Morton. Embora jamais apareça em cena, seu nome é constantemente
citado pelo personagem Dame Ashfield, de quem seria vizinha. Ele a utiliza como critério de respeitabilidade e está sempre a perguntar-se o que a senhora
Grundy, puritana e antiquada, diria disto e daquilo. A personagem tornou-se muito popular entre os ingleses e foi mencionada por muitos